domingo, 4 de julho de 2010

A Cidade ágrafa, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

– O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço (Calvino, 1990, p. 150) .

O autor dos flagelos da civilização me apareceu em sonho. Talvez tenha advindo do gesto imprevisto de Pandora, ou mesmo nascido da matéria secreta que fez da verdade Deus. Jamais o saberei. Em meio às auras oníricas, havia algo de anômalo em sua aparência, ao contrário do que eu supunha. Era um homem emaciado e alto. O tempo parecia ter aplicado infindáveis lavores em seu rosto, pois ele não o tinha mais (nem sei se já o teve alguma vez). Mil lixas o anularam e, no lugar das faces, via-se apenas uma sombra. Mantive-me calmo, como se aquela imagem não me perturbasse, pois uma parte minha ainda conservava-se desperta: eu me encontrava em uma zona intermediária, em que os fragores da manhã se incorporavam, com tremenda harmonia, à mágica do inconsciente. E este homem, de cujo nome quero esquecer, contou-me que fez de seu destino o de todos, às épocas que não constam nos calendários: não ter rosto, e permanecer assim para todo o sempre. Não sei se veio do futuro ou se ressuscitou do passado, mas tinha ares sobrenaturais. E ele não me respondeu o porquê de fazer do próprio drama o infortúnio de todos e, também, não me deu pistas sobre as motivações ocultas que o puseram em desacordo com a humanidade. Sem que eu esperasse, começou a desfiar um segredo, e a nascente de sua voz me era totalmente estranha. Não tinha boca, mas articulava palavras com precisão invejável. O som emanava de seu corpo, não há de se entender como. Disse-me que, sem intuir a razão do castigo, recebeu o sortilégio de uma feiticeira e, desde então, tudo o que passou a tocar converteu-se em desgraça. Sem o querer, acossado por uma sina macabra, o homem amaldiçoado comentou que anda a vagar à procura do que lhe foi privado, e que imergiu em meu sonho para confiar-me uma mensagem que passo, agora – à semelhança de um arauto –, a transmiti-la:

Haverá uma noite, não se sabe bem qual, mas que está guardada em uma dimensão que nos é inacessível agora, em que todos terão o mesmo sonho, o de que uma criatura tomará para si a memória dos homens e usurpará as palavras do mundo, e esse sonho, como uma peste, arruinará o que há de humano em nós. Só um homem, eleito para nunca sonhar, continuará a escrever, e, narrando o que se sucederá à espécie, tornar-se-á o responsável pelo registro do que um dia existiu. E a sua obra resistirá a tudo e romperá os séculos e será conhecida como a Cidade ágrafa, e nunca ninguém saberá como era o rosto e o nome desse autor. E, pela simetria dos acontecimentos e a convergência dos fatos históricos, somados às figuras ilustres que compõem a evolução, um outro Champollion haverá de decifrar a grafia daquele homem, incapaz de sonhar devido a algum distúrbio mental. E os que sobreviveram às reiteradas barbáries hão de erradicar o mal que lhes atrofiou a sensibilidade. E mil cidades se reduplicarão a partir da que não tinha como perdurar.

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.


Criei uma cidade invisível: a Cidade ágrafa. O Hospital Psiquiátrico São Pedro também se parece com uma das cidades invisíveis.
CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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