quinta-feira, 29 de julho de 2010

Centro Neurológico Montreal (parte 2)



Segunda parte del programa emitido por el canal Discovery donde se puede ver a un invidente utilizando el dispositivo Brainport, creado por el Dr. Paul Bach-y-Rita.

Centro Neurológico Montreal (parte 1)



Primera parte del programa emitido por el canal Discovery donde se puede ver a un invidente utilizando el dispositivo Brainport, creado por el Dr. Paul Bach-y-Rita.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Musicophilia - The Power of Rhythm, Oliver Sacks


Oliver Sacks, author of The Man Who Mistook His Wife for a Hat and An Anthropologist on Mars, discusses music, the brain, and the power of rhythm to move us, literally and figuratively. The story related in the video comes from Musicophilia: Tales of Music and the Brain, Dr. Sacks's latest book. For more information, visit http://www.oliversacks.com

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vida e literatura, Pedro Juan Gutiérrez

Pedro Juan Gutiérrez, escritor cubano, conferencista do Fronteiras do Pensamento no dia 13 de outubro de 2008 com o tema "Vida e Literatura". Em sua conferência citou diversos exemplos de escritores que foram incompreendidos em seu tempo e publicados só após a morte. Gutiérrez destacou a capacidade de risco que caracteriza um bom escritor que se aventura a descrever sua época.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O sonho de Borges e a memória impessoal, Paulo Fernando Monteiro Ferraz e Edson Luiz André de Sousa




O SONHO DE BORGES E A MEMÓRIA IMPESSOAL


EDSON LUIZ ANDRÉ DE SOUSA é Psicanalista. Membro da APPOA. Professor do PPG Psicologia Social e PPG Artes Visuais UFRGS. Doutor em Psicanálise e Psicopatologia pela Universidade de Paris 7. Coordena, junto com Maria Cristina Poli, o LAPPAP (Laboratório de Pesquisa em Psicanálise, Arte e Política) – UFRGS,. Pesquisador do CNPQ. Professor Visitante na Deakin University, Melbourne e no 17, Instituto de Estudos Críticos, Cidade do México. Autor dos livros Freud (Editora Abril, SP, 2005); Uma invenção da Utopia (Lumme Editor, SP, 2007); e Freud: Ciência, Arte e Política, escrito junto com Paulo Endo (L&PM, Porto Alegre, 2009). Em pós-doutorado em Paris na Université de Paris VII e na Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales (2009). Membro da Society of Utopian Studies.

PAULO FERNANDO MONTEIRO FERRAZ é Psicólogo. Mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS). Ex-bolsista da CAPES. Coordenador da Oficina de Produção psicanalítica e literária no Instituto Bion e no ESIPP. Aluno do curso de especialização em psicoterapia de orientação psicanalítica (ESIPP). Membro efetivo da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul. Membro do laboratório de pesquisa psicanalítica, arte e política (LAPPAP/ UFRGS). Membro do Laboratório Interdisciplinar de pesquisa em sono (LIPS/ UFRGS). Integrante do Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira – Acervo (Hospital Psiquiátrico São Pedro). Ex-aluno da oficina literária do Charles Kiefer.

Resumo:O artigo transita no elo entre a Psicanálise e a Literatura e toma de empréstimo o personagem de um conto do escritor Jorge Luis Borges para problematizar a memória e a singularidade em meio às atuais operações mercantis.
Palavras-chave: Psicanálise. Literatura. Impessoalidade. Singularidade. Mercado. Utopia.

BORGES' DREAM AND IMPERSONAL MEMORY

Abstract: This paper aproaches the link between literature and psychoanalysis and utilizes a character from a short story by Jorge Luis Borges for setting the context for a discussion on memory and the singularity among current mercantile transations.
Keywords: Psychoanalysis. Literature. Impersonality. Singularity. Market. Utopia.

O SONHO DE BORGES E A MEMÓRIA IMPESSOAL

“E agora quero que me apaguem, que me dêem outro rosto e outro destino. Não sei quem será o outro, o que farão comigo, mas sei que não terá medo”

(Borges, O fazedor, p. 28) (1)

Quando não sabemos que imagem nos habita, que discurso fala em nós, que movimento nos impulsiona a agir, temos a chance de falar, escrever, ler para suportar este desequilíbrio que está longe de ser acidental. É o inconsciente que nos constitui como sujeitos de linguagem; foi exatamente isto que Freud legou ao mundo quando construiu metodicamente os seus conceitos. O singular não exclui por questões de estrutura o Outro, este estranho que nos habita desde que balbuciamos pela primeira vez o potente significante ‘eu’. Portanto, a partir da psicanálise, o impessoal não se opõe ao que a psicologia do senso comum entende por pessoal. Este ‘si mesmo’ está condenado a um jogo de espelhos ao infinito e a sensação de identidade nada mais é do que uma interrupção arbitrária nesta série de derivações. Contudo, e este é o ponto fundamental, uma abordagem do impessoal tem que levar em conta, em alguma medida, o traço singular de cada ser falante. A questão seria a de saber como cada singular desenha seu campo de impessoal. Aqui encontraríamos sua estilística, ou então, para dizer de outra forma, o sintoma que é próprio de cada um.

Borges sonhou com um homem sem rosto que num quarto de hotel lhe oferecia a memória pessoal de Shakespeare. Magicamente, receberia dentro de si todas as relíquias de vida incrustadas no cérebro do escritor britânico. Ganharia um dos maiores prêmios. Se o sonho lograsse êxito, Borges, que já era um gigante, aumentaria de tamanho com a ajuda insólita do homem de faces apagadas.

O episódio que se sucedeu sob suas pálpebras, em uma noite de descanso em Michigan, deu origem a uma narrativa ficcional chamada A Memória de Shakespeare (2) . Nela, um solitário escritor, Hermann Sörgel, que se dedicou ao exercício pleno da leitura, passa a ser o receptáculo das lembranças de William Shakespeare. A trama, como se deduz, encontra-se envolta por uma aura fantástica, em que artifícios simples tratam de fenômenos complexos de forma orgânica e direta. O conto é considerado, pela sua perfeição, como sendo o último feito pelo punho do escritor sul-americano.

A partir de uma exegese dessa história brotada de um sonho, podemos inferir que nela residem emblemas latentes, chaves de uma compreensão da memória que cultivamos do mundo e de sua conjuntura atual. À luz da política, a alegoria dessa narração nos faz despertar a consciência para questões delicadas. Uma delas pode ser definida pelo seguinte enunciado: que memória a sociedade cria para nós? E sua variante: que sociedade se engendra com as nossas memórias?

Uma das amarras do controle é, sem dúvida, o circuito de trabalho-produção-consumo que nos captura de forma cruel. Parte desse controle é diretamente instituído pelas forças perversas da economia capitalista. Para citar apenas um exemplo, podemos evocar o que nos diz Noam Chomsky (3) (2003):

“Milhões de pessoas no mundo morrem de doenças que são curáveis e isto em função de cláusulas protecionistas, inscritas nos regulamentos da Organização Mundial do Comércio, que delegam às multinacionais o direito de fixar o preço na forma de grandes monopólios. Assim a Tailândia e a África do Sul, para citar apenas estes, possuem indústrias farmacêuticas capazes de produzir medicamentos que salvariam muitas vidas com uma pequena fração do preço decretado pelo monopólio, mas, sob a ameaça de sanções comerciais, eles não ousam fazer isto” (p. 45).

Enquanto o homem se extenua trabalhando em prol dos lucros, para ser economicamente rentável aos meios de produção capitalistas, visando ulteriormente o consumo de fetiches e de mercadorias cada vez mais sofisticadas, aliena-se de si mesmo e adoece sem se aperceber. A sociedade que arquitetamos quer nos colocar em vidros com tampas de aço; quer que sejamos espécimes em conserva, como os natimortos que estão à mostra nas prateleiras dos laboratórios, para serem sondados pela caterva de estudantes pernósticos. Em Uma invenção da utopia, Sousa (4) (2007) dissipou algumas névoas quando escreveu: “Vão sendo criados espaços de obediência, de servidão voluntária, de timidez, de descrédito das ações, da melancolia como a virtude serena do consumidor entregue aos fogos de artifício escancarados nas vitrines: aquários modernos do sonho” (p. 22).

O discurso de poder nos inocula a culpa; nos põe em dívida para com a ordem do sistema. Ora, a máquina burocrática nos obriga a uma disciplina espartana, voltada ao heroísmo e ao sucesso. É proibido arrostar os fracassos; melhor mesmo é esquecê-los. Mas as ruínas se alastram em progressões geométricas.

Há um mal crônico que nos assola, o da anestesia da singularidade. Os gestos tornaram-se maquinais, como se algo nos movesse por cordéis. Já não nos sentimos autores de nosso destino: tudo nos guia à estranheza. Nossa voz parece atrofiar-se aos poucos com esse sintoma social, pois a mercadoria, como um ventríloquo, se faz de intérprete e dá as legendas do desejo: ensaia responder quem somos, alude à nossa origem e indica o montante de dinheiro que dispomos para gastar. A estereofonia da alma cedeu lugar à esteira de produção, e a linguagem das transações comerciais infiltra-se, de modo sub-reptício, no dicionário de valores que portamos para nos orientar.

Joseph K., o protagonista do romance O processo (5) , de Franz Kafka, pode ilustrar o que até aqui foi mencionado. A identidade e o passado de K. estão sendo investigados. O drama do personagem consiste em não conseguir recordar que crime cometeu. Será posto em julgamento, e não intui o porquê. O território de sua liberdade foi demarcado; ele vai até onde lhe permitem ir. Transita em busca de si mesmo, porque parece ter se extraviado em algum espaço que agora lhe é obscuro. K. é uma incógnita, e sua memória é que está em xeque em uma complexa equação. O que foi feito não importa aos olhos da lei. Ele é culpado, e ponto final; culpado por ter aderido sem questionar o que lhe infligiram à força. Joseph K. recebeu a réplica de suas lembranças e desejos a fim de que não lhe surgisse a vontade de viver.

Outro exemplo pode ser extraído de Albert Camus, em O Estrangeiro (6) : Meursault é a encarnação do homem metido em uma vida anódina. Incapaz de fingir o que não sente, o personagem encontra-se à parte das convenções mundanas. Não vê como participar do jogo social e recebe como punição a morte. O mesmo se deu, em certa medida, com o personagem de Cervantes , Alonso Quijano, leitor de histórias fabulosas. Enfadado com a vida que levava, decidiu passar-se por louco, pois, assim, encarariam sem gravidade o absurdo em seus atos, e tudo lhe seria permitido. A insensatez, no caso, serviu como um artifício: tornou-se o passaporte para um mundo cuja razão jamais foi entronizada e nunca pôde ser soberana. Então, inventou uma cavalaria andante em que foi o único membro; arranjou um cúmplice para as aventuras, o fiel escudeiro, Sancho, e criou para si Dulcinéia, uma paixão inalcançável, que justificava todos os arroubos de genialidade e os delírios de sua engenhosa alma. Transformou-se, por obra do apetite pelo extraordinário, em Dom Quixote e arremeteu-se aos moinhos de vento para escandalizar a moral burguesa da época e provar à cultura que na sandice crepitava muita lucidez. Mas como estava destinado a fracassar, a ser incompreendido pelos conterrâneos, voltou ao princípio, e deixou que Dom Quixote o abandonasse para ceder lugar ao outro, ao arrazoado cidadão Alonso Quijano, e morreu. Sofremos então destes imperativos do funcionamento social que nos abstém de pensar.

E como ter uma memória que possa preservar algum traço de autoria e criação? Que relação ao mundo nos permitiria resistir à anestesia? Walter Benjamin já insistiu muito na força da narração como fundação de um lugar de sujeito e criação de uma história. Algumas dessas narrativas tomam a forma de livros, nem todas. Os livros condensam a herança de nossa espécie, porque alojam em suas páginas os traços da civilização. A leitura enaltece o homem, porque lhe dá um rosto, o diferencia do ordinário – assim o definiu a ética de Aristóteles. Ler e escrever são modos de criar a própria memória. Foi o que fez Primo Levi (8) ao narrar a jornada infernal pelos campos de concentração, no nazismo, em É isto um homem?

É preciso resgatar o passado (9) , não para homenageá-lo ou celebrá-lo, mas para ver o que produziu no presente, e em contato com a obra em questão podemos nos perguntar por que Levi escreveu o que testemunhou? A resposta é evidente: era sua única maneira de continuar vivo. Ele semeou nas palavras as dores, e toda a pletora de sofrimentos germina em nosso íntimo de forma aterradora. Anne Frank, ao tecer o seu diário, já traduzido em várias línguas, também nos fez herdeiros da catástrofe, o Holocausto, que ainda fervilha, de forma velada, na cultura vigorante e trespassará as malhas do tempo e das gerações, sob diferentes insígnias e estandartes. Há males que perduram sem que saibamos como desarraigá-los do coração dos homens.

Por isso é que a escrita transmite a modulação de uma voz ausente, que sensibiliza, humaniza e nos inspira civilidade, e todos que consagram a vida à escrita intuem isso. A sorte que nos reserva o futuro depende um pouco do que lembramos do passado. Ela parece ser o nexo que comunica as coisas: é solidária e fraterna para com o universo, porque na álgebra das diferenças encontra os pontos de semelhança. Põe às claras o incógnito que funde o universo ao que nós somos. A leitura nos volta para um exame de consciência: não nos deixa esquecer as selvagerias e nem permite que absolvamos os crimes cometidos contra a humanidade. Louis Marin (10) (1973), grande estudioso das utopias, afirma que a utopia inicialmente é um livro: “Em efeito, a leitura de um romance, de uma novela, de uma narrativa, mesmo de um conto ou de um mito é a reativação, evocação e a provocação a uma forma de existência particular daquilo que, antes da leitura, é um simples traço morto” (p.90).

A escrita acompanha o rio de Heráclito, cujo delta aflui em todos os séculos. A palavra anda de boca em boca, circula em todos os ares, se prende nas reentrâncias de qualquer superfície, mas, a despeito de tudo, é instrumento de dominação; não está livre dos interesses dos que lideram as comarcas, federações e entidades de todas as espécies. Mas também é aliada das transgressões: ajuda a criá-las e a replicá-las; é o réu e o juiz; tem as duas faces de uma moeda em seus valores; irmana os mundos e diminui distâncias; está em tudo e para todos e não é de ninguém; apóia os déspotas e os recrimina; elide e releva controvérsias; fornece imagens à aridez do espaço; critica a si própria e o conjunto em que pertence o homem: sua missão, dentre outras, consiste em devolver à vida o que não pode perecer e a sepultar o que já há muito nos empesta.

O homem precisa da literatura para se ligar ao insólito, para fazer contato com aquilo que desconhece em seus abismos. As palavras têm o poder de aguçar a sensibilidade, de batizar o que nos acomete sem que o saibamos. Não é à toa que abrimos um livro em busca do que o cotidiano não nos fornece, de respostas para o que julgamos além de nossas possibilidades. O livro guarda em sua etimologia a liberdade. É ele quem nos arranca da inércia; que imprime ao espírito o desejo de prosperar, de se exprimir com a linguagem e com o afeto. Uma sociedade afásica ou ágrafa sucumbiria à barbárie. As palavras deflagram as paixões recônditas que abrasam os seres. A leitura edifica o caráter, instaura uma ética, lapida a moral e exacerba o que há de melhor em cada um (assim se espera (11)) Não que isso seja a panacéia para os males mundanos. Um poema belamente escrito jamais irá conjurar a miséria que envolve o mundo. Nem mesmo os discursos mais eloqüentes, que exaltam o heroísmo e que fazem chamejar no peito dos indivíduos os ideais, são capazes de abrandar a brutalidade e a crueza de algumas existências subjugadas ao limite do sofrimento. A literatura não evitará que a espada de Dâmocles fique suspensa sobre nossas cabeças, não erradicará a fome, não debelará as enfermidades, não nos tornará mais dignos e nem mais felizes. No entanto, neste mundo em que grassam injustiças e terrores à revelia, em que as pessoas padecem de uma necessidade mórbida de triunfo e de consumo, é ela quem conspira contra a resignação endêmica que nos abate e que atiça nos cidadãos a capacidade reivindicativa e de protesto.

A leitura é um processo ativo de abstração: reescrevemos as obras, misturando-as às idiossincrasias que nos concernem, pois nos identificamos com as personagens e com as alegorias que cada trama agrega em seu núcleo. Além de nossas vidas, precisamos de vidas de celulose, virtuais, em que heróis e vilões têm autorização para desenhar em seus atos o que nos foi privado. Aí se dá um tipo de catarse: a concreção alucinatória dos desejos, posto que nos tornamos vários. O eu, ilusoriamente, se esboroa no processo de ler e o milagre da multiplicação da personalidade, ou melhor, do polimorfismo sexual se dá nas páginas de um romance, de um conto, de uma crônica etc. Há um quê de arcaico e de metafísico na leitura: a necessidade de domínio. Entre alguns indígenas, pairava a crença de que a ingestão de carne humana povoaria a vacuidade de seus espíritos com os atributos dos bravos guerreiros, mortos em batalhas. Assim como a antropofagia visava se assenhorear da essência mais nobre do outro, a leitura procura enriquecer-nos com ontologias diversas às que subsistem em nós. Os olhos, ao piscar, mastigam e deglutem as letras e transmitem ao eu a magia do outro, porque a escrita reúne tudo o que somos, e o que a linguagem professa repercute na estrutura que nos rege. A coisa, o real, a utopia, a formulação absoluta para as questões sem respostas são os elementos que nos movem, que nos incitam a caminhar ao encalço do que jamais se terá, mas que, mesmo assim, se ambiciona. Quem sabe o segredo de tudo não reside nisso: talvez sejamos as sobras do barro do universo criado por Deus e queiramos visitar outras galáxias e desbravar o que nos é obscuro para conhecermos a origem do que esteve sempre em nós: o desejo de ser em outras paragens, no não-lugar, no prometido e tão aclamado Paraíso? Nunca o saberemos, e em razão disso que o ente é, porque busca e rebusca o que crê lhe faltar.

Alguns livros, depois de fechados, se prolongam na consciência; chegamos a recriar de cabeça trechos e circunstâncias contidas ali. Ao imaginário somam-se outros matizes, formas e impressões que fazem a criatividade vicejar. As histórias encontram-se lastreadas com os mesmos embates da humanidade. Amiúde, reconhecemos a nossa própria imagem nas cenas inventadas pelos autores, “porque nós, leitores, como Narciso, gostamos de acreditar que o texto para o qual olhamos nos reflete” (Manguel, 1997, p. 299). Às vezes, até restituímos o equilíbrio a partir do desenlace de algumas narrativas ficcionais. Eis, então, o que Marcel Proust (12) escreveu: “A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura”.

NOTAS

(1) J. L. Borges, O fazedor, tradução Josely Vianna Baptista, São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

(2) J. L. Borges, A memória de Shakespeare, Espanha, Emecé, 2004.

(3) N. Chomsky, Noam, Sur le controle de nos viés, Paris, Editions Allia, 2003.

(4) E. Sousa, Uma invenção da utopia, São Paulo, Lumme Editora, 2007.

(5) F. Kafka, O Processo, trad. e posfácio Modesto Carone, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

(6) A. Camus, O estrangeiro, trad. de Valerie Rumjanek, 13ª ed., Rio de Janeiro, Record, 1993.

(7) M. Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, Trad. Viscondes de Castilho e Azevedo, São Paulo, Abril Cultural, 1978.

(8) P. Levi, É isto um homem?, Rio de Janeiro, Rocco, 1988.

(9) Nas palavras de Galeano (1999), na obra De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso: “Recordar o passado, para nos livrarmos de suas maldições: não para atar os pés do tempo presente, mas para que o presente caminhe livre das armadilhas” (p. 216 e 217).

(10) L. Marin, Utopiques: jeux d’espaces, Paris, Les Éditions de Minuit, 1973.

(11) Pennac (1993) esclarece a ressalva que fizemos: “A idéia de que a leitura ‘humaniza o homem’ é justa no seu todo, mesmo se ela padece de algumas deprimentes exceções. Tornam-nos um pouco mais ‘humanos’, entenda-se aí por um pouco mais solidários com a espécie (um pouco menos ‘animais’), depois de termos lido Tchekhov” (p. 114).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

A. Camus, O estrangeiro, trad. de Valerie Rumjanek, 13ª ed., Rio de Janeiro, Record, 1993.

D. Pennac, Como um romance, trad. de Leny Werneck, Rio de Janeiro, Rocco, 1993.

E. Galeano, De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, trad. de Sergio Faraco, 6ª ed., Porto Alegre, L&PM, 1999.

E. Sousa, Uma invenção da utopia, São Paulo, Lumme Editora, 2007.

F. Kafka, O Processo, trad. e posfácio Modesto Carone, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

J. L. Borges, A memória de Shakespeare, Espanha, Emecé, 2004.

J. L. Borges, O fazedor, tradução Josely Vianna Baptista, São Paulo, Companhia das Letras, 2008.

L. Marin, Utopiques: jeux d’espaces, Paris, Les Éditions de Minuit, 1973.

M. Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, Trad. Viscondes de Castilho e Azevedo, São Paulo, Abril Cultural, 1978.

M. V. LLOSA, “A literatura e a vida”, in A verdade das mentiras, trad, Cordélia Magalhães, São Paulo, ARX, 2004, p.353.

N. Chomsky, Sur le controle de nos viés, Paris, Editions Allia, 2003.

P. Levi, É isto um homem?, Rio de Janeiro, Rocco, 1988.


Revista Polem!ca. Vol. 9, No 3 (2010).
http://www.polemica.uerj.br/ojs/index.php/polemica/issue/view/5/showToc

domingo, 4 de julho de 2010

A Cidade ágrafa, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

– O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço (Calvino, 1990, p. 150) .

O autor dos flagelos da civilização me apareceu em sonho. Talvez tenha advindo do gesto imprevisto de Pandora, ou mesmo nascido da matéria secreta que fez da verdade Deus. Jamais o saberei. Em meio às auras oníricas, havia algo de anômalo em sua aparência, ao contrário do que eu supunha. Era um homem emaciado e alto. O tempo parecia ter aplicado infindáveis lavores em seu rosto, pois ele não o tinha mais (nem sei se já o teve alguma vez). Mil lixas o anularam e, no lugar das faces, via-se apenas uma sombra. Mantive-me calmo, como se aquela imagem não me perturbasse, pois uma parte minha ainda conservava-se desperta: eu me encontrava em uma zona intermediária, em que os fragores da manhã se incorporavam, com tremenda harmonia, à mágica do inconsciente. E este homem, de cujo nome quero esquecer, contou-me que fez de seu destino o de todos, às épocas que não constam nos calendários: não ter rosto, e permanecer assim para todo o sempre. Não sei se veio do futuro ou se ressuscitou do passado, mas tinha ares sobrenaturais. E ele não me respondeu o porquê de fazer do próprio drama o infortúnio de todos e, também, não me deu pistas sobre as motivações ocultas que o puseram em desacordo com a humanidade. Sem que eu esperasse, começou a desfiar um segredo, e a nascente de sua voz me era totalmente estranha. Não tinha boca, mas articulava palavras com precisão invejável. O som emanava de seu corpo, não há de se entender como. Disse-me que, sem intuir a razão do castigo, recebeu o sortilégio de uma feiticeira e, desde então, tudo o que passou a tocar converteu-se em desgraça. Sem o querer, acossado por uma sina macabra, o homem amaldiçoado comentou que anda a vagar à procura do que lhe foi privado, e que imergiu em meu sonho para confiar-me uma mensagem que passo, agora – à semelhança de um arauto –, a transmiti-la:

Haverá uma noite, não se sabe bem qual, mas que está guardada em uma dimensão que nos é inacessível agora, em que todos terão o mesmo sonho, o de que uma criatura tomará para si a memória dos homens e usurpará as palavras do mundo, e esse sonho, como uma peste, arruinará o que há de humano em nós. Só um homem, eleito para nunca sonhar, continuará a escrever, e, narrando o que se sucederá à espécie, tornar-se-á o responsável pelo registro do que um dia existiu. E a sua obra resistirá a tudo e romperá os séculos e será conhecida como a Cidade ágrafa, e nunca ninguém saberá como era o rosto e o nome desse autor. E, pela simetria dos acontecimentos e a convergência dos fatos históricos, somados às figuras ilustres que compõem a evolução, um outro Champollion haverá de decifrar a grafia daquele homem, incapaz de sonhar devido a algum distúrbio mental. E os que sobreviveram às reiteradas barbáries hão de erradicar o mal que lhes atrofiou a sensibilidade. E mil cidades se reduplicarão a partir da que não tinha como perdurar.

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.


Criei uma cidade invisível: a Cidade ágrafa. O Hospital Psiquiátrico São Pedro também se parece com uma das cidades invisíveis.
CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Esperança, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

Quando Pandora desobedeceu ao pedido de Hermes, o emissário dos deuses, e abriu a caixa em que Zeus concentrou todos os males que, hoje, infestam o mundo, ouviu pronunciar-se do interior do fatídico recipiente, antes lacrado com cera, a voz lânguida da Esperança, única virtude que, no fundo, nos restou.

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

Delírio II, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

O homem caminha e suas pegadas, quando unidas, formam uma mensagem. Na geometria dos passos está confinado o segredo do que o pôs em marcha. Ele anda para escrever em si o que a trilha deixou para os outros testemunharem. Precisa apreender a própria história à medida que se coloca em movimento. Em seu trajeto assoma-se uma imagem.

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

Delírio I, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

Mil samurais brandiram espadas sob o sol que agora atravessa os pequenos vitrais de água condensada na janela. Aos poucos, as névoas que embalavam o sono do Oriente se dissipam e aos ouvidos me chegam os tumultos e a disciplina da nova cidade. Vozes que não me compreendem e que tampouco consigo decifrar reboam pelos corredores do hotel em que me instalei. Há no ar um aroma diferente, adocicado, como se partículas de exóticos temperos minassem as vacuidades de meus pulmões. Não sei bem ao certo o que o meu olfato capta; no entanto, me agrada sentir o que sinto. Levanto-me dos lençóis amarfanhados, espanto a preguiça do corpo e me dirijo à janela. Mudo o foco da visão; faço olhos achinesados, caricatos e pequeninos, enquanto minha imagem, meio embaçada, reflete-se, identidade em miniatura, numa gotícula que, com o calor, se desprendeu da constelação de que fazia parte e percebo que eu também havia me emancipado, como ela, de um mundo que há pouco me veio à consciência, mas que logo se abrumará. O que era mesmo o Ocidente? Já não o sei, e um mapa, avesso a tudo que conheço, começa a plasmar-se sob meu crânio, e uma nova música se congrega à que em mim soava. Preciso tomar banho: já é tempo de sair...

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

Pó, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

O rumor de máquinas incorporava-se ao cantar dos pássaros na manhã e os golpes das marretas derrubavam o que restou dos muros da casa em que morei. O pó de tijolos esmigalhados pairava no ar, sedimentava-se nas emendas das calçadas, invadia, pelas frinchas das janelas, todas as residências que divisavam a demolição. Uma fina película arenosa formava-se sobre a lataria dos carros estacionados e entranhava-se às roupas dependuradas nos varais. A procissão de operários camuflava-se em meio à nuvem ocre de detritos e sepultava, ignorante e austera, a minha história sob os escombros. O vento enfunava o meu casaco e lançava nos olhos os grânulos de um tempo que não mais existia. A poeira, o sangue mineral das estruturas de ferro retorcido e cimento, varava as ruas. Eu, parado àquela posição, espectador de um funeral que não acontecia aos outros, já sentia as articulações empedernirem-se, como se também meu corpo precisasse tombar abaixo. Livrei-me do torpor, espanei com as mãos os vestígios que cobriam os meus ombros e faces, saquei do bolso a câmera e fotografei o cenário. Agora nenhuma memória se perderia de mim.

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

De todos os livros o livro, Paulo Fernando Monteiro Ferraz


Lá se encontrava, intocado, um livro na estante. Como uma Esfinge em forma de retângulo, ele continha um mistério. De onde eu estava, o título e o nome do autor se embaralhavam numa babel de letras. Subi na cadeira e estiquei o braço para pegá-lo. Queria-o perto de mim. Bastaria consultá-lo, como a um oráculo, para que o universo preso àquelas páginas se deflagrasse aos olhos. Mas eu não o alcancei. Só encostei de leve a ponta do dedo na lombada cheia de arabescos, recolhendo-a, em seguida, aveludada de poeira. À semelhança de uma tumba de faraó, nunca soube se o tal exemplar ocultava tesouros ou maldições, e esta questão ficou gravada em mim, tanto que, hoje, em todos os livros que abro e folheio, busco sempre aquele, perdido nas estantes de alguma de minhas infâncias.


Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

Freud, a Psicanálise e a Literatura


"Freud, a Psicanálise e a Literatura"
(TV Cultura - Entrelinhas)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

How do we Communicate?, Open Yale Courses


One of the most uniquely human abilities is the capacity for creating and understanding language. This lecture introduces students to the major topics within the study of language: phonology, morphology, syntax and recursion. This lecture also describes theories of language acquisition, arguments for the specialization of language, and the commonalities observed in different languages across cultures.