segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os dez mandamentos do conto segundo Quiroga, Sílvio Melatti



Escritores discutem a arte das histórias curtas e dialogam com o mestre que ousou criar as regras para escrevê-las

Uma boa idéia editorial: tomando por base os dez "mandamentos do conto" escritos pelo uruguaio-argentino Horácio Quiroga no famoso "Decálogo do Perfeito Contista", o editor gaúcho Sérgio Faraco convidou dez escritores brasileiros para comentar cada uma dessas leis. O resultado é um livro dinâmico, breve, interessante, bom de ler e reler a qualquer instante. Ao mesmo tempo que retoma a obra de Quiroga, escrita no início do século e atual como só os clássicos são, coloca-a em discussão com autores contemporâneos influenciados por ela mas dispostos a superá-la. Como discípulos ambiciosos, ora rebeldes, ora reverentes, todos dialogam com o mestre em pé de igualdade.
O livro ainda tem outro valor. Como se lê pouco, e geralmente um autor de cada vez, incorre-se num vício: lê-se autores diferentes a intervalos cada vez maiores, perdendo-se a possibilidade da confrontação imediata de estilos. A comparação fica por conta da memória inconfiável ¬ e assim se beneficiam os "consagrados". Por isso são importantes essas coletâneas de autores reunidos. Breves e enriquecedoras, elas proporcionam ao leitor uma infalível sessão de degustação literária, depois das quais o cardápio nunca será o mesmo.
Moacyr Scliar, por exemplo, tem uma obra volumosa e saudada pela crítica, escreve para grandes jornais e revistas, é um xodó da mídia. Individualmente, talvez "venda" mais do que todos os outros autores deste volume, reunidos. Perto deles, porém, Moacyr Scliar fica pequeno. Suas respostas são fracas, desprovidas do humor sutil e da elegância que Quiroga põe em discussão ¬ anunciadas já no título, "Decálogo do Perfeito Contista".
No quarto "mandamento", quando Quiroga diz "ama tua arte como amas tua amada", Scliar anota, buscando a ironia: "Ai, Quiroga." E escreve a frase mais infeliz de sua carreira, buscando o impacto: "Não dá para trepar com um livro de contos, dá?". Ai, Moacyr. O mau gosto, para dizer o mínimo, não pára por aí: mais adiante, argumentando contra a divagação no conto, conclui: "E o saco do leitor tem capacidade limitada."
Para piorar, Moacyr não se furta de tocar no assunto recorrente: o judaísmo. Nem aqui, onde o tema é exatamente a concisão e a economia de palavras. Ele encontra um jeito de comparar o decálogo com o monte Sinai, a arte com o monte Sinai, a elevação espiritual com o monte Sinai (três vezes, tantas quantas Cristo foi negado). Os judeus se auto-referem o tempo todo na literatura. É conhecida a piada do escritor judeu que, ao encontrar o argumento para seu livro, sempre se pergunta: "O que isso tem a ver com a questão judaica, ou como pode ser encarado sob a ponto de vista judeu?".
É provável que Scliar tenha feito seus comentários às pressas, porque ele não sabe dizer não a um convite para escrever. De qualquer maneira, estão publicados, e não são dignos de sua obra.
Da mesma forma, outros autores afamados reagem de forma burocrática, tomando ao pé da letra os preceitos de Quiroga, sem captar-lhe o tom ora irônico, ora poético. É o caso de outro gaúcho, Luiz Antônio de Assis Brasil, autor de belos romances como "Bacia das Almas", mas que assume um estilo professoral, recomendando objetividade e racionalidade e condenando algo que, em arte, é a alma: a subjetividade do autor.
O baiano Hélio Pólvora parece querer demonstrar conhecimentos na língua inglesa, tantas e tão gratuitas são as expressões empregadas. Soa como mera exibição erudita, também, o número de citações que faz em dez pequenos comentários. Além disso, diz bobagens do tipo "Brota bem de dentro do autor, tanto quanto o poema". Ora, em se tratando de criação literária, o que não brota de dentro do autor? Já não se disse que no conto tais frases dispensáveis ficam de fora?
Charles Kiefer, com suas respostas curtas e incisivas, é uma boa surpresa. É porto-alegrense como Paulo Hecker Filho, que fala de si, apenas. Miguel Jorge, de Goiânia, é didático. Outra baiana, Sônia Coutinho, revela mau humor e até certa arrogância, apesar da prosa perfeita. Roberto Gomes, catarinense de Blumenau radicado em Curitiba, prova que entende do ofício com esta pérola: "Marcamos todas as horas de nossas vidas a partir da hipótese de que o Sol gira em torno da Terra ocupando 24 posições no céu. Isso nos serve admiravelmente bem e, no entanto, o Sol não gira nem nunca girou em torno da Terra."
As melhores prosas do livro: Aldyr Garcia Schlee, gaúcho de Pelotas, e Silveira de Souza, catarinense de Florianópolis. Ambos são elegantes, concisos, corretos. Têm humor sutilíssimo, compreendem o alcance das metáforas do autor e vão além dele, ancorados pela bagagem do que se produziu depois da sua morte. Silveira, mestre da síntese, é preciso como arqueiro oriental. Diante do mandamento sétimo, que diz "Não adjetiva sem necessidade, pois serão inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo", ele prefere o recuo, o silêncio respeitoso de um "Nada a reparar".
Na lei anterior Quiroga já discutia de forma brilhante essa questão. Ele escreveu: "Se queres expressar com exatidão essa circunstância ¬ 'Desde o rio soprava um vento frio' ¬, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor das tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes." Sônia Coutinho chamou-o de "preceito obscuro". Charles Kiefer disse que Henry James e Flaubert abominariam tal conselho. Assis Brasil discorda, afirmando que a frase "Desde o rio soprava um vento frio" é um "primor de concisão e, ao mesmo tempo, de beleza". E completa: "Grande é o autor que a escreveu". Silveira, claro, aplaude e diz que o sexto mandamento é a definição mais acabada de estilo literário.

O pequeno livro, enfim, guarda lições essenciais para quem lida com palavras, escrevendo ou somente lendo. É leitura de uma sentada. Publicado pela Editora Unisinos (da Universidade do Vale do Rio dos Sinos).

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