sábado, 17 de abril de 2010

Como no céu e Livro de visitas, Fabrício Carpinejar


Como no céu

O que aconteceu entre nós
foi imaginado?
Espero que tenha sido por ti.

Leio tuas sobrancelhas
como quem estuda caligrafia
de um idioma árabe. (p. 22).


Nos separamos para tirar férias.
Em cada reconciliação,
entrava em teu corpo
como se tudo fosse novo
e impossível de brincar
em uma tarde. (p. 56).


Duas infelicidades
não conseguem dialogar.
Uma pretende eliminar a outra.

Roubo teu passado para abastecer
minha memória escassa e estreita.
Sou obrigado a me inventar
para competir com o que viveste. (p. 57).


Enfrentamos infâncias terríveis,
com as maldades correndo
nos dois lados.

Meu rosto é estranho, metade
Elefante, metade cavalo,
como se não tivesse sido acabado.
Colegas contavam minha história
dizendo que ficou a placenta
e esqueceram o feto.

Foste estrábica
pelo teu desejo de estar
em dois lugares
ao mesmo tempo.

Mudamos o caminho da escola,
não arredávamos o pé da sala no recreio,
agüentamos o corredor polonês,
os arremessos da merenda.

Não me venha dizer que a infância é pura e bela,
Ela assassina a ternura tanto quanto a velhice.

Como uma irmã menor que cabe guiar,
pego forte a mão de teus olhos
para atravessar a rua. (p. 64 e 65).

Há partes dentro da gente
que nunca serão educadas.
A morte é uma delas.

Não sou o que aprendi.
Sou o que falta aprender. (p. 72).


Uma verdade que insiste
em ser repetida não é verdade.
Torci pela tua traição,
teu abandono de casa,
que me tomasses por um estranho.
Por que não me deste
motivos para te odiar?
Era o papel que eu sabia de cor. (p. 76).


Corrias entre lápides e ciprestes
derrubando bules e flores.
O cemitério foi teu terreno baldio,
tua casinha na árvore.
Investigava os dizeres
dos velhos túmulos,
interessada nas inscrições
como anúncios de emprego.

Deitava as bonecas nas camas de pedra.
Preparava chá e bolachas de folhas.
Dessa lembrança
decorre tua indecisão
de escolher o epíteto
e os nomes das filhas. (p. 77).


Penso ter vivido o que escrevi
e deixo de viver porque está escrito.
Minha letra não torna meu
aquilo que anotei. (p. 81).


Eu te contei que me apavoram
as mulheres que lavam as calçadas.
A força como arremessam os baldes
diz algo do grito delas à noite.

Eu te contei que me apavoram ratos.
Rápidos e sorrateiros em seus ralos.

Lá fora é muito dentro para ir.
As avenidas nos perseguem
e não reconhecem a nossa residência. (p. 85).


Fui menos que um homem,
não tive os gestos necessários
de uma mulher no parto,
a elegância de permitir a vida
sem exigir nada em troca.

Eu me levei muito a sério
e não me conduzi de volta.

Desde criança, desejei
legar uma marca e mordia
os colegas na creche.
Nenhum castigo amenizava
a gula. Os pais não repararam
que a ânsia de mastigar
era a ambição adulta.

Chamei atenção
para a pessoa errada,
demorei os olhos onde não cresciam olhos.
*Careci de uma amizade fiel,
uma amizade de infância,
minha solidão de nascença
não se abriu com a convivência.

Sair mim me alegraria,
tomar ar, encher-me da esperança
de que minha vida não é comigo,
que ela não me ofendeu e entendi errado,
como um sedado que não
completa seus pensamentos,
soma insuficiências e segue adiante.

Sair de mim adiantaria,
Colher amoras de árvores emprestadas
E assobiar sem mexer a boca.

Desprezei os conselhos da avó.
Não lavei as dores
e infeccionaram.

Deixo-me quieto na lista telefônica,
um vizinho que não incomoda.

Meu interesse é pelo sol das coisas ilegíveis,
um sol incompreensível,
que banha a matéria e não se insulta
em distribuir, de modo igual,
o facho às escadarias e aos pássaros
pequenos.
Será que ao mastigar uma folha de junco
não estarei mascando o azul do céu
daquela hora?

O tempo me devora enquanto respiro
e não há vantagem no livre-arbítrio
se estou terrivelmente preso
à pronúncia de um país.

Há quem esbarre em Deus,
desprevenido, no mais suave vento.
Há quem procure Deus,
obcecado, nas terríveis tempestades.
Não é o meu caso, pois amor
não é indigência. (p. 98, 99 e 100).



Livro de visitas

Não conto meus pesadelos ao acordar.
Não termino mais uma frase inteira.

O começo de uma conversa é difícil
Depois mais difícil se torna
quando ela aconteceu
sem começar. (p. 11).


A fé exige algo miúdo,
troco na cesta,
um pedaço de pão no vinho.
Posso chegar ao céu
trocando lâmpadas e livros da estante.
Mas quem não perde a si mesmo
não é capaz de se doar. (p. 12).


O riacho é um cavalo líquido,
a pedra é um cavalo preso.
As borboletas são flores com abelhas dentro.
Liberdade é apenas mudar a forma,
o que não diminui a solidão
do nascimento. (p. 19).


Eu me consumi
antes de ter nascido.
Não ter mistérios
é o maior deles. (p. 20).


Não tínhamos bola para o futebol.
Roubava o carpim da gaveta do pai.
Amarrávamos papéis, panos e trapos.
Sempre brinquei com a lembrança
da coisa mais do que a coisa em si. (p. 29).


Em toda minha vida,
emprestei memória à imaginação.
Pensava que as moedas
valiam bem mais
do que as notas em papel.
Elas faziam barulho com as chaves. (p. 30).


Na minha casa,
os mortos não repousavam
nas mesas e gavetas,
mas dentro dos livros.
Antes de morrer,
todos escolhiam
uma obra predileta
para deixar sua imagem
entre páginas.

Não lia para aprender.
Queria encontrar meus familiares,
os parentes na palavra,
formar uma fileira de sons.
Não questionei os motivos do costume.
Um corpo é corpo
quando há outro
enterrado nele.


Meninas trocavam santinhos
na primeira comunhão.
Eu me abastecia dos antepassados.
Todo livro era um álbum de retratos. (p. 64).


Já me viste rindo nas fotografias?
Não adiante rever.
Sou mais fotogênico na tristeza. (p. 65).


Minha avó confortava o pavio com os dedos.
Dizia que a chama soluçava de frio.
Era preciso cobrir seus pés. (p. 66).

Trechos do livro: Fabrício Carpinejar. Como no céu; e, Livro de visitas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

Um comentário:

  1. Olá Paulo,
    Fiquei muito satisfeita ao ler o conteúdo do teu blog. Todo dia morremos um pouquinho. Vivemos no intervalo entre a necessidade de integração do eu, sugados por essa parte que nunca irá ser educada que faz parte de nossa natureza mortal.
    Foi gratificante saber que você segue o meu blog. Temos muitas coisas em comum. Veja só eu participo de um grupo de Psicanálise e Lteratura na Sociedade da qual faço parte.
    Saudável esse lado do recurso digital que permite que a gente se conheça.
    Tornei-me sua mais nova seguidora, e pretendo colocar seu blog na relação dos que tenho no meu.

    Grande abraço,

    Maruza Bastos
    www.freudeslizar.blogspot.com
    maruza.freudeslizar@gmail.com

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