segunda-feira, 17 de maio de 2010

Chopin, Marcel Proust


O poeta deve apegar-se às massas sonoras, aos timbres, ao andamento melódico, aos compassos e harmonias. Tais ingredientes estariam, para estes poemas, assim como formas e cores estão para os dedicados pintores (...)
A primeira parte do poema secciona os ritmos largos do Alexandrino, pela multiplicação de cesuras – chegando ao seccionamento máximo no quarto verso, nervosa sucessão de acordes breves: “Revê, aime, souffre, crie, apaise, charme ou berce” (literalmente: sonha, ama, sofre, grita, aquieta, encanta ou embala). O efeito busca sugerir, no plano verbal, uma harmonização entrecortada, irisada e vibrátil, afim da arte de Chopin (...) (Moisés, 2001, p. 15).

Chopin

Chopin, mar de soluços, lágrimas, suspiros,
Que um vôo de ágeis borboletas atravessa,
A brincar com a tristeza, a apascentar seus giros.
Seduz, aquieta, sofre, agita, grita, apressa,
Ama ou embala, e faz rolar em meio às dores
O doce olvido do capricho teu, fugaz,
Como as borboletas embriagadas de flores:
Tua alegria é cúmplice da dor tenaz,
O alado torvelinho amaina os dissabores.
Das águas e da lua meigo confidente,
Príncipe da aflição ou grão-senhor traído,
Quanto mais pálido mais belo, entretido
Com o sol a inundar teu quarto de doente,
Tu te exaltas com a luz, a bem-aventurança
Da luz que chora o seu sorriso de Esperança.


Tradução de Carlos Felipe Moisés


Referências

Moisés; Carlos Felipe. Proust Poeta - Cult 52: revista brasileira de literatura. Ano V, novembro, 2001.

O desconcerto do Mundo – Coleção “Ensaios Transversais” Editora Escrituras.


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