terça-feira, 20 de abril de 2010

Estruturas da escrita, Donaldo Schüler



A escrita tomada como leitura de escritas anteriores nos remete a um debate iniciado há muitos séculos pelos gregos: a escrita é mimética ou não; se é mimética, ela o é em que medida? As respostas a esta questão são muitas, desde as posições sustentadas por Platão e Aristóteles (p. 39).

A leitura constitui a escrita como sujeito e como objeto. Como sujeito, a escrita lê outras escritas;como objeto, a escrita é lida. As dimensões sujeito-objeto são universalmente reversíveis e agrupam as escritas em constelações que se renovam acionadas por novos pontos de vista (p. 39).

O leitor coloca-se diante da escrita como o espectador diante do espetáculo. A obra não é um meio pelo qual o autor se apresenta ao leitor. A obra, como escrita,traz em si mesma o seu próprio significado. Múltiplas relações internas a tornam um todo. Como acontece com toda escrita, uma obra dada é sempre leitura de outras escritas, uma das quais pode ser o autor. Mas o obra não é a única leitura da escrita-escritor, nem é a mais precisa (p. 39).

O leitor é necessariamente crítico e o crítico é necessariamente juiz. O julgamento começa no momento em que o leitor escolhe o livro. A escolha é orientada por um critério. O critério pode ser totalmente insensato (formato, cor da capa, título, facilidade de aquisição), mas não deixa de ser critério. Baseado nele, o leitor separa aquilo que lhe merece atenção daquilo que não merece. A leitura do leitor é judicativa desde a primeira página. Conscientemente ou não, distingue o que importa daquilo que não importa.Finda a leitura, situa o livro em algum ponto entre a consagração e o desprezo (p. 40).

O discurso nos envolve definitivamente. É a esfera em que respiramos. O mundo humano é o mundo da palavra,do diálogo, da busca na palavra (p. 41).

A leitura é o esforço de manter presente o que se esquiva (p. 42).

Na escrita, os elementos estão relacionados por semelhança, oposição ou outros já identificados ou ainda por identificar (p. 43).

Na leitura, lêem-se as relações. A leitura é estrutural por sua própria natureza. Mas o universo da escrita em geral é um conjunto de elementos e de relações indeterminadas. Negá-lo seria negar a história e a vida. A história e a vida são concebíveis apenas em estruturas em processo de estruturação. No processo histórico, fazem-se e desfazem-se realções num andamento contínuo (p. 43).

Não é a leitura que atribui à escrita quaisquer significados, mas a leitura, contextualmente situada,orienta a interrogação e delimita a região no território indeterminado dos significados. A escrita necessita destes contornos e deste fundo para ser. O ser só se revela por oposição ao que não é, já não é, ou ainda não é (p. 45).

Jamais consigo colocar-me em lugar de ninguém. Para colocar-me em lugar de outrem, eu teria que abandonar o meu lugar, o Dasein que sou eu. Mas, ao abandonar o lugar que sou eu, eu me destruiria e então o conhecimento já não seria possível, porque teria desaparecido o lugar em que outrem se manifesta como tal. Só consigo conhecer à medida que mantenho o lugar que eu sou e deste lugar observo à distância de mim realidades que eu não sou (p. 47 e 48).

Do livro: SCHÜLER, Donaldo. Crítica literária em nossos dias e literatura marginal. Coordenação de João Francisco Ferreira. Porto Alegre: Editora da Universidade, UFRGS, 1981.

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