terça-feira, 27 de abril de 2010

Os vivos e os mortos, Cláudio Moreno



O maior músico de toda a mitologia foi Orfeu, filho da musa Calíope. Era amado e querido por todos, e dizem que até mesmo as feras, as árvores e as próprias pedras ficavam emocionadas com a doçura de sua voz e os claros sons de usa lira. Contudo, o destino geralmente não reserva uma vida feliz para os poetas, e sua mulher, a bela Eurídice, jovem ninfa da floresta, ao correr com pés ligeiros pela relva úmida do rio, foi mordida por uma serpente e não resistiu ao veneno mortal. Orfeu, com o coração em pedaços, resolver descer ao Mundo dos Mortos para tentar convencer Hades a reviver Eurídice por mais alguns anos. Entrando por uma caverna secreta em Tesprótis, Orfeu foi descendo para o mundo subterrâneo, abrindo caminho com sua música incomparável. Com ela, convenceu Caronte, o barqueiro do rio da morte, a passá-lo para o outro lado; com ela, o feroz Cérbero, o cão de três cabeças que guardava a entrada do reino subterrâneo, veio mansamente lamber os seus pés. Tudo parou, e uma multidão de almas silenciosas acorreu para ouvi-lo. Diante de Hades e de sua rainha, Perséfone, Orfeu implorou que tivessem piedade e deixassem Eurídice viver um pouco mais; afinal, eles não perderiam nada, porque ela terminaria voltando para aquele reino escuro, destino de todos nós. Perséfone, comovida, lançou ao marido um olhar suplicante, e Hades então permitiu que Orfeu levasse Eurídice de volta, com a condição de ele não se virasse para trás: se o fizesse, ele a perderia para sempre. E assim Orfeu começou a avançar pela trilha escarpada que levava à superfície, seguido, em silêncio, pela sombra de Eurídice, que caminhava com dificuldade por causa do ferimento no pé. Quando avistou a saída, na caverna já iluminada pela luz do dia, Orfeu então se voltou – mas ainda era cedo demais, e ele só teve tempo de ver o rosto entristecido de sua amada, que, com as mãos estendidas para ele, desapareceu para sempre na profunda escuridão.
Uma pergunta vem torturar todos aqueles, antigos ou modernos, que ouvem essa trágica história: se Hades tinha sido tão claro, por que Orfeu se virou? Por impaciência, por amor de mais, por medo de que lhe estivessem pregando uma peça? Se esperasse mais um pouco, o final seria outro? Pois eu aposto que não; os deuses gostavam dele e quiseram ajudá-lo a libertar-se desse amor que o puxou para o Mundo dos Mortos. Não havia ninguém com Orfeu, em seu caminho de volta; Eurídice já não existia, a não ser na mente dele, mas sua sombra silenciosa o seguiria para sempre, se Hades, que conhecia os mortais, não tivesse incentivado, com sua proibição, que ele se virasse para trás e percebesse, finalmente, que Eurídice passara a ser apenas uma triste lembrança.

Nenhum comentário:

Postar um comentário