sábado, 26 de junho de 2010

Why is psychology good?, Martin Seligman


Martin Seligman talks about psychology -- as a field of study and as it works one-on-one with each patient and each practitioner. As it moves beyond a focus on disease, what can modern psychology help us to become?

Where does creativity hide?, Amy Tan


Novelist Amy Tan digs deep into the creative process, journeying through her childhood and family history and into the worlds of physics and chance, looking for hints of where her own creativity comes from. It's a wild ride with a surprise ending.

A new way to think about creativity, Elizabeth Gilbert


"Eat, Pray, Love" Author Elizabeth Gilbert muses on the impossible things we expect from artists and geniuses -- and shares the radical idea that, instead of the rare person "being" a genius, all of us "have" a genius. It's a funny, personal and surprisingly moving talk.
TEDTalks is a daily video podcast of the best talks and performances from the TED Conference, where the world's leading thinkers and doers give the talk of their lives in 18 minutes. Featured speakers have included Al Gore on climate change, Philippe Starck on design, Jill Bolte Taylor on observing her own stroke, Nicholas Negroponte on One Laptop per Child, Jane Goodall on chimpanzees, and "Lost" producer JJ Abrams on the allure of mystery. TED stands for Technology, Entertainment, Design, and TEDTalks cover these topics as well as science, business, development and the arts. Watch the Top 10 TEDTalks on TED.com, at http://www.ted.com/index.php/talks/top10

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Freud and Fiction, Paul Fry


Introduction to Theory of Literature

In this lecture, Professor Paul Fry turns his attention to the relationship between authorship and the psyche. Freud's meditations on the fundamental drives governing human behavior are read through the lens of literary critic Peter Brooks. The origins of Freud's work on the "pleasure principle" and his subsequent revision of it are charted, and the immediate and constant influence of Freudian thought on literary production is asserted. Brooks' contributions to literary theory are explored: particularly the coupling of multiple Freudian principles, including the pleasure principle and the death wish, and their application to narrative structures. At the lecture's conclusion, the professor returns to the children's story, Tony the Tow Truck, to suggest the universality of Brooks' argument.

domingo, 20 de junho de 2010

A Contemporary View of the Death Drive, Intellect or Instinct: Must We Choose?


The Oscar Sternbach Memorial Award is presented to Otto F. Kernberg, MD, former president of the International Psychoanalytical Association. His lecture, The Death Drive: A Contemporary View of the Controversy, is a critical examination of Freuds theory of the death drive based on psychoanalytic explorations of aggressive motivation in cases of both severe and borderline character pathology. He questions the assumption of an innate self-destructive drive but affirms the inborn nature of aggressive affects and the clinical relevance of Freuds concept. Cosponsored by the National Psychological Association for Psychoanalysis and the Department of Social Sciences at The New School.

Open Yale Courses - Foundations: Freud

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Symphony No. 2 (Resurrection), Mahler

Réquiem, Verdi

Carmina Burana, Carl Off



Fortuna, Imperatriz do Mundo/ Fortuna, Imperatrix Mundi

“... Vida detestável, ora maltratas ora exaltas como o Sol derrete o gelo, assim dissolves a miséria e o poder”. / “...Vita detestabilis, nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem, egestatem, protestatem dissolvit ut glaciem” (p. 15, 1a estrofe).

“Roda da sorte, monstruosa giras. Insensível, má e volúvel. Velada me persegues, me atormentas e por tua causa tudo perco, a saúde inclusive e a vida”. / “Sors immanis et inanis rota tu volubilis, status malus,, vana salus semper dissolubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris; nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris. Sors salutis et virtutis michi nunc contraria, est affectus et defectus semper in angaria” (p. 15, 2a estrofe).

“Nesta hora, sem mais demora lamentamos juntos o destino que esmaga o bravo”. / “Hac in hora sine mora corde pulsum tangite; quod per sortem sternit fortem” (p. 15, 3a estrofe).

“Lamento os golpes da sorte com os olhos plangentes. Ora ela me rouba os dons pródigos e tudo me tolhe”. / “Fortune plango vulnera stillantibus ocellis, quod sua michi munera subtrahit rebellis. Verum est, quod legitur fronte capillata, sed plerumque sequitur occasio calvata” (p. 15 e 7, 4a estrofe).

“Certa vez estava eu entronizado pela sorte, coroado por uma guirlanda de prosperidade. No auge da minha felicidade fui derrubado e roubado de toda minha glória”. / “In fortune solio sederam elatus, prosperatis vario flore Coronatus; quisquid tamen flouri felix et beatus, nunc a summo corrui gloria privatus” (p. 15, 7, 5a estrofe).

“Corre a roda da sorte; um cai outro se eleva. Em desconforto está o rei. Deixemos que ele perceba sua ruína, pois sob o eixo da roda lemos o nome de Hécuba”. / “Fortune rota volvitur: descendo minoratus; alter in altum tollitur; nimis exaltatus rex sedet in vertice – caveat ruinam! Nam sub axe legimusHecuban reginam” (p. 15 e 7, 6a estrofe).

Na Primavera / Primo Vere

“A face brilhante da Primavera mostra-se ao mundo, afastando o frio do inverno. Flora reina em seus mantos coloridos, Febo ri-se a seus pés e de flores cercado. Aspira Zéfiro a sua fragrância. Que haja uma competição, tendo por prêmio o amor. O rouxinol emite seu canto, os prados sorriem, voam os pássaros. Prometem as donzelas mil alegrias”. / “Veris leta facies mundo propinatur hiemalis acies victa iam fugatur, in vestiu vario Flora principatur, nemorum dulcisono que cantu celebratur. Flore fusus gremio Phebus novo more risum dat, hoc vario iam stipatur flore. Zephyrus nectareo spirans in odore. Certatim pro bravio curramus in amore. Cytharizar cantico dulcis philomena, flore rident vario prata iam serena, salit cetus avium silve per amena, chorus promit virginum iam gaudia millena” (p. 15 e 8, 7a estrofe).

“... Ama-me com fidelidade, sente a adoração constante do meu coração. Estou contigo, mesmo se distante. Quem partilha do meu sentimento a tortura do amor conhece”. / “Ama me fideliter, fidem mean nota de corde totaliter et ex mente tota. Sum presentialiter absens in remota, quisquis amat taliter, volvitur in rota”(pg. 16 e 8, 8a estrofe).

“Miserável é aquele que não ama, não se deixa possuir pelo desejo...” / “illi mens est misera, Qui nec vivit, nec lascivit...” (p.16 e 9, 9a estrofe).

Por que meu amor não volta? Ela se escondeu, pobre de mim quem me amará?”. / “...Wa ist min geselle alse lange? Der ist geriten hinnen, o wi, wer sol mich minnen?” (p. 16 e 9, 10a estrofe).


Na Taberna/ In Taberna

“Com ira e amargor falo a mim mesmo, feito de matéria cinza dos elementos. Sou como uma folha com que o vento brinca. Se um sábio constrói sua casa sobre uma rocha, eu, tolo, sou como um rio que corre sem definido rumo” / “Estatuans interius ira vehementi in amaritudine loquor mee menti: factus de materia, cinis elemneti, similis sum folio de quo ludunt venti. Cum sit enim proprium viro sapienti supra peram ponere sedem fundamenti, stultus ego comparor fluvio labenti, sub eodem tramite nunquam permanenti” (p. 17 e 10, 12a estrofe).

“Sou levado como um barco sem piloto, como ave que plana sem destino. Nada me retém, nada me prende. Olho para os meus semelhantes e aos depravados me junto. É muito pesada, sobre eu, a carga no coração. O que Vênus exige é suave labor. Nunca mora, o amor em corações covardes. Na estrada sem fim, movo-me como me ordena minha juventude. Ligado ao vício, despreocupa-me a virtude. Sou ávido mais por alegria do que por bem-estar; moro na alma, cuido só do meu corpo” / “Feror ego veluti sine nauta navis, ut per vias aeris vaga fertur avis; non me tenent vincula, non me tenet clavis, quero mihi similes et adiungor pravis. Mihi cordis gravitas res videtur gravis; iocus est amabilis dulciorque favis quicquid Venus imperat, labor est suavis, que nunquam in cordibus habitat ignavis. Via lata gradior more iuventutis, implicor et vitiis immemor virtutis, voluptatis avidus magis quam salutis, mortuus in anima curam gero cutis” (p. 17 e 10, 13a estrofe).

A Corte do Amor

“Que fizestes, ó infame destino? Tiraste todos os prazeres desta vida!” / “Quid fecisti sors turpissima? Nostre vite gaudia abstulisti omnia!” (p. 18 e 11, 15a estrofe).

“Por vossos lindos rostos minhas lágrimas brotam. Há um gelo em vosso coração. Um beijo só me devolveria à vida”/ “Tua pulchra facies, me fay planszer milies, pectus habet glacies. A remender, statim vivus fiercem per un baser”(pg. 19 e 12, 17a estrofe).

“Meu coração suspira. Anseio por tua beleza. Grande é minha miséria... Minha amada não vem. Teus olhos brilham como os raios de sol, como relâmpagos na noite. Que os deuses olhem com bondade para o meu desejo...” / “circa mea pectora multa sunt suspiria. De tau pulchritudine, que me ledunt misere...min geselle chumer niet. Tui lucent oculi sicut solis radii, sicut splendor fulguris lucem donat tenebris. Vellet Deus, vellent dii, quod mentre propossui...” (p. 19 e 13, 19a estrofe).

“Mais rubra que as rosas, mais alva que o lírio, mais bela que tudo o mais, sempre te glorificarei!” / “Rosa rubicundior, lilio candidior, omnibus formosior, semper in te glorior!” (p. 19 e 13, 21a estrofe).


terça-feira, 15 de junho de 2010

What is a Corporation?, The Corporation


The Corporation is today's dominant institution, creating great wealth but also great harm. This 26 award-winning documentary examines the nature, evolution, impacts and future of the modern business corporation and the increasing role it plays in society and our everyday lives.

For a playlist of all 23 chapters in order, please click on:
http://www.youtube.com/view_play_list...

Zeitgeist, The Movie: Federal Reserve (Part 1)

"The Shock Doctrine" & "No Logo", Naomi Klein


In-depth interview with internationally renowned author, journalist and syndicated columnist Naomi Klein on her new book "The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism". Klein is best known for her book from the year 2000, the international bestseller "No Logo: Taking Aim at the Brand Bullies". It was called "A Movement Bible" by the New York Times referring to its incredible impact on the anti-globalization movement.

In this extraordinary interview, Klein discusses the key ideas behind her concept of The Shock Doctrine and its importance as an alternate economic, social and political history of the last thirty years. She describes how the free market ideas of economist Milton Friedman and the Chicago School fostered the impact of shock from the 1970s Pinochet regime in Chile to the Bush administration today.

Disaster Capitalism, Naomi Klein


Nation columnist Naomi Klein explores a key argument from her new book, The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism: After 9/11 the Bush Administration launched a new economy, driven by the notion of an endless war against an undefined notion of evil. Read more in her 2005 Nation column "The Rise of Disaster Capitalism."

La crítica como llamado al cambio, Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman es sociólogo y filósofo polaco. Es uno de los pensadores más representativos de la actual crítica de la cultura, Tras la invasión nazi, su familia se refugió en la zona soviética y Bauman se alistó en el ejército polaco, que liberaría su país junto a las tropas soviéticas. Fue miembro del Partido Comunista hasta la represión antisemita de 1968; la consiguiente purga le obligó a abandonar su puesto como profesor de filosofía y sociología en la Universidad de Varsovia. Desde entonces ha enseñado sociología en Israel, Estados Unidos y Canadá. Es profesor emérito en la Universidad de Leeds. Su pensamiento se ha movido desde la especificidad del análisis del movimiento obrero hasta la crítica global de la modernidad. Es autor de una obra abundante, entre la que se encuentran libros fundamentales de la sociología contemporánea como La vida líquida, Vida consumo, El arte de la vida, Miedo líquido, y tantas otras obras.

What does it mean to be a revolutionary today?, Slavoj Žižek

Conversations with History, David Harvey

Distinguished geographer David Harvey joins host Harry Kreisler for a discussion of how the analytic tools of geography and Marxism can contribute to our understanding of the new imperialism. Series: "Conversations with History" [10/2004].

Le suicide au travail, Christophe dejours

Extrait du film "Le Travail Aujourd'hui: Bilan et Perspectives", un entretien très intéressant et très sérieux de Nicolas & Bruno avec Christophe Dejours (Psychiatre, psychanalyste, professeur au CNAM et Directeur du Laboratoire de psychologie du travail et de l'action), diffusé dans La Nuit de la Cogip sur Canal+. 26 minutes d'entretien illustré de Messages à Caractère Informatif.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Los nuevos Quijotes en Porto Alegre

Una discusión histórica y a la vez de última hora es preguntarse si hay una utopía implícita en la idea de combatir la globalización. ¿Es posible otro mundo? Durante el Quinto Foro Social Mundial de Porto Alegre, el Comité de Celebración del IV Centenario del Quijote llevó a discutir el tema a personalidades como Federico Mayor Zaragoza, José Saramago, Ignacio Ramonet y Eduardo Galeano.

Utopia ou O Tratado da melhor forma de governo, Tomás Morus



A maioria das pessoas ignora as letras; muitos as desprezam. Um bárbaro rejeita como grosseiro tudo o que não é francamente bárbaro. Os semiletrados desprezam como vulgar tudo o que não sobeja em termos esquecidos. Há os que amam somente o antigo. (p. 13).

Assim presta-se aos anciões a homenagem que lhes é devida, e a satisfação deles é partilhada por todos. (p. 88).

A natureza, como a mais generosa das mães, pôs a nosso alcance imediato o que ela nos deu de melhor, o ar, a água, a própria terra, ao mesmo tempo, afasta de nós as coisas vãs e inúteis. (p. 92).

Uma propensão marcada para a vida intelectual. (p. 96).

Ou, se te é não apenas permitido, mas ordenado, propiciá-lo aos outros como um bem, então não há por que não concedê-la primeiramente a ti mesmo, que tens o direito de ser tão benévolo contigo quanto com os outros. (p. 100).

Mas roubar o prazer de outrem ao buscar o seu é verdadeiramente uma injustiça, enquanto privar-se de algo em favor de outrem é verdadeiramente um ato humano e generoso. (p. 101).

Sem ter de pagá-lo com um sofrimento. (p. 102).

Eles se crêem munidos de uma superioridade real, quando esta é apenas ilusória, e levantam a crista, convencidos de terem acrescentado algo a seu valor. (p. 102).

Abster-se enfim dos prazeres cujos maléficos teria de reparar. (p. 108).

Mas, quando a um mal sem esperança se acrescentam torturas perpétuas, os sacerdotes e os magistrados vêm ver o paciente e lhe expõem que ele não pode mais realizar nenhuma das tarefas da vida, que ele se torna um peso para si mesmo e para os outros, que ele sobrevive à sua própria morte, que não é sensato alimentar por mais tempo o mal que o devora, que ele não deve recuar diante da morte, já que a existência lhe é um suplício, que uma firme esperança o autoriza a evadir-se de uma vida que se tornou um flagelo ou a permitir que os outros o livrem dela: que é agir sabiamente pôr um fim, pela morte, ao que deixou de ser um bem para ser um mal; e que obedecer aos conselhos dos sacerdotes, intérpretes de Deus, é agir da maneira mais santa e piedosa. (p. 114 e 115).

Uma desgraça da qual é inocente (p. 119).

São chamados pais e se comportam como se o fossem. (p. 119).

Tendo a lei por objeto unicamente lembrar a cada um seu dever, dizem eles, uma interpretação demasiado sutil, que poucos são capazes de compreender, só poderá instruir uma minoria, enquanto sua significação, resgatada por um espírito simples, é clara para todos. De que serve para a massa, isto é, para a classe mais numerosa e que tem a maior necessidade de regras, a existência de leis, se as que existem só têm sentido nas intermináveis discussões de personagens engenhosos, leis inacessíveis ao julgamento sumário do povo simples e muito menos a pessoas cuja vida está inteiramente ocupada em ganhar o pão? (p. 120 e 121).

Às forças próprias e aos ódios dos dois partidos em confronto, juntaram-se as paixões e os recursos dos povos vizinhos. (p. 124).

Pusessem fim a calamidades que nasciam umas das outras. (p. 125).

Procuram homens de bem para ter como amigos. (p. 129).

A vitória sendo arrancada dos que acreditavam tê-la e os vencedores se descobrindo vencidos. (p. 132).

Suplentes sucedem aos titulares à medida que estes morrem. (p. 142).

Mesmo a pobreza, que parece ter o dinheiro por remédio, desaparecerá assim que ele tiver sido abolido. (p.152).

Trechos do livro: MORUS, Sir Tomás. Utopia. Tradução de Paulo Neves. Porto alegre: L&PM, 2006.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

The Vertigo of Lists, Umberto Eco

Viagem na irrealidade cotidiana, Umberto Eco



A Auctoritas
Desse modo o discurso cultural medieval parece, de fora, um enorme monólogo sem variações, porque todos se preocupam em usar a mesma linguagem, as mesmas citações, os mesmos argumentos, o mesmo léxico, e parece ao ouvinte que está de fora que se está dizendo sempre a mesma coisa, exatamente como acontece *a quem chega a uma assembléia estudantil, lê a imprensa dos grupinhos extraparlamentares ou os escritos da revolução cultural. (p. 91 e 92).

A pesquisa dos textos sagrados sejam eles Marx ou Mao, Guevara ou Rosa Luxemburg) tem antes de mais nada a seguinte função: restabelecer uma base de discurso comum, um corpo de autoridades reconhecíveis sobre as quais instaurar o jogo das diferenças e das propostas em conflito. Tudo isso com uma humildade completamente medieval e exatamente oposta ao espírito moderno, burguês e renascentista; não tem mais importância a personalidade de quem propõe, e a proposta não deve passar como descoberta individual, mas como fruto de uma decisão coletiva, sempre e rigorosamente anônima. Desse modo uma reunião em assembléia se desenvolve como uma questio disputata: a qual dava ao forasteiro a impressão de um jogo monótono e bizantino, enquanto nela eram debatidos não só os grandes problemas do destino do homem, mas as questões concernentes à propriedade. à distribuição da riqueza, às relações com Príncipe, ou à natureza dos corpos terrestres em movimento e dos corpos celestes imóveis. (p. 93).

As formas do pensamento
Mudando rapidamente (no que diz respeito a hoje) de cenário, mas sem nos deslocarmos um centímetro no que diz respeito ao paralelo medieval, eis-nos numa aula universitária onde Chomsky recorta gramaticalmente nossos enunciados em elementos atômicos que se ramificam em dois, ou Jakobson reduz a espaços binários as emissões fonológicas, ou Lévi-strauss estrutura em jogos antinômicos a vida parental e a textura dos mitos, ou Roland Barthes lê Balzac, Sade e Inácio de Loyola como medieval lia Virgílio, no encalço de ilusões opostas e simétricas. Nada está mais próximo do jogo intelectual medieval que a lógica estruturalista, como nada está mais próximo dela, no fim das contas, *que o formalismo da lógica e da ciência física e matemática contemporânea. (p. 93 e 94).

O político argumenta com sutileza, apoiado pela autoridade , para fundamentar em bases teóricas uma práxis de formação; o cientista tenta restituir uma forma, através de classificações e distinções, a um universo cultural explodido (como o greco-romano) por excesso de originalidade e pela confluência conflitante de contribuições demasiado díspares, Oriente e Ocidente, magia, religião e direito, poesia, medicina ou física. Trata-se de mostrar que existem abscissas do pensamento que permitem recuperar modernos e primitivos sob a égide de uma mesma lógica. Os excessos formalistas e a tentação anti-histórica do estruturalismo são os mesmos das discussões escolásticas, assim como a tensão pragmática e modificadora dos revolucionários, que então eram chamados reformadores ou hereges tout court, deve (como devia) apoiar-se em cima de furiosas diatribes teóricas e cada nuança teórica implicava uma práxis diferente. Até as discussões entre São Bernardo, partidário de uma arte sem imagens, depurada e rigorosa, e Suger, partidário da catedral suntuosa e pululante de comunicações figurativas, têm correspondência, em variados níveis e chaves, com a oposição entre construtivismo soviético e realismo socialista, entre abstratos e neobarrocos, entre teóricos puristas da comunicação conceitual e partidários mcluhanianos da aldeia global da comunicação visual. (p. 94).

A arte como bricolage
Quando se passa porém aos paralelos culturais e artísticos, o panorama se torna muito mais complexo. De uma lado temos uma correspondência bastante perfeita entre duas épocas que de diferentes modos, com semelhantes utopias educativas e com semelhante mascaramento ideológico de um projeto paternalista de direção das consciências, tentam preencher a diferença entre cultura culta e cultura popular, passando através da comunicação visual. Ambos são épocas cuja elite selecionada raciocina sobre textos escritos com mentalidade alfabética, mas depois traduz em imagens os dados essenciais do saber e as estruturas portadoras da ideologia dominante. Civilização da visão, Idade Média, onde a catedral é o grande livro de pedra, e de fato é o manifesto publicitário, o vídeo televisual, o místico almanaque que deve contar e explicar tudo, os povos da terra, as artes e as profissões, os dias do ano, as estações da semeadura e da colheita,
os mistérios da fé, as anedotas da história sagrada e profana e a vida dos santos (grandes modelos de comportamento, como hoje os astros e os cantores, elite sem poder político, como explicaria Francesco Alberoni, mas com imenso poder carismático).
Junto a essa maciça empresa de cultura popular desenvolve-se o trabalho de composição e colagem que a cultura culta exerce sobre os detritos da cultura passada. (p. 95).

Arte não sistemática mas cumulativa e compositiva a nossa como a medieval, hoje como então coexiste o experimento elitista refinado com a grande empresa de divulgação popular (a relação miniatura-catedral é a mesma que há entre o Museum of Modern Art e Hollywood), com intercâmbios e empréstimos recíprocos e contínuos: e o aparente bizantinismo, o gosto tresloucado pela coleção, o elenco, o assemblage, o amontoamento de coisas diferentes é devido à necessidade de decompor re reavaliar os detritos de um mundo precedente , talvez harmônico, mas já agora obsoleto, para ser vivido, diria Sanguineti, como uma Palus Putredinis, que fora ultrapassada e esquecida. (p. 97).


A transição permanente
Dessa nova Idade Média já se disse que será uma época de "transição permanente" na qual serão adotados novos métodos de adaptação: o problema não será tanto o de conservar cientificamente o passado quanto o de elaborar hipóteses sobre o aproveitamento da desordem, entrando na lógica da conflitualidade. Nascerá, como já está nascendo, uma cultura da readaptação contínua, nutrida de utopia. Foi assim que o homem medieval inventou a universidade, com a mesma desinibição com que os clérigos vagantes de hoje a estão destruindo: e talvez transformando. a Idade Média conservou a seu modo a herança do passado não para hibernação, mas para contínua retradução e reutilização, foi uma imensa operação de bricolage em equilíbrio instável entre nostalgia, esperança e desespero.
Sob sua aparência imobilista e dogmática foi, paradoxalmente, um momento de "revolução cultural". O processo todo foi naturalmente caracterizado por pestes e massacres, intolerâncias e morte. Ninguém diz que a nova Idade Média representa uma perspectiva de todo alegre. Como diziam os chineses para maldizer alguém: "Que você possa viver numa época interessante". (p. 99).


Não me parece seja o caso de sorrir sobre o delírio do assim chamado EIM, isto é, Estado Imperialista das Multinacionais. Podemos convir que o modo como é representado é de certa forma folclórico, mas ninguém pode deixar de ver que a política internacional planetária não é mais determinada por cada governo, mas justamente por uma rede de interesses de produção (podemos, enfim, chamá-la de rede das multinacionais), a qual decide sobre a política local, sobre a guerra e a paz e ela mesma estabelece as relações entre mundo capitalista, China, Rússia e terceiro Mundo. (p. 136).

Por que riem naquelas jaulas?
Qual era o sentido daquele meu conto? Que a cultura democrática tinha rotulado demasiado facilmente como reacionárias algumas teorias do comportamento animal de acordo com as quais existe na espécie (em qualquer espécie) uma cota de violência que deve manifestar-se de uma forma ou de outra. As guerras que, não sem razão, apesar da infame satisfação, os futurista tinham saudado como "a única higiene do mundo", são importantes válvulas de segurança que servem para desafogar e sublimar essa violência. Se não houver guerras (eu pessoalmente preferiria que houvesse o menos possível), será preciso aceitar a idéia de que uma sociedade expresse de algum modo a cota de violência que ela incuba. (p. 143).

Cada um é prisioneiro da própria história e dos próprios mitos nacionais. (p. 143).

Não quero sugerir que todas as ideologias e todos os ideais sejam desculpas transitórias para impulsos de violência que nascem do fundo da espécie. (p. 145).

Os verdadeiros heróis, os que se sacrificam pelo bem da coletividade e que a sociedade reconhece como tais, quem sabe muito mais tarde, tendo-os, em sua época, considerado como irresponsáveis e bandidos, são sempre pessoas que agem de má vontade. Morrem, mas prefeririam não morrer; matam, mas desejariam não matar, tanto é verdade que depois renunciam a gabar-se de ter matado, em estado de necessidade. (p. 146).

Os heróis verdadeiros são sempre arrastados pelas circunstâncias, nunca escolhem, pois se pudessem escolheriam não ser heróis. Sirva por todos o exemplo de Salvo D'Acquisto, ou dos muitos guerrilheiros foragidos nas montanhas que, capturados e torturados, não falaram para diminuir o tributo de sangue e não para aumentá-lo. (p. 146).

O herói verdadeiro é sempre herói por engano, seu sonho seria o de ser um honesto covarde, como todos. Se tivesse tido a possibilidade, teria resolvido o caso de outra forma, e de modo incruento. Não se gaba nem de usa morte, nem da de outrem. Mas não se arrepende. Sofre e cala, os outros é que se aproveitaram dele, tornado-o um mito, enquanto ele, o homem merecedor de respeito, não passava de um coitado que reagiu com dignidade e coragem diante de uma história maior do que ele. (p. 146).

Ao contrário, sabemos logo e sem titubear que devemos desconfiar daqueles que se atiram (e atirando) movidos por um ideal de purificação pelo sangue deles e de outrem, mas mais freqüentemente de outrem. Estão obedecendo a um comportamento animal, já estudado pelos etólogos. Não devemos nos admirar, nem nos escandalizar demasiado. Mas não devemos igualmente ignorar a existência desses fenômenos.
Caso não se aceite não se reconheça com segurança a fatalidade desses comportamentos (estudando as técnicas para contê-los, para prevê-los oferecendo-lhes outras válvulas de escape menos cruentas), arriscamo-nos a ser tão idea*listas e moralistas quanto aqueles cuja loucura sangüinária reprovamos. Reconhecer a violência como força biológica, isto é, materialismo verdadeiro (histórico ou dialético, pouco importa), e mal fez a esquerda que não estudou suficientemente a biologia e a etologia. (p. 146 e 147).


Sobre a crise da crise da razão
O problema não é matar a razão, mas pôr as más razões em condições de não prejudicar; e dissociar a noção de razão da de verdade. Esse trabalho honrado não se chama, entretanto, hino à crise. Desde Kant é chamado de "crítica" ou estabelecimento de limites. (p. 149).
A impressão diante de um sestro lingüístico como a crise da razão é que se deva definir, no começo, mais o conceito de crise do que propriamente a razão. E o uso indiscriminado do conceito de crise é um caso de sestro editorial. A crise vende bem. Nas últimas décadas assistimos à venda (nas bancas, nas livrarias, a domicílio ou pelo correio) da crise da religião, do marxismo, da representação, do signo, da filosofia, da ética, do freudismo, da presença e do sujeito (deixo de lado outras crises das quais não entendo profissionalmente, apesar de sofrê-las, com as da moeda, dos aluguéis, da família, das instituições e do petróleo). Daí provém o dito que corre, já famoso: "Deus morreu, o marxismo está em crise e eu também não estou lá muito bem" (p. 149).


Guerrilha semiológica
Não muito tempo atrás, se quisessem tomar o poder político num país, era suficiente controlar o exército e a polícia. Hoje é somente nos países subdesenvolvidos que os generais fascistas, para dar um golpe de estado, usam ainda os tanques. Basta que um país tenha alcançado um alto nível de industrialização para que o panorama mude completamente: no dia seguinte á queda de Krushev os diretores do Pravda, do Izvestia e das cadeias radiotelevisivas foram substituídos; nenhum movimento do exército. Hoje um país pertence a quem controla os meios de comunicação. (p. 165).

Como sugeriu o professor McLuhan, a informação não é mais um instrumento para produzir bens econômicos, mas tornou-se *ele próprio o principal dos bens. A Comunicação transformou-se em indústria pesada. Quando o poder econômico passa de quem tem em mãos os meios de produção para quem detém os meios de informação que podem determinar o controle dos meios de produção, também o problema da alienação muda de significado. Diante da sombra de uma rede de comunicação que se estende para abraçar o universo, cada cidadão do mundo torna-se membro de um novo proletariado. Mas a esse proletariado nenhum manifesto revolucionário poderia lançar o apelo "Proletários de todo o mundo, uni-vos!" Porque, mesmo se os meios de comunicação, enquanto meios de produção, mudassem de dono, a situação de sujeição não mudaria. No máximo, é lícito suspeitar que os meios de comunicação seriam meios alienantes ainda que pertencessem à comunidade. (p. 165 e 166).

Quando triunfam os meios de massa, o homem morre. (p. 167).


A falação esportiva
Mas já nessas definições se aninha o caruncho que corrói o gesto na raiz: a competição disciplina e neutraliza as forças da práxis. Reduz um excesso de ação, mas de fato é um mecanismo para neutralizar a ação. (p. 222).
Essa falação é aquela cuja função Heidegger esboçava em Sein und zeit: "A falação é a possibilidade de compreender tudo sem qualquer apropriação preliminar da coisa: a falação garante já de saída contra o perigo de falhar em tal apropriação: a falação, que está ao alcance de todos, não só desobriga da tarefa de uma autêntica compreensão mas foge a uma compreensibilidade indiferente através da qual nada mais de incerto existe... A falação não pressupõe a volição de um engano. A falação não tem um modo de ser do consciente fazer ver algo como algo diferente... A falação portanto, em virtude de usa indiferença a respeito da necessidade de remontar ao fundamento daquilo que é dito, é sempre, desde as origens, um fechamento". (p. 225).

Certamente Heidegger não pensava numa negatividade total da falação: a falação é o modo cotidiano pelo qual nós somos falados pela linguagem preexistente em vez de amoldá-la para fins de compreensão e descoberta. E é um comportamento normal. Para ela, porém, "o que importa é que se fale. E estamos aqui naquela função da linguagem que para Jakobson é a função "fática" ou de contato. Ao telefone (respondendo "sim, não, claro, está bem...") e na rua (perguntando "como vai?") a alguém cuja saúde não nos interessa; e ele sabe disso, tanto que brinca de responder "bem, obrigado") fazemos discursos fáticos indispensáveis para manter uma ligação constante entre os falantes; mas os discursos fáticos são indispensáveis justamente porque mantêm em exercício a possibilidade de comunicação, para fins de outras e mais substanciais comunicações; se essa função se *hipertrofia, temos um contato contínuo sem qualquer mensagem. Com um
rádio ligado fora da sintonia, cm um ruído de fundo e algumas descargas, nos avisando de que estamos, claro, numa certa comunicação com algo, mas não nos permitindo ficar sabendo de nada. (p. 225 e 226).

Uma foto
É previsível agora outra objeção, desta vez não por parte dos cultores da tradição: será que não é um exemplo desagradável de ideologia da neutralidade científica o fato de se estar ainda e sempre tentando analisar, definir, interpretar, anatomizar os comportamentos e os acontecimentos quentes e dramáticos com os quais se depara? Pode-se definir aquilo que por definição se subtrai a qualquer definição? Pois bem, é preciso ter a coragem de reiterar mais uma vez aquilo em que se acredita: nunca como hoje a mesma atualidade política é atravessada, motivada e fartamente alimentada pelo simbólico. Compreender os mecanismos do simbólico através dos quais nos movimentamos significa fazer política. Não entendê-los significa fazer uma política errada. Claro que é um erro reduzir os fatos políticos e econômicos apenas a mecanismos simbólicos, mas é igualmente errado ignorar essa dimensão. (p. 270).

Se for lícito (mas é cabível) fazer observações estéticas num caso desses, essa é uma das fotografias que passarão à história e que irão aparecer em mil livros. As vicissitudes de nosso século são resumidas por poucas fotos exemplares que marcaram sua época: a multidão desordenada que se derrama na praça durante "os dez dias que balaram o mundo", o miliciano morto por Robert Capa; os marines que fincam a bandeira numa ilhota do Pacífico; o prisioneiro vietnamita justiçado com um tiro na têmpora; Che Guevara arrebentado, esticado na mesa de uma caserna. Cada uma dessas imagens tornou-se mito e condensou em si uma série de discursos. Superou a circunstância individual que a produziu, deixou de falar daquele ou daqueles personagens isolados, mas passou a exprimir conceitos. é única, mas ao mesmo tempo remete a outras imagens que a precederam ou que a seguiram, por imitação. Cada uma dessas fotos parece um filme que a tinham visto. Às
vezes não se tratou de uma foto, mas de um quadro, ou de um manifesto. (p. 272).

A partir do momento em que surgiu, seu trajeto comunicativo começou: e uma vez mais o político e o privado foram atravessados pelas tramas do simbólico que, conforme sempre aconteceu, demonstrou-se produtor de realidade. (p. 273).

Trechos do livro: ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1984.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A literatura em perigo, Tzvetan Todorov



Se o texto literário não puder nos mostrar outros mundos e outras vidas, se a ficção ou a poesia não tiverem mais o poder de enriquecer a vida e o pensamento, então teremos de concordar com Todorov e dizer que, de fato, a literatura está em perigo (p. 12).

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloqüente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano (p. 23 e 24).

Os estudos literários têm como objetivo primeiro o de nos fazer conhece os instrumentos dos quais se servem. *Ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero, mas sobre as noções críticas, tradicionais ou modernas. Na escola, não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos (p. 26 e 27).

Além disso, não tenho dúvida de que concentrar o ensino de Letras nos textos iria ao encontro dos anseios secretos dos próprios professores, que escolheram sua profissão por amor à literatura, porque os sentidos e a beleza das obras os fascinam; e não há nenhuma razão para que reprimam essa pulsão. Os professores não são os responsáveis por essa maneira ascética de falar da literatura.
É verdade que o sentido da obra não se resume ao juízo puramente subjetivo do aluno, mas diz respeito a um trabalho de conhecimento. Portanto, para trilhar esse caminho, pode ser útil ao aluno aprender os fatos da história literária ou alguns princípios resultantes da análise estrutural. Entretanto, em nenhum caso o estudo desses meios de acesso pode substituir o sentido da obra, que é o meu fim. Para erguer um prédio é necessária a montagem de andaimes, mas não se deve substituir o primeiro pelos segundos: uma vez construído o prédio, os andaimes são destinados ao desaparecimento. As inovações trazidas pela abordagem estrutural nas décadas precedentes são bem-vindas com a condição de manter sua função de instrumentos, em lugar de se tornarem seu objetivo próprio (p. 31 e 32).

É preciso ir além. Não apenas estudamos mal o sentido de um texto se nos atemos a uma abordagem interna estrita, enquanto as obras existem sempre dentro e em diálogo com um contexto; não apenas os meios não devem se tornar o fim, nem a técnica deve fazer esquecer o objetivo do exercício. É preciso também que nos questionemos sobre a finalidade última das obras que julgamos dignas de serem estudadas. Em regra geral, o leitor não profissional, tanto hoje quanto ontem, lê essas obras não para melhor dominar um método de ensino, tampouco para retirar informações sobre as sociedades a partir das quais foram criadas, mas para nelas encontrar um sentido que lhe permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo. O conhecimento da literatura não é um fim em si, mas uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um. O caminho tomado atualmente pelo ensino literário, que dá as costas a esse horizonte (“nesta semana estudamos metonímia, semana que vem passaremos à personificação”), arrisca-se a nos conduzir a um impasse – sem falar que dificilmente poderá ter como conseqüência o amor pela literatura (p. 32 e 33).

O texto só pode dizer uma única verdade, a saber: que a verdade não existe ou que ela nunca receberá qualquer resposta (p. 40).

Niilismo e solipsismo são claramente solidários. Ambos repousam na idéia de que uma ruptura radical separa o eu e o mundo, isto é, de que não existe mundo comum. Só posso declarar a vida e o universo como totalmente insuportáveis se previamente me excluo deles. Reciprocamente, só decido me dedicar exclusivamente à descrição de minhas próprias experiências se considero o restante do mundo sem valor e indiferente a mim. Essas duas visões de mundo são, portanto, igualmente parciais: o niilismo omite a inclusão de um quadro de desolação por ele pintado; o solipsismo negligencia a representação do contexto humano e material que o torna possível. Niilismo e solipsismo mais completam a escolha formalista do que a refutam: a cada vez, mas a partir de modalidades diferentes, é o mundo exterior, o mundo comum a mim e aos outros, que é negado e depreciado. É devido a isso que, em grande parte, a criação contemporânea francesa é solidária da idéia da literatura que se pode encontrar na base do ensino e da crítica: uma idéia absurdamente restrita e empobrecida (p. 44).

Quando passamos da perspectiva da produção para a da recepção, aumentamos a distância que separa a obra do mundo do qual fala e sobre o qual age, já que se quer percebê-la a partir de então em si mesma e por si mesma. Essa evolução está por sua vez ligada à profunda mutação pela qual passa a sociedade européia daquela época. O artista deixa progressivamente de produzir suas obras mediante a encomenda de um mecenas, destinando-as então ao público que as adquire: é o público quem passa a ter as chaves de seu sucesso. O que estava reservado a poucos torna-se acessível a todos; o que estava submetido a uma hierarquia rígida, a da Igreja e a do poder civil, põe em pé de igualdade todos os seus consumidores. O espírito das Luzes é o da autonomia do indivíduo; a arte que conquista sua autonomia participa do mesmo movimento. Se o artista se torna a encarnação do indivíduo livre, sua obra também vai se emancipar (p. 53).

Se os poetas têm verdadeiramente como missão revelar aos homens as leis secretas do mundo, não se pode mais dizer que a verdade não tem nada a ver com suas canções. Nem por isso Baudelaire se contradiz. A arte e a poesia se referem à verdade, mas a verdade da arte não tem a mesma natureza que aquela aspirada pela ciência. Baudelaire pensa numa de suas verdades quando ele a reivindica, e em outra quando a recusa. A ciência enuncia proposições as quais descobrimos serem verdadeiras ou falsas quando confrontados aos fatos que procuram descrever (p. 63).

A partir daí, pode-se concluir que não somente a arte conduz ao conhecimento do mundo, mas que ao mesmo tempo revela a existência dessa verdade cuja natureza é diversa. Na realidade, essa verdade não lhe pertence exclusivamente, já que constitui o horizonte dos outros discursos interpretativos: história, ciências humanas, filosofia. A própria beleza não é uma moção nem objetiva (que possa ser estabelecida a partir de indícios materiais) nem subjetiva, ou seja, que dependa do juízo arbitrário de cada um; ela é intersubjetiva, pertencente, portanto, à comunidade humanidade. Ora, a beleza de um texto literário não é outra coisa senão sua verdade. Esse já era o sentido do famoso verso de Keats: “Beauty is Truth, Truth is Beauty”(p. 65).

Trechos do livro: TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Tradução Caio Meira. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O rei de Havana, Pedro Juan Gutiérrez



Nelson tinha lhe dado um bofetão duro na boca, e estava com o lábio superior inchado e cortado por dentro. Passava a língua e sentia o gosto ferroso do sangue. Estava furiosa. Jogou a bituca na rua, deu uma cuspida meio sanguinolenta, querendo que caísse na cabeça de alguém, e se virou para entrar no quarto. (p. 11).

“Por sorte, era quase glabro, não tinha que fazer a barba” (p. 32).

Não falaram muito, quase nada. Ou nada. Ela fechou a porta, abriu uma janela para arejar um pouco o quarto. Olharam-se e se beijaram. As palavras não faziam falta. (p. 55).

Pularam o muro. Andaram um bom trecho entre as sepulturas e se aproximaram da zona dos mortos recentes. O velho ainda estava lá. Iluminado com uma lanterna. Era uma luz pequena. Aproximaram-se com cuidado e começaram a observar. O velho estava abrindo os ataúdes. Tirava a roupa dos mortos. Revistava as bocas. Se tinham ouro nos dentes, ele arrancava com um alicate. Tinha ao lado um saco onde guardava a roupa, os sapatos. Alguns eram enterrados de terno e gravata, Rey observou detidamente aqueles mortos pálidos. E o velho a desnudá-los, um a um. Sem pressa. Depois de ficar ali um pouco, o sujeito se levantou de repente e foi para cima do velho, xingando.
- Então, velho sem-vergonha, e eu? Me deixou de fora do negócio.
O velho ficou surpreso, sem saber o que fazer. Na penumbra, estava despindo um daqueles lívidos cadáveres. Logo reagiu. Estava com uma pá na mão.
- Vem, vem.
Avançou para cima do outro, com a pá levantada e aquela expressão de filho-da-puta furibundo. Rey não queria ver mais mortes. Que se danassem. Ia se retirar, mas, ainda meio bêbado, algo o reteve em seu esconderijo. Queria ver.
O velho acertou uma boa pazada na cabeça do outro. E jogou-o no chão. Não perdeu tempo. Bateu mais, com o canto da pá. Sempre na cabeça. Até espatifar-lhe o crânio. Era um velho retorcido e pequeno, mas forte. Uma pasta de sangue e massa encefálica se derramou no chão. O velho pegou o cadáver. Fez um esforço e o carregou como um saco, em cima dos ombros. Atirou-o na sepultura aberta. Para o fundo. Com as mãos enormes pegou a pasta viscosa e também atirou no fundo da cova. Apagou com o pé as manchas de sangue que ficaram na terra. Fez a mesma coisa com a pá. Pronto. Ali não aconteceu *nada. Continuou ocupado com aquele cadáver que esperava tranqüilamente para ser despojado das calças, dos sapatos, das meias.
Com muito cuidado, Rey se afastou sem fazer barulho, pensando que era preciso tomar cuidado com aquele velho. “Esse, sim, é um sujeito durão... uhmmm... durão mesmo, o velho.” (p. 73 e 74).

O ser humano se acostuma com tudo. Se todos os dias nos derem uma colherada de merda, primeiro a gente reage, depois a gente mesmo pede ansiosamente a colherada de merda e faz de tudo para comer duas colheradas e não só uma. (p. 85).

Panem et circenses, diziam os romanos. (p. 85).

“A única propriedade do pobre é a fome”, dizia sua avó quando ainda falava. Desde pequeno lhe ensinaram a não dar importância a essa propriedade. Fazer que não existia. “Esqueça da fome porque não tem nada para comer”, gritava sua mãe sempre, todos os dias, a qualquer hora. Então ele se lembrou e disse para si mesmo:
- Porra, Rey, está reclamando do quê? (p. 88).

Metade do quarto era sustentada por *umas vigas grossas. Ali o teto e a parede estavam muito rachados e a chuva se infiltrava. Tinha um péssimo aspecto. Sandra disfarçava aquele pedaço com plásticos e cortinas, uma lamparina vermelha colocada em cima de uma estranha mesa de três pernas, que era na verdade uma lata de bolachas coberta com um pano. Enfim, toda uma cenografia de casinha de brinquedo para esconder os escombros e só deixar visível a beleza kitsch. (p. 89).

“...Então, nada de esmola, nem de santinho. O santinho que me beije os bagos” (p. 104).

Ia ter de viver sempre como um rato, escondido em sua toca? Kátia arrancou-o daquelas ruminações (p. 111).
Dava para ver suas tetas enormes, os bicos grandíssimos, a barriga extraordinária, quem sabe debaixo daquela massa gelatinosa, sua, ácida, calorenta, houvesse um monte-de-vênus com uma vagina úmida e palpitante e tudo o mais. Talvez realmente existisse tudo isso, o difícil era chegar até lá sem morrer asfixiado. (p. 119).

Não sabia para onde ir. Com fome e sem dinheiro. Sua morte e sua desgraça era que vivia exatamente o minuto presente. Esquecia com precisão o minuto anterior e não se antecipava nem um segundo ao próximo minuto. Tem quem viva dia a dia. Rey vivia minuto a minuto. Só o momento exato que respirava. Aquilo era decisivo para sobreviver e ao mesmo tempo o incapacitava de fazer qualquer projeto positivo. Vivia do mesmo modo que a água estancada num charco, imobilizada, contaminada, se evaporando em meio a uma podridão asquerosa. E desaparecendo. (p. 163).

Nos crepúsculos, nas mulheres, na alegria de viver que pulsava ao seu redor, na música, na presença infinita do mar, no ar saturado de odores. A vida pulsando. E ele alheio a tudo. (p. 163).

Magda foi embora. Rey passou da fúria ao desconcerto e daí à tristeza. De repente, sentiu-se abandonado, solitário, sem apoio. E lhe brotaram algumas lágrimas. Não um choro copioso. Apenas umas lágrimas. Foi invadido por uma sensação de vazio e solidão. E saiu andando sem rumo. Deprimido, com vontade de morrer. (p. 176).

Acossou a todos com gana, como uma fera assassina. (p. 189).

Trechos do livro: Pedro Juan Gutiérrez. O rei de Havana. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A obra de arte, Anton Tchekhov

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” •

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” •

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.



O texto acima foi publicado no livro "Os cem melhores contos de humor da literatura universal", Ediouro - Rio de Janeiro, 2001, pág.306.

Enfermaria nº 6, Anton Tchekhov


Um apontamento em seu caderninho expressa bem a sua postura ética: “O desejo de servir ao bem comum deve ser, de modo incoercível, uma necessidade da alma, a condição para a felicidade pessoal; mas se não é disso que ele decorre, e sim, de considerações teóricas e outras que tais, esse desejo é então outra coisa” (p. 8).

Isso não o impediu, porém, de expressar as condições sociais do seu tempo, as idéias dos seus contemporâneos, os anseios que os animavam, em meio a uma vida parada, insignificante, que ele soube descrever como ninguém. Os destinos frustrados, os fracassos, a irresolução, o suicídio moral, a estagnação provinciana, que aparecem na obra de Tchekhov, não o impediram de assumir atitudes claras em relação a uma série de fatos políticos e sociais. (p. 9).

Enfermaria nº 6

– Não, eu quero saber por que o senhor se considera competente em matéria de apreensão racional, desprezo pelos sofrimentos e o mais. O senhor acaso sofreu um dia? Tem alguma noção do que seja sofrimento? Permita-me perguntar: surrara-no em criança?
– Não, os meus pais tinham repugnância pelos castigos corporais.
– Eu fui espancado cruelmente por meu pai. Era um funcionário de gênio abrupto, sofria de hemorróides, tinha nariz comprido e pescoço amarelo. Mas falemos do senhor. Em toda a sua existência, ninguém o tocou com o dedo, ninguém o assustou nem espancou; tem saúde como um touro. Cresceu sob a asa paterna, estudou por conta do pai, e de*pois logo abocanhou uma sinecura. Viveu mais de vinte anos sem pagar aluguel, com aquecimento, iluminação e criada, tendo ao mesmo tempo o direito de trabalhar na medida em que quisesse, ou mesmo não fazer nada. O senhor é, por natureza, um homem mole, indolente, e por isso procurou arranjar a sua vida de tal maneira que nada o inquietasse ou tirasse do lugar. Confiou o serviço ao enfermeiro e aos demais canalhas, e ficou sentado em um lugar aquecido e quieto, juntando dinheiro, lendo livros e adoçando a vida com reflexões sobre toda espécie de baboseiras elevadas e (Ivan Dmítritch olhou o nariz vermelho do médico) com a bebedeira. Numa palavra, o senhor não viu a vida, não a conhece absolutamente, e está a par da realidade apenas em teoria. O senhor despreza os sofrimentos e não se espanta com nada, devido a uma razão muito simples: a vaidade das vaidades, o exterior e o interior, o desprezo pela vida, pelos sofrimentos e pela morte, a preensão racional, o bem autêntico – tudo isso constitui a filosofia mais apropriada para um indolente russo. O senhor vê, pro exemplo, um mujique batendo na mulher. Para que interceder? Deixemos bater, de qualquer maneira ambos morrerão cedo ou tarde; e, além disso, o que bate não ofende com isso o espancado, mas a si mesmo. Cair na bebedeira é estúpido, indecente, mas quer se beba, quer não se beba, o que nos espera é a morte. Vem consultar-se uma mulher com dor de dente... Bem, e então? A dor constitui uma representação da dor, e, além disso, não se pode viver sem doenças, todos nós havemos de morrer, e, por isso, vai embora, mulher, não me impeças de pensar e tomar vodca. Um jovem pede conselho, quer saber o que fazer, como levar a vida; um outro pensaria um pouco antes de responder, mas aqui já se tem pronta uma resposta: procure alcançar a apreensão racional ou o bem autêntico. Mas o que é esses fantástico “bem autêntico”? Naturalmente, não há respostas. Somos mantidos aqui, apodrecendo atrás das grades, somos torturados, mas isso é belo e racional, pois não há nenhuma diferença entre *esta enfermaria e um escritório aquecido, aconchegado. Uma filosofia cômoda: não há o que fazer, tem-se a consciência tranqüila e a pessoa ainda se sente um sábio... Não, meu senhor, isso não é filosofia, não é pensamento, não é largueza de visão, mas preguiça, faquirismo, parvoíce sonolenta... Sim! – zangou-se mais uma vez Ivan Dmítritch. – Despreze o sofrimento, mas, se alguém lhe comprimir o dedo numa porta, vai gritar com todos os bofes! (p. 220, 221, 222).

Andrei Iefímitch tinha agora a seguinte impressão: aquele homem gastara, de tudo o que existia nele outrora de senhoril, a parte boa, deixando para si apenas o que não prestava. (p. 230).

A verdadeira felicidade é impossível sem a solidão. O anjo caído traiu a Deus provavelmente por ter desejado a solidão, que os anjos desconhecem. (p. 232).

“Não há nada pior que essa tutela amistosa. Parece que ele é bondoso, abnegado, alegre, mas, apesar de tudo, cacete. Intoleravelmente cacete. Existe também gente que só diz palavras inteligentes, boas, mas sente-se que é uma gente obtusa” (p. 232).
Este trabalho monótono e minucioso embalava-lhe incompreensivelmente os pensamentos, ele não cogitava de nada, e o tempo passava depressa. (p. 235).

– Deixem-me! – gritou com uma voz que não era a sua, ficando vermelho e tremendo com todo o corpo. – Vão embora! Embora, os dois! (p. 238).

– Não se pode, não se pode chegar a nada. Somos fracos, meu caro... Eu era indiferente, tinha uma argumentação animada, sadia, mas bastou a vida tocar-me com rudeza, e perdi o ânimo... uma prostração... Somos fracos, não prestamos... E o senhor também, meu caro. É inteligente, nobre, absorveu com o leite materno os bons impulsos, mas bastou-lhe entrar na vida, e já se cansou e adoeceu... Uns fracos, uns fracos! (p. 245).

EM seguida, tudo se aquietou. Um luar tênue chegava por entre as grades, e no chão havia uma sombra parecida com uma rede. Dava medo. Andrei Iefímitch deitou-se e conteve a respiração; horrorizado, ficou esperando que batessem nele mais uma vez. Era como se alguém tivesse apanhado uma foice, cravado nele e dado algumas voltas em seu peito e nas tripas. Com a dor, mordeu o travesseiro e apertou os dentes, e de súbito em sua cabeça apareceu nitidamente, em meio ao caos, um pensamento terrível, intolerável: aqueles homens, que pareciam, com o luar, sombras negras, tiveram que suportar dia após dia, no decorrer de anos, uma dor perfeitamente idêntica. Como podia ter acontecido que, durante mais *de vinte anos, ele não soubera e não quisera saber disso? Ele não sabia, não tinha noção da dor, quer dizer que não era culpado, mas a consciência, tão rude e implacável como Nikita, obrigou-o a ficar frio, do occipício aos calcanhares. Levantou-se de um salto, quis gritar com todas as forças e correr o mais depressa possível, a fim de matar Nikita, depois Khóbotov, o vigia e o enfermeiro, em seguida a si mesmo, mas nenhum som lhe saiu do peito e os pés não lhe obedeceram; perdendo o fôlego, deu um puxão no seu roupão sobre o peito e na camisa, rasgou-o e deixou-se cair sem sentidos sobre a cama. (p. 248).

Trechos do livor: Tchekhov, A. P. O beijo e outras histórias. Organização, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman. São Paulo: ed. 34, 2006. 272 p. (Coleção Leste).