quarta-feira, 9 de junho de 2010

Viagem na irrealidade cotidiana, Umberto Eco



A Auctoritas
Desse modo o discurso cultural medieval parece, de fora, um enorme monólogo sem variações, porque todos se preocupam em usar a mesma linguagem, as mesmas citações, os mesmos argumentos, o mesmo léxico, e parece ao ouvinte que está de fora que se está dizendo sempre a mesma coisa, exatamente como acontece *a quem chega a uma assembléia estudantil, lê a imprensa dos grupinhos extraparlamentares ou os escritos da revolução cultural. (p. 91 e 92).

A pesquisa dos textos sagrados sejam eles Marx ou Mao, Guevara ou Rosa Luxemburg) tem antes de mais nada a seguinte função: restabelecer uma base de discurso comum, um corpo de autoridades reconhecíveis sobre as quais instaurar o jogo das diferenças e das propostas em conflito. Tudo isso com uma humildade completamente medieval e exatamente oposta ao espírito moderno, burguês e renascentista; não tem mais importância a personalidade de quem propõe, e a proposta não deve passar como descoberta individual, mas como fruto de uma decisão coletiva, sempre e rigorosamente anônima. Desse modo uma reunião em assembléia se desenvolve como uma questio disputata: a qual dava ao forasteiro a impressão de um jogo monótono e bizantino, enquanto nela eram debatidos não só os grandes problemas do destino do homem, mas as questões concernentes à propriedade. à distribuição da riqueza, às relações com Príncipe, ou à natureza dos corpos terrestres em movimento e dos corpos celestes imóveis. (p. 93).

As formas do pensamento
Mudando rapidamente (no que diz respeito a hoje) de cenário, mas sem nos deslocarmos um centímetro no que diz respeito ao paralelo medieval, eis-nos numa aula universitária onde Chomsky recorta gramaticalmente nossos enunciados em elementos atômicos que se ramificam em dois, ou Jakobson reduz a espaços binários as emissões fonológicas, ou Lévi-strauss estrutura em jogos antinômicos a vida parental e a textura dos mitos, ou Roland Barthes lê Balzac, Sade e Inácio de Loyola como medieval lia Virgílio, no encalço de ilusões opostas e simétricas. Nada está mais próximo do jogo intelectual medieval que a lógica estruturalista, como nada está mais próximo dela, no fim das contas, *que o formalismo da lógica e da ciência física e matemática contemporânea. (p. 93 e 94).

O político argumenta com sutileza, apoiado pela autoridade , para fundamentar em bases teóricas uma práxis de formação; o cientista tenta restituir uma forma, através de classificações e distinções, a um universo cultural explodido (como o greco-romano) por excesso de originalidade e pela confluência conflitante de contribuições demasiado díspares, Oriente e Ocidente, magia, religião e direito, poesia, medicina ou física. Trata-se de mostrar que existem abscissas do pensamento que permitem recuperar modernos e primitivos sob a égide de uma mesma lógica. Os excessos formalistas e a tentação anti-histórica do estruturalismo são os mesmos das discussões escolásticas, assim como a tensão pragmática e modificadora dos revolucionários, que então eram chamados reformadores ou hereges tout court, deve (como devia) apoiar-se em cima de furiosas diatribes teóricas e cada nuança teórica implicava uma práxis diferente. Até as discussões entre São Bernardo, partidário de uma arte sem imagens, depurada e rigorosa, e Suger, partidário da catedral suntuosa e pululante de comunicações figurativas, têm correspondência, em variados níveis e chaves, com a oposição entre construtivismo soviético e realismo socialista, entre abstratos e neobarrocos, entre teóricos puristas da comunicação conceitual e partidários mcluhanianos da aldeia global da comunicação visual. (p. 94).

A arte como bricolage
Quando se passa porém aos paralelos culturais e artísticos, o panorama se torna muito mais complexo. De uma lado temos uma correspondência bastante perfeita entre duas épocas que de diferentes modos, com semelhantes utopias educativas e com semelhante mascaramento ideológico de um projeto paternalista de direção das consciências, tentam preencher a diferença entre cultura culta e cultura popular, passando através da comunicação visual. Ambos são épocas cuja elite selecionada raciocina sobre textos escritos com mentalidade alfabética, mas depois traduz em imagens os dados essenciais do saber e as estruturas portadoras da ideologia dominante. Civilização da visão, Idade Média, onde a catedral é o grande livro de pedra, e de fato é o manifesto publicitário, o vídeo televisual, o místico almanaque que deve contar e explicar tudo, os povos da terra, as artes e as profissões, os dias do ano, as estações da semeadura e da colheita,
os mistérios da fé, as anedotas da história sagrada e profana e a vida dos santos (grandes modelos de comportamento, como hoje os astros e os cantores, elite sem poder político, como explicaria Francesco Alberoni, mas com imenso poder carismático).
Junto a essa maciça empresa de cultura popular desenvolve-se o trabalho de composição e colagem que a cultura culta exerce sobre os detritos da cultura passada. (p. 95).

Arte não sistemática mas cumulativa e compositiva a nossa como a medieval, hoje como então coexiste o experimento elitista refinado com a grande empresa de divulgação popular (a relação miniatura-catedral é a mesma que há entre o Museum of Modern Art e Hollywood), com intercâmbios e empréstimos recíprocos e contínuos: e o aparente bizantinismo, o gosto tresloucado pela coleção, o elenco, o assemblage, o amontoamento de coisas diferentes é devido à necessidade de decompor re reavaliar os detritos de um mundo precedente , talvez harmônico, mas já agora obsoleto, para ser vivido, diria Sanguineti, como uma Palus Putredinis, que fora ultrapassada e esquecida. (p. 97).


A transição permanente
Dessa nova Idade Média já se disse que será uma época de "transição permanente" na qual serão adotados novos métodos de adaptação: o problema não será tanto o de conservar cientificamente o passado quanto o de elaborar hipóteses sobre o aproveitamento da desordem, entrando na lógica da conflitualidade. Nascerá, como já está nascendo, uma cultura da readaptação contínua, nutrida de utopia. Foi assim que o homem medieval inventou a universidade, com a mesma desinibição com que os clérigos vagantes de hoje a estão destruindo: e talvez transformando. a Idade Média conservou a seu modo a herança do passado não para hibernação, mas para contínua retradução e reutilização, foi uma imensa operação de bricolage em equilíbrio instável entre nostalgia, esperança e desespero.
Sob sua aparência imobilista e dogmática foi, paradoxalmente, um momento de "revolução cultural". O processo todo foi naturalmente caracterizado por pestes e massacres, intolerâncias e morte. Ninguém diz que a nova Idade Média representa uma perspectiva de todo alegre. Como diziam os chineses para maldizer alguém: "Que você possa viver numa época interessante". (p. 99).


Não me parece seja o caso de sorrir sobre o delírio do assim chamado EIM, isto é, Estado Imperialista das Multinacionais. Podemos convir que o modo como é representado é de certa forma folclórico, mas ninguém pode deixar de ver que a política internacional planetária não é mais determinada por cada governo, mas justamente por uma rede de interesses de produção (podemos, enfim, chamá-la de rede das multinacionais), a qual decide sobre a política local, sobre a guerra e a paz e ela mesma estabelece as relações entre mundo capitalista, China, Rússia e terceiro Mundo. (p. 136).

Por que riem naquelas jaulas?
Qual era o sentido daquele meu conto? Que a cultura democrática tinha rotulado demasiado facilmente como reacionárias algumas teorias do comportamento animal de acordo com as quais existe na espécie (em qualquer espécie) uma cota de violência que deve manifestar-se de uma forma ou de outra. As guerras que, não sem razão, apesar da infame satisfação, os futurista tinham saudado como "a única higiene do mundo", são importantes válvulas de segurança que servem para desafogar e sublimar essa violência. Se não houver guerras (eu pessoalmente preferiria que houvesse o menos possível), será preciso aceitar a idéia de que uma sociedade expresse de algum modo a cota de violência que ela incuba. (p. 143).

Cada um é prisioneiro da própria história e dos próprios mitos nacionais. (p. 143).

Não quero sugerir que todas as ideologias e todos os ideais sejam desculpas transitórias para impulsos de violência que nascem do fundo da espécie. (p. 145).

Os verdadeiros heróis, os que se sacrificam pelo bem da coletividade e que a sociedade reconhece como tais, quem sabe muito mais tarde, tendo-os, em sua época, considerado como irresponsáveis e bandidos, são sempre pessoas que agem de má vontade. Morrem, mas prefeririam não morrer; matam, mas desejariam não matar, tanto é verdade que depois renunciam a gabar-se de ter matado, em estado de necessidade. (p. 146).

Os heróis verdadeiros são sempre arrastados pelas circunstâncias, nunca escolhem, pois se pudessem escolheriam não ser heróis. Sirva por todos o exemplo de Salvo D'Acquisto, ou dos muitos guerrilheiros foragidos nas montanhas que, capturados e torturados, não falaram para diminuir o tributo de sangue e não para aumentá-lo. (p. 146).

O herói verdadeiro é sempre herói por engano, seu sonho seria o de ser um honesto covarde, como todos. Se tivesse tido a possibilidade, teria resolvido o caso de outra forma, e de modo incruento. Não se gaba nem de usa morte, nem da de outrem. Mas não se arrepende. Sofre e cala, os outros é que se aproveitaram dele, tornado-o um mito, enquanto ele, o homem merecedor de respeito, não passava de um coitado que reagiu com dignidade e coragem diante de uma história maior do que ele. (p. 146).

Ao contrário, sabemos logo e sem titubear que devemos desconfiar daqueles que se atiram (e atirando) movidos por um ideal de purificação pelo sangue deles e de outrem, mas mais freqüentemente de outrem. Estão obedecendo a um comportamento animal, já estudado pelos etólogos. Não devemos nos admirar, nem nos escandalizar demasiado. Mas não devemos igualmente ignorar a existência desses fenômenos.
Caso não se aceite não se reconheça com segurança a fatalidade desses comportamentos (estudando as técnicas para contê-los, para prevê-los oferecendo-lhes outras válvulas de escape menos cruentas), arriscamo-nos a ser tão idea*listas e moralistas quanto aqueles cuja loucura sangüinária reprovamos. Reconhecer a violência como força biológica, isto é, materialismo verdadeiro (histórico ou dialético, pouco importa), e mal fez a esquerda que não estudou suficientemente a biologia e a etologia. (p. 146 e 147).


Sobre a crise da crise da razão
O problema não é matar a razão, mas pôr as más razões em condições de não prejudicar; e dissociar a noção de razão da de verdade. Esse trabalho honrado não se chama, entretanto, hino à crise. Desde Kant é chamado de "crítica" ou estabelecimento de limites. (p. 149).
A impressão diante de um sestro lingüístico como a crise da razão é que se deva definir, no começo, mais o conceito de crise do que propriamente a razão. E o uso indiscriminado do conceito de crise é um caso de sestro editorial. A crise vende bem. Nas últimas décadas assistimos à venda (nas bancas, nas livrarias, a domicílio ou pelo correio) da crise da religião, do marxismo, da representação, do signo, da filosofia, da ética, do freudismo, da presença e do sujeito (deixo de lado outras crises das quais não entendo profissionalmente, apesar de sofrê-las, com as da moeda, dos aluguéis, da família, das instituições e do petróleo). Daí provém o dito que corre, já famoso: "Deus morreu, o marxismo está em crise e eu também não estou lá muito bem" (p. 149).


Guerrilha semiológica
Não muito tempo atrás, se quisessem tomar o poder político num país, era suficiente controlar o exército e a polícia. Hoje é somente nos países subdesenvolvidos que os generais fascistas, para dar um golpe de estado, usam ainda os tanques. Basta que um país tenha alcançado um alto nível de industrialização para que o panorama mude completamente: no dia seguinte á queda de Krushev os diretores do Pravda, do Izvestia e das cadeias radiotelevisivas foram substituídos; nenhum movimento do exército. Hoje um país pertence a quem controla os meios de comunicação. (p. 165).

Como sugeriu o professor McLuhan, a informação não é mais um instrumento para produzir bens econômicos, mas tornou-se *ele próprio o principal dos bens. A Comunicação transformou-se em indústria pesada. Quando o poder econômico passa de quem tem em mãos os meios de produção para quem detém os meios de informação que podem determinar o controle dos meios de produção, também o problema da alienação muda de significado. Diante da sombra de uma rede de comunicação que se estende para abraçar o universo, cada cidadão do mundo torna-se membro de um novo proletariado. Mas a esse proletariado nenhum manifesto revolucionário poderia lançar o apelo "Proletários de todo o mundo, uni-vos!" Porque, mesmo se os meios de comunicação, enquanto meios de produção, mudassem de dono, a situação de sujeição não mudaria. No máximo, é lícito suspeitar que os meios de comunicação seriam meios alienantes ainda que pertencessem à comunidade. (p. 165 e 166).

Quando triunfam os meios de massa, o homem morre. (p. 167).


A falação esportiva
Mas já nessas definições se aninha o caruncho que corrói o gesto na raiz: a competição disciplina e neutraliza as forças da práxis. Reduz um excesso de ação, mas de fato é um mecanismo para neutralizar a ação. (p. 222).
Essa falação é aquela cuja função Heidegger esboçava em Sein und zeit: "A falação é a possibilidade de compreender tudo sem qualquer apropriação preliminar da coisa: a falação garante já de saída contra o perigo de falhar em tal apropriação: a falação, que está ao alcance de todos, não só desobriga da tarefa de uma autêntica compreensão mas foge a uma compreensibilidade indiferente através da qual nada mais de incerto existe... A falação não pressupõe a volição de um engano. A falação não tem um modo de ser do consciente fazer ver algo como algo diferente... A falação portanto, em virtude de usa indiferença a respeito da necessidade de remontar ao fundamento daquilo que é dito, é sempre, desde as origens, um fechamento". (p. 225).

Certamente Heidegger não pensava numa negatividade total da falação: a falação é o modo cotidiano pelo qual nós somos falados pela linguagem preexistente em vez de amoldá-la para fins de compreensão e descoberta. E é um comportamento normal. Para ela, porém, "o que importa é que se fale. E estamos aqui naquela função da linguagem que para Jakobson é a função "fática" ou de contato. Ao telefone (respondendo "sim, não, claro, está bem...") e na rua (perguntando "como vai?") a alguém cuja saúde não nos interessa; e ele sabe disso, tanto que brinca de responder "bem, obrigado") fazemos discursos fáticos indispensáveis para manter uma ligação constante entre os falantes; mas os discursos fáticos são indispensáveis justamente porque mantêm em exercício a possibilidade de comunicação, para fins de outras e mais substanciais comunicações; se essa função se *hipertrofia, temos um contato contínuo sem qualquer mensagem. Com um
rádio ligado fora da sintonia, cm um ruído de fundo e algumas descargas, nos avisando de que estamos, claro, numa certa comunicação com algo, mas não nos permitindo ficar sabendo de nada. (p. 225 e 226).

Uma foto
É previsível agora outra objeção, desta vez não por parte dos cultores da tradição: será que não é um exemplo desagradável de ideologia da neutralidade científica o fato de se estar ainda e sempre tentando analisar, definir, interpretar, anatomizar os comportamentos e os acontecimentos quentes e dramáticos com os quais se depara? Pode-se definir aquilo que por definição se subtrai a qualquer definição? Pois bem, é preciso ter a coragem de reiterar mais uma vez aquilo em que se acredita: nunca como hoje a mesma atualidade política é atravessada, motivada e fartamente alimentada pelo simbólico. Compreender os mecanismos do simbólico através dos quais nos movimentamos significa fazer política. Não entendê-los significa fazer uma política errada. Claro que é um erro reduzir os fatos políticos e econômicos apenas a mecanismos simbólicos, mas é igualmente errado ignorar essa dimensão. (p. 270).

Se for lícito (mas é cabível) fazer observações estéticas num caso desses, essa é uma das fotografias que passarão à história e que irão aparecer em mil livros. As vicissitudes de nosso século são resumidas por poucas fotos exemplares que marcaram sua época: a multidão desordenada que se derrama na praça durante "os dez dias que balaram o mundo", o miliciano morto por Robert Capa; os marines que fincam a bandeira numa ilhota do Pacífico; o prisioneiro vietnamita justiçado com um tiro na têmpora; Che Guevara arrebentado, esticado na mesa de uma caserna. Cada uma dessas imagens tornou-se mito e condensou em si uma série de discursos. Superou a circunstância individual que a produziu, deixou de falar daquele ou daqueles personagens isolados, mas passou a exprimir conceitos. é única, mas ao mesmo tempo remete a outras imagens que a precederam ou que a seguiram, por imitação. Cada uma dessas fotos parece um filme que a tinham visto. Às
vezes não se tratou de uma foto, mas de um quadro, ou de um manifesto. (p. 272).

A partir do momento em que surgiu, seu trajeto comunicativo começou: e uma vez mais o político e o privado foram atravessados pelas tramas do simbólico que, conforme sempre aconteceu, demonstrou-se produtor de realidade. (p. 273).

Trechos do livro: ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1984.

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