sábado, 15 de maio de 2010

A Morte em Veneza, Thomas Mann



“Ele havia apreciado, ao menos desde que dispunha dos meios de usufruí-las à vontade, as vantagens do tráfego internacional, as viagens como nada mais que uma medida higiênica que tivera de ser tomada de vez em quando contra a vontade e a inclinação. Demasiadamente ocupado com as tarefas que lhe impunham se Eu e a alma européia; demasiadamente sobrecarregado pelo dever da produção; adverso demais a distrações para servir como amante do colorido mundo exterior, dera-se por satisfeito com a opinião que todos, sem se afastarem do seu círculo, podem obter da superfície do mundo, e nunca sequer se sentira tentado a deixar a Europa. Sobretudo desde que sua vida se inclinava devagar; desde seu medo artístico de não conseguir terminar – esta preocupação de o relógio parar antes de ter feito a sua parte e se ter dado por completo, não mais podendo deixar de ser considerado ou quase exclusivamente à bela cidade que se tornara um lar para ele, e à rústica casa de campo que construíra nas montanhas, onde passava os verões chuvosos” (p. 93).

“A pressão de se afastar da obra, do sítio cotidiano de um serviço rígido, frio e apaixonado (...) Agora este sentimento escravizado vinga-se, abandonando-o, recusando-se a continuar a carregar e alar sua arte, levando consigo toda vontade, todo entusiasmo na forma e na expressão? Não que produzisse coisas más: esta ao menos era a vantagem de seus anos, sentir-se serenamente seguro, em cada momento, de sua maestria” (p. 94).

“Para que um produto espiritual consiga exercer, imediatamente, um efeito profundo, é preciso existir uma afinidade, uma concordância mesmo, entre o destino pessoal de seu autor e o geral da geração convivente. Os homens não sabem por que dão fama a uma obra de arte” (p. 98).

“Penetrando com os olhos neste mundo narrado, vai-se: o elegante autodomínio que até o último momento esconde aos olhos do mundo uma minação interna, a decadência biológica; a amarela e sensualmente prejudicada feiúra, que é capaz de atiçar seu ardor de cio para uma chama limpa, elevar-se mesmo ao poder no reino da beleza, a pálida impotência, que busca a força das profundidades esbraseadas do espírito, para ter aos pés da cruz todo um povo arrogante, prostrado aos seus pés; a gentil atitude no serviço vazio e severo da forma; a falsa e perigosa vida, a rapidamente enervante saudade e arte do impostor nato: observando-se todo este destino e muita coisa parecida, podia-se duvidar se em geral existia um outro heroísmo que o da fraqueza” (p. 99).

Trechos do livro: MANN, Thomas. Tônio Kroeger/ A Morte em Veneza. Coleção Os imortais da literatura. Nº 17. São Paulo: Abril Cultural, 1971.

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