domingo, 4 de julho de 2010

De todos os livros o livro, Paulo Fernando Monteiro Ferraz


Lá se encontrava, intocado, um livro na estante. Como uma Esfinge em forma de retângulo, ele continha um mistério. De onde eu estava, o título e o nome do autor se embaralhavam numa babel de letras. Subi na cadeira e estiquei o braço para pegá-lo. Queria-o perto de mim. Bastaria consultá-lo, como a um oráculo, para que o universo preso àquelas páginas se deflagrasse aos olhos. Mas eu não o alcancei. Só encostei de leve a ponta do dedo na lombada cheia de arabescos, recolhendo-a, em seguida, aveludada de poeira. À semelhança de uma tumba de faraó, nunca soube se o tal exemplar ocultava tesouros ou maldições, e esta questão ficou gravada em mim, tanto que, hoje, em todos os livros que abro e folheio, busco sempre aquele, perdido nas estantes de alguma de minhas infâncias.


Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

Nenhum comentário:

Postar um comentário