terça-feira, 1 de junho de 2010

Enfermaria nº 6, Anton Tchekhov


Um apontamento em seu caderninho expressa bem a sua postura ética: “O desejo de servir ao bem comum deve ser, de modo incoercível, uma necessidade da alma, a condição para a felicidade pessoal; mas se não é disso que ele decorre, e sim, de considerações teóricas e outras que tais, esse desejo é então outra coisa” (p. 8).

Isso não o impediu, porém, de expressar as condições sociais do seu tempo, as idéias dos seus contemporâneos, os anseios que os animavam, em meio a uma vida parada, insignificante, que ele soube descrever como ninguém. Os destinos frustrados, os fracassos, a irresolução, o suicídio moral, a estagnação provinciana, que aparecem na obra de Tchekhov, não o impediram de assumir atitudes claras em relação a uma série de fatos políticos e sociais. (p. 9).

Enfermaria nº 6

– Não, eu quero saber por que o senhor se considera competente em matéria de apreensão racional, desprezo pelos sofrimentos e o mais. O senhor acaso sofreu um dia? Tem alguma noção do que seja sofrimento? Permita-me perguntar: surrara-no em criança?
– Não, os meus pais tinham repugnância pelos castigos corporais.
– Eu fui espancado cruelmente por meu pai. Era um funcionário de gênio abrupto, sofria de hemorróides, tinha nariz comprido e pescoço amarelo. Mas falemos do senhor. Em toda a sua existência, ninguém o tocou com o dedo, ninguém o assustou nem espancou; tem saúde como um touro. Cresceu sob a asa paterna, estudou por conta do pai, e de*pois logo abocanhou uma sinecura. Viveu mais de vinte anos sem pagar aluguel, com aquecimento, iluminação e criada, tendo ao mesmo tempo o direito de trabalhar na medida em que quisesse, ou mesmo não fazer nada. O senhor é, por natureza, um homem mole, indolente, e por isso procurou arranjar a sua vida de tal maneira que nada o inquietasse ou tirasse do lugar. Confiou o serviço ao enfermeiro e aos demais canalhas, e ficou sentado em um lugar aquecido e quieto, juntando dinheiro, lendo livros e adoçando a vida com reflexões sobre toda espécie de baboseiras elevadas e (Ivan Dmítritch olhou o nariz vermelho do médico) com a bebedeira. Numa palavra, o senhor não viu a vida, não a conhece absolutamente, e está a par da realidade apenas em teoria. O senhor despreza os sofrimentos e não se espanta com nada, devido a uma razão muito simples: a vaidade das vaidades, o exterior e o interior, o desprezo pela vida, pelos sofrimentos e pela morte, a preensão racional, o bem autêntico – tudo isso constitui a filosofia mais apropriada para um indolente russo. O senhor vê, pro exemplo, um mujique batendo na mulher. Para que interceder? Deixemos bater, de qualquer maneira ambos morrerão cedo ou tarde; e, além disso, o que bate não ofende com isso o espancado, mas a si mesmo. Cair na bebedeira é estúpido, indecente, mas quer se beba, quer não se beba, o que nos espera é a morte. Vem consultar-se uma mulher com dor de dente... Bem, e então? A dor constitui uma representação da dor, e, além disso, não se pode viver sem doenças, todos nós havemos de morrer, e, por isso, vai embora, mulher, não me impeças de pensar e tomar vodca. Um jovem pede conselho, quer saber o que fazer, como levar a vida; um outro pensaria um pouco antes de responder, mas aqui já se tem pronta uma resposta: procure alcançar a apreensão racional ou o bem autêntico. Mas o que é esses fantástico “bem autêntico”? Naturalmente, não há respostas. Somos mantidos aqui, apodrecendo atrás das grades, somos torturados, mas isso é belo e racional, pois não há nenhuma diferença entre *esta enfermaria e um escritório aquecido, aconchegado. Uma filosofia cômoda: não há o que fazer, tem-se a consciência tranqüila e a pessoa ainda se sente um sábio... Não, meu senhor, isso não é filosofia, não é pensamento, não é largueza de visão, mas preguiça, faquirismo, parvoíce sonolenta... Sim! – zangou-se mais uma vez Ivan Dmítritch. – Despreze o sofrimento, mas, se alguém lhe comprimir o dedo numa porta, vai gritar com todos os bofes! (p. 220, 221, 222).

Andrei Iefímitch tinha agora a seguinte impressão: aquele homem gastara, de tudo o que existia nele outrora de senhoril, a parte boa, deixando para si apenas o que não prestava. (p. 230).

A verdadeira felicidade é impossível sem a solidão. O anjo caído traiu a Deus provavelmente por ter desejado a solidão, que os anjos desconhecem. (p. 232).

“Não há nada pior que essa tutela amistosa. Parece que ele é bondoso, abnegado, alegre, mas, apesar de tudo, cacete. Intoleravelmente cacete. Existe também gente que só diz palavras inteligentes, boas, mas sente-se que é uma gente obtusa” (p. 232).
Este trabalho monótono e minucioso embalava-lhe incompreensivelmente os pensamentos, ele não cogitava de nada, e o tempo passava depressa. (p. 235).

– Deixem-me! – gritou com uma voz que não era a sua, ficando vermelho e tremendo com todo o corpo. – Vão embora! Embora, os dois! (p. 238).

– Não se pode, não se pode chegar a nada. Somos fracos, meu caro... Eu era indiferente, tinha uma argumentação animada, sadia, mas bastou a vida tocar-me com rudeza, e perdi o ânimo... uma prostração... Somos fracos, não prestamos... E o senhor também, meu caro. É inteligente, nobre, absorveu com o leite materno os bons impulsos, mas bastou-lhe entrar na vida, e já se cansou e adoeceu... Uns fracos, uns fracos! (p. 245).

EM seguida, tudo se aquietou. Um luar tênue chegava por entre as grades, e no chão havia uma sombra parecida com uma rede. Dava medo. Andrei Iefímitch deitou-se e conteve a respiração; horrorizado, ficou esperando que batessem nele mais uma vez. Era como se alguém tivesse apanhado uma foice, cravado nele e dado algumas voltas em seu peito e nas tripas. Com a dor, mordeu o travesseiro e apertou os dentes, e de súbito em sua cabeça apareceu nitidamente, em meio ao caos, um pensamento terrível, intolerável: aqueles homens, que pareciam, com o luar, sombras negras, tiveram que suportar dia após dia, no decorrer de anos, uma dor perfeitamente idêntica. Como podia ter acontecido que, durante mais *de vinte anos, ele não soubera e não quisera saber disso? Ele não sabia, não tinha noção da dor, quer dizer que não era culpado, mas a consciência, tão rude e implacável como Nikita, obrigou-o a ficar frio, do occipício aos calcanhares. Levantou-se de um salto, quis gritar com todas as forças e correr o mais depressa possível, a fim de matar Nikita, depois Khóbotov, o vigia e o enfermeiro, em seguida a si mesmo, mas nenhum som lhe saiu do peito e os pés não lhe obedeceram; perdendo o fôlego, deu um puxão no seu roupão sobre o peito e na camisa, rasgou-o e deixou-se cair sem sentidos sobre a cama. (p. 248).

Trechos do livor: Tchekhov, A. P. O beijo e outras histórias. Organização, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman. São Paulo: ed. 34, 2006. 272 p. (Coleção Leste).

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