sexta-feira, 4 de junho de 2010

O rei de Havana, Pedro Juan Gutiérrez



Nelson tinha lhe dado um bofetão duro na boca, e estava com o lábio superior inchado e cortado por dentro. Passava a língua e sentia o gosto ferroso do sangue. Estava furiosa. Jogou a bituca na rua, deu uma cuspida meio sanguinolenta, querendo que caísse na cabeça de alguém, e se virou para entrar no quarto. (p. 11).

“Por sorte, era quase glabro, não tinha que fazer a barba” (p. 32).

Não falaram muito, quase nada. Ou nada. Ela fechou a porta, abriu uma janela para arejar um pouco o quarto. Olharam-se e se beijaram. As palavras não faziam falta. (p. 55).

Pularam o muro. Andaram um bom trecho entre as sepulturas e se aproximaram da zona dos mortos recentes. O velho ainda estava lá. Iluminado com uma lanterna. Era uma luz pequena. Aproximaram-se com cuidado e começaram a observar. O velho estava abrindo os ataúdes. Tirava a roupa dos mortos. Revistava as bocas. Se tinham ouro nos dentes, ele arrancava com um alicate. Tinha ao lado um saco onde guardava a roupa, os sapatos. Alguns eram enterrados de terno e gravata, Rey observou detidamente aqueles mortos pálidos. E o velho a desnudá-los, um a um. Sem pressa. Depois de ficar ali um pouco, o sujeito se levantou de repente e foi para cima do velho, xingando.
- Então, velho sem-vergonha, e eu? Me deixou de fora do negócio.
O velho ficou surpreso, sem saber o que fazer. Na penumbra, estava despindo um daqueles lívidos cadáveres. Logo reagiu. Estava com uma pá na mão.
- Vem, vem.
Avançou para cima do outro, com a pá levantada e aquela expressão de filho-da-puta furibundo. Rey não queria ver mais mortes. Que se danassem. Ia se retirar, mas, ainda meio bêbado, algo o reteve em seu esconderijo. Queria ver.
O velho acertou uma boa pazada na cabeça do outro. E jogou-o no chão. Não perdeu tempo. Bateu mais, com o canto da pá. Sempre na cabeça. Até espatifar-lhe o crânio. Era um velho retorcido e pequeno, mas forte. Uma pasta de sangue e massa encefálica se derramou no chão. O velho pegou o cadáver. Fez um esforço e o carregou como um saco, em cima dos ombros. Atirou-o na sepultura aberta. Para o fundo. Com as mãos enormes pegou a pasta viscosa e também atirou no fundo da cova. Apagou com o pé as manchas de sangue que ficaram na terra. Fez a mesma coisa com a pá. Pronto. Ali não aconteceu *nada. Continuou ocupado com aquele cadáver que esperava tranqüilamente para ser despojado das calças, dos sapatos, das meias.
Com muito cuidado, Rey se afastou sem fazer barulho, pensando que era preciso tomar cuidado com aquele velho. “Esse, sim, é um sujeito durão... uhmmm... durão mesmo, o velho.” (p. 73 e 74).

O ser humano se acostuma com tudo. Se todos os dias nos derem uma colherada de merda, primeiro a gente reage, depois a gente mesmo pede ansiosamente a colherada de merda e faz de tudo para comer duas colheradas e não só uma. (p. 85).

Panem et circenses, diziam os romanos. (p. 85).

“A única propriedade do pobre é a fome”, dizia sua avó quando ainda falava. Desde pequeno lhe ensinaram a não dar importância a essa propriedade. Fazer que não existia. “Esqueça da fome porque não tem nada para comer”, gritava sua mãe sempre, todos os dias, a qualquer hora. Então ele se lembrou e disse para si mesmo:
- Porra, Rey, está reclamando do quê? (p. 88).

Metade do quarto era sustentada por *umas vigas grossas. Ali o teto e a parede estavam muito rachados e a chuva se infiltrava. Tinha um péssimo aspecto. Sandra disfarçava aquele pedaço com plásticos e cortinas, uma lamparina vermelha colocada em cima de uma estranha mesa de três pernas, que era na verdade uma lata de bolachas coberta com um pano. Enfim, toda uma cenografia de casinha de brinquedo para esconder os escombros e só deixar visível a beleza kitsch. (p. 89).

“...Então, nada de esmola, nem de santinho. O santinho que me beije os bagos” (p. 104).

Ia ter de viver sempre como um rato, escondido em sua toca? Kátia arrancou-o daquelas ruminações (p. 111).
Dava para ver suas tetas enormes, os bicos grandíssimos, a barriga extraordinária, quem sabe debaixo daquela massa gelatinosa, sua, ácida, calorenta, houvesse um monte-de-vênus com uma vagina úmida e palpitante e tudo o mais. Talvez realmente existisse tudo isso, o difícil era chegar até lá sem morrer asfixiado. (p. 119).

Não sabia para onde ir. Com fome e sem dinheiro. Sua morte e sua desgraça era que vivia exatamente o minuto presente. Esquecia com precisão o minuto anterior e não se antecipava nem um segundo ao próximo minuto. Tem quem viva dia a dia. Rey vivia minuto a minuto. Só o momento exato que respirava. Aquilo era decisivo para sobreviver e ao mesmo tempo o incapacitava de fazer qualquer projeto positivo. Vivia do mesmo modo que a água estancada num charco, imobilizada, contaminada, se evaporando em meio a uma podridão asquerosa. E desaparecendo. (p. 163).

Nos crepúsculos, nas mulheres, na alegria de viver que pulsava ao seu redor, na música, na presença infinita do mar, no ar saturado de odores. A vida pulsando. E ele alheio a tudo. (p. 163).

Magda foi embora. Rey passou da fúria ao desconcerto e daí à tristeza. De repente, sentiu-se abandonado, solitário, sem apoio. E lhe brotaram algumas lágrimas. Não um choro copioso. Apenas umas lágrimas. Foi invadido por uma sensação de vazio e solidão. E saiu andando sem rumo. Deprimido, com vontade de morrer. (p. 176).

Acossou a todos com gana, como uma fera assassina. (p. 189).

Trechos do livro: Pedro Juan Gutiérrez. O rei de Havana. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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