quinta-feira, 27 de maio de 2010

Romance



1) Termo inglês para as línguas novi-latinas, do latim medieval romanice, ‘na língua românica’.
2) Designação usada na história da literatura portuguesa e galega para um tipo de poema épico breve, destinado ao canto, transmitido e reelaborado por tradição oral, que corresponde, no âmbito peninsular, à balada europeia, e de que se conserva um conjunto de exemplares no chamado Romanceiro.
3) Forma aparentada com romaunt e roman, que no francês antigo significavam, aproximadamente, ‘romance cortês em verso’ e ‘livro popular’. Sendo obras de ficção, os romances medievais tinham índole manifestamente imaginativa e não documentalista. Desde os seus inícios, no século XII, eram histórias cavalheirescas de cometimentos extraordinários e até fantásticos, com um enredo de abundante implicação amorosa; com o tempo, passaram a ser em prosa, visando sobretudo entreter mas só ocasionalmente instruir. Mesmo quando baseados em protagonistas de origem histórica, emprestavam-lhes dimensão lendária ou mítica, inclusive através de acções favorecidas por agentes do maravilhoso. Situando tais protagonistas num ambiente palaciano ou cortês, envolviam-nos em repetidas demandas, no decurso das quais era posta à prova a devoção à sua dama, assim como uma capacidade de sublimação apurada em sucessivos confrontos, encontros e desencontros. Os episódios e incidentes que polarizam a sua acção, marcados pela fantasia, justificam referências críticas ao respectivo romanesco; e o ethos idealizante dessa acção não raro denota um impulso de cristã humanização projectada em aventurosos desafios fora do quotidiano habitual.
O assunto ou ‘matéria’ de tais narrativas corteses expande-se por três áreas ou ciclos principais: a) da Bretanha (o único que deixou vestígios da sua passagem, e não apenas influência, em Portugal), desenvolvendo a lenda arturiana; b) da antiguidade clássica, focando, por exemplo, episódios atribuídos a Alexandre da Macedónia ou a protagonistas das Guerras de Tróia e de Tebas; c) de França, na maior parte destacando a acção de Carlos Magno e seus cavaleiros. Estes romances, também chamados ‘novelas de cavalaria’, não obstante algumas afinidades com as canções de gesta (bom exemplo das quais é o Poema del Cid, escrito cerca de 1140 por anónimo autor castelhano), distinguem-se delas pela menor rudeza e pela artificiosa elaboração, assim como pelo mundanismo do amor cortês. As afinidades têm a ver, antes de mais, com o código de cavalaria presente em ambas as modalidades. Um do mais renomeados escritores de romances medievais é Chrétien de Troyes, muito popular na segunda metade do século XII, mesmo entre um público aristocrático. Amiúde traduzidas e imitadas foram obras suas como Erec, Cligès, Chevalier à Charrette, Lancelot, Yvain e Perceval, que se distinguem pela perícia na articulação das personagens, pela graciosidade do estilo, pelo relevo dado às figuras femininas. Na Alemanha do século XIII, avultam os romances Ywein, de Hartmann von Aue, Tristan und Isolda, de Gottfried von Strassburg, e Parzival, de Wolfram von Eschenbach. Na Inglaterra do século XIV foram escritos, por exemplo, dois notáveis romances  um de feição mais popular, Lay of Havelock, the Dane, e outro mais aristocrático, Sir Gawain and the Green Knight. Também de assinalar, na segunda metade do século seguinte, é Le Mort darthur, de Sir Thomas Malory, obra impressa por Caxton em 1485 e característica da época de prosificação dos romances  cuja voga virá a extinguir-se por inícios do século XVII. 4) Romance é também o termo inglês que identifica um tipo ou modo de ficção narrativa tradicional, ou de todos os tempos e variadíssimas culturas, diferenciável da novel, em primeiro lugar por uma concentração em possibilidades ideais ou de representação enraizada nas profundezas da mente, muitas vezes simbolizadas por arquétipos do inconsciente colectivo (fadas e figuras feéricas em geral, seres mágios e misteriosos, máscaras de pastores, anões e gigantes, ...) em histórias para crianças mas também para jovens e adultos. Em épocas relativamente recentes, o mesmo tipo ou modo ficcional tem por vezes abandonado tais figurações simbólicas e adoptado uma efabulação de teor mais ‘realista’ na medida em que passa a concentrar-se directamente em sonhos ou pesadelos, impulsos e desejos, temores e ansiedades, obsessões e clivagens de personalidade. Tal passagem permitirá stabelecer algumas articulações, por exemplo, entre romances de Hawthorne e de Kafka, ou entre a ficção de ambos e alguma ficção psicologista ao longo do século XX. Em segundo lugar, as especificidades da tradição romance são geralmente consideradas pouco harmonizáveis com a mimésis predominante na novel, apostada em fazer convergir um empirismo informativo e verista com o claro exterior de circunstâncias, acções e reacções no quotidiano de personagens comuns. Durante o Renascimento, a referida tradição, ainda algo devedora às novelas de cavalaria, prossegue na Europa através de longos poemas de Tasso, de Ariosto, e de Spenser (cf., deste, The Fairie Queene), para além de muitas obras narrativas menos famosas e menos influentes. Igualmente na ficção ‘romance’ se insere Arcadia, de Sir Philip Sidney, que adopta as convenções pastoris, tal como outros autores contemporâneos, entre eles Robert Greene em Pandosto: The Triumph of Time. Da mesma época é The Unfortunate Traveller, de Thomas Nashe, cujo realismo precursor da novel entretanto contrasta com essa obra de Greene e com alguma comédia coetânea dita romântica por incluir precisamente elementos de romance.
Já em finais do século XIV, Chaucer satirizara o romance cortês no burlesco Tale of Sir Topaz; e outros autores posteriores adoptariam análoga mira satírica para focarem o mesmo alvo. Mas foi com Don Quixote de Cervantes (Primeira Parte, de 1605, e Segunda Parte, de 1612), que surgiu a sátira mais global e radical contra a tradição do romance medievo, com ressonância crítica amplifcada por sucessivas traduções e variações em inúmeros idiomas. Na Inglaterra, a comédia The Knight of the Burning Pestle prossegue na mesma sátira, se bem que o seu autor, Beaumont, reivindique no Prefácio a originalidade da ideia do herói quixotesco. Este terá, de resto, longa e positiva fortuna, designadamente na literatura europeia do século XVIII.
No âmbito das narrativas de ficção picaresca, igualmente se verificam abundantes reflexos da crítica à tradição do idealismo romanesco. Não se ignora, contudo, que mesmo em romances modernos se encontram bem presentes marcas do romance tradicional. O primeiro romance publicado por Henry Fielding, Joseph Andrews, ele próprio, é bom exemplo disso, apesar de toda a modernidade que testemunha e que o respectivo Prefácio tenta defender, em oposição à ficção palaciana, preciosa e não realista em grande moda na Grã-Bretanha desde o século XVII. Analogamente, em Pamela, primeira narrativa ficcional de Richardson, apesar de toda a inovação, estão subjacentes arquétipos de romance como Gata Borralheira e o príncipe. Aliás, apesar da crescente contestação movida contra vários tipos de romance tradicional e da moderna preferência pela novel, a referida moda não desapareceu facilmente. Na Alemanha, já em 1689, o crítico Gotthard Heidegger, por exemplo, antecipara alguns aspectos da crítica de Fielding; mas as extensas narrativas de Madeleine de Scudéry, la Calprenède, Honoré d’Urfé e de outros autores da tradição romance, em particular franceses e ingleses, nem por isso deixaram de ser lidas no século XVIII. A meados desse século, Samuel Johnson crê ainda necessário justificar a primazia que concede à modernidade da novel, num artigo publicado no jornal The Rambler (número 4, de 31-III-1750: ‘The Modern Form of Romances Preferable to the Ancient. The Necessity of Characters morally Good’). Nesse artigo, e ao contrário do verificável em muitos ensaios críticos da mesma época e posteriores, tal modernidade é bastante valorizada em relação ao romance antecedente, tanto no plano estético como ético.
Os pioneiros setecentistas da nova forma do romance modificaram a tradição da ficção narrativa de modo a reflectir com minúcia um quotidiano verosímil, autenticado com circunstanciada anotação social, económica, política ou cultural e sintonizado com os interesses das classes médias, ávidas de informação, formação e afirmação, capazes de crescente mobilidade e aptas a responderem a novas oportunidades em múltiplos domínios. O que se ajusta mais cabalmente à disposição criativa dos britânicos Defoe, Richardson, Fielding, Sterne e Smollett, assim como, inclusivamente, às propostas de modernização da prosa inglesa incluídas nos programas da Royal Society desde a época da Restauração e historiados por Thomas Sprat. Entre os franceses, alguns setecentistas como M.me de La Fayette, Scarron, Fénelon, Lesage, Marivaux e Prévost, embora também de modo muito diferenciado entre si, contribuiram com elementos significativos para a modernização da ficção. Entre os alemães, autores de um tipo de ‘romance menor’ e proponentes de aventurosas ‘histórias verdadeiras’, como Grimmelshausen, Johann Beer e Christian Reuter, haviam já confirmado na prática ficcional a crítica do seu contemporâneo G. Heidegger ao romance historico-cortês, palaciano e precioso, predominante no barroco seiscentista. Em muitas obras de vários destes precursores e pioneiros são patentes as afinidades com a anterior picaresca hispânica. A roguery observável em narrativas de Defoe, Fielding e Smollett, todavia, inscreve-se num contexto social mais aberto, alargado e dinâmico (correspondendo a características do país então mais evoluído da Europa) do que o reflectido nas histórias de pícaros e marginais produzidas nos séculos precedentes.
Ainda na época setecentista, o sentido pejorativo dos termos ‘gótico’ e ‘romântico’ dificultava a empatia com a cultura medieval e com a fantasia sentimental na arte. A obra de Ricardson e a voga de ‘sensibilidade’ terão contribuído, entre outros factores, para contrariar essa dificuldade. Uma das experiências da ficção narrativa foi então marcada precisamente por tal voga, que afectou a Europa a partir de meados do século e que talvez ajude a encontrar certa continuidade, por exemplo, entre um romance como The Man of Feeling, de Henry MacKenzie, e Die Leiden des Jungen Werther, de Goethe. De qualidade, aliás, bastante distinta e cada um deles com antecedentes específcos, ambos puderam aproveitar, contudo, do contributo richardsoniano no aprofundar da expressão de sentimento (por via epistolográfica no caso do autor de Pamela e Clarissa como no da citada obra do autor alemão). Na segunda metade do século XVIII e na primeira do seguinte, a revalorização de uma fantasia e de uma imaginação menos dependentes de empírica actualização, mais viradas para o exotismo de civilizações passadas ou distantes, mas ainda algo afectas a efeitos de ‘sensibilidade’, não deixou de favorecer outras duas vogas  do romance gótico e do romance histórico. É significativo que ao primeiro destes dois tipos de narrativa seja aplicado em inglês ora o termo ‘novel’ ora o termo ‘romance’; o respectivo iniciador, Horace Walpole, limitou-se a dar um rótulo mais genérico à sua primeira ficção  The Castle of Otranto, a Gothic Story (1764). A designação ‘romance’ talvez seja a mais adequada, dada a respectiva concentração numa simbologia contrastiva de impulsos positivos e negativos da natureza humana, reflectida em ambígua atmosfera de obscuras premonições e ameaças, como num sonho sempre próximo do pesadelo, a qual predomina em relção à minuciosa descrição realista das circunstâncias exteriores, típica da novel. Por vezes, o cenário medieval alarga-se a um exotismo oriental (cada vez mais invocado desde a divulgação de Mil e Uma Noites), como em Vathek, de W. Beckford. Analogamente, a algumas narrativas históricas (por exemplo, de Walter Scott) às vezes atribui-se a denominação de ‘romances’ no sentido inglês, pela sua ênfase no contexto medieval e pela sua concentração numa fantasia romanesca ligada ao teor cavalheiresco da acção. Na segunda metade do século XIX, um pouco por toda a Europa e na América, a vasta experiência já então amassada desde o surto do moderno romance setecentista estimulou uma maturação que prosseguirá em várias interpretações de realismo e com o naturalismo, até eventualmente a ficção narrativa se tornar por vezes receptiva, como por exemplo em Moby Dick, de Melville, a reflexos simbolistas. O romance ganha então foros de forma canónica e autónoma em relação a (e apesar de) usuais inflações romanescas, mesmo se elementos da tradição romance se mantêm mais activos do que poderá parecer a quem, à distância, se fixe nos aspectos esteticamente mais salientes da sua evolução. O conjunto de importantes romancistas, na época, é demasiado extenso para se tornar viável aqui uma enumeração satisfatória (o mesmo se podendo adiantar em relação ao século XX). De Jane Austen e das irmãs Brontë a George Eliot, Dickens, James e Conrad; de Balzac a Flaubert e Zola; de Manzoni a Giovanni Verga e a Fogazzaro; de Pushkin e Lermontov a Gogol, Turgenev, Tolstoi e Dostoevsky; de Pérez Galdós aos romancistas da ‘generación de 98’; de Camilo Castelo Branco a Eça de Queiroz e Machado de Assis; de Fenimore Cooper a Mark Twain, passando por Hawthorne e Melville..., a ficção oitocentista encontrou, de facto, um vasto número de criadores de primeiro plano. Muitos deles ainda hoje nomes relativamente familiares até fora dos respectivos países, não correrão o risco de cairem facilmente no esquecimento, mesmo se nem todos podem sempre ser referidos em textos de referenciação sucinta como este. De sublinhar agora (como parece pertinente quando se pretende perceber a passagem predominante de romance para novel, marcada, aliás, por múltiplas inflexões atenuantes ou contrárias) apenas breves traços caracterizadores da aludida maturação da ficção narrativa oitocentista. Por um lado, o destaque dessa ficção, cada vez mais de autoria feminina, nas bibliotecas públicas e privadas em grande expansão desde a segunda metade do século XVIII. Por outro lado, um progressivo apuro técnico e estético, simultaneamente causa e consequência do interesse registado. Penetração psicológica na individuação de personagens; capacidade de as inserir em contexto; amplitude na convergência de elementos de background; exploração de processos de análise e auto-desvendamento em diários e vocalizações epistolares; atenção cuidada a condicionantes socio-culturais: tudo isso ajudou o romance moderno, gradualmente, ao longo dos séculos XVIII a XX, a superar a posição de mero subgénero bastardo na genealogia das formas literárias. Em todo o caso, a tradição romance, designadamente enquanto subserviente do desejo de vulgar entretenimento escapista, não cessou na época oitocentista, como não cessou nos nossos dias; pelo contrário, continuou a coexistir, por vezes em doses massivas, com a ficção mais representativa da mencionada emancipação estética.
No século XX, novos caminhos foram abertos e alguns menos novos foram prosseguidos pelos romancistas. Os romances distópicos de Huxley e de Orwell encontraram alguma inspiração em H. G. Wells e noutros autores de finais do século XIX ou mesmo anteriores. A tentativa de síntese entre as melhores potencialidades da novel e do romance, na nossa época, pode remeter-nos, por exemplo, para Conrad (cf. Lord Jim, Romance e The Shadow Line), ou até para o norte-americano Hawthorne. Muitas ficções satíricas, de Evelyn Waugh a Kingsley Amis e Muriel Spark, permitem por vezes evocar os humoristas britânicos dos dois séculos precedentes. Sem regressarem à imitação típica das robinsonadas de resistente fortuna, alguns escritores dos nossos dias continuam a vislumbrar possíveis metamorfoses de Crusoe (cf. Michel Tournier, Vendredi ou Les Limbes du Pacifique). Com variável sucesso, desde o psicologismo de matriz freudiana ao existencialismo e ao chamado pós-modernismo, dir-se-ía que a experimentação tem continuado a testar os limites do romance, parecendo, em certos casos, reviver a preocupação de há dois séculos, quando a novel forma literária procurava desfazer-se de certos lastros da ficção tradicional, numa resoluta busca de inovação. Até aos anos vinte e mesmo depois, romancistas como Proust, Joyce, Gide, Mann, Virginia Woolf, Kafka, põem em causa as convenções realistas, visando exprimir a sua nova verdade através de processos muito próprios. A respectiva crítica à estética ficcional anterior prende-se, antes de mais, com a procura de uma melhor adequação entre forma e objecto de representação. Para tal prescindem de ostensivos apoios cronológicos, diversificam pontos de vista, adoptam o monólogo interior e a ‘corrente de consciência’, misturam os planos de temporalidade, justapõem diversos modos narrativos, optam por elementos estruturantes fora da intriga, valorizam o que está para além da história. Dos anos trinta aos anos cinquenta, Martin du Gard, Bernanos, Mauriac, Graham Greene e Malcolm Lowry fazem dos seus romances obras de prospecção metafísica e religiosa, ao mesmo tempo que Malraux, entre outros, cultiva uma ficção de deliberado empenhamento político e de sondagem da condição humana. As narrativas existencialistas de Camus, Simone de Beauvoir e Sartre avultam já antes dos anos sessenta; e, pela mesma altura, mas sobretudo nas décadas seguintes, tornam-se mais conhecidas as narrativas de Pasternak e de Soljenitsyn, apostadas, designadamente, na exposição de condicionantes da liberdade na situação soviética. Já na segunda metade do século também, a urgência experimentalista não obsta ao ocasional retornar de perspectivas menos afins das vias existencialistas, metafísicas e religiosas. A influência da ficção norte-americana, em particular de índole sociológica mas não só essa, cedo se manifesta na Europa. Além de John dos Passos e Steinbeck, tornam-se bem conhecidos Hemingway e Faulkner, mais recentemente Saul Bellow e Bashevis Singer; mas recepão não menos vasta têm tido muitos latino-americanos, de Graciliano Ramos, Jorge Amado e Guimarães Rosa, a Angel Asturias, Garcia Marques, Vargas Llosa e outros de gerações mais novas. Grande projecção adquiriu ainda, a partir dos anos sessenta, a obra ficcional de escritores como Yasunari Kawabata, Heinrich Böll, Elias Canetti, William Golding, Doris Lessing — bem distintos, mas partilhando a mesma e funda aspiração à reabilitação da dignidade humana, tragicamente destroçada no holocausto das guerras do século. Rótulos de vanguardarismo vão sendo aplicados aos romancistas mais refractários a usuais catalogações de realismo ou outras: caso, por exemplo, de Samuel Beckett e de Claude Simon. Como que a sublinhar a universalidade atingida regularmente pelo romance, afirmam-se ou confirmam-se grandes nomes nas mais diversas partes do mundo, designadamente em países com uma cultura marcada por longa presença colonial: por exemplo o australiano Patrick White, o nigeriano Wole Soyinka, o egípcio Naguib Mahfouz, a sul-africana Nadine Gordimer. Todos eles prémios Nobel, distinção também concedida a alguns antes nomeados ou, mais recentemente, ao espanhol Camilo José Cela, com justificação na qualidade da respectiva ficção narrativa. No continente europeu, entre várias vogas mais ou menos efémeras, a do ‘novo romance’ tem tido prolongamentos que vão a par de uma sucessão assaz diversificada de propostas, certamente nem todas esgotadas nestes últimos anos do século XX. Algumas destas, ainda inconclusivas e difíceis de julgar com rigor, não se adaptam bem aos estereótipos mais reconhecíveis de romance ou de novel. O que não deixa de nos alertar sobre o facto já apontado para outros momentos da história ficcional moderna: a cómoda separação teórica possibilitada por esses dois termos ingleses nem sempre encontra clara correspondência na prática de um subgénero como o romance (termo português de sentido mais genérico e indiferenciado), que se tornou espécie maior e dominante nos últimos três séculos apesar de frequentemente propensa à variação dos cânones formais de realismo.
ANTI-LITERATURA; FICÇÃO; GÉNEROS LITERÁRIOS; NARRATIVA; NOUVEAU ROMAN; TIPOLOGIA NARRATIVA
C. Moatti e J. Heistein (dir.): Typologie du roman, Colloque, Univ. de la Sorbonne Nouvelle, Paris (1984); Gillian Beer: The Romance (1957, reimp. 1970); G. Lukács: La Théorie du roman (Paris, 1963); J. Halperin (ed.): The Theory of the Novel: New Essays (1974); J. Kristeva: Le Texte du roman (1970); L. Goldmann: Pour une sociologie du roman (1964); Malcom Bradbury: What is a Novel? (1969); M. Robert: Roman des origines et origines du roman (1972); Philip Stevick (ed.): The Theory of the Novel (1967); R. Bourneuf: L’Univers du roman (1981); R. Fowler: Linguistics and the Novel (2ª ed., 1983).
Para um básico confronto dos conceitos de ‘novel’ e ‘romance’ a partir de testemunhos de épocas sucessivas, respectivamente de advento, expansão e plena confirmação da maturidade da ficção moderna, ver:
a) Congreve, pp. preliminares de Incognita; or, Love and Duty Reconcil’d: a Novel (1692);
b) Clara Reeve, The Progress of Romance (1785);
c) Nathaniel Hawthorne, Prefácio em The House of the Seven Gables; a Romance (1851).
Para uma informação essencial sobre alguns dos tópicos implicados, e com especial referência ao contexto português, ver Jacinto do Prado Coelho, ‘Romance e Novela na Literatura Portuguesa’, e Massaud Moisés, ‘Novelas de Cavalaria’, ambos os artigos em Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, dirigido pelo primeiro, Livraria Figueirinhas, Porto, 1ª ed. s. d., 1992, 3º vol..
J. M. de Sousa Nunes

Embriague-se, Charles Baudelaire



É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo
horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem
descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que
gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o
pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Inconstância, Florbela Espanca


Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...

Canção grata, Florbela Espanca


Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insônia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu voltei a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

terça-feira, 25 de maio de 2010

Fábula Curta, Franz Kafka



"Ai de mim!", disse o rato, "-o mundo vai ficando dia a dia mais estreito".
"-Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair".
"-Mas o que tens a fazer é mudar de direção", disse o gato, devorando-o.

De Noite, Franz Kafka

Submergir-se em a noite! Assim como às vêzes se enterra a cabeça no peito para refletir, fundir-se assim por completo em a noite. Em redor dormem os homens. Um pequeno espetáculo, um auto-engado inocente, é o dormir em casas, em camas sólidas, sob teto seguro, estendidos ou encolhidos, sobre colchões, entre lençóis, sob cobertas; na realidade, encontram-se reunidos como outrora uma vez e como depois em uma comarca deserta: um acampamento à intempérie, uma incontável quantidade de pessoas, um exército, um povo sob um céu frio, sobre uma terra fria, atirados ao solo ali onde antes se esteve de pé, com a fronte apertada contra o braço, e a cara contra o solo, respirando tranqüilamente. E tu velas, és um dos vigias, encontras ao próximo agitando o madeiro aceso que tomaste do montão de estilhas, junto a ti. Por que velas? Alguém tem que velar, se disse. Alguém precisa estar aí.

Renúncia!, Franz Kafka



Era muito cedo, pela manhã, as ruas estavam limpas e vazias, eu ia à estação. Ao verificar a hora em meu relógio com a do relógio de uma torre, vi que era muito mais tarde do que eu acreditara, tinha que apressar-me bastante; o susto que me produziu esta descoberta me fez perder a tranquilidade, não me orientava ainda muito bem naquela cidade. Felizmente havia um policial nas proximidades, fui até ele e perguntei-lhe, sem fôlego, qual era o caminho. Sorriu e disse:
-Por mim queres conhecer o caminho?
-Sim - disse -, já que não posso encontrá-lo por mim mesmo.
-Renuncia, renuncia - disse e voltou-se com grande ímpeto, como as pessoas que querem ficar a sós com o seu riso.

O Abutre, Franz Kafka



Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa - respondi - Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! - disse o senhor - Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? - disse eu - Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente - disse o senhor - É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. - respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem - disse o senhor - Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.

O Vizinho, Franz Kafka



Meu negócio descansa inteiramente sobre os meus ombros. Duas senhoritas com suas máquinas de escrever e seus livros comerciais no primeiro quarto, e uma escrivaninha, caixa, mesa de informações, cadeiras de braços e telefone no meu, constituem todo meu aparalhamento de trabalho. É muito fácil controlar isso com uma vista de olhos, e dirigi-lo. Sou muito jovem e os negócios se acumulam aos meus pés. Não me queixo, não me queixo. Desde o Ano Nôvo, um jovem alugou sem hesitar a sala contígua, pequena e desocupada, que por tanto tempo titubeei, estupidamente, em tomar para mim. Trata-se de um quarto com antecâmara e, além do mais, uma cozinha. Tivesse podido utilizar o quarto e a antecâmara - minhas duas empregadas sentiram-se mais uma vez sobrecarregadas em suas tarefas -, mas, para que me teria servido a cozinha? Esta pequena hesitação foi a causa de permitir que me tirassem a sala. Nela está instalado, pois, esse jovem. Chama-se Harras. Com exatidão não sei o que faz ali. Sobre a porta lê-se: "Harras, escritório". Pedi informações, comunicaram-me que se trataria de um negócio idêntico ao meu. Na realidade, não vem ao caso dificultar-lhe a concessão de crédito, pois se trata de um homem jovem e de aspirações, cujas atividades tenham talvez futuro, mas não se poderia, contudo, aconselhar que se lhe outorgue crédito, pois atualmente, segundo todas as presunções, careceria de fundos. Quer dizer, a informação que se dá habitualmente quando não se sabe de nada.
Às vezes encontro Harras na escada, deve ter sempre uma pressa extraordinária, pois se escapule diante de mim. Nem mesmo pude vê-lo bem ainda, e já tem pronta na mão a chave do escritório. Num instante abre a porta, e antes que o observe bem já deslizou para dentro como a cauda de uma rata e aí tenho outra vez à minha frente o cartaz "Harras, escritório", que li muitas mais vêzes do que o merece.
A miserável finura das paredes, que denunciam o homem eternamente ativo, ocultam porém o desonesto. O telefone está apenso à parede que me separa do quarto de meu vizinho.
Não obstante, destaco-o apenas como constatação particularmente irônica. Mesmo quando pendesse da parede oposta, ouvir-se-ia tudo da sala vizinha. Evitei o meu costume de pronunciar ao telefone o nome de meus clientes. Mas não é necessária muita astúcia para adivinhar os nomes através de característicos mas inevitáveis torneiros da conversação. Às vezes, aguilhoado pela inquietação, sapateio nas pontas dos pés em volta do aparelho, com o receptor no ouvido, mas não posso impedir que se revelem segredos.
Naturamente, as resoluções de caráter comercial se tornam assim inseguras e minhas voz, trêmula. Que faz Harras enquanto telefono? Se quisesse exagerar muito - o que é preciso fazer com frequência para ver claro -, poderia dizer: Harras não precisa telefone, usa o meu, colocou o sofá contra a parede e escuta; eu, em troca, quando o telefone toca, devo ir atender, tomar nota dos desejos do cliente, adotar resoluções graves, sustentar conversações de grandes proporções, porém, antes de tudo, proporcionar a Harras informações involuntárias, através da parede.
Ou antes, nem mesmo espera o fim da conversação, porém que se ergue depois da passagem que lhe informa suficientemente sobre o caso, atira-se, segundo o seu costume, através da cidade e, antes de eu ter pendurado o receptor, está talvez trabalhando já contra mim.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Vidas do fora: habitantes do silêncio



Escrevi o capítulo intitulado Partículas no livro Vidas do fora: habitantes do silêncio. o Lançamento será dia 23 de junho de 2010. Mesclei escritos com desenhos de minha autoria para condensar as impressões nascidas do contato com o Hospital Psiquiátrico São Pedro. O estilo pode ser nominado de plainsenterie littéraire.

Aforismos, Máximas e pensamentos de Napoleão, Francesco Perfetti



“É muito melhor ter inimigos declarados que amigos velados” (p. 23; 2).

“Ou abatemos o outro ou o outro nos abate” (p. 23; 3).

“A autoridade suprema é indivisível” (p. 23; 4).

“a aristocracia tem a vantagem de concentrar a ação do governo nas mãos menos perigosas e menos inaptas que as de um povo ignorante” (p. 23; 6).

“... sem o estado é uma nave sem leme um balão lançado ao ar” (p.23; 9).

“O melhor modo de influir sobre as determinações dos príncipes é sempre ofendendo seu amor próprio” (p. 23; 10).

“Nos atos soberanos, convém distinguir os que são coletivamente daqueles que fazem na qualidade de homens privados livres dos seus sentimentos. A política autoriza e até dita ao primeiro o que seria muitas vezes imperdoável no outro” (p. 24; 11).

“Nas coisas públicas, administrativas e militares são necessários um pensamentos forte, uma análise profunda e a faculdade de poder deter-se longamente sobre os objetos sem cansar-se” (p. 24; 12).

“Não é preciso tratar com todos ao mesmo tempo” (p. 24; 12).

“O limite extremo do governo de muitos é a anarquia” (p. 24; 13).

“não é dado a todos apreciarem o valor da honra em si; um pouco de dinheiro nunca é jogado fora” (p. 24; 14).

“Mais vale Ter um amigo conhecido que um amigo forçado” (p. 24; 15).

“O êxito dos meios dependem da unidade de ação” (p. 24; 16).

“As assembléias deliberantes compõe-se sempre de int5rigantes ou de pessoas mais ou menos iluminadas; essas últimas quase sempre enganadas, tornam-se freqüentemente, no máximo, os instrumentos e os cúmplices dos primeiros” (p. 24; 17).

“Nada de concessões ou tratados com os agitadores” (p. 24; 18).

“É possível dilacerar o coração quando sem que a alma fique perturbada” (p. 24; 19).

“Não se deve ouvir a voz do coração quando esta pode prejudicar o povo” (p. 24; 20).

“Não convém mostrar-se bárbaro sem necessidade” (p. 24; 21).

“A plebe mal se mexe onde há boas baionetas” (p. 24; 22).

“A verdadeira felicidade social consiste na harmonia e no uso pacífico das satisfações de cada indivíduo” (p. 25; 23).

“Quando as baionetas deliberam, o poder foge das mãos dos governantes” (p. 25; 24).

“Que triste perspectiva a de mandar bater no povo porque está lutando”(pg. 25; 25).

“A coragem e a virtude conservam os estudos. A covardia e o crime os arruínam” (p.254; 26).
“As circunstâncias mais irrelevantes produzem os maiores acontecimentos” (p. 25; 29).

“Um clube político não pode ter um chefe durável, precisa de um para cada paixão” (p. 25; 30).

“Na guerra como no amor, para chegar-se ao fim, é mister aproximar-se” (p. 25; 31).

“Um rei é ás vezes forçado a cometer crimes; são crimes da sua posição” (p. 25; 32).

“Em política, pensar com o coração é coisa digna de elogios”(pg. 25; 34).

“Se as calúnias políticas fossem um delito aos olhos de Deus, nenhum soberano se salvaria” (p.26; 35).

“É sempre prejudicial fazer as coisas pela metade. Ou devemos fazer vista grossa ou, se quisermos enxergar, é preciso agir com vigor” (p. 26; 37).

“Quando num pequeno Estado difunde-se o hábito de condenar sem ouvir, de aplaudir um discurso ditado pela paixão, quando se dá o nome de virtude à exasperação e a fúria e se acusa de crime a moderação e a eqüidade, então esse Estado está a ponto de desmoronar” (p. 26; 38).

“O poder da concentração e da unidade são fatos que impressionam até o mais vulgar dos homens” (p. 26; 42).

“Para o bem de uma nação, convém tornar o corpo legislativo o mais dócil possível, pois se fosse forte o suficiente para dominar, seria destruído pelo governo ou então, destruiria o próprio governo” (p. 26; 43).

“Um soberano abre uma larga estrada para seu povo, protege todos aqueles que caminham em linha reta e pune aqueles que desviam para direita ou para a esquerda” (p. 26; 44).

“Num Estado despótico, a simples sentença ”direitos do povo” é uma blasfêmia e um crime “(p. 27; 46).

“A democracia enaltece a soberania, mas só a aristocracia a conserva” (p. 27; 47).

“Quando o equilíbrio está perdido não existem mais direitos públicos” (p. 27; 48).

“A democracia pode ser violenta mas é sempre generosa” (p. 27; 49 – Sofisma).

“Uma dinastia expulsa e nunca perdoa quando retorna” (p. 27; 51).

“É preciso saber dar para tomar” (p. 27; 52).

“O limite extremo do governo de um só é o despotismo. Melhor seria um governo mediano, onde a sabedoria humana soubesse conservá-lo” (p. 27; 53).

“É mais fácil fazer um déspota de um tirano que sacudir o jugo de todas as nações unidas” (p. 27; 55).

“Os inimigos que podem revelar-se perigosos são sempre bastante astutos para não se exporem ao perigo” (p. 27; 58).

“É muito raro vermos os grandes homens falirem nos seus empreendimentos mais arriscados” (p. 28; 60).

“Não há subordinação nem temor que prevaleça nos estômagos vazios” (p. 28; 61).

“Quando um inimigo está em nosso poder, é preciso agir de modo que ele deixe de ser prejudicial para nós” (p. 28; 62).

“O governo deve organizar a educação de modo a poder controlar as opiniões políticas e morais” (p. 28; 64).

“Num Estado revolucionário existem duas categorias: Uma de suspeitos e outra de patriotas” (p. 28; 67).

“A sorte é uma mulher; se a deixarem fugir hoje, não esperem encontrá-la amanhã” (p. 28; 71).

“Quem não sente firmeza no coração não deve cuidar nem de guerra nem de governo” (p. 29; 74).

“A fortuna é uma verdadeira cortesã” (p. 29; 75).

“Quando um príncipe está resolvido a punir, deve punir muitos homes ao mesmo tempo. Depois, as coisas andam melhor. Se deve punir um número menor de homens, colhe-se mais frutos em causar grandes diáfanos” (p. 29; 77).

“Os mais fortes não negociam, mas sim ditam as condições e são obedecidos” (p. 29; 78).

“A multidão que me olha com admiração faria o mesmo se me visse subir para o cadafalso” (p. 29; 79).

‘Usa-se a força quando não é possível agir de maneira diferente, mas quando há escolha, é sempre melhor ater-se à justiça “(p. 29; 81).
“Os homens são raros” (p. 31; 105).

“Quem não arrisca nada, nada ganha” (p. 31; 106).

“A imoralidade é a mais funesta das inclinações que possa ter um soberano; quando ele a põe em modo, aqueles que querem agradá-lo fazem disso uma honra e a imoralidade reforça todos os vícios, corrompe todas as virtudes, é o flagelo de uma nação” (p.31; 111).

“Apenas aqueles que querem enganar os povos e governar em interesse próprio podem querer mantê-los na ignorância; Porque quanto mais instruídos forem os povos, mais a necessidade das leis” (p.31; 112).

“A legislação é um escudo que o governo deve usar onde quer que a prosperidade pública esteja ameaçada. Todos nós só existimos em virtude da lei” (p. 32; 122).

“Quem luta contra a pátria é um filho que quer matar a própria mãe” (p.34; 146).

“Uma vez sufocados os caprichos e as paixões dos reis, os povos caminham sem obstáculos no seu caminho natural” (p. 34; 147).


Trechos do Livro: PERFETTI, Francesco. Aforismos, Máximas e pensamentos de Napoleão. Rio de Janeiro: Clássicos econômicos Newton, 1993.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Assim Falou Albert Einstein, Alice Calaprice


“O eterno mistério do mundo é sua compreensibilidade... O fato de ser compreensível é um milagre”.

“O único modo de escapar da corrupção do elogio é continuar trabalhando. Não há nada mais a fazer”(Citado por Lincoln Barnett em “On his Centennial, The Spirit of Einstein Abides in Princeton”, publicado no Smithsonian em Fevereiro de 1979, pg.74).

“O medo e a estupidez sempre foram a base da maioria das ações humanas” (Carta para E. Mulder, Abril de 1954. Arquivo Einstein 60 - 605).

“Senão há um preço a ser pago, também não há valor”(Aforismo, 20 de Junho de 1927. Arquivo Einstein 36 – 582).

“Somente uma vida vivida para os outros vale a pena”(Respondendo a uma pergunta dos editores de Youth, um jornal da Young Israel de William Sburg, N.Y., Resposta também citada no New York Times de 20 de Junho de 1932. Arquivo Einstein).

“Desconfio daquela palavrinha “nós” e eis por quê? Nenhum homem pode dizer de outro, “ele é eu”: por trás de todo acordo há algo errado. Toda a harmonia aparente esconde um abismo à espreita”.

“That little word ”we” I mistrust and here‘s why: no man of anoher can say, “He is I”. Behind all agreement lies something amiss. All seeming accord cloaks a lurking a abiss” (Verso citado por Dukas e Hoffmann em Albert Einstein, The Man Inside, pg. 100).

Trechos do livro: CALAPRICE, Alice. Assim Falou Albert Einstein. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1998.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ulisses, Franz Kafka



Comprovação de que mesmo meios insuficientes, e até infantis, podem conduzir à salvação.
A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo - que dirá um punhado de cera -, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.
As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.
E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses - que não pensava senão em cera e correntes -- as tenha feito esquecer todo o canto.
Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu-lhes o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.
Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.
Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.

Franz Kafka, 23 de outubro de 1917

Original alemão extraído de Franz Kafka. Beim Bau der chinesischen Mauer und andere Schriften aus dem Nachlaß (in der Fassung der Handschrift), Frankfurt am Main, Fischer Taschenbuch Verlag (12446), November 1994, S. 168-170. Edições anteriores intitulavam-no "Das Schweigen der Sirenen" [O silêncio das sereias], título que, no entanto, lhe foi dado por Max Brod. Tradução inédita de Sérgio Tellaroli.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Chopin, Marcel Proust


O poeta deve apegar-se às massas sonoras, aos timbres, ao andamento melódico, aos compassos e harmonias. Tais ingredientes estariam, para estes poemas, assim como formas e cores estão para os dedicados pintores (...)
A primeira parte do poema secciona os ritmos largos do Alexandrino, pela multiplicação de cesuras – chegando ao seccionamento máximo no quarto verso, nervosa sucessão de acordes breves: “Revê, aime, souffre, crie, apaise, charme ou berce” (literalmente: sonha, ama, sofre, grita, aquieta, encanta ou embala). O efeito busca sugerir, no plano verbal, uma harmonização entrecortada, irisada e vibrátil, afim da arte de Chopin (...) (Moisés, 2001, p. 15).

Chopin

Chopin, mar de soluços, lágrimas, suspiros,
Que um vôo de ágeis borboletas atravessa,
A brincar com a tristeza, a apascentar seus giros.
Seduz, aquieta, sofre, agita, grita, apressa,
Ama ou embala, e faz rolar em meio às dores
O doce olvido do capricho teu, fugaz,
Como as borboletas embriagadas de flores:
Tua alegria é cúmplice da dor tenaz,
O alado torvelinho amaina os dissabores.
Das águas e da lua meigo confidente,
Príncipe da aflição ou grão-senhor traído,
Quanto mais pálido mais belo, entretido
Com o sol a inundar teu quarto de doente,
Tu te exaltas com a luz, a bem-aventurança
Da luz que chora o seu sorriso de Esperança.


Tradução de Carlos Felipe Moisés


Referências

Moisés; Carlos Felipe. Proust Poeta - Cult 52: revista brasileira de literatura. Ano V, novembro, 2001.

O desconcerto do Mundo – Coleção “Ensaios Transversais” Editora Escrituras.


domingo, 16 de maio de 2010

Johann Wolfgang Goethe, Fausto


Dedicatória

De novo aproximai-vos, formas vacilantes
Já vislumbradas, um dia, por meu turvo olhar.
Tentarei, desta reter-vos?
Sinto meu coração inclinar-se, ainda, a esta quimera?
Cercais-me de perto! Assim seja, guiai-me,
Como, saídas da névoa, me envolveis;
Juvenil sobressalto agita-me o peito, tocado
Pelo sopro mágico que de vós emana.

Trazeis imagens de horas mais alegres
E quantas sombras amadas apresentam-se!
Como notas de antiga canção quase esquecida,
Afloram o primeiro amor e as amizades;
A dor se renova, reacende as mágoas
Do curso labiríntico, errático, da vida
E chama os queridos, pela sorte privados
De horas felizes, que antes de mim partiram.

Não ouvirão os derradeiros cantos,
Aqueles que ouviram os primeiros;
Encerrado está o festivo alvoroço,
Extinto também o primeiro eco.
Minha dor soará para a massa ignota
Da qual meu coração teme até o aplauso;
E os que meus versos ainda reconfortam,
Se vivos, erram pelo mundo dispersos.

E sou tomado por uma saudade, há muito perdida,
Daquele reino do espírito sério e calmo;
Meu canto flutua agora no espaço
Em tons indefinidos, como arpejos de harpa eólia.
Vêm-me as lágrimas, estremeço,
O coração acerbo suaviza-se:
O que tenho no presente parece-me remoto,
E o que desapareceu, realidade.
(p. 33)

Prólogo no Céu


Gabriel
Com incrível rapidez
Gira a esplêndida Terra;
E onde há luz paradisíaca
Sobrevém terrível noite... (p. 37)

Os Três
Olhar-te dá força aos anjos
Pois nenhum pode entender-te,
E tuas supremas obras
São belas como surgiram.(p. 37)

Mefisto
...Desculpa, se louvores não entôo
Mesmo sendo desprezado;
Minha ironia far-te-ia rir,
Não estivesses, do riso, esquecido.

Do sol e dos mundos nada tenho a comentar;
Vejo apenas como os homens se maltratam.
O pequeno deus da terra persiste no mesmo ritmo,
Surpreendente como ao nascer.
Algo melhor viveria
Se um traço da luz divina não lhe tivesse dado.
Ele a chama Razão, mas só a emprega
Para ser mais fera que qualquer das feras...(p. 38)

Mefisto
Não quer da Terra, o louco, comida ou bebida!
A ruminação o conduz para longe;
Da sua loucura ele é meio consciente:
Do Céu reclama as mais belas estrelas
E da Terra o mais perfeito gozo,
Mas nada, de longe nem de perto,
Apazigua o inquieto espírito.(p. 39)

O Senhor
...Quando o arbusto enverdece, o jardineiro sabe
que virão nos próximos anos flor e fruto.(p. 39)

O Senhor
...Um bom homem, nos seus mais turvos impulsos,
É bem consciente do caminho certo.(p. 39)

Mefisto
Ótimo! Não haverá demora.
A aposta não me amedronta.
Se conseguir meu propósito,
Concede que triunfe sem reservas.
Ele comerá poeira, e com apetite!
Como faz minha tia, a famosa serpente!(p. 40)

O Senhor
...O esforço do homem facilmente afrouxa;
Ele permite-se, cedo demais, repouso imerecido...
Guarda-vos nos altos recessos do amor;
E firma em duradouros pensamentos
O que apenas paira em incertas sugestões. (p. 40)

Noite – Gabinete de Estudo

Fausto
Ah! Com quanto esforço,
Até hoje, estudei a fundo Direito,
Medicina, Filosofia,
Infelizmente até Teologia.
E aqui estou, insensato,
Com a sabedoria de antes.
Sou Mestre e Doutor,
Levo pelo nariz meus alunos
Ano após ano, cá e lá
E verifico que nada sabemos!
Isto me corta o coração.
É certo que sou melhor que o resto
De doutores, clérigos. Escribas e pedantes:
Escrúpulos e dúvidas não me perseguem,
Nem o receio, o demônio ou o inferno.
Em troca toda alegria me foi tirada;
Não me convenço de que algo de certo sei,
Nem tampouco de que possa algo ensinar,
Alguém converter ou melhorar.
Não possuo, igualmente, dinheiro e bens,
Muito menos honraria e grandeza mundanas;
Nenhum cão gostaria de prosseguir nesta vida!
Por isto dediquei-me à magia
Buscando do poder e da palavra dos espíritos
Alguns segredos tirar;
Assim talvez não mais precise, com amargo suor,
Ensinar aquilo que não sei,
Possa entender o mais profundo
Segredo do equilíbrio universal,
E ver, não descritas com palavras
Mas em plena ação, as forças naturais.
Que tu, plenilúnio,
Contemples pela última vez minha agonia;
Neste lugar, em vigília,
Por tantas noites suportei-a
E então me aparecias, melancólico amigo,
Por sobre livros e papéis!
Ah! Pudesse eu por veredas de montanha
Caminhar, banhado por tua doce luz;
Dançar com duendes nas cavernas,
Correr nas campinas ao crepúsculo
Desligado do peso da ciência
E rolar, curado, no orvalho da manhã!
Desgraça! Ainda no cárcere estou?
Malditas úmidas paredes
Onde até a doce luz da lua
Mal atravessa as janelas pintadas!
Soterrado por este monte de livros
Roído por vermes, coberto de pó
Que, até o teto,
Esconde folhas de enfumaçado papel;
Num depósito de instrumentos,
Mais o lixo de antepassados –
É este o teu mundo! Chama-se a isto um mundo!
E ainda perguntas por que teu coração
Aflito se aperta no peito?
Por que uma obscura dor
Separa de ti o entusiasmo da vida?
Em lugar da vibrante Natureza
Na qual Deus o homem criou,
Estás em meio à fumaça e ao mofo,
Cercado por esqueletos de bichos e de homens!
De pé! Foge! Para fora, no vasto horizonte!
E este livro secreto,
Escrito pela mão de Nostradamus,
Não será bastante como guia?
Procura nele o curso das estrelas
E dirigido pela Natureza
A força da alma em ti acordará
Como um espírito fala a outro espírito.
É inútil tentares aqui, com embotados sentidos,
Esclarecer os sagrados símbolos;
Espíritos que à minha volta adejam
Respondam-me, se me ouvem! (p.42)

(Abre o livro e examina o símbolo do macrocosmo.)

...Só agora entendo a verdade das palavras do sábio:
“O mundo dos espíritos não está fechado;
Teus sentidos estão mortos e morto o teu coração!
Ah! Discípulo, banha incessantemente
Teu peito mortal no sol da manhã!” (p.43)

(Ainda examinado o símbolo)

Como tudo se entrelaça, forma um todo,
Uns sobre outros atuam e completam-se!
Como as forças celestes, no contínuo oscilar,
Trocam entre si vasos dourados
E seus movimentos, com benção e perfumes,
Derramam sobre a terra as harmonias
Onde tudo ressoa, unificado!

Que espetáculo! Mas infelizmente só um espetáculo!
Como chegar a ti, Natureza infinita?
Onde estão teus seios? Tuas fontes de vida
Que alimentam céus e terras
E tanto atraem o ser que se estiola –
Tu sacias, tu inundas, e no entanto definho!

(Folheia o livro e descobre o símbolo do Espírito da Terra.)

...Sinto coragem de arrojar-me ao mundo,
suportar suas dores e prazeres,
Aventurar-me em tempestades
E arrostar o ruído dos naufrágios!
O céu se cobre de nuvens –
A lua esconde sua luz –
A lâmpada se extingue –
Cresce um vapor – rubros relâmpagos
Passam-se pela cabeça – Um estremecimento
Desce da abóbada e atinge-me!
Sinto que voltejas em torno de mim, desejado Espírito:
Toma forma!
Ah! Meu coração se rompe!
A novas sensações
Meus sentidos se abrem!
Sinto que minha alma a ti abandona!
Aparece! Aparece! Nem que me custe a vida! (p.43/44)
Espírito

Suplicaste, ansioso por ver-me,
Ouvir minha voz, contemplar minha face;
Tua poderosa invocação dominou-me,
Aqui estou! – Que miserável terror
Apossa-se de ti. Super-homem! Onde o grito da lama?
Onde o coração criou em si um mundo,
Deu-lhe suporte e cuidados? Que, palpitante alegria,
Inflou-se para subir até nós espíritos?
Quem és tu, Fausto, cuja voz ressoou até mim,
A mim chegou com todas as forças?
És tu que agora, por meu sopro envolvido,
Tremes no fundo de teu ser
Como verme encolhido pelo medo? (p.44)

...Fausto replica que o discurso pomposo impressionará crianças e macacos; somente o que sai do coração encontra caminho de outros corações, sem necessidade de requintes oratórios. Acrescenta que ninguém revela verdades em discursos; os poucos que tentaram fazê-lo foram invariavelmente crucificados ou queimados...

Fausto (Sozinho)

Como a pretensão nunca abandona a mente
Sempre para a insignificância voltada,
Que cava a terra em busca de tesouros
E alegra-se quando encontra minhocas!
Como pode uma tal voz humana soar aqui,
Quando uma multidão de espíritos envolve-me?
Mas seja! Desta vez agradeço-te,
Paupérrimo filho da terra.
Arrancaste-me do desespero
Que meus sentidos destruía.
Ah! A aparição foi tão gigantesca,
Fez com que me sentisse um anã.
Eu, imagem da Divindade, julgando-me
Nas vizinhanças da verdade eterna,
Próximo da clarividência, do celeste brilho,
E já separado da humanidade;
Eu, mais que um anjo, com cuja força
Já percorria, livre, as veias da Natureza
E gozava a vida de um Deus,
Com o qual me comparava – Como devo expiá-lo!
Uma palavra-trovão derrubou-me!

Quem me ensinará? O que devo evitar?
A qualquer impulso devo obedecer?
Ah! Até nossos atos, como as dores,
Obstruem a trilha da nossa vida.

Aos deuses não me assemelho! Como profundamente me sinto!
Pareço-me com o verme que a terra envolve
E que, enquanto no pó vive e se nutre,
O viajante a pé mata e sepulta!
Não é acaso o pó de centenas de estantes
Que nestas elevadas paredes me enclausura?

Deverei encontrar aqui o que procuro?
Deverei talvez, em mil livros, ler
Que em toda parte os homens se torturam
E que existiu, aqui e ali, alguém feliz?
Que me diz tua grimaça, crânio vazio?
Senão que o teu cérebro, como o meu confuso,
Buscou a claridade solar e no crepúsculo,
Ansioso pela verdade, vagou miserável?
Teus instrumentos – giroscópios, rodas, engrenagens –
Certamente escarnecem de mim.
Achava-me na soleira, vós serviríeis de chave;
Tendes formas intrincadas, mas a porta não se abriu.
Secreta na clara luz do dia,
A Natureza não aceita desnudar-se
E o que a ti não revela
Dela não extrais a ferros e martelos.
Velha peça que não utilizo,
Aí estás por que meu pai te usava;
Manuscrito antigo, ficarás enfumaçado
Enquanto nesta mesa arder a turva lâmpada.
Teria feito melhor usando meus parcos recursos
Do que, insatisfeito com pouco, aqui transpirar!
Por que meu olhar não deixa aquele ponto?
Será, dos olhos, o pequeno frasco um imã?
Poder que tão de súbito vejo claro
Como quando surge a lua à noite, na floresta?
Eu te saúdo, único entre os frascos
Que devotamente tomo agora entre as mãos!
Em ti reverencio o humor e a arte humanos;
Tu, essência nobre dos narcóticos,
Suave extrato de mortais poderes,
Prodigaliza a teu amo os teus favores!
Vejo-te: a dor tem alívio;
Tomo-te nas mãos: minha ânsia decresce,
Acalma-se a tormenta do espírito;
Para alto-mar sou levado,
O espelho das águas brilha a meus pés,
Em novas praias se esconde um novo dia.
Ondulando sobre asas, um carro de fogo
De mim se aproxima! Sinto-me pronto
A percorrer do éter novas trilhas
À esfera da pura criação.
E esta vida sublime, êxtase dos deuses,
Tu, ainda há pouco verme, a mereces?
Sim, apenas ao dourado sol da Terra
Volta decidido as costas!

Agora vem, puro, cristalino cálice!
Liberta-te do velho estojo,
Em ti não pensei durante muitos anos!

Eis aqui um líquido que depressa embriaga;
Com escura onda ele enche as entranhas.
Eu o preparei e a ele escolhi;
Que a última bebida seja, com toda a alma,
Uma saudação festiva à manhã iminente! (p. 48)

Fausto
Que profundo apelo, que brilhante som
Afasta com força a taça de meus lábios?
Já anunciais, distantes sinos...
Coros, entoais já o canto de consolo
Que numa noite de enterro, por lábios de anjos, anunciou
A certeza de uma nova aliança? (p. 48)

Fausto
Procurais, sons celestes, suaves e fortes,
A mim no pó?
Ressoem à volta, em torno de homens fracos!
Bem ouço a mensagem, apenas não tenho fé;
O milagre é da fé o filho querido,
E as esferas de onde vem a preciosa notícia
Não me atrevo a galgar.
E portanto este som que vem da minha infância
Arrasta-me agora de retorno à vida.
Antes o beijo de amor celeste
Atingia-me no silêncio do Sábado;
Soavam então os sinos cheios de esperança
E uma prece trazia abençoado êxtase;
Uma nostalgia santa e incompreensível
Levava-me a percorrer campinas e florestas
E em meio a quentes, abundantes lágrimas
Sentia um mundo em meu peito surgir.
Esta melodia anunciava os alegres brinquedos da infância,
As venturas da primaveril festa;
Agora a recordação, com pueris sentimentos,
Faz-me recuar do último passo;
Permanecei soando, doces canções do céu!
As lágrimas brotam, a terra tem-me de novo! (p. 49)

Coro dos Jovens
Ah! No seio da terra
Tristes permanecemos!
Deixou-nos, seus fiéis,
Para aqui definhar;
Ah! Nós choramos,
Senhor, tua feliz sorte!

Diante dos Portões

...Fausto ironiza em Wagner o ingênuo feliz que espera sair deste mar de erros; usamos o que não sabemos e do que sabemos nenhum uso conseguimos fazer. Aproximando-se o pôr-do-sol, Fausto dá curso às suas aspirações de imitar o dia que ali acaba, para iluminar alhures. Lamenta não ter asas para elevar-se da terra e contemplar, à luz eterna do poente, o mundo imóvel a seus pés. Montanhas e desfiladeiros, mar e abismos oferecem-se ao olhar assombrado. Um belo sonho enquanto se desdobra, mas asas para o corpo não surgem facilmente, como as do espírito. Algo em nossa natureza nos atrai às alturas quando, absortos no espaço azul, ouvimos o penetrante cantar da cotovia, ou vemos a águia, de asas abertas, pairar sobre picos cobertos de pinheiros... (p.51)

Wagner
...Teus olhos podem Ter-te enganado. (p.52)

Gabinete de Estudo

Fausto
Escrito está: “no princípio era Verbo!
Aqui estou novamente detido! Para a frente, quem me ajuda?
Devo traduzi-la de outro modo,
Se for iluminado pelo Espírito.
Escrito está: no princípio era o pensamento.
Pensa bem nesta primeira frase,
Que tua pena não se apresse!
É o pensamento que atua e cria?
Poderia ser: no início era o poder!
Mas, ainda enquanto isto escrevo,
Algo me diz que não ficará assim.
O Espírito ilumina-me! Vejo de súbito o conselho
E aliviado escrevo: no princípio era o Ato! (p. 53)

Mefisto
A pergunta parece-me indigna
De quem palavras tanto despreza
E que, fugindo das aparências,
Vê somente a essência dos seres. (p. 56)

Mefisto
Uma parte daquela força
Que deseja sempre o Mal, e engendra sempre o Bem. (p. 56)

Fausto
Que sugeres com essas enigmáticas palavras? (p. 56)

Mefisto
Eu sou o espírito que sempre nega!
E com razão; pois tudo que existe
Merece ser destruído,
E portanto melhor fora que nada existisse.
Assim, tudo que chamas pecado,
Ruína, para ser breve o Mal
É o meu específico e próprio elemento. (p. 56)

Fausto
Tu te chamas parte, e apreces inteiro?

Mefisto
Dir-te-ei a modesta verdade.
Enquanto o homem, pequeno mundo de loucura,
Tem-se na conta de um todo:
Sou uma parte da que no principio era o Todo;
Uma parte da treva que engendrou a luz,
A orgulhosa luz que agora disputa
Primazia e espaço à noite mãe.
Mas não o consegue, pois, por mais que faça,
Permanece presa à superfície dos objetos:
Jorra das coisas, estas a fazem bela,
Mas impedem também sua passagem;
E, espero eu, dentro de pouco tempo,
Será também com as coisas destruída. (p. 56/ 57)

Mefisto
E certamente não progredi muito.
O que ao Nada se opõe,
As coisinhas, este mundo malfeito,
Tudo que até hoje tentei
Não chegou a exterminá-los.
Com vagalhões, tempestades, incêndios, terremotos
Permanecem no fim tranqüilos mar e terra!
E quanto à maldita semente de animais e homens,
Com ela então não há muito a fazer;
Quando já não tenho eu enterrado,
E circula sempre sangue novo e fresco.
Assim vai a coisa, é de enlouquecer!
Milhares de germes emergem
Da umidade, do seco, do frio e do quente!
Não me tivesse eu reservado o fogo
E nada teria que pudesse chamar de meu! (p. 57)

Mefisto
Meu amigo, teus sentidos
Ganharão mais nesta hora
Que num ano de vida rotineira.
O que cantarão para ti os leves espíritos,
As belas imagens que evocarão,
Não serão um vazio passe de mágica.
Teu olfato se aguçará,
Teu paladar sentirá delícias
E tua sensibilidade como um todo ficará encantada.
Não necessitamos preparativos;
Estamos reunidos, começai! (p. 59)

Mefisto
Assim tu me agradas!
Espero que nos entendamos;
Para quebrar teus grilhões
Aqui estou, com a aparência de um nobre:
De roupa escarlate, bordada de ouro,
Mantilha em seda brocada,
Pena presa no chapéu
E à cinta a comprida adaga –
E dou-te já um conselho:
Veste-te de igual maneira
Para livre, sem amarras,
Veres o que é viver. (p. 61)

Fausto*
Em qualquer roupa sentirei
Desta estreita vida mágoa;
Sou velho demais para apenas fingir,
E jovem demais para não ter desejos.
Que pode o mundo oferecer-me?
Renuncia! Deves renunciar!
É este o eterno canto
Que nos ressoa aos ouvidos;
Que, pela nossa vida inteira,
As horas roucas entoam.
É com terror que as manhãs me acordam;
Deveria chorar amargamente
Ao contemplar o dia que, em seu curso,
Não me satisfará um único desejo;
Que a sugestão do mais simples anseio
Anulará com implacável crítica
E as criações do inquieto coração
Sufocará com as caretas da vida.
Quando cai a noite,
Também com angústia estendo-me no leito;
E aí nenhum repouso tenho,
Perseguido por selvagens sonhos.
O deus que meu peito habita
Pode agitar as minhas profundezas;
Mas governando toda minha força,
Ele nada traz à superfície.
Existir é para mim penoso,
Morrer um desejo, a vida odiosa. (p. 61/ 62)

Fausto
Oh! Feliz é quem, no esplendor da vitória,
Cinge a fronte com sangrentos louros;
Ou quem, após estonteante dança,
Encontra-se nos braços de uma jovem!
Pudesse eu sentir-me arrebatado pela força desse espírito
E depois, de alma extinta, no vazio mergulhar! (p. 62)

Mefisto
Não sou onisciente, mas sei de muita coisa.

Fausto

Quando, do assustador abismo,
Afastou-me a doce melodia,
E o que restava de infantis lembranças
Trouxe à mente horas mais felizes,
Tudo amaldiçoei; maldisse tudo que envolve a alma,
Os artifícios da inércia e da cegueira,
Das lisonjas e da fantasia
Que nesta vala de dores a exila.
Maldito, primeiro, o alto conceito
Com que se adorna o espírito humano;
Maldita a cegueira que as aparências
Introduzem em nossos sentidos;
Maldito o que em sonhos nos engana,
A fama, a ilusão da permanência!
Maldito o que nos lisonjeia possuir:
Mulher, filhos, servos, arados!
Seja maldito Mammon (figura demoníaca da riqueza), quando
Com tesouros nos excita a audaciosos atos,
Ou nos prepara os coxins,
Para os prazeres da indolência.
Maldito seja o fragrante sumo das uvas!
Malditas todas as graças do amor!
Maldita a esperança, maldita a fé
E maldita seja, mais que todas, a paciência. (p. 63)

Coro de Espíritos (invisível)
Desgraça, desgraça!
Tu destruíste
O formoso mundo
Com mão poderosa;
Ele cai, ele desaba!
Um semideus o derrubou!
Dele levamos
Para o nada os destroços
E choramos
A beleza perdida.
Poderoso
Entre os homens,
Ainda mais belo
Reconstrói-o em teu coração!
Uma nova vida
Inicia
Como claro propósito
E novas canções
Soarão por ela! (p. 63/ 64)

Mefisto
São os pequenos
Dos meus.
Ouve como o prazer, à ação,
Com acerto aconselham!
Para o vasto mundo,
Fora do isolamento,
Onde há sentido e prazer,
Querem ele atrair-te.
Não convive mais com o tormento
Que te devora a vida qual abutre!
Até a pior companhia fará com que
Te sintas um homem entre homens.
Não quer isto, porém, dizer
Que te colocarás dentro do rebanho.
Não estou entre os grandes;
Mas se quiseres, comigo associado,
Guiar teus passos pela vida,
Com prazer me adaptarei
A ser teu, e agora.
Serei teu companheiro,
Teu rumo farei certeiro
Teu servidor, teu escravo! (p.64)

Fausto
O Além me importa pouco;
Se este mundo em destroços deixares,
O outro pode a seguir ter
Início.
Desta Terra nasceram as minhas alegrias,
Este Sol ilumina agora as minhas penas.
Quando delas puder enfim separar-me,
Que aconteça depois o que der e vier.
De nada mais desejarei saber,
Se no futuro se ama, ou se odeia
E também se em outras esferas
Existe um acima e uma abaixo. (p.65)

Fausto
Que pretendes tu, pobre diabo, dar?
Algum espírito humano em seus altos anseios
Foi até hoje por um dos teus entendidos?
Todavia, tens comida que não satisfaz?
Tens ouro vermelho, que num instante,
Como mercúrio, dissolve-se na mão/
Um jogo, no qual jamais se ganha?
Uma jovem, que enquanto me abraça
Seduz com olhares meu vizinho?
Tens o prazer dos deuses, a glória,
Que desaparece como o raio?
Mostra-me o fruto que apodrece antes de colhido
E árvores que diariamente reverdecem! (p. 65/ 66)

Fausto
Se algum dia, em paz, imóvel, repousar num leito,
Seja este o meu último momento!
Se com lisonjas puderes seduzir-me
A encontrar prazer em mim mesmo,
Se puderes ao gozo converter,
Este seja, para mim, o último dia!
É a posta que proponho! (p. 66)

Fausto
E dobrado!
Se eu, ao momento que passa, disser:
“permanece! És tão belo!”
poderás lançar-me a ferros,
pois desejarei aniquilar-me.
Poderá soar o sino dos mortos,
Livre estarás dos teus deveres;
Pode o relógio parar, os ponteiros caírem,
O tempo terá para mim cessado. (p. 66)

Fausto
Não receia que eu quebre este acordo!
O objeto de toda minha força
É exatamente aquilo que prometo!
Enfunei-me e subi alto demais,
Minha estatura não passa da tua.
A Natureza fechou-se diante de mim;
Rompeu-se o fio do pensamento
E há muito a ciência me repugna.
Agora, no abismo da sensualidade,
Apazigüemos as ardentes paixões!
Nos impenetráveis recessos da magia
Preparem-se agora as maravilhas!
Lancemo-nos ao sussurrar do tempo,
No seio dos acontecimentos!
Poderão aí dores e prazeres,
Êxitos e fracassos
Alternam-se à vontade:
O homem encontrar-se-á sempre em ação. (p.68)

Fausto
Já sabes: não é alegria que busco;
Consagro-me ao tumulto, ao prazer doloroso,
Ao ódio apaixonado, à decepção que sacia.
Meu coração, curado do impulso de saber
Não se fechará no futuro a nenhuma dor;
Do que à humanidade foi destinado
Quero provar no fundo do meu ser,
Abarcar com o espírito o mais excelso e o mais baixo;
Seus prazeres e dores empilhar no meu peito,
Expandir meu ser até o dela atingir
E, também com ela, no fim, naufragar. (p.68)

Mefisto
.crê em mim, que há muitos milênios
mastigo esse duro alimento:
Nenhum homem consegue, do berço ao caixão,
digerir esse amargo fermento.
Acredita-me: esta totalidade
Só um deus pode conter;
Ele se encontra no eterno esplendor;
A nós lançou no reino das trevas
E a vós deu somente o dia e a noite. (p. 68)

Mefisto
...O tempo é curto, e a arte é longa;
Pensei que te deixarias instruir.
Associa-te a um poeta;
Deixa-o arcar com os pensamentos
E empilhar sobre tua cabeça
Todas as qualidades nobres... (p. 69)

Fausto
Que sou então, se não posso
Cingir a coroa da humanidade
Que todos os sentidos desejam? (p. 69)
Mefisto
Tu és, no final – o que tu és.
Põe na cabeça peruca de mil cachos,
Eleva-te em altos coturnos –
Mas permaneces, sempre – quem tu és. (p. 69)

Fausto
Eu o sei. Inutilmente apoderei-me
Dos tesouros do espírito humanos;
E quando finalmente avaliei-me,
Nenhuma força nova brotou-me no peito;
De um fio de cabelo não cresci,
Nem do infinito aproximei-me. (p. 69/70)

Mefisto
Meu caro senhor, tu vês as coisas
Como todo mundo as vê;
Precisamos fazer isto melhor
Antes que nos fuja da vida a alegria.
Ora bolas! Certamente, mãos e pés,
Cabeça e costas são tuas;
Entretanto, o que gozo no momento
Será menos meu?
Se posso atrelar seis cavalos
Não serão as suas forças minhas?
Eu os dirijo, um verdadeiro homem,
Como se tivesse vinte e quatro pernas.
Renova-te! Liberta os sentidos
E com eles mergulha no mundo!
Digo-te: o homem que filosofa
É um animal que em campo estéril
Circula, por cruel duende levado,
Tendo ao lado belas, verdes pastagens. (p. 70)

Mefisto
Daqui agora mesmo partiremos.
Este é um lugar de martírio!
Que vale isto na vida,
Entediar aos alunos e a si mesmo!
Deixa isto para teu vizinho doutor Pança!
Por que te cansares a bater palha?
O que de melhor sabes
Não podes jamais dizer a meninos
E agora mesmo ouço um à tua porta! (p. 70)

Mefisto
O pobre rapaz esperou muito,
Não deve partir sem resposta... (p. 71)

Mefisto (vestido de Fausto)
Despreza a razão e a ciência,
Supremas forças do home;
Deixa em ti crescer, pela ação do Farsante,
As artes da magia e da ilusão,
E a ti terei na certa!
Deu-lhe o destino um espírito
Que sem cessar para a frente o impele
E cujo precipitado esforço
Não lhe permite da terra as alegrias.
Vou carregá-lo para a vida selvagem,
Pela superficialidade sem sentido;
Comigo se agarrará; estrebuchará, ficará hirto;
E sua insatisfação terá comida e bebida
Suspensas, frente aos lábios sedentos.
Clamará inutilmente por alívio
E, mesmo se ao diabo não se tivesse entregue,
Estaria de qualquer modo perdido! (p. 71)

...Mefisto responde que, para bem nutrir-se aos seiso da ciência, é necessário o hábito; este virá, como ao recém-nascido que primeiro recusa o seio materno e mais tarde o toma com prazer... A fábrica do pensamento funciona como é feita a obra de um mestre tecelão: um só gesto move milhares de fios, os carretéis sobem e descem, um movimento faz múltiplas conexões. O filósofo aparece e prova que a coisa funciona deste modo: se a primeira proposição fosse assim, e a Segunda assim, a terceira e a quarta deveriam ser forçosamente tais; se as primeiras fossem falsas, as últimas perderiam a validade... Diz, quanto ao Direito, que leis e regras perpetuam-se como uma doença, de geração para geração e de um lugar para outro; a razão torna-se insensatez, o benefício uma praga. Sofremos as leis de nossos avós, mas os direitos que nascem conosco não são jamais cogitados...Existem nela tantos venenos ocultos que estes confundem-se com os remédios.
Diz que sua essência é simples: estudar a Natureza e depois deixar tudo correr à vontade. É inútil cansar-se com ciência; só valem aí a esperteza, que verifica não faltar ao aluno, e a autoconfiança: quem em si próprio confia atraia a confiança dos outros...”eritis sicut Deus, scientes bonum et malum” (“e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal”). (p. 71/72/73)

Adega de Auerbach em Leipzig

...Vem dizendo Mefisto, “como pode a vida ser leve numa companhia alegre. Para este povo cada dia é uma festa. Não precisam de muito para divertir-se: fazem-no, como o gato, com a própria cauda. Se não têm ressaca, ou falta de crédito, estão despreocupados e contentes.”... (p. 73)

Cozinha de Bruxa

Mefisto
Como se julgaria feliz o macaco
Se também ganhasse na loteria!

(entrementes os filhotes brincam com uma grande esfera e acabam por rolá-la para a frente dos visitantes.)

O Macaco
Este é o mundo:
Ele sobe, ele desce,
De rolar não pára;
Ressoa como vidro,
E como quebra logo!
Por dentro ele é oco;
Aqui ele brilha muito
E lá brilha ainda mais;
Meu caro filho,
Cuidado com ele:
É feito de barro,
Um dia se parte! (p. 78/ 79)

Fausto (que, frente a um espelho, ora dele se aproxima, ora dele se distancia.)
Que vejo! Que celestial figura
Surge neste espelho mágico!
Ó amor, empresta-me tuas mais rápidas asas
E leva-me às suas paragens!
Ah! E se não permaneço aqui,
Se ouso aproximar-me,
Vejo-a como na névoa!
A mais bela figura de mulher!
Será possível? Será tão bela uma mulher?
Estarei neste corpo estendido,
Vendo a síntese de todos os céus?
Existirá tal coisa sobre a terra? (p. 79/80)

Mefisto
Naturalmente, quando um Deus labuta uma semana
E ao fim diz a sim mesmo: bravo!,
Algo de belo deve ter feito!
Por agora contempla à tua vontade!
Saberei encontrar para ti um tal tesouro,
E ditoso aquele que tiver a sorte
De levá-la para casa como esposa! (p.80)

(Fausto continua em contemplação diante do espelho. Mefisto, instalado no banquinho e brincando com o leque, prossegue.)

sento-me aqui como um rei sobre o trono;
já tenho o cetro, só me falta a coroa. (p. 80)

Mefisto
Ainda falta muito.
Eu o conheço bem, soa assim o livro todo.
Com isso perdi muito tempo,
Pois uma contradição perfeita
É tão difícil para o sábio como para o tolo.
Meu amigo, a arte é velha e nova.
Foi o método de todos os tempos,
Com trindades e unidades, unidades e trindades,
Espalhar o engano e não a verdade.
Assim o homem conversa e ensina livremente;
Quem vai ocupar-se com tolos?
O homem sempre acredita, ouvindo palavras ocas,
Que nelas deve haver algum conteúdo. (p. 84)

Fausto
Que absurdo ela nos recita?
Estou com a cabeça a ponto de estourar.
Parece-me que ouço a falar
Um coro de cem mil loucos. (p. 85)

Mefisto (a Fausto)
Vem rápido agora e deixa-te conduzir;
Tens necessariamente que transpirar
Para que a força circule por dentro e por fora.
Ensinar-te-ei de hoje em diante a apreciar a nobre indol6encia,
E logo sentirás, com interna excitação,
Cupido mover-se e pular e pular aqui e ali. (p. 86)

Fausto
Pelo céu, esta menina ;é linda!
Algo assim ainda não vi.
É virtuosa e bem comportada
Mas tem, igualmente, um quê de picante.
Os lábios vermelhos, a face clara
Não esquecerei até o fim dos tempos!
Seu modo de baixar os olhos
Impregnou-se fundo em meu coração.
E sua curta parada, então,
Foi o mais encantador! (p. 87)

Mefisto
Para que vejas que à tua paixão
Sirvo leal e prestimosamente,
Nem um minuto perderemos.
Levar-te-ei ainda hoje à noite à sua casa. (p. 88)

Mefisto
Presentear logo? Muito bem! Irás ter sucesso!
Conheço muitos lugares bonitos
E velhos tesouros enterrados,
Mas necessito uma breve inspeção. (Sai.) (p.89)

Entardecer

Fausto (olhando em torno.)
Benvindo, doce crepúsculo
Que envolve este santuário!
Invade meu coração, suave pena de amor
Que vive, padecendo, do orvalho da esperança!
Como aqui se respira a sensação de calma,
De ordem, de contentamento!
Nesta pobreza, que abundância!
Nesta pequena cela, que felicidade! (p.90)

(Deixa-se cair na poltrona ao lado da cama.)

Recebe-me, tu que antepassados,
De braços abertos, recebeste na alegria e na dor!
Já quantas vezes penduraram-se
Em torno deste trono paterno, bandos de crianças!
E talvez, grata ao Senhor Jesus Cristo,
Tenha aqui o meu amor, com redondo rosto infantil,
Beijado piamente a mão murcha do avô.
Sinto, ó jovem murmurar à minha volta
Teu espírito de plenitude e ordem
Que, tal qual mãe, diariamente ensina-te
A abrir com cuidado a toalha sobre a mesa
E até mesmo a espalhar a areia pelo chão.
Ó mão querida, tão semelhante à de Deus!
Transformas a casinha em reino celeste!
E aqui! (levanta uma das cortinas do leito.)
Como espantoso prazer se apossa de mim!
Aqui, desejaria passar horas inteiras.
Natureza, aqui compuseste, em sonhos ligeiros,
Este único anjo!
Aqui repousava a criança com o peito
Palpitante da quente passagem da vida,
E aqui, em perfeita e santa textura,
Desenvolveu-se a imagem do Senhor!
E tu? O que te trouxe aqui?
Quão profundamente sinto-me tocado!
Que desejas aqui? O que te faz pesado o coração?
Infeliz Fausto, não mais te reconheço!
Rodeia-me aqui algum perfume mágico?
Sinto-me impelido ao gozo imediato
E envolvido na fantasia do amor?
De meros sopros de ar seremos nós brinquedos?
E se ela aqui, neste momento, entrasse,
Como repararias tua ofensa?
O grande homem, ah! Tornar-se-ia humilde
E a seus pés, arrasado, cairia! (p.90/ 91)
Mefisto
Não perguntas demais?
Pensas por acaso conservar o tesouro?
Sugiro então para a tua luxúria
A bela e clara luz do dia
E que a mim poupa mais trabalho.
Espero que não seja avaro!
Eu coço a cabeça, esfrego as mãos.
(Coloca no armário o escrínio e fecha de novo a tranca.)

Agora para fora! Rápido! –
Queres chamar para ti o desejo
E o coração da jovem, bela moça;
E aí ficas parado
Como se devesse entrar no anfiteatro
Onde em pessoa estivessem, à tua frente,
A Física e a Matemática!
Agora vamos!(Saem.) (p.90/91)

Margarida (Começa a cantar enquanto se despe.)
Existia um rei em Thule
Fiel enquanto viveu;
Sua amada, ao morrer,
Taça de ouro ofertou-lhe.

Mais que tudo ele a queria
Consigo, em todo festim,
Mas sempre, ao dela beber,
Seus olhos se anuviavam.

E sentindo-se a morrer,
Suas riquezas contou.
Ao herdeiro legou tudo
Mas não a taça de ouro.

Sentou-se à mesa real,
Seus cavaleiros à volta,
Na alta sala ancestral
Do castelo sobre o mar.

Lá o velho senhor bebeu
Da vida a última flama
E a taça amada lançou,
Nas profundezas do mar.

Viu-a cair, mergulhar,
No mar desaparecer.
Seus olhos também caíram,
Nunca mais gota bebeu. (p. 92)

Passeio

Fausto
Que tens? O que te morde tão forte?
Tal cara nunca vi na vida!

Mefisto
...A mãe chamou logo um padre
que, assim deu-se conta do assunto,
não cabia em si de satisfação.
Falou: “Eis uma pessoa bem sensata!
Quem se supera é quem ganhará.
A igreja tem um possante estômago;
Tem engolido terras e terras
E nunca delas teve indigestão;
Somente a Igreja, minha senhora,
Pode bens espúrios digerir”. (p. 94/95)

Mefisto
Está bastante inquieta,
Não sabe o que quer, nem o que faz... (p. 95)

Mefisto
Um maluco apaixonado como este
Jogaria para o alto sol, lua e estrelas
Só para distrair a namorada. (Sai.) (p. 96)

Casa da Vizinha

Mefisto
Ele delirava nos últimos momentos,
De forma clara até para um novato.
Dizia “tempo para divertir-me nõa tive;
Arranjei filhos, e tive de prover-lhes pão,
E refiro-me a pão em todos os sentidos,
De tal modo que nem minha parte comia em paz”. (p. 100)

Marta
Esqueceu então toda a fidelidade, todo o amor,
E o esforço constante, noite e dia! (p. 100)
Rua

Mefisto
...Não deste a Deus, do mundo, do que nele se move,
do homem e do que anda por sua cabeça e seu coração,
definições com grande ênfase,
com fronte atrevida e peito firme?
E no fundo de ti mesmo
De tudo isto sabias – aí deves concordar!... (p. 103)

Mefisto
Excelente!
O que virá depois de amor eterno e fiel.
De uma tatração única, irresistível –
Também será do coração? (p. 104)

Fausto
Deixa isso! Será! Se, para meus sentimentos,
Minhas emoções, meu íntimo tumulto,
Procuro nomes e nenhum encontro,
Com meus sentidos vagueio pelo mundo,
Busco as mais altas palavras...
E este fogo que me consome,
Incessante, eternamente,
É também uma diabólica mentira? (p. 104)

Fausto
Escuta! Ouve bem isto
- Por favor! – e poupa meus pulmões:
Quem quer ter razão e só tem um argumento
Certamente ficará com ela.
E chega, o palavrório entedia-me
E ficas com a razão, pois devo cedê-la. (p. 104)

No Jardim da Vizinha

Margarida
Bem percebo que o cavalheiro me poupa,
É condescendente, para que não me envergonhe.
O viajante habitua-se,
Por gentileza, a mostrar-se agradável;
Sei, com certeza, que a homens experientes
Minha palestra simples não pode agradar. (p. 104/105)

Fausto
Um olhar teu, uma palavra, agradam mais
Que toda a sabedoria deste mundo.
(beija-lhe a mão.) (p. 105)

Marta
Na idade do vigor ainda é possível,
Com liberdade, errar assim pelo mundo;
Mas, chegando aos anos difíceis
Solteirão, arrastar-se sozinho para o túmulo
Ainda a ninguém fez bem. (p. 105)

Mefisto
Com horror antevejo este tempo. (p. 105)

Margarida
Longe dos olhos, longe do coração!
Na sua gentileza é habitual;
Apenas seus amigos são numerosos,
E mais inteligentes que eu. (p. 105)
Fausto
Ó minha cara! Acredita, o que se chama de inteligência,
É quase sempre tolice e presunção. (p. 106)

Fausto
Ah! A simplicidade e a inocência
Jamais reconhecem seu sagrado valor!
Que a humildade, o anonimato, dons supremos
Que a natureza bondosa distribui... (p.106)


Margarida
Pensa em mim apenas um instante,
Terei tempo bastante para pensar em ti. (p. 106)

Marta
Dizei a verdade, senhor: não encontrou nada especial?
Vosso coração não se terá, em algum lugar, fixado? (p. 107)

Mefisto
Como diz o provérbio: um lar
E uma boa mulher valem ouro e pérolas. (p. 107)

Marta***
Pergunto se nunca um sentimento sério tocou vosso coração. (p. 108)

Margarida
Fiquei chocada, pois nunca me havia ocorrido.
Ninguém pôde jamais dizer algo de mim;
E pensei: terá ele visto em minha pessoa
Algo de ousado, inconveniente?
Bastou-lhe apenas ter vontade
Para, sem rodeios, abordar esta jovem!
Digo entretanto: não sabia o que,
Em mim, já agia em teu favor;
Mas certamente fiquei zangada comigo
Por não haver conseguido zangar-me seriamente. (p. 108)

Margarida (continuando)
Não me ama – ama – não me ama –
Ele me ama! (p. 109)

Fausto
Sim meu anjo! Que a resposta da flor
Seja para ti a palavra dos deuses! Ele te ama!
(Segura-lhe as duas mãos.) (p. 109)

Fausto
Não estremeças!
Que este olhar e
Este aperto de mão te transmitam
O que palavras não conseguem:
O abandono total de um ao outro
E a delícia de um êxtase eterno!
Eterno?! – Seu fim seria o desespero!
Não, sem fim, sem fim! (p. 110)

Floresta e Caverna

Fausto (só)
Sublime espírito, deste-me tudo
Que desejei. Não foi inutilmente que
Dirigiste para mim tua face entre as chamas.
Deste-me como reino a opulenta Natureza,
Força para senti-la e usufruí-la.
Não me permitiste uma fria visita,
Concedeste-me contemplar as profundezas do teu seio
Como o coração de um amigo.
Perante mim trouxeste a legião dos viventes
E ensinaste-me a conhecer meus irmãos
Na água, no ar e no silêncio dos bosques.
E quando a tempestade ruge na floresta
Derrubando abetos gigantes sobre caules,
Esmagando os troncos seus vizinhos
E o estrondo da queda ecoa nas colinas,
A mim mesmo, e em meu peito
Abrem-se profundas e secretas feridas.
Sobe a lua ante meus olhos
Clara e tranqüila; no ar flutua,
Saído das paredes rochosas e dos bosques úmidos,
O mundo de figuras de prta, que suaviza
A contemplação do vendaval.

Oh! Que ao homem nada completo será dado
Percebo agora. A esse êxtase,
Que dos deuses cada vez mais se aproxima,
Deste um companheiro que não posso mais
Dispensar; mesmo quando ele, frio e ousado,
Humilha-me perante mim mesmo,
Com uma frase reduz a nada os teus dons.
Após aquele belo quadro, sem demora
Ele acende em meu peito um selvagem fogo;
E assim oscilo entre desejos e prazeres
E no prazer deixo-me tentar por desejos. (p. 113)

Mefisto
Já estarás então cansado de viver?
Como se pode dar-te alegria durável?
Experimentar uma vez, muito bem;
Mas a seguir, que venha algo novo! (p. 113)

Fausto
Eu gostaria que tivesses mais afazeres
Do que perseguir-me à plena luz do dia. (p. 113)

Mefisto
Bem, bem! Com prazer deixo-te tranqüilo.
Com tipos como tu, ásperos, rudes, insensatos,
Há em verdade pouco a perder;
Deles têm-se, o dia inteiro, as mãos cheias!
O que os agrada, e o que se deve evitar,
Pelo rosto do fidalgo não se pode saber. (p. 113)

Fausto
Este é exatamente o tom correto!
Ele ainda quer gratidão por aborrecer-me!

Mefisto
Como terias, pobre filho da terra,
Conduzido sem mim tua vida?
Dos devaneios da imaginação
Já muito tempo curei-te;
E, não fosse por mim, já estarias
Passeando longe deste globo terrestre.
Que fazes tu aí, em grotas e cavernas,
Acocorado como uma coruja?
O que absorves, de rochas e úmidos pântanos
À guisa de alimento?
Um belo e doce passatempo!
O doutor ainda está em teu corpo. (p. 113)

Mefisto
Um prazer sobrenatural!
Estender-se à noite na relva das montanhas,
Céu e Terra abrangendo em êxtase;
Deixar-se expandir a proporções divinas,
Desvendar com a mente as profundezas da Terra,
Sentir no peito os seis dias de trabalho
E, com orgulho divino, gozar não sei o quê...
Sobre tudo derramar seu amor abrangente
Como se o filho da Terra não mais existisse;
E depois a elevada inspiração
(com um gesto)
não devo dizer como – encerrar. (p. 114)

Mefisto
Isso não te confortará;
Tens o direito social de escandalizar-te.
Ouvidos castos não podem ouvir
O que está no coração casto.
E simplesmente concedo-te o prazer
De mentir e a ti mesmo quando quiseres.
Mas não ficas assim muito tempo;
Estás novamente em desânimo
E, durasse mais, serias destruído
Pela loucura, medo e terror;
Chega disto! Teu amorzinho está sentado lá dentro
E tudo para ela é confuso e estreito.
Tu não lhe sais do pensamento,
Ela te ama com todas as forças.
Veio primeiro, transbordante, a tua ânsia de amar,
Como um riacho que cresce ao derreter-se a neve;
Tu a derramaste em seu coração
E agora está teu riacho outra vez vazio.
Parece-me que, em vez de entronizar-se na floresta,
Faria bem o grande senhor
Se destinasse à pobre jovenzinha
Um prêmio pelo seu amor.
O tempo para ela é dolorosamente lento;
Fica à janela, vendo as nuvens passar
Pelas velhas muralhas da cidade.
Fosse eu um passarinho! É o que exclama
Durante o dia e metade da noite.
Está às vezes bem chorosa,
E de novo calam – assim parece –
E sempre apaixonada. (p. 115)

Fausto
Perverso! Desparece daí
E não menciona a bela mulher!
Leva o desejo ao seu doce corpo,
Não mais à mente perturbada! (p. 115)

Fausto
Dela estou perto, e distante estivesse,
Não posso nunca esquecê-la e jamais perdê-la;
Invejo até mesmo o corpo do Senhor
Pois seus lábios às vezes o tocam. (p. 115)

Mefisto
Belo! Tu praguejas, eu devo rir.
O Deus, que criou mulher e homem,
Viu nessa ocupação a mais nobre
E não desdenhou, ele próprio, exercê-la.
Agora adiante, o falatório é grande!
Devias procurar o quarto do teu amor
E não assunto com a morte. (p. 116)

Fausto
Que é, em seus braços, a alegria do céu?
Deixem que me aqueça em seu seio!
Dela não sinto sempre a necessidade?
Não sou o fugitivo? O sem-lar?
O inumano sem- objetivo e sem paz,
Que como curso d’água cai de pedra
Buscando, furioso, as profundezas?
Ao lado da torrente, ela e seus ingênuos pensamentos
Como casinha em paisagem alpina,
Toda a sua inocente vida
Restrita a esse pqueno mundo.
Pois eu, o odiado por Deus,
Não considerei suficiente
Atirar-me sobre os penhascos
E reduzi-los a seixos?
Precisava também destruí-la, e a sua paz!
Tu, inferno, necessitavas esta vítima!
Ajuda-me então, demônio, a encurtar o tempo do terror!
O que deve acontecer, que aconteça logo!
Que o seu destino sobre mim desabe
E que, comigo, ela veja seu fim! (p. 116)

Mefisto
Como tudo de novo incendeia-se e ferve!
Vá e consola-a, idiota!
Onde essa cabeça não vê solução
Imagina logo, à sua frente, o fim.
Viva quem se mantém corajoso!
No resto, estás bem endemoniado.
Nada no mundo existe tão sem graça
Como um demônio que desespera. (P. 116)

Quarto de Gretchen

Gretchen (sozinha à roda de fiar)
A calma perdi,
Pesado é meu peito;
Não mais a encontro
E assim para sempre.

Se dele não sei
É como no túmulo,
E todo o universo,

Cheio de amargura.
A pobre cabeça
Anda-me à roda,
Meu pobre juízo
Feito em pedaços.

Se apenas o vejo
Através da janela
Já corro a segui-lo
Bem longe de casa.
Seu passo seguro

E nobre cabeça,
O sorriso nos lábios
E força do olhar;

A sua conversa
É discurso mágico;
O aperto de mão
E ah!...o seu beijo!

A calma perdi,
pesado é meu peito;
não mais a encontro
e assim para sempre.

Meu peito oprimido
Para ele se volta;
Ah! Se pudesse pegá-lo,
Pudesse prendê-lo,

Pudesse beijá-lo
À minha vontade
E entre seus beijos
A vida passar! (p. 117/118)

Jardim de Marta

Margarida
...És um homem de bom coração;
acho apenas que não a considera muito. (p. 118)

Fausto
Deixa isto, criança! Sentes o meu afeto;
Por meu amor daria o corpo e o sangue... (p.118)
Margarida
Ah! Se eu sobre ti tivesse algum poder!...(p. 118)

Fausto
Meu amorzinho, quem poderá dizer:
Eu em deus creio!
Podes interrogar padre ou sábio
E suas respostas sempre soarão
Como zombarias de quem pergunta. (p.119)

Fausto
Coisinha ingênua, procura compreender-me!
Quem ousa dizer-lhe o nome
E confessar em público:
Eu Nele creio!
E quem duvida
E pode atrever-se
A dizer: Eu Nele não creio!
O que tudo abrange
O que tudo sustenta
Não abrange, não sustenta
A ti, a mim, a Si próprio?
Pelo alto não se estende o céu?
Aqui embaixo não se situa a Terra?
Não sobem, cintilando amigas,
As estrelas eternas?
Não olho nos teus olhos
E tudo não me arrasta
Com coração e cabeça para ti
Tecendo um eterno segredo,
Invisível e visível, em torno de ti?
Com ele, em plenitude, enche teu peito
E se, repleta de emoção, és feliz
Chama-o felicidade! Amor! Deus!
Para isso não tenho nomes!
A emoção é tudo;
Nomes são ruído e vapor
Envolvendo o brilho dos céus! (p. 119)

Fausto
Dizem-no em toda a parte
Cada um em suas línguas;
Por que não o direi na minha? (p. 120)

Margarida
...Escrito está no seu rosto
que a ninguém tem afeto.
Sinto-me tão bem ao teu braço,
Tão livre e tão apoiada,
E a presença dele me fere as entranhas. (p. 121)

Fausto
Ah! Não poderei jamais
Descansar um momento em teu seio
Numa fusão de corações e almas? (p. 121)

Margarida
Basta-me somente olhar-te, querido,
E não sei o que me obriga ao teu querer!
Já tanto fiz por ti
Que por fazer já bem pouco me falta.
(Sai. Mefisto aparece) (p. 122)

Oratório na Muralha
Gretchen
Inclina,
Ó mãe sofredora
Tua piedosa face para a minha angústia!

Espada no coração,
Ao peso de mil dores
Olhas, no lato, a morte do teu Filho.

Para o Pai te voltas
Enviando suspiros
Por sua desgraça, e pela tua..
Quem sente
Como a dor
Penetra todo meu se?

O que meu coração inquieta,
O que o faz tremer, o que necessita
Só tu o sabes, somente tu!

Onde quer que eu vá,
Como dói, como dói
Aqui dentro em meu peito!

Eu estou, ah!, não mais sozinha,
E choro, e choro, e choro,
E o coração, em mim, parte-se.

As flores da minha janela
Hoje reguei com lágrimas
Quando, ao nascer do dia,
Estas para ti colhi.

A luz do sol brilhou
Bem cedo, em meu quarto,
Mas já me encontrou
Sentada no leito a sofrer.

Ajuda-me! Salva-me da vergonha e da morte!
Oh! Inclina
Mãe sofredora,
Tua piedosa face para a minha angústia. (p. 125/126)

Noite

Fausto
Como, da janela daquela sacristia
Projeta-se o brilho da eterna chama!
Ilumina à volta, cada vez mais fraco
E as trevas vão em torno fechando-se;
Assim está, esta noite, em meu coração. (p.127)

Fausto
Vai aparecer afinal, para ser visto,
O tesouro que aí atrás vi brilhar? (p. 127)

Mefisto
Mas não te deveria entristecer
Desfrutar algo sem recompensa.
E agora que o céu rebrilha de estrelas,
Ouvirás uma verdadeira obra-prima... (p. 128)

Valentim
...O acontecido, infelizmente, aconteceu
e o que deve daí resultar resultará...
quando a vergonha acaba de nascer
Ela é trazida ao mundo em segredo,
E o véu da noite é jogado
Sobre sua cabeça e ombros;
...À medida que cresce em força
Anda em pleno dia às claras,
Mas nem por isso mais bela.
Quanto mais hedionda a sua face
Mais procura a luz do sol...
Quando te olharem nos olhos,
Teu coração, no teu peito, falhará!... (p. 131)

Marta
Recomenda tua alma à misericórdia divina!
Desejas ainda, sobre ti, colocar mais peso? (p. 131)

Valentim
...Deste-me, no coração, o golpe mais profundo... (p. 132)

Na Catedral

Espírito Mau
...E sob teu coração
já algo não se agita
amedrontado e amedrontando-te
com um presente cheio de presságios? (p. 132)

Coro
Dies irae, dies illa
Solver saeculum in favilla. (Som de órgão.)
Palavras do texto latino da missa pelos mortos; tradução oficial: dia de ira, aquele dia: tudo será cinza quente.

Espírito Mau
A cólera celeste te domina!
Soam as trombetas!
Tremem os sepulcros!
E teu coração
Da calma das cinzas
Ressuscitado
Para as penas de fogo,
Treme também! (p, 133)

Coro
Judex ergo cum sedebit
Quidquid latet adperebit
Nil inultum remanebit.

Logo que o juiz se assente, o oculto ficará patente. Nada impune ficará. (p. 133)

Gretchen
Sinto-me tão abafada!
Os pilares de pedra
Aprisionam-me!
A abóbada celeste me comprime! – Ar! (p. 133)

Coro
Quid sum miser tunc dicturus
Quem patronum rorogaturus,
Cum vix justus sit securus?

Pobre de mim, que farei? Que patrono rogarei, se o próprio justo se inquieta? (p. 134)

Espírito Mau
Os redimidos desviam
De ti seus rostos.
Os puros recusam
Estender-te as mãos.
Ai de ti! (p. 134)

Noite de Walpurga

Fausto
Enquanto estiver firme nas pernas
Basta-me este nodoso cajado.
De que serve encontrar o caminho?
Percorrer o labirinto dos vales,
Depois escalar essas rochas
Donde as nascentes eternas se projetam,
É este o prazer desses caminhos!
A primavera já se insinua nas bétulas
E até os pinheiros já se sentem;
Não a devemos sentir também nos membros? (p. 135)

Mefisto
De verdade nada disto sinto!
O meu corpo está ainda invernoso,
Gostaria de neve e gelo em meu caminho.
Como triste se eleva o incompleto quarto
De lua vermelha, e com brilho tardio
Mal nos ilumina; a cada passo
Tropeçamos em árvores e pedras!
Permite que chame um fogo-fátuo!
Ali vejo um que brilha alegremente.
Olá, amigo!Peço que te aproximes;
Por que brilhar assim inutilmente ?
Sê, portanto, gentil e ilumina-nos o caminho. (p. 135)

(Fausto, Mefisto, Fogo-Fátuo, cantam alternadamente.)

em mágico mundo, na esfera do sonho,
estamos, parece, entrando.
Guiando-nos, sente-te honrado
Que logo cheguemos
Aos ermos e amplos espaços!

Olha a fileira de árvores
Que, rápida, por nós desfila;
Os rochedos que se inclinam
E as compridas cavernas
Como rosnam, como sopram!

Pelas pedras, pela selva,
Descem rios e riachos.
Ouço canto? Ouço sussurros?
Ouço juras amorosas,
Vozes da vida celeste?
O que queremos, o que amamos!
E o eco, como as lendas
De outros tempos, as repete.

“Uh! Shuhu!” soam próximos:
Corujas, frangos bravos e o gaio,
Estão todos acordados?
Entre os ramos, salamandras?
Pernas longas, grossos ventres!
E as raízes, como cobras,
Saem da terra e da areia,
Estendem compridos membros
Que nos assustam, nos prendem;
De velhos, nodosos troncos
Saem braços, como pólipos
No encalço do viandante. E os ratos,
Coloridos, como exércitos,
Pelos musgos, entre as urzes!
E vaga-lumes que voam
Em compactos enxames,
Parecendo falsos guias.

Diz-me, porém, se paramos
Ou se temos avançado.
Tudo parece girar:
Penhascos e árvores, que as faces
Golpeiam, e os fogos-fátuos
Que ora crescem, ora apagam-se. (p. 136)

Fausto
Como brilha estranhamente nos recessos
Uma turva , avermelhada luz!
E penetra nas mais profundas gargantas,
Nos mais longínquos abismos!
Sobe lá um vapor, por ali andam nuvens,
Acolá um braseiro fumega no escuro;
E então serpenteia um estreito caminho
Ou irrompe, súbito, como uma nascente.
Volteja então, por trecho mais longo,
Com centenas de veias, pelo vale,
E nos cantos estreitos
Vem de novo a unir-se.
Faíscas saltam nas proximidades
Como poeira dourada que se espalha;
Mas vê: em toda a sua altura
Incendeia-se agora a parede de pedra! (p. 137)

Fausto
Como silvam, pelo ar, as rajadas de vento!
Com que força golpeiam minhas costas! (p. 137)

Mefisto
Agarra-te às costelas da rocha
Ou cairás no fundo deste abismo.
Uma névoa escurece a noite.
Ouve o estrondo no meio da floresta!
As corujas voam assustadas;
Rompem-se os pilares
Dos palácios eternamente verdes!
Os caules gemem e partem-se!
Ouve o ribombo dos enormes troncos!
O ranger das raízes arrancadas!
Em pavorosa, confusa queda,
Desabam todas, umas sobre outras
E sobre as fendas abarrotadas
Os ventos uivam e silvam.
Ouve vozes nas alturas?
À distância? À tua volta?
Sim, irrompe em toda a montanha
Um furioso canto mágico! (p. 138)

Ambos os Coros
Cala-se o vento, corre a estrela,
A lua, turva, se esconde.
Sibilando, o coro mágico espalha
Na frente, mil fagulhas de fogo. (p. 139)

Ambos os Coros
...Quem hoje não se mexer,
perdido está para sempre! (p. 140)

Coro das Bruxas
...Quem hoje não voa, nunca mais voa. (p. 140)

Mefisto***
E muitos, também, formar-se!
Deixa que o mundo se apresse,
Aqui, na calma, instalemo-nos;
De muito tempo já se comenta
Que no mundo o homem faz pequenos mundos.
Vejo aqui bruxas jovens bem nuas
E velhas, espertas, vestidas.
Sê cordial, ao menos por minha causa!
O transtorno é pequeno, a diversão é grande.
Que instrumentos ouço soar!
Maldito palavrório! É preciso habituar-se.
Vem! Vem! Não pode ser de outro jeito;
Eu me aproximo e te conduzo,
Mais um favor te presto.
Que dizes, amigo? O espaço não é pequeno:
Olha só! Mal se vê o fim
Das cem fogueiras em filas;
Dança-se, conversa-se, bebe-se, ama-se –
Diz-me só, se algo existe de melhor! (p. 142)

General
Quem pode em nações confiar,
Após tudo que se faz por elas!
Com o povo e com as mulheres,
O que prevalece é a juventude. (p. 142)

Ministro
Do que é direito hoje estamos longe.
Minha homenagem os bons anciãos
Pois o período do nosso poder,
Foi certamente a mais bela das épocas. (p. 142)

Novo – Rico
E verdade que não fomos tolos
E muito fizemos que não deveríamos.
Hoje tudo virou ao contrário
Mas quisemos, mesmo assim, perdurar. (p. 143)

Escritor
Quem, hoje, ainda lê um livro
Mesmo pouco inteligente?
E a nova geração,
É a mais impertinente. (p. 143)

Mefisto
Minha tia, já não entendes os tempos;
O feito está feito, o que passou, passou.
Apresenta novidades!
Só a novidade nos atrai. (p. 143)

Mefisto
...Acreditas empurrar, quando és empurrado. (p. 144)

Fausto (dançando)
Ele? Está por toda a parte.
O que os outros dançam, ele julga.
Se não fala sobre cada passo,
É como se não tivesse ocorrido.
O que mais o irrita é se avançamos.
Mas se quisermos dançar à roda
Como ele faz, em seu velho moinho,
Isso ele achará bom,
Sobretudo se a cada volta o saudarmos. (p. 145)

Fausto
De fato os olhos são de um morto,
Que mão caridosa não cerrou... (P. 147)

Mefisto
Isto é feitiçaria, tolo que facilmente se engana!
Pois a cada um ela aparece como o seu amor. (p. 147)

Fausto
Que delícia! Que tortura!
Desse olhar não posso separar-me.
Como estranhamente, enfeita este belo colo
Um único, minúsculo colar vermelho,
Não mais largo que o corte de uma faca! (p. 147)

Sonho de uma Noite de Walpurga
Ou Bodas de Ouro de Oberon e Titânia

Oberon
Esposos: como se ama,
Venham conosco aprender!
É quando longe um do outro
Que o amor se fortalece. (p. 149)

Orquestra (pianíssimo)
Manto de névoa e de nuvens
Que do alto a luz dissipa;
Brisa leve entre a folhagem, o vento nos caniçais
E tudo em pó se desfaz. (p. 151)

Dia Sombrio
(Esta é a única cena, em toda a obra, originalmente em prosa.)

Fausto
Na desgraça! Desesperada! Miseravelmente girando pelo mundo e agora na prisão! Como criminosa, sujeita na masmorra a indizíveis torturas a inocente, amável criatura! Até isso! Traiçoeiro, indigno espírito, o que me ocultaste! Levanta-te, rola com fúria teus olhos diabólicos! Afronta-me em tua insuportável miséria! Entregue a malignos espíritos e a homens acusadores e insensíveis! E me conduzes a revoltantes diversões, escondes-me seu sofrimento crescente e a deixas perder-se sem socorro! (p. 151)

Fausto
...Toca-me a medula dos ossos a infelicidade desta única, e tu friamente comentas o destino de milhares! (p. 151)

Mefisto
Bem, estamos agora de novo no limite da nossa capacidade de entendimento, no ponto em que o equilíbrio do homem desintegra-se. Por que fazes tu conosco combinações que não podes concluir? Queres voar sem saber se suportas a vertigem? Fomos nós que te procuramos, ou tu a nós? (p. 151)

Mefisto
Buscas o trovão? Ainda bem que não foi dado aos miseráveis mortais. Destruir os inocentes adversários é o meio que usam os tiranos para livrar-se de problemas. (p. 152)

Mefisto
...Tenho por acaso todo o poder no céu e na terra? Posso turvar os sentidos do carcereiro e tu te apoderas das chaves e a conduzes para fora com mãos humanas... (p. 152)

Masmorra

Fausto (com um molho de chaves e uma lanterna, junto a uma portinhola de ferro)***
Sou tomado por um pavor perdido há longo tempo,
O sofrimento de toda a humanidade apossa-se de mim.
Aqui está ela, entre úmidas muralhas,
E todo o seu crime, uma doce fantasia!
Ir até ela te faz tremer?
Tens medo de vê-la de novo?
Adiante! Tua hesitação faz a morte mais próxima. (p. 153)

( Segura o cadeado. Alguém canta no interior.)

Minha mãe prostituta
Esta me matou!
Meu pai, o velhaco,
Este me comeu!
A pequena irmãzinha
Jogou minhas pernas
No frio da floresta.
Tornei-me então belo pássaro,
Voa daqui, voa daqui! (p. 154)

Gretchen
De quem recebes, carrasco, este poder sobre mim?
Queres levar-me à meia-noite?
Apieda-te e deixa-me viver!
Não é suficiente amanhã cedo? (Levanta-se.)
Sou ainda tão jovem, tão jovem,
E já devo morrer!
Era também bela, isso foi minha perdição.
O amigo estava perto e agora está longe;
Rasgada a coroa, espalhadas as flores.
Não me agarra com tanta força!
Poupa-me! Que te fiz eu?
Não deixes que suplique em vão!
Pois jamais te vi em minha vida! (p. 154)

Fausto (cai de joelhos)
Um amante está a teus pés,
Para dar fim à escravidão da miséria. (p. 155)

Gretchen
(Levanta-se de um salto. Caem as cadeias.)

onde está ele/ Ouvi-o chamar!
Estou livre! Ninguém me deterá.
Saltarei ao seu pescoço!
Descansarei em seu peito!...
Entre o silvos e rangidos do Inferno,
O furioso, diabólico tumulto
Reconheci o doce amado som! (p. 155)

Gretchen
Como? Não mais podes beijar?
Meu amigo, afastado há tão pouco
E não sabe mais beijar?
Por que estou tão temerosa abraçando-te
Quando antes da tua voz, do teu olhar,
Descia sobre mim o céu
E me beijavas como se quisesses sufocar-me?
Beija-me!
Ou beijar-te-ei eu! (Abraça-o.)
Que triste! Teus lábios estão frios
E calados!
Para onde terá teu amor
Partido?
Quem a isto conduziu-me? (Afasta-se dele.)

Fausto
Vem! Segue-me! Querida, coragem!
O amor por ti arde-me no peito;
Mas agora segue-me! Só isto peço-te! (p. 156)

Gretchen
Abres as cadeias,
Tomas-me de novo em teus braços...
Como é possível que não sintas horror de mim?
E sabes, amigo, quem tu libertas? (p. 157)

Gretchen
Não posso partir. Para mim não há esperança.
De que serve fugir? Se eles me vigiam!
É tão terrível viver mendigando,
E mais ainda com má consciência!
É tão triste errar por terra estranha...
E com tudo isso eles me encontrarão! (p. 158)

Gretchen
Se tivéssemos ao menos cruzado a montanha!
Lá está sentada minha mãe, numa pedra,
Um frio me passa pela nuca!
Minha mãe sentada na pedra
E balançando a cabeça:
Não pestaneja, não faz sinal, a cabeça pesa-lhe...
Dormiu tanto, agora não acorda mais...
Dormia para nossos prazeres!
Foram tempos felizes! (p. 159)

Primeiro Ato

Ariel (canta acompanhado por harpas eólicas.)
Quando a chuva da primavera
Sobre todos se derrama
E a verde bênção dos campos
Sorri a todos os homens,
Os elfos, pequenos seres,
Descobrem quem de ajuda necessita,
Seja santo ou pecador,
Do infeliz apiedam-se.

Vós que esta cabeça rodeias em leves voltejos
Procedei, como elfos, sempre de nobre maneira:
Suavizai no coração a fúria do combate!
Afastai as setas ferinas da auto-acusação,
Purificai seu íntimo da miséria vivida!
Quatro são as etapas do repouso noturno:

Fazei primeiro sua cabeça repousar sobre a fresca relva,
E banhei-a como o orvalho do Lete; (O rio do esquecimento – Mit. Grega)
Que os contraídos membros se relaxem
Enquanto se refaz rumo ao dia que chega.
Cumpram a mais bela missão dos elfos:
Devolvam-no à santa luz do dia! (p. 167)

Coro (cantos isolados, duetos e quartetos, em conjunto ou alternadamente.)
Quando as tépidas brisas espalham-se
Na planície verdejante
E doces ares, envolventes névoas,
Precedem a vinda do crepúsculo,
Murmurai baixinho calmas palavras,
Balançai o coração na paz das crianças,
Deixai cerradas as portas do dia.

A noite já caiu.
Agrupam-se as estrelas sagradas;
Grandes luzes e pequenos brilhos
Reluzem perto, cintilam longe,
Aqui o lago reflete seus raios,
À distância ilumina-se a noite;
Trazendo a felicidade da profunda calma,
Reina o pleno esplendor da Lua.

Dissipadas estão as horas,
Alegria e dor desaparecidas;
Pressente: serás consolado!
Confia no novo amanhecer!
O verde dos vales, as sombras dos montes
Misturam-se na calma da escuridão;
E nas oscilantes ondas de luz prateada
Pulsa a semente que será colheita.

Desejas alcançar teus sonhos?
Alça o olhar para o brilho distante!
O que agora te prende é tão tênue,
Sono é invólucro, rompe-o!
Não retardes a hora de arrojar-te
Quando a multidão hesita e recua!
Tudo [pode o nobre alcançar
Se, rápido, percebe e atira-se! (p. 168)

(Ruído ensurdecedor anuncia a aproximação do sol.)

Ariel
Ouvi! Ouvi avanço das Horas
Breve os elfos ouvirão
Os sons do dia que nasce.
As portas de granito, rangendo, separam-se;
As rodas de Febo rolam ruidosas
E que tumulto acompanha a luz!
Há sons de trompas e tambores,
Olhos se ofuscam, ouvidos confundem-se,
Não se pode ouvir o inaudível.
Escondei-vos nas corolas das flores,
Bem no fundo, e restai calmos
Nas rochas , ocultos na folhagem!
Se o ruído vos alcança, surdos ficaríeis. (p. 169)
Fausto
As pulsações da vida batem renovadas
Saudando a suave, etérea madrugada;
Tu, Terra, foste também fiel esta noite,
Respiraste nova vida a meus pés
E de novo cercas-me com entusiasmo;
Despertas e encorajas a forte decisão
De aspirar sempre à mais alta existência.
No clarão da manhã já está o mundo envolto,
Ressoam na floresta as mil vozes da vida;
Derramam-se pelos vales as manchas de névoa,
Mas a claridade do céu penetra no recantos,
Troncos e arbustos brotam despertos
Do sono nas fragrantes profundezas.
Cor sobre cor separa-se do fundo
Entre folhas e flores orvalhadas de pérolas:
Um paraíso levanta-se à minha volta.

Olhos para o alto! Os picos gigantescos
Já proclamaram a hora festiva;
Receberam primeiro as luzes eternas
Que mais tarde para nós se voltam.
Agora os verdejantes recessos dos picos
Irradiam novo brilho e clareza,
A luz atinge, ao descer, degraus inferiores
E aqui está ela! Ofuscado,
Preciso voltar-me; meus olhos não podem suportá-la.

E assim, quando uma ardente esperança
Dirigida ao mais elevado objeto
As portas da realização encontra abertas;
Vendo irromper dessas paragens eternas
A barragem de chamas, assustados paramos;
Quisemos acender o archote da vida
E um mar de flamas rodeou-nos – que fogo!
É isto amor? É isto ódio? Que escaldante nos cerca
Com suprema alegria, ou dor sem medida,
Que nos força a olhar de novo para a terra,
Procurando abrigo entre os véus da manhã?
Que o sol permaneça, pois, às minhas costas!
A catarata atraente entre as rochas,
Contemplo aqui com crescente fascínio.
De salto a salto desdobra-se em mil,
Lançando estrepitosamente, às alturas,
Flocos de espuma e jatos d’água.
E como é magnífica, nascendo do tumulto,
A descontínua curva do arco-íris:
Ora nítido, ora perdido no ar,
Expandido-se em fresca nuvem vaporosa!
Ele espelha bem a humana atividade;
Pensa nele, e entenderás melhor:
É o colorido, fiel retrato da nossa existência. (p. 170)

Palácio Imperial

Mefisto
O que é maldito e sempre bem-vindo?
Que é desejado mas repelido?
O que, para sempre bem guardado?
O que , acusado e fechado com chave?
Quem não se deve querer por perto?
Quem do teu trono te aproxima?
Quem dele distancia-se? (p. 172)

...Mefisto responde:
Pelas palavras reconhece-se o sábio!
O que não palpais, parece-vos distante.
O que não agarrais sempre vos faltará,
O que não podeis contar é inexistente,
O que não ousais carece de importância,
O que não cunhais, supondes, nada vale! (p. 172)

...Astrólogo comenta:
A distração afasta-nos do êxito.
Devemos primeiro organizarmo-nos,
E chegar ao mais alto começando por baixo;
Quem deseja o bem, primeiro seja bom,
Quem quer alegria, torne o espírito ameno.
Quem precisa de vinho, amadureça as uvas,
Quem espera milagres, fortaleça a fé. (p. 173)

Vasto Salão

...surge um grupo de jardineiros, cantando acompanhados por alaúdes. Esses levam frutos que mostram às floridas moças. Dizem, cantando, que venham, com suas flores, provar os frutos, que mais agradam ao paladar que á vista; à rosa dedica-se um soneto, enquanto a maçã espera ser mordida. Pedem que as jovens os aceitem como esposos, e os frutos atingirão sua mais completa maturidade; entrelaçados, constituirão árvores com rebentos, onde terão lugar, juntos, flores, folhas, botões e frutos. (p. 173)
...Um satírico aparece de relance e diz que os poetas o alegrariam se lhe permitissem dizer o que ninguém desejaria ouvir... (p. 174)

Arauto
Parece um rei, rico e compassivo!
Feliz quem seu favor consegue,
Nada mais tem a desejar.
Pois esse olhar revela o que nos falta
E quem recebe seu mais puro brilho
Possui mais do que o ouro pode dar. (p. 176/177)

O Condutor (ao Arauto)
Vejo que sabes descrever máscaras,
Mas enxergar além da superfície das coisas
Não é dado a mestres-de-cerimônia;
Visão mais aguda é necessária.

(à multidão) Os mais preciosos dos bens que possuo
aqui espalharei com mão generosa.
Vejam em muitas cabeças a pequena chama
Que de uma para outra salta,
Em uma fica, de outra apaga-se,
Mas raramente cresce e brilha
Forte, como em floração:
Na maioria, antes de ser reconhecida
A luz se acaba, tristemente extinta. (p. 177)

...Pluto responde:
Ele não suspeita o que de fora ameaça-nos!
Deixa-o continuar sua ridícula farsa!
Breve não lhe restará mais espaço livre;
A lei é poderosa, a necessidade ainda mais. (p. 178)

...Pluto ordena:
Vastidão imensa do espaço
Enche-te de refrescante vapor!
Aproxima-te, envolve-nos,
Manto de névoa, pesadas nuvens,
E cobre este tropel de chamas!

Vós que aliviais e umedeceis,
Transformai em relâmpago estival
Esta vã, orgulhosa brincadeira! (p. 179)

Jardim de Recreio

Mefisto
Garrafa de duas pernas, ressuscitado de novo? (p. 181)

Mefisto
Quem quiser que duvide do
Bom senso deste bobo! (p. 182)

Uma Escura Galeria

Mefisto
Hesitante revelo um grande segredo –
Deusas há, que reinam na solitude,
Onde não há espaço, nem tempo;
Falar delas nos embaraça.
São as Mães! (p. 182)

Mefisto
Nenhum caminho. No inexplorado,
Não para viandantes. Para o insuplicável,
Não para suplicantes. Estás pronto?
Não há ferrolhos nem fechaduras;
Serás impulsionado pelo isolamento;
Sabes o que são o deserto e a solidão? (p. 183)

Fausto
Dispensarias, pensava eu, tais discursos!
Isto cheira à cozinha das bruxa,
A um tempo tão distante.
Não tive que viver no mundo,
Aprender o vazio, ensinar o vazio?
Se, com bom senso, falava verdades,
A contestação surgiu redobrada.
Não precisei, fugindo à corrente oposta,
Procurar o isolamento e a floresta
E para não viver só, na amargura,
Entregar-me finalmente ao diabo? (p. 183)

Mefisto
Se tivesses nadado ao meio do Oceano
E, de lá, olhado à volta,
Ainda verias o ondular das vagas
Mesmo se o temor da morte te assaltasse!
Verias alguma coisa! Verias golfinhos
Deslizando pelo verde espelho do mar,
Verias nuvens em movimento, sol e estrelas;
Mas nada verás na distância eterna e vazia,
Não ouvirás teu próprio passo.
E nada de firme olharás para te apoiares. (p. 183)

Fausto
Falas como o maior dos mistificadores
A enganar crédulos neófitos.
Troquemos os papéis. Envias-me ao vácuo
Para que lá multiplique força e arte,
Empregas-me, como àquele gato,
Para trazer-te do fogo as castanhas.
Mas prossigamos! Cheguemos ao fundo:
No teu Nada espero encontrar o Todo. (p. 184)

Mefisto
És tão limitado que uma palavra incomoda-te?
Queres ouvir apenas o que já ouvistes?
A ti nada deve perturbar, por mais estranho que soe,
Habituado, como estás, a extraordinárias coisas. (p. 184)

Fausto
Mas não procuro salvar-me na inação;
O calafrio de medo é o que há de melhor.
Ainda que por ele o preço seja caro,
Atingido, a sensação é indescritível. (p. 184)

Mefisto
Desce então! Poderia também dizer: sobe!
É a mesma coisa. Foge do Criado,
Do reino aprisionado nas formas,
Sacia-te no há muito inexistente!
Qual fieira de nuvens dispõe-se o movimento:
Agita a chave bem longe do corpo! (p. 184/185)

Sala de Cerimônias

...Fausto invoca majestosamente:
Em vossos nomes, Mães, que reinais
No infinito e viveis na eterna solidão
E no entanto unidas! Em vossas cabeças
Pairam as imagens da vida em fermentação, sem vida.
Tudo que já existiu em forma e brilho
Aí se agita, como um registro da eternidade.
E vós Todo-Poderosas, todas as coisas dirigis:
Pela tenda do dia, pela abóbada da noite,
Umas caem no curso amável da vida,
Outras são procuradas pelo ousado mágico.
Em generosa distribuição cheio de confiança,
Ele nos mostra o que desejamos, o miraculoso. (p. 186)

Dama
Homens em tudo encontram faltas! (p. 188)

Fausto
Posso crer em meus olhos? Revela-se a mim
A mais suprema beleza, da mais pura fonte?
Minha viagem terrível tem nobre recompensa.
Como era o meu mundo incompleto e estreito!
Que se torna ele agora para mim?
Pela primeira vez desejável, sólido, durável!
Que o último sopro de vida me abandone
Se algum dia puder dispensar-te!
A figura perfeita que um dia encantou-me
E fez-me feliz ao olhar o espelho mágico
Era desta beleza uma longínqua visão!
Tu despertas em mim o sentido da paixão
E a ti ofereço adoração e o mais ardente amor! (p. 189)

Dama
Já percebo o que ela vai ensinar-lhe.
Nessas horas os homens são tolos;
Ele certamente acredita ser o primeiro. (p. 190)

Pajem
Em seu lugar estaria eu feliz. (p. 190)
Cortesão
Quem não se deixaria prender por esta rede? (p. 190)

Mefisto
Mas esta comédia de fantasmas é conduzida por ti! (p. 191)

Fausto
Que rapto? E aqui estou para nada?
E esta chave, não a tenho eu?
Que me guiou por terrores e tormentas
Da solidão de volta à terra?
Aqui tenho o pé firme! Está aqui o real,
Daqui partem as disputas de espíritos
E tem origem o imenso, duplo reino.
Estava tão longe, como pode estar tão próxima?
Eu a salvarei, e será duplamente.
Decidido! Vós, Mães! Mães! Deveis permitir!
Ela não pode abandonar quem a reconheceu! (p. 191)

Astrólogo
Fausto, Fausto! Que fazes? – Segura-a
A viva força, já seu vulto turva-se... (p. 191)

Mefisto (tomando nos ombros Fausto)
Aí está. Cercar-se de loucos. É maléfico até para o diabo. (p. 192)

Segundo Ato

(... Quando a afasta vê-se Fausto deitado num leito antigo.)

Descansa aqui, infeliz induzido
A tão fortes laços de amor!
Quem Helena paralisa
Não volta a si tão facilmente. (olhando ao redor.)
Para os lados ou para cima
Nada aqui foi tocado ou mudou.
As cores vivas parecem-me turvas,
As teias de aranha multiplicaram-se,
A tinta secou, o papel amareleceu,
Mas tudo ficou no lugar;
Até a pena aqui está,
Com a qual Fausto comprometeu-se com o diabo.
E mesmo, lá no fundo, agarra-se
Uma gotinha do sangue que lhe tirei!
Espero que um colecionador famoso
Possa obter por sorte esta peça única.
Também no velho cabide pendura-se o casaco
Que me recorda a comédia que encenei,
Doutrinando o recém-vindo calouro
Com idéias que talvez ainda o guiem.
Sinto em verdade o desejo,
Abrigo fumegante, de vestir-te de novo
E pavonear-me de docente,
Maneira com a qual tem-se sempre razão.
Os professores sabem como empregá-la,
Mas o diabo há muito a deixou. (p. 193/ 194)

Coro dos Insetos
...O velhaco bem se esconde
no fundo do coração;... (p. 194)

Mefisto
Como é surpreendente a alegria que me trazem!
Observe-se, é com o tempo que vem a colheita.
Sacudo mais uma vez este velho capote
E um ou outro ainda pula fora.
Para cima! Espalhai-vos! Para milhares de cantos
Correi a esconder-vos, meus queridos:
Lá entre as velhas pastas,
Ou nos papéis amarelos,
Nas rachaduras dos potes
E nas órbitas vazias deste crânio!
Em tal deserto e decadência
Deve haver para sempre grilos*. (Enfia-se no casaco.)
Vem, cobre-me de novo os ombros!
Mais uma vez, hoje sou Reitor.
,mas de nada adianta assim intitular-me:
quem, como tal, me reconhecerá? (p. 195)

*Goethe usa a palavra grillen no duplo sentido que tem igualmente em português: “inseto”e “maluquice”, “cisma”.

Mefisto
E muito bem! Grisalho e ainda estudante,
Bolorento senhor! Um doutor também continua estudando
Porque nada mais sabe fazer.
Constrói-se assim um razoável castelo de cartas
Mas um grande espírito sempre o deixa incompleto.
Teu amo é nisto bem versado:
Quem não conhece o ilustre doutor Wagner,
Hoje o primeiro no mundo da ciência!
Ele sozinho o sustenta,
Multiplicando diariamente a sabedoria!
Incansável na busca do saber, atrai
Multidões de ouvintes que o rodeiam.
Somente ele brilha do alto da catedral;
Usa palavras como São Pedro as chaves
E tudo decide, no céu e na terra.
Quando ele, em público, ilumina e deslumbra,
Nomes e reputações apagam-se.
Até mesmo o nome de Fausto é ofuscado;
É ele, sozinho, o único inventor. (p. 196)

Criado
A sua proibição é incisiva,
Não sei se devo ousá-lo.
Em grande trabalho, imerso há muitos meses
Vive o nosso sábio
No mais completo dos silêncios.
Seu aspecto é o de um carvoeiro,
Enegrecido do nariz às orelhas,
Olhos vermelhos de soprar o fogo.
A cada momento parece ansioso
E só ouve o tilintar das pinças. (p. 197)

Bacharel (assomando à entrada)
Vejo realmente portão e portas se abertas? Bem, isto já nos dá algumas esperança de que algo tenha mudado nos homens que aqui vivem como mortos, amargurados, em decomposição. Mas essas paredes ameaçam cair e se não me cuido, sobre mim cairão. Sou corajoso, porém não passarei daqui. Que momentos esperam-me hoje neste lugar aonde, há tantos anos, vim como calouro? Onde fui recebido por aquele barbado, em quem confiei e cujo palavrório tomei por guia? Pois transmitiram-me as mentiras aprendidas dos alfarrábios e nas quais eles mesmos não acreditavam, gastando inutilmente as suas e a minha vida.

Como? Lá no fundo do quarto, sentado, está o moreno claro, vestindo a mesma pele qual o deixe; pareceu-me então com melhor aspecto, certamente pela minha ignorância na época. A mesma conversa não me pegará agora, por isso aproximemo-nos.

Inicia o Bacharel, com ar insolente, a conversa com Mefisto. Pergunta-lhe se reconhece no graduado do momento o antigo neófito, ou já terão as águas do Lete turvado a velha cabeça? Os anos o tornaram um outro homem, mas em Mefisto ele nada encontra de novo.

O jovem afirma que todo o conhecimento acumulado até então de nada vale. Mefisto, no papel do velho professor, surpreende concordando: (p. 197/198)

Mefisto
Há muito que penso assim. Fui um imbecil
E sinto-me agora tolo e superficial. (198)

Mefisto
Procurei tesouros escondidos,
E carvões foi tudo que encontrei. (p. 198)

Bacharel
Confessa então: tua careca, teu crânio,
Não valem tanto quanto aquela caveira? (p. 198)

Mefisto (bem-humorado)
Será que não vês, amigo, que és grosseiro? (p. 198)

Bacharel
...continua o discurso sobre a supremacia da juventude; ao passar os trinta anos, o homem pode considerar-se morto, e melhor seria se toda a velha geração tivesse sido em tempo abatida. (p. 198)

Bacharel
O que a juventude pode dizer de mais precioso é:
O mundo não existia antes que eu o criasse;
Fui eu quem dos mares fez nascer o Sol,
Para mim começou a Lua a trocar fazes.
O dia enfeitou-se sobre o meu caminho,
A terra enverdeceu e floresceu sob meus passos.
Nã primeira das noites, um sinal de meus olhos
Fez desvelar o esplendor dos céus.
E quem, senão eu, desatou as cadeias
Que mantinham estreitos os teus pensamentos?
Sou livre, entretanto, e ouço a voz de meu espírito,
Sigo minha luz interior
E envolto em meu próprio encanto
Caminho para a claridade, deixo atrás as trevas! (p. 199)

Mefisto
Original, vá nadando na tua glória!
Como te magoarias se soubesses
Que todas as idéias, geniais e tolas,
Nosso antecessores já pensaram!
Mas com este não corremos perigo;
Em poucos anos estará diferente.
Mesmo que o mosto fermente errado,
Algum vinho, no final, sairá. (p. 199)

(Vira-se para a janela da platéia, que não aplaude.)

A vocês, que minhas palavras não tocam,
Como bons garotos, darei passagem;
Reflitam: o diabo é velho
E para entendê-lo, primeiro envelheçam! (p. 199)
Homúnculo
Então paizinho? Como vamos? Não era mesmo brincadeira.
Vem, aperta-me ao peito com carinho!
Não forte demais para não quebrar o vidro!
São assim as coisas:
Ao que é natural não chega o universo
Mas o artificial precisa ser confinado. (p. 200)

(A Mefisto)

...Pois já existo, devo fazer algo;
Quero de imediato mergulhar no trabalho
E tu sabes bem como encurtar-me o caminho. (201)

Mefisto
Um momento! Eu a antes perguntaria
Por que homem e mulher mal se suportam;
Isso então, amigo, nunca tirarás a limpo.
Aqui há o que fazer, como deseja o pequeno. (p. 201)

Homúnculo (Surpreso)
Interessante!

(O frasco escapa das mãos de Wagner e vai pairar sobre Fausto, iluminando-o)

bela paisagem! Cristalinas águas
em meio a densa floresta! Mulheres despindo-se,
As mais lindas! Isto vai cada vez melhor.
Uma entretanto destaca-se em beleza,
Da mais nobre raça de deuses ou heróis.
Coloca o pé na água transparente;
A sã vitalidade do nobre corpo
Refresca-se na aconchegante frescura das ondas.
Mas que tumulto é este, de asas batendo?
Sibilos, barulho de ondas revolvendo o límpido espelho?
As jovens fogem assustadas; sozinha
Fica a rainha, a olhar tranqüila,
E vê com satisfação e orgulho femininos
O príncipe dos cisnes chegar-se a seus joelhos
Com mansa autoridade; parece aí colocar-se,
Mas sobe ao ar uma cortina de névoa
E agora oculta com espesso véu
A mais bela de todas as cenas! (p. 202)

Mefisto
Miséria! Vá-te daqui! E deixa-me fora
Desta peleja entre tirania e escravidão!
Dá-me tédio, pois, mal terminada,
Já novamente recomeça
E ninguém percebe que são fantoches
De Asmodeus, que tudo arranja.
Todos dizem: lutar por liberdade
E são, vendo melhor, escravos contra escravos. (p. 203)

Homúnculo
Deixa ao homem sua contraditória natureza!
Qualquer um precisa lutar como pode
Desde criança, para tornar-se finalmente Homem!
O problema agora é curar nosso doente.
Se tens algum meio, experimenta-o aqui;
Se não o fazes deixa comigo o caso! (p. 204)

Mefisto
...Esses gregos nunca valeram grande coisa!
O sensualismo livre nos deslumbram,
Põem no coração do homem pecados alegres!
Os nossos, achamos sempre sombrios.
E agora então? (p. 204)

Homúnculo
Bem, agora,
Tu ficas em casa, tens melhor a fazer.
Abre os velhos pergaminhos,
Reúne segundo a fórmula elementos vitais,
E com cuidado adiciona um ao outro;
Pensa no Porquê e ainda mais no Como!
Eu enquanto passeio num pedaço do mundo,
Talvez descubra o ponto sobre o i
E atinjo assim o supremo objeto.
A recompensa justifica tanto esforço:
Riquezas, honras, fama, vida longa e saudável
E - talvez – sabedoria e virtude. Adeus! (p. 204/ 205)

Wagner (triste)
Adeus! Isto me aperta o coração!
Já o receava, não mais te verei. (p. 205)

Mefisto
(Aos expectadores)

E dependemos todos, afinal,
Das nossas próprias criações. (p. 205)

Noite de Walpurga Clássica

...Os fogos de vigia ainda não se apagaram de todo, e já o solo exala o hálito do sangue derramado; como atraída pelo raro brilho da noite, reúne-se sobre o campo uma legião de personagens da legenda grega. A miragem das tendas desaparece, extinguem-se os fogos, e a lua derrama sua luz suave sobre a cena... (p. 205)

Algo brilhante que ilumina uma forma curva;
Pressinto vida, e não me convém
Aproximar-me de viventes que prejudico.
Traz-me má fama e nenhum proveito.
Ei-lo que desce. Por precaução, retiro-me. (p. 206)

Fausto (sozinho)
Onde está ela? – Não pergunta mais!
Se não for esta a terra que pisou,
Nem a onda quebrada sobre a sua quilha
Este é ar que falava a sua língua.
Aqui! Por um milagre, Qui na Grécia!
Senti logo o solo onde pisava
Quando em mim, o adormecido, ardeu um novo espírito.
Sinto-me com a força de um Anteu,
E, mesmo em lugar desconhecido,
Revistarei a fundo este universo da flamas. (Sai) (p. 207)

* Filho do deus dos mares Posêidon e da deusa da terra Gais ou Gê (mit. Grega). Invencível gigante, renasciam-lhe as forças ao tocar sua mãe Terra, e por isso Héracles (Hércules), pra vencê-lo, sufocou-o segurando-o no ar sobre os ombros.

Mefisto
Os homens chamam-me por muitos nomes... (p. 207)

Mefisto
...Deixa de mistérios ou, pelo menos, desiste de enigmas! (p. 208)

Esfinge
Se falares de ti, temos já uma charada.
Procura definir tua íntima natureza, assim:
“Necessário ao virtuoso e ao malvado,
tem uma couraça para duelo ascético
e um companheiro em loucas aventuras;
ambas as coisas, para Zeus divertir”. (p. 208)

Fausto (montando)
Aonde quiseres. Agradecer-te-ei para sempre!
Tu, o grande homem, o ilustre pedagogo,
O educador célebre de um povo de heróis,
O nobre círculo dos Argonautas
E todos os outros, criadores do mundo dos poetas! (p. 209)

Palas-Atenas, a deusa da sabedoria, transformada em Mentor, o amigo de Odisseu, instrui Têlemaco, filho do herói da Odisséia.

Fausto
És autêntico grande homem
Que não aceita elogios.
Busca modestamente evitá-los
E faz como se iguais existissem. (p. 210)

Quíron
Como? A beleza na mulher de nada vale;
É geralmente um quadro inexpressivo.
Só posso elogiar a criatura
Vibrante de alegria e vitalidade;
A beleza encanta a si própria,
É a graça que torna irresistível,
Como Helena, que aí carreguei. (p. 210)

Fausto
Já não estou bastante encantado
Para ter mais esta felicidade? (p. 210)

Fausto
Oh! Sinto-me agora
Totalmente fascinado! Narra-me: como foi?
Ela é meu único anseio!
De onde, para onde a levaste? (p. 210/ 211)

Quíron
Vejo que os lingüistas
Enganaram-te, como a si próprios.
Com a mulher-mito tudo é diverso.
O poeta a descreve como quer:
Jamais torna-se banal e nunca envelhece,
Seu aspecto é sempre atraente,
Será cedo possuída, assediada mesmo velha;
Em suma, o poeta não é sujeito ao tempo. (p. 211)

Fausto***
...Que rara felicidade,
Encontrar o amor contra a força do destino!
E não poderei eu, com anseio mais poderoso,
Trazer para a vida esta única figura?
Um ser eterno, rival dos deuses,
Grandiosa e suave, sublime e adorável?
Tu a viste uma vez, eu a vi hoje,
Tão bela quanto atraente e desejada!
Minha alma e meu ser são prisioneiros:
Não tenho vida se não posso encontrá-la! (p. 211/ 212)

Quíron
Estrangeiro, como homem estás encantado,
Mas entre espíritos pareces bem maluco... (p. 212)

Mefisto (parando)
Maldito destino! Raça enganada
De gente, de Adão até hoje!
Adquirimos idade, mas quem se torna sábio?
Ou já não foste bastante iludido?
Sabemos que este povo não vale muito,
Corpos cingidos, faces pintadas,
Nada sensato nos respondem.
Quando se os toca, os membros caem podres.
Isso podemos saber, ver e pegar
E no entanto dançamos por sua música! (p. 215)

Mefisto (avançando)
Para frente! E não te permitas
Entrar afoitamente na teia da incerteza... (p. 215)

Mefisto
Julguei-me um desconhecido... só folheio o mesmo livro... (p. 216)

Mefisto (sacudindo-se)
Parece que não ganho em esperteza;
O absurdo reina aqui como no norte,
Fantasmas, fantasias, aqui como lá,
Povo e poetas sem gosto.
Encontro até um carnaval,
Como em toda parte, uma geral loucura.
Agradei-me de traços suaves
E agarrei seres que me horrorizavam.
Gostaria sem dúvida de enganar-me
Se apenas durasse um pouco mais. (p. 217)

Mefisto
Melhor é decidires por ti mesmo.
Pois onde abundam os fantasmas
É também bem-vindo o filósofo.
Para agradar com arte e teorias
Delas inventa logo uma dúzia.
Só pelo erro chega-se à sabedoria;
Se queres ser algo, descobre à tua custa. (p. 218)

Mefisto
Surpreende-me que nenhum poeta vos tenha louvado.
Dizei-me: como pode ocorrer
Que vossas figuras não estejam no mármore?
Os escultores deveriam reproduzir-vos,
Não modelar Juno, Palas, Vênus e outras mais. (p. 220)

Fórcide
Cala-te e não despertes em nós desejos!
De que nos serviram ambições?
Nascidas na noite, parentas da sombra,
Mal nos conhecemos, e a ninguém mais. (p. 220)

Nereu
Serão vozes humanas o que ouço?
Como meu coração logo se turva!
Iludidos, tentando alcançar os deuses,
E condenados a permanecer onde estão!
Já poderia há anos descansar,
Mas preferi agir e fazer o bem;
E, ao contemplar, depois, o resultado,
Vi tudo igual, sem modificações. (p. 222)

Nereu
Que conselho? E homem algum aceita conselho?
A palavra sensata volta do ouvido surdo.
Quantos atos com resultado trágico
E o povo, como antes, nada aprende.
Aconselhei Páris como a um filho,
Antes que seu desejo seduzisse a mulher estrangeira.
Na margem grega ele postava-se, audaz,
Quando revelei-lhe o que via em espírito:
O céu espesso de rubra fumaça,
Árvores em chamas, no solo assassinato e morte,
O fim de tróia posto em fascinantes rimas,
Os milênios mais terríveis da história.
As palvras do velho soaram como brinquedo ao atrevido.
Seguiu seus instintos, Ílion caiu –
Um imenso cadáver, após tanto sofrer,
Para os abutres o melhor repasto.
E também Ulisses! Também a ele não predisse
Os artifícios de Circe, a fúria dos Ciclopes?
Suas próprias hesitações, a leviandade dos seus,
E todo o resto! Serviu-lhe de algo?
Só muito depois, tarde demais, o favor das vagas
Levou-o, bem sofrido, a praias amigas. (p. 223)

Tales
O sábio entristece-se com esses fatos,
Mas o compassivo vai tentar de novo.
Um só agradecimento o deixará feliz
E pesará mais que as ingratidões.
Nosso assunto é de suma importância:
Este jovem deseja existir sabiamente. (p. 223)

Proteu
...Antes de poder existir, já existe! (p. 224)

Tales
Submete-se ao sábio princípio:
Começa a existir como um pequeno ser
E está sempre atento ao movimento rápido.
Lá és regido por eternas normas,
Passarás por variadas formas,
E após muito tempo a homem chegarás. (p. 226)

Proteu
...Lá viverás no mundo sem limites
E andarás por onde te aprouver.
Mas não procures alçar-te às ordens maiores:
Uma vez transformado em homem
Para ti tudo estará perdido. (p. 226)

...Nereu ainda distingue Galatéia em seu trono, que
Brilha como uma estrela
Entre a multidão!
Entre tantos reluz a mais amada;
Embora tão longínqua
Cintila claramente,
Sempre verdadeira e próxima. (p. 226/ 227)
As Sereias
Que artifícios de fogo nos mostram as ondas,
Brilhando ao se quebrarem sobre as outras?
Para o alto sobem, oscilantes, luzes;
Os corpos refletem o clarão vermelho
E tudo à volta é tomado por fogo.
Assim reina Eros, que tudo começou!

Terceiro Ato

...O bem e o mal chegam ao homem sem aviso e mesmo se nos fossem anunciados encontrariam incredulidade... (p. 229)

...Encolerizada, continua Helena... ”Mas falo em vão, pois palavras não podem criar formas... (p. 230/ 231)

Infelizmente, à triste fatalidade,
À indizível dor de contemplar
Com olhos feitos para a beleza
O que é maldito e abominável. (p. 231)

Parca
“Para vingar-se, fará contigo o mesmo.
A beleza é indivisível, quem a teve inteira
Prefere aniquilá-la a dividir sua posse.” (p. 232)

Helena
Não posso punir o mal que causei!
Infeliz que sou! Por tão severo destino
Perseguida, de sempre enlouquecer
Os homens que nem a si próprios
Ou coisa alguma respeitam. Pilhando,
Seqüestrando, combatendo ou destruindo,
Fui conduzida, errante, por deuses,
Semideuses, heróis e até demônios.
Numa das vezes pus o mundo em conflito
E aonde vou levo agora a desgraça.
Despede este bravo, liberta-o!
Que a vergonha não chegue a quem um deus transtorna! (p. 236)

Linceu
Tens-me aqui de volta, rainha!
O rico suplica um olhar,
Contempla-te e sente-se
Ao mesmo tempo mendigo e rico.

Que era eu antes? Que sou eu agora?
O que se pode querer, ou fazer?
Para que serve o penetrante olhar?
Ele procura, sempre, onde tu estás.

Do lado leste viemos,
O Ocidente arrasamos;
Éramos uma grande massa
E um não sabia do outro.

Para a frente, tudo atacando
Lugar por lugar dominamos;
Onde eu hoje comandava,
Outro, amanhã, pilhava.

Olhávamos co rápido olhar:
Um se apossava da bela mulher;
Outro, do touro mais forte;
Cavalos levamos todos.

Eu buscava, entretanto, o raro,
O que de mais belo havia;
E o que os outros possuíam,
Para mim, eram folhas secas.

Estava em busca de tesouros.
Seguia o agudo olhar,
Que via em todos os bolsos
E penetrava os escrínios.

Acumulei ouro em pilhas
E as pedras mais preciosas.
Só a esmeralda merece
Brilhar em teu coração.

Que balance entre a orelha e boca
A gota de luz do mar!
Os rubis não serão vistos
No rubor de tuas faces.

Assim, o maior tesouro
Aqui coloco a teus pés;
Que tua seja a colheita
Das mais sangrentas batalhas.

Tinha tudo em minha posse
Dele agora me separo, e dou-to!
Julgava-o valioso e nobre
Mas agora vejo, é nada!

O que eu possuía perdeu-se,
É erva colhida e seca;
Restitui-lhe, com um olhar,
O seu valor de outrora! (p. 238)

Fausto
É fácil: é preciso que venha do coração!
E quando o peito transborda de emoção
Olha-se à volta e procura-se - (p. 238)

Fausto
Mal respiro, as palavras faltam-me!
Isto é um sonho fora de tempo e lugar. (p. 240)

Fausto
Não analises o teu destino único!
Viver, mesmo por um momento, é nosso dever. (p. 240)

...Tudo que hoje acontece não é mais que um triste eco dos feitos de antanho... (p.244) – Coro

Fórcide
Ouvi a sublime música!\
Libertai-vos de quimeras!
Abandonai a multidão
Dos seus velhos deuses! Estão no passado.

Ninguém os quer mais ouvir,
Queremos valor mis alto:
No coração só atua,
O que vem do coração. (p. 245)

Fausto
Como isto, tudo é achado:
Tu és minha, eu sou teu,
Unidos nos encontramos,
E que assim permaneçamos. (p. 246)

Eufórion
Deixai-me agora pular,
Deixai-me agora saltar!
Com todos os ventos,
Subir nas alturas
É a minha paixão,
Que já me domina. (p. 246)

Eufórion (conduzindo uma das jovens)
Trago aqui a briosa moça
Para ela tirar prazeres!
Por deleite, quando quero,
Curvo peito que resiste,
Beijo a boca fugidia
Mostro vontade e poder. (p. 249)

Eufórion
Sonhais com dias de paz?
Pois sonhe, quem assim quiser!
A guerra é a solução!
Vitória! E palavras tais! (p. 250)

Coro
Quem, na paz,
Deseja a volta da guerra,
Divorciado está
Do sonho de felicidade. (p. 250)

Eufórion
A quem nesta terra nasceu,
Sempre em meio a perigos,
Com ilimitada coragem
Derramando, livre, o seu sangue;
Àquele que os altos anseios
Não consegue controlar –
A todos os guerreiros
Ela só traz progresso. (p. 250/ 251)

Eufórion
...É do homem o férreo coração... (p. 251)

Helena e Fausto
Mal chegado ao limiar da vida,
Mal conhecendo a emoção dos dias,
Procuras a vertigem das alturas,
O infinito espaço da dor.
Somos nós, então,
Nada para ti?
E nossa aliança, um sonho? (p. 251/ 252)

Helena e Fausto
À alegria segue-se
Amarga dor.

(A voz de Eufórion vinda das profundezas)

mãe, no reino das trevas
não me deixes só. (p. 253)
Coro
(Canto Fúnebre.)
não te deixar só! Onde estiveres!
Pois acreditamos conhecer-te.
Ah! Se do dia te afastas,
Nenhum coração separar-se-á de ti.
Se lamentar mal soubéssemos,
Cantaríamos tua perda invejando-te:
Tua coragem, teu canto eram nobres e belos.

Ah! Nascido para a felicidade terrena,
Nobres pais, grandes poderes,
Tão cedo te perdeste,
Ceifado na flor da idade!
Um olhar agudo para ver o mundo,
Coração a tudo sensível,
Amado pelas beldades
E um canto incomparável.

Mas teu caminho perseguiste
Na intrincada desordem
E assim te separaste
Dos costumes e das leis;
No fim, a mais alta aspiração
Levou à maior audácia;
Desejaste o mais sublime,
Sem atingi-lo, porém –

Quem o consegue? Pergunta turva,
Que o destino não responde,
Quando em dias de desgraça,
Sangrando, todos calam.
Mas ressoam novos cantos,
A tristeza não perdura;
A Terra de novo os forma,
Como os tem sempre formado.
(Pausa total. A música cessa.)

Quarto Ato

Fausto
Vendo a meus pés profunda solidão,
Imerso em pensamentos, nesta montanha encontro-me
E a nuvem dispenso, que por claros dias
Transportou-me sobre céus e mares.
Lentamente de mim separa-se, sem desfazer-se,
E para o leste dirige-se em curvos movimentos.
A visão encantada, esforça-se por segui-la;
Ao dividir-se, transforma-se, muda em ondulações,
Mas conserva uma forma. Sim, a visão não me engana!
Vejo reclinada sobre coxins dourados pelo sol
Uma imensa e divina figura de mulher!
Como Juno, Leda ou Helena,
Com que adorável majestade flutua ante meus olhos!
Ah! Agora perde-se, o contorno alarga-se, estende-se
E descansa no Levante, como os picos gelados,
Refletindo a grandeza dos dias que se foram.

Mas uma tênue e clara faixa de névoa
Rodeia-me ainda o peito e a fronte, qual terna carícia.
Agora sobe e, pairando cada vez mais alto,
Toma forma própria. Estarei iludido, tomando um belo quadro
Pelo já perdido, supremo bem da juventude?
Emergem do coração remotos tesouros:
OP sobressalto do primeiro amor
E o primeiro olhar, logo entendido
E guardado como o bem maior.
Qual beleza de alma eleva-se a nobre forma;
Sobe inteira pelos ares
E leva consigo o melhor de meu ser. (p. 257)

Fausto
Montanhas para mi são mudas.
Não indago: de onde? E nem: por quê?
Quando a Natureza a si própria formou
Fez arredondado o globo terrestre,
Alegrou-se em montes e ravinas,
Alinhou entre si rochas e montanhas,
Fez colinas aprazíveis,
Descendo para os vales em suaves linhas.
Aí tudo brota e cresce, e para alegrar-se
Dispensa a tua fantasia. (p. 258)

Mefisto
Mas sem dúvida virão poetas
Informar teu brilho à posteridade
E com loucuras despertar loucuras. (p. 261)

Fausto
Nada disto te é concedido;
Que sabes tu do que anima o homem?
Natureza amarga e contraditória,
Dos anseios do homem nada entendes. (p. 261)

Fausto
O alto-mar estava a contemplar:
Ele subiu, como sobre si mesmo,
Mudou de idéia e despejou as vagas
Atacando a vasta extensão da praia.
E isto desgostou-me, como audácia
Do ânimo ferozmente excitado
Confronta o livre espírito, que preza o Direito,
E em confusão coloca a sua mente.
Julguei enganar-me e observei melhor:
A onda parou e retrocedeu,
Afastou-se do ponto atingido,
Refez-se, e tudo recomeçou. (p. 261)

Mefisto (ad spetatores.)
Para mim nada existe de novo;
Já sei disto há milhares de anos. (p. 261)

Fausto (continuando com paixão)
Ela de novo chegou em milhares de pontos,
Em si mesma estéril, trazendo esterilidade;
Toma corpo, cresce, rola e domina
A áspera zona de praia desértica.
Assim onda após onda cheia de força,
Recua, esgota-se, e nada resulta!
Eis algo que levou-me ao desespero:
A errática, inútil força dos elementos!
Meu espírito ousou então superar-se:
Desejo aqui lutar, quero aqui vencer!

E isto é possível! A forte maré
Passa, mansa, ao pé da colina;
Por mais poderosa que se forme,
Alturas mínimas sem medo a afrontam,
Quando baixios são logo inundados.
Logo no espírito meus planos formei:
Atinge um difícil prazer,
Retira do mar o domínio da praia!
Reduz os limites da líquida massa,
Que venha a conter-se em menos espaço!
Já estudei meu plano com detalhes –
É este o meu desejo: ousas, tu, ajudá-lo! (p. 262)

Imperador
E no fim estou mesmo enganado!
Por vós fui atraído à rede
E horroriza-me senti-la apertar-me! (p. 269)

Mefisto
Coragem! Ainda não está perdida.
Conservai a frieza e a calma!
As decisões finais são sempre ferozes.
Tenho meus bons mensageiros.
Ordenai que assuma o comando! (p. 269)

Mefisto
Pois nada vejo dessa festa aquática.
Só olhos humanos deixam-se enganar,
Eu me divirto com esse raro evento.
Vejo que correm em grandes grupos claros;
Os loucos crêem afogar-se
Andando livres sobre terra firme
E bracejando como se nadassem!
A confusão agora é geral. (p. 270/ 271)

...Ao inimigo, as trevas!
Que entre e ande na escuridão!
Relâmpagos nos quatro cantos,
De súbito luz ofuscante,
Seria maravilhoso!
Só faltam gritos de medo! (p. 271)

Fausto
As armaduras vazias
Animam-se ao vento fresco;
As ferragens matraqueiam, cascalham há muito tempo
Em concerto dissonante. (p. 271)

Tenda do Pretendente a Imperador

Arcebispo***
Primeiro: que o terreno, ampliado, onde pecaste,
Seja logo entregue ao culto divino!
Já contemplo em espírito os muros erguidos,
O sol nascente iluminando o coro,
Avançando a nave em forma de cruz!
Com o progresso cresce o júbilo dos crentes,
Que cruzam em massa os dignos pórticos;
O badalar dos sinos já rola pelo vale,
Partindo das altas torres que aspiram ao Céu!
O penitente aproxima-se para a nova vida!
No dia da consagração – que não demore!
Será tua presença o mais belo adorno. (p. 273)

Arcebispo
Para quem tem paciência, a hora chega. (p. 274)

Quinto Ato
Báucis
Bem! Foi de fato um milagre!
Mas hoje não me sinto em paz,
Pois a coisa não respeitou
As regras, o modo honesto. (p. 277)

Palácio

Fausto
Maldito toque! É vergonha demais
E ferino como um tiro covarde!
Meu reino é, pela frente, infinito,
Mas às costas fere-me o desgosto,
E o sino invejoso só faz lembrar-me
Que meu domínio é manchado:
Ó lugar das Tílias, a cabana,
A velha capela não são minhas.
Se lá desejasse descansar
Seria expulso por sombras estranhas,
Teria espinhos nos olhos e nos pés!
Oh! Como almejaria estar longe daqui! (p. 278)

Mefisto
...As grandes proezas que praticamos,
Estão em nossa carga refletidas... (p. 279)

Mefisto (a Fausto)
Com ar severo e sombrio
Recebes a rica sorte.
Teu esforço tem bom êxito... (p. 279)

Fausto
Este aqui maldito
É exatamente o que me desgraça!
A ti, tão matreiro, devo dizer
O que me trespassa o peito,
E detesto suportar!
Envergonho-me ao dizê-lo:
Os velhos devem ceder,
As poucas árvores que não possuo estragam-me o reino.
Lá, de copa a copa,
Construirei plataforma
Donde o olhar, sem barreiras,
Contemple tudo que fiz;
Abarque, de um só lugar,
A obra-prima do espírito
Conquistando, com hábil força,
Novas terras para o s povos.

Para nós grande tortura
Quando ricos é ver que algo nos falta!
O tocar do sino, o aroma das tílias
Cerceiam-me como igreja ou cova!
O poderoso impulso da vontade
Vem perder-se nestas dunas.
Como dar alívio à minha mente?
Se o sino toca, enfureço-me. (p. 280)

Mefisto
Um tal desapontamento
Deve a vida envenenar-te!
Como negociá-lo? A qualquer ouvido nobre,
Incomoda som de sinos;
O maldito bim-bão-bão
Destrói a calma da tarde,
E faz-se ouvir todo dia,
Da infância ao sepultamento:
Como se fosse a vida,
Entre o bim e o bão, um sonho vazio. (p. 280)

Fausto
Oposição e teimosia
Amarguram grandes feitos
E fazem-nos, a contragosto,
Renunciar à Justiça. (p. 280)

Noite Profunda

O sentinela Linceu (cantando na torre de vigia.)
A minha vida é nas torres
E o mundo me agrada.
Eu devasso à distância,
Vejo de perto
O mundo e as estrelas,
A floresta e os cervos.
Meus olhos, sois felizes
Com o que já vistes
De diversa natureza!,
Tudo sempre tão belo! (Pausa)

Mas não só para alegrar-me
Encontro-me aqui postado;
Que terrível espetáculo
Vejo ao longe acontecer!
Chamas enxergo a brilhar
Através das negras tílias.
O braseiro cresce forte,
Atiçado pela brisa.
Oh! É a cabana que queima
Com seu telhado de musgo!
Precisa rápida ajuda,
E nenhuma se apresenta!
Oh! O pobre velho casal
Que tanto cuida do fogo,
Será hoje dele vítima.

A capelinha desaba
Com todo o peso dos troncos!
Línguas de fogo, envolventes,
Agora já chegam às frondes.
E ao mesmo tempo, as raízes
Tornam-se brasas de púrpura!

(Longa Pausa. Canto.)

o que os olhos encantou
por séculos vai-se embora! (p. 282)

Mefisto e os Três Valentes (embaixo)
De volta estamos a toda pressa;
Perdão, nem tudo nos correu bem!
À porta batemos, chamamos,
Mas ninguém apresentou-se;
Insistimos com mais força
E a porta, podre, caiu.
Gritamos, ameaçamos,
Sem que ninguém atendesse.
Foi como sempre acontece,
Quem não quer não ouve nunca.
Mas nem por isso deixamos
De bem cumprir tuas ordens.
O casal nem sofreu muito.
Para, de medo, morrer;
Um estranho lá se escondia
E lutou, mas nada pôde.
No curto tempo da luta
Brasas em torno espalharam-se,
A cabana incendiou-se; agora reina livre
O fogo, que os três consome. (p. 283)

Fausto
Estais surdos às minhas ordens?... (p. 283)

Coro
Proclama o velho ditado:
De bom grado obedece ao poder!
Se és valente e afrontas a força
Arriscas terra, casa e vida! (Sai.) (p. 283)

Fausto (no balcão)
As estrelas guardam brilho e luz,
O fogo declina, faz-se pequeno;
Um sopro de brisa o reanima
E traz-me fumaça e cinzas.
Impensada ordem, cedo cumprida!
Que ondulantes sombras aproximam-se? (p. 284)

Meia-Noite

Fausto (no palácio)
Vi chegar quatro, só três partir;
Do que falavam não pude entender.
Algo soava como Pobreza,
Depois algo como Morte,
Abafado, surdo, espectral.
O caminho da liberdade ainda não achei.
Se pudesse da magia afastar-me,
A bruxaria esquecer
E ante a Natureza ser somente homem,
Então valeria a pena ser homem!

Isto já fui, até explorar as sombras
E imprecar contra mim e o mundo.
O ar agora é tão cheio de duendes
Que mais ninguém sabe como evitá-los.
Quando de dia domina a Razão,
Os sonhos, à noite, nos trazem fantasmas.
Das novas campinas voltamos alegres:
Um pássaro grasna; o que grasna? Desgraça?
Cercado, todo o tempo, por superstições:
Algo nos avisa, é favorável, indica-se!
Sempre sós, pelo medo abalados...
A porta range, e ninguém entra... ( Assustado.)
Está alguém aí? (p. 285)

Inquietude
Se o ouvido não me aceita
Penetro no coração.
Em formas sempre mudadas
Exerço incrível poder.
Nos caminhos, sobre as ondas
Companheira angustiante
Sempre encontrada, jamais procurada,
Tanto maldita, como adulada!
Jamais conheceste a inquietude? (p. 286)

Fausto
Só este mundo tentei explorar!
Os anseios peguei pelos cabelos:
O que não saciava deixei partir,
O que me escapava jamais persegui.
Só concebia e realizava
Para de novo querer, e assim
Com ímpeto, cruzei pela vida: primeiro forte,
Agora pensativo e sábio.
Conheço bastante este globo terrestre,
E além dele o homem não alcança.
Só o tolo para lá dirige os olhos
E cria nos céus a sua própria imagem!
A quem, firme na terra, olha à sua volta,
Ao forte, este mundo é grato!
Por que divagar na Eternidade?
O que ele conhece, deixa-se logo alcançar.
Assim deve regular seus dias de vida:
Se demônios maldizem, deixa-nos para trás,
Pelo caminho encontra alegria e tristeza
Insatisfeito em todos os momentos! (p. 286/ 287)

Inquietude
A quem cai em meu poder
Não serve a posse do mundo.
Eterna sombra o envolve,
O sol não se põe, nem nasce.
Parecendo estar feliz,
No espírito mora a treva,
E de todos os tesouros
Não chega a tirar proveito.
Servo da sorte e do azar,
Vai faminto na abundância,
E seja prazer, ou dor,
Ficará para outro dia;
Sempre do futuro espera
E viverá no vazio. (p. 287)

Fausto
Cala-te! Não te aproximes de mim!
Tais absurdos não desejo ouvir.
Vai-te! Esta triste ladainha
Perturba a mente amais forte. (p. 287)

Inquietude
Virá ele? Ou ir-se-à?
Não pode mais decidir.
No meio do rumo traçado
A cada passo claudica.
Cada vez mais se perde,
As coisas percebe errado,
Para todos um tormento;
Sufocando, mal respira,
Já sem vida, embora vivo,
Ainda espera e não se entrega.
Tal estado insustentável,
De dolorosa entrega e reação penosa,
Já liberto, ora esmagado,
Meio torpor e breve alívio
Num só lugar o confina
E para o inferno o prepara. (p. 287)

Fausto
Malditos fantasmas! Assim tratais
O gênero humano há milênios!
Até os dias comuns transformais
Em mesquinha rede de tormentos.
De demônios, bem sei, é difícil livrar-se,
A ligação da lama não se pode romper:
Mas teu poder de infiltrar-se, Inquietude,
Não reconhecerei jamais! (p. 288)

Inquietude
Experimenta-o então, enquanto
Com uma maldição despeço-me!
Os homens passam a vida cegos:
Seja-o também tu, finalmente, Fausto! (p. 288)

Fausto
A noite parece vir escura,
Só a luz interior brilha.
Apresso-me a fazer o que pensei:
Só a palavra do amo traz ação.
Fora das camas, servos! Um por um!
Fazei visíveis os meus planos!
Tomai as ferramentas! Pás e picat=retas!
Que a obra traçada se conclua!
De rija organização e denodado esforço
Resulta o mais belo prêmio.
Para concluir a obra mais vasta,
De milhares de mãos, basta um só cérebro. (p. 288)

Grande Pátio Externo do Palácio

Mefisto
Não é hora de requintes!
Procedei como é vosso modo:
O mais alto deite-se ao comprido no chão!
Outros cortem à volta a relva;
A moda dos nossos pais,
Aprofundai o relâmpago!
Do palácio para esta casa estreita:
O fim é este, estúpido. (p. 289)

Lêmures (cavando a terra com ares zombeteiros)
Quando eu era jovem, vivia e amava
Lembro-me, era tão bom!
Onde havia alegria e festa
Para lá iam meus pés.

Agora, porém, a pérfida velhice
Com seu ridículo atingiu-me.
Caí pela porta da cova;
Por que estava ela aberta? (p. 289)

Fausto
Um pântano cerca a montanha
E traz doença ao que já conquistamos.
Sanear este charco apodrecido
Seria coroar a bela obra.
Abro para milhões espaço
Senão seguro, pelo menos
Cultivável; onde animais e homens
No conforto do solo novo
Instalam-se nas colinas firmes
Elevadas pelo ardor da raça intrépida!
Aqui dentro terra fértil,
E lá fora, à sua borda, o mar feroz!
Se um ponto cede à força da maré,
Correm todos a reparar o dano. Sim! A este intento me dedico.
O resumo da sabedoria pode ser:
Apenas merece vida e liberdade
Quem diariamente as conquista!
E assim, rodeados de perigos,
Passam toda uma vida em labor.
Tal burburinho anseio por ver,
Estar numa terra livre, entre povo livre!
A tal momento poderia dizer
“Permanece, és tão belo!
E a marca de meus dias terrenos
Resistiria à passagem de séculos!”-
Do antegozo de tal felicidade
Vivo agora o mais alto momento. (p. 290/ 291)

(Fausto cai para trás, os lêmures o seguram e o estendem no solo.)

Mefisto
Nenhum prazer o satisfez, nem fortuna bastou-lhe,
E assim cortejou variadas miragens;
O último, vazio e amargo momento
Desejou o infeliz preservar.
Quem a mim resistiu tão tenazmente
O tempo derrotou: aqui o velho jaz na areia!
O relógio pára - (p. 291)

Mefisto
Passou! Palavra estúpida. Por que passou?
Passou e puro nada: exatamente iguais!
De que nos serve tanto criado?
Realizações para levar ao Nada?
“Passou!” Que quer isto dizer?
Vale tanto, como se não tivesse sido,
E, no entanto, anda à roda, como se houvesse existido.
Por isso, preferi o eterno vazio. (p. 291)

Sepultamento

Mefisto
O corpo aí jaz; se o espírito quer fugir
Mostro-lhe logo o papel, com sangue assinado.
É pena que hoje existam tantos modos
De sonegar almas ao Diabo.
Com os velhos métodos; a problemas
E os novos não nos recomendam;
O que eu fazia antes sozinho,
Exige agora ajudantes.

Atualmente tudo vai-nos mal:
Consagrados hábitos, direito antigo,
Em nada se pode confiar.
Antes elas saíam no último suspiro;
Eu estava atento e, como o ágil rato,
Paft! Sobre elas fechava minhas garras.
Agora hesitam em deixar a escura casa,
O abrigo do podre cadáver;
Os elementos, que se odeiam,
No fim as arrastam para fora.
Mesmo com cansativa vigilância
Fica a pergunta: quando? Como? Onde?
A velha Morte perdeu a virulência
E até mesmo a dúvida persiste:
Já olhei, cobiçando, corpos rígidos;
Pura ilusão! Em breve estremeciam, moviam-se.

(Com fantásticos-demoníacos rituais.)

Vinde com ânimo, apressai vosso passo,
Senhores de chifres retos e curvos!
Demônios de velha e boa cepa
Trazei convosco as fauces do Inferno!
Pois o Inferno tem goelas e muitas,
Que engolem cada um segundo o seu valor;
Mas na última hora, daqui para a frente,
Não daremos a isto maior atenção.

(A goela do Inferno aparece aberta à esquerda.)

Os caninos abrem-se; no teto das fauces
Nasce, furiosa, uma torrente de fogo;
No fundo, em ebulição,
Vejo a incandescência da cidade das chamas.
A massa vermelha, em fusão, chega aos dentes
E nela bracejam, em desespero, os danados;
Mas a hiena colossal as trinca ardente.
Nos recessos há outras torturas,
Tanto horror em tão pequeno espaço!
Fazeis bem em assustar os que pecam:
Julgam que é falso, sonho ou engano.

(Aos diabos com chifres retos e curtos.)
agora, pançudos patifes de cara vermelha,
gorduchos, brilhantes do enxofre do Inferno!
De pescoços curtos, troncudos, imóveis
Aqui de vigia, buscando ver se algo brilha!
A alma é assim, ou a psique com asas;
Arrancai-as, e será verme ordinário!
Vou então marcá-la com selo
E despachá-la para o turbilhão de fogo!

Vigiai as partes de baixo,
Barris! É este o vosso dever.
Se a ela apraz lá morar não se sabe com certeza.
No umbigo ela se esconde
E por aí, atenção, vos escapa.

(Aos diabos esquálidos de chifres longos e torcidos.)

Vós patetas, diabólicos gigantes,
Vasculhai o ar! Insisti sem cessar!
Estendei os braços, garras à mostra
Para agarrar a fremente fugitiva!
Ela não está bem na velha morada
E o gênio anseia por subir. (p. 292/ 293/ 294)

Mefisto
Que ruídos ouço! Chocalhar desafinado
Vem de cima, com o dia indesejável:
É a infantil, canhestra peça
Que tanto agrada o gosto dos beatos.
Sabeis que em horas de louco desespero
Planejamos destruir a raça humana;
Pois o mais infame, de tudo que inventamos,
Adapta-se bem às suas devoções.

Lá vêm os hipócritas, patetas,
Que já vários nos arrebataram
E com nossas armas nos guerreiam:
São também demônios, com disfarce;
Perder mais esta seria uma vergonha.
Cheguemos à cova, defendamos os bordos! (p. 294)

Mefisto
Hesiatis, temeis? É assim no Inferno?
Ficai firmes e deixai-nos espalhar!
Marotos, cada um no seu posto!
Pensam eles, com história de flores,
Esfriar os demônios ardentes?
Elas secam e murcham com nosso hálito!
Sopradores do Inferno, assoprai! – Chega!
Vosso bafo cresta todo o cortejo.
Não com tanta força! Fechai as bocas e ventas!
Diabos, soprastes forte demais;
Nunca sabeis a exata medida!
Não só murchas, mas secas, queimadas,
Já voltam elas com venenosas chamas claras.
Cerrai fileiras contra elas, juntai-vos firmes!
Nossa força falha, foi-se toda a coragem!
Os demônios farejam a agradável fragrância. (p. 295)

Coro dos Anjos
Botões que abençoam
Chamas que alegram,
Espalham amor,
Preparam deleites
Como quer o coração.

Palavras de verdade
E pelos ares, claros, eternos raios;
Por toda parte é dia! (p. 295/ 296)

Coro dos Anjos
O que não vos pertence
Deveis evitar!
O que a paz vos perturba
Procurai afastar!
Contra aquilo que usa força
Resistamos com valor.
O amor só aos que amam
Permite a livre entrada. (p. 296)

Mefisto
Ardem-me a cabeça, o peito e o fígado!
Um elemento acima dos demônios,
Mais aguçado que o fogo do Inferno!
Por isso gemeis tão fortemente,
Infelizes que ama! Que ainda na dor
Para os amados tornam os olhares.

Também eu! O que me atrai para o lado a cabeça,
Se convosco estou votado à luta?
Esta visão sempre tão hostil;
Em mim terá penetrado algum inimigo?
Gosto de ver as esplendorosas crianças;
O que me interdita maldizê-las?
E se me deixo enganar,
Que se chamará, de hoje em diante, o Tolo?
Esses patifes que odeio
Até que parecem-me agora tão amáveis!

Belas crianças, informai-me:
Não sois vós também da raça de Lúcifer?
Sois tão bonitos; na verdade, desejaria beijar-vos!
É como se chegásseis no momento exato.
Sinto-me tão natural, tão confortável,
Como se já vos tivesses visto mil vezes,
Atraentes como o secreto encanto dos gatos.
Cada olhar revela uma nova beleza;
Aproximai-vos, mais um olhar concedei-me! (p. 297)

Mefisto ( recuperando-se)
Que me acontece? Estou como Jó,
Todo uma só ferida, a si próprio assustando
E ao mesmo tempo vendo, no futuro, o triunfo
Da confiança em si e em sua raça;
Estão salvos os nobres do Demônio:
O feitiço do amor não lhes passa da pele!
Extinguiram-se as chamas malucas
E, como convém, eu as maldigo todas! (p. 298)

Mefisto (olhando à volta)
Mas como? Para onde foram?
Crianças, vocês me surpreenderam!
Arrebataram-me para o céu a presa!
Para isso farejaram por perto da cova!
Fui privado de um tesouro precioso e único:
A nobre alma, que tinha em penhor,
Foi-me vergonhosamente roubada.

A quem devo queixar-me?
Quem me reintegra no certo direito?
Foste enganado na tua velhice
E o mereceste, vais de mal a pior!
Procedi como tolo, repreensivelmente:
Um grande aparato está desfeito.
Desejos comuns, absurdo sentimento de amor,
Atacaram o desgastado demônio;
E para que tal infantilidade
Tenha atraído um duro veterano
É preciso que grande loucura
Se tenha dele apossado. (p. 299)

Desfiladeiros

Pater Ecstaticus (adejando para e para baixo)
Fogo eterno de prazer,
Ardente laço de amor,
No coração, dor fervente,
Transbordante ânsia de Deus.
Setas, atravessai-me!
Lanças, dominai-me!
Achas, arrasai-me!
Raios, fulminai-me!
Fim ao que nada vale,
E a tudo transitório;
Brilhe a estrela permanente,
Núcleo do amor eterno! (p. 299/ 300)
Nos desfiladeiros estão postados santos eremitas, em escola ascendente de santidade. O pater ecstaticus (em êxtase) levita, ensaiando o vôo para o Infinito.

Doctor Marianus (na mais alta e pura cela)
....(em êxtase)
Soberana deste mundo,
Possa eu, sob a Tenda azul
Da celeste abóbada,
Contemplar teu segredo!
Permiti que do coração do homem,
Com o mais sagrado amor,
A emoção séria e terna
Para ti se dirija!... (p. 304)
Místico e sábio dedicado ao culto mariano.

A Penitente (outrora chamada Gretchen)
Cercado por nobres espíritos
O recém-vindo mal reconhece,
Ou tem consciência da recente vida,
De tal modo assemelha-se à companhia celeste.
Vede como afasta de si os vestígios da terra
E do velho invólucro;
Como das vestes etéreas
Irrompe a força da prima juventude!
Concedei que o instrua:
O novo dia ainda o deslumbra! (p. 306/ 307)

Chorus Misticus
O temporário
É apenas metáfora;
A insuficiência
Aqui se completa;
O indescritível
Aqui tem lugar;
O eterno-feminino
Conduz-nos à glória. (p. 307)

FINIS