domingo, 4 de julho de 2010

Pó, Paulo Fernando Monteiro Ferraz

O rumor de máquinas incorporava-se ao cantar dos pássaros na manhã e os golpes das marretas derrubavam o que restou dos muros da casa em que morei. O pó de tijolos esmigalhados pairava no ar, sedimentava-se nas emendas das calçadas, invadia, pelas frinchas das janelas, todas as residências que divisavam a demolição. Uma fina película arenosa formava-se sobre a lataria dos carros estacionados e entranhava-se às roupas dependuradas nos varais. A procissão de operários camuflava-se em meio à nuvem ocre de detritos e sepultava, ignorante e austera, a minha história sob os escombros. O vento enfunava o meu casaco e lançava nos olhos os grânulos de um tempo que não mais existia. A poeira, o sangue mineral das estruturas de ferro retorcido e cimento, varava as ruas. Eu, parado àquela posição, espectador de um funeral que não acontecia aos outros, já sentia as articulações empedernirem-se, como se também meu corpo precisasse tombar abaixo. Livrei-me do torpor, espanei com as mãos os vestígios que cobriam os meus ombros e faces, saquei do bolso a câmera e fotografei o cenário. Agora nenhuma memória se perderia de mim.

Excerto do capítulo de minha autoria Partículas, vindo do livro “Vidas do fora: habitantes do silêncio”. Organizado por Luciano Bedin da Costa e Tania Mara Galli Fonseca. 1ª ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010, v. 1, p. 239a 246.

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