terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Última Tempestade, William Shakespeare


“O céu derramaria breu escaldante se o mar não se elevasse até sua face para apagar o fogo. Como a vista dos que sofriam me era dolorosa! Um navio que levava pessoas boas reduzido a pedaços!... O herdeiro Ferdinando, com os cabelos em pé pulou primeiro e gritou: ‘O inferno está vazio. Os demônios estão soltos!’... Eu era então meu próprio soberano... dos seus ossos o coral nasceu” (Próspero).

“... Tudo marcha como na alma desejo”.

“Ambos estão rendidos. Devo dificultar para que a vitória fácil não desvaneça o prêmio”.

“O sono se aproxima. Por favor, senhor, não recuse a oferta. O sono pouco vem aos que sofrem e, quando o faz, conforta. Velaremos por sua segurança, senhor, enquanto descansa”.

“Claribel, a rainha de Túnis que mora além do mar nos devorou, para poder representar uma peça em que o passado é o prólogo e o futuro depende só de nós?”.

“Enquanto dorme tranqüilo, a traição está desperta... Os outros serão como gato lambendo leite, dançarão conforme nossa música. Há trabalhos fatigantes, mas a fadiga aumenta-lhe a atração. Muitos serviços fúteis são executados com nobreza e assuntos mínimos levam a ricos fins”.

“A muitas damas já dirigi olhares ternos e meus ouvidos ficavam presos à sua fala doce. Dotes me atraíram a muitas mulheres, mas você, tão perfeita e incomparável foi feita do que há de melhor. Admirável Miranda, por certo a perfeição da perfeição. Meu coração o aceita como a escravidão à liberdade”.

“Não tenha medo. A ilha é cheia de ruídos doces árias que só deleitam e não ferem. Às vezes, mil instrumentos ressoam aos ouvidos, vozes que me fazem dormir embora desperto de um longo sono. Vejo as nuvens que se afastam mostrando tesouros prestes a cair sobre mim e choro ao acordar, porque quero sonhar”.

“Mantenham a palavra. Refreiem os jogos amorosos. As juras mais fortes são como palha no fogo da paixão...” (Próspero).

“... Acabou a nossa festa. Esses atores como eu já disse, eram apenas espíritos e se perderam na transparência do ar. Chegará o dia em que as torres coroadas de nuvens, os suntuosos palácios, os templos solenes e até o globo suspenso e tudo que lhe pertence vão desaparecer como se dissolveu este espetáculo sem deixar rastro. Somos feitos da mesma matéria que os sonhos. E nossa vida pequena é cercada pelo sono” (Próspero).

SHAKESPEARE, William. A Última Tempestade. Porto Alegre: L&PM, 2002.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Othello, William Shakespeare


Iago: “Eu o sirvo para servir aos meus propósitos junto a ele. Nem todos podem ser mestres. Nem todos os mestres podem exigir fidelidade absoluta”.

Signor Graciano: “Tal incidente se parece com meu sonho. Acreditar nele me aflige”.

Iago: “De uma teia tão pequena capturarei um grande inseto”.

Othello: “O próximo a alimentar a própria ira pode ter certeza de que morrerá com seu gesto”.

Iago: “A raiva nos faz ferir a quem amamos”.

Iago: “Quando os demônios vestem os pecados mais negros, primeiro sugerem com atos divinos... pois enquanto o tolo importuna... para seu benefício...eu irei entornar veneno em seus ouvido. Que ela tenta camuflar sua própria luxúria. E quanto mais ela se empenha em ajudá-lo mais desconfiança incitará. E eu transformarei suas virtudes em piche. E com sua própria generosidade irei tecer a rede em que todos ficarão emaranhados”.

Iago para Rodrigo: “Pobre daqueles que não têm paciência. Que ferida pode cicatrizar que não seja pouco a pouco?”.

Iago: “O prazer e a ocupação fazem o tempo voar”.

Othello: “Meu amor por ti é do fundo da alma se este meu amor cessar, será tempo de caos”.

Othello: “... Pesas bem as palavras antes de tomarem vida, por isso tuas pausas tanto me assustam...”.

Iago: “Se os homens não são o que aparentam nada deveriam aparentar”.

Iago para Othello: ”Talvez esteja sendo malicioso em minhas desconfianças, pois confesso sentir-me tentado a espionar intenções hostis e geralmente o ciúme simula faltas que não são faltas. Peço que me entendas. Senão fosse por teu sossego nem por teu bem ou minha coragem e honestidade eu revelaria meus pensamentos”.

Iago: “Quem rouba meu dinheiro, rouba lixo. O que senão o nada? Era meu, agora é de outrem e fora escravo de milhares. Entretanto, quem me furta o bom nome não enriquece com isso. De fato, empobrece”.

Othello para Iago: “Por Deus, descobrirei o que pensas”.

Iago: “Não saberias mesmo se dominasses meu coração, nem saberás enquanto estiver sob minha guarda”.

Iago: “... cuidado com o ciúme: é um monstro que zomba da carne a qual se alimenta”.

Iago: “Não preferem deixá-lo de fazê-lo, mas fazê-lo escondido”.

Iago: “Não quero que minhas palavras sobrepujem meras suspeitas”.

Othello: “e pensar que criaturas tão delicadas são nossas e não seus desejos!”.

Iago: “Nem papoula, nem mandrágora, nem todas as poções soníferas do mundo podem restituir-te do suave repouso de que gozavas ontem”.

Othello: “É melhor ser iludido que estar ciente de certas coisas”.

Iago: “... a honestidade é tolice e faz perder a própria causa”.

Iago: “Os homens com culpa para a alma sussurram durante o sono”.

Criada de Desdêmona e esposa de Iago: “Não passam de estômagos. Nós não passamos de comida. Comem a nós vorazmente e quando estão satisfeitos nos arrotam”.

Othello: ”Se a terra pudesse proliferar com as lágrimas das mulheres, cada gota que caísse se transformaria em um crocodilo”.

Othello: “Se agradasse aos céus testar a mim com tal desgosto. Mesmo que fizessem chover dor e vergonha sobre minha cabeça, eu encontraria uma gota de paciência em minha alma. Mas ali eu guardara meu coração onde devo viver ou morrer. A fonte onde corre meu sangue que: ou acaba secando para de lá ser refugado ou permanecer ali como uma cisterna para sapos traiçoeiros que se unem e se enredam”.

Othello: “...não ferirei aquela alva pele mais branca e mais suave que o alabastro”.


SHAKESPEARE, William. Otelo. Porto Alegre: L&PM, 2001.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Literature And Evil, Georges Bataille



The only TV interview that exists with Georges Bataille (1958). About his book Literature And Evil. Interviewer: Pierre Dumayet. Translation: hvolsvellir.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Gradiva: uma fantasia pompeiana, Wilhelm Jensen


Norbert Hanold foi, durante a viagem, cercado de adejos e arrulhos, como se se encontrasse num pombal ambulante, e foi assim, pela primeira vez na vida, obrigado a prestar atenção, com o olho e o ouvido, nas criaturas humanas que o cercavam...Levou em consideração, em primeiro lugar, a parte feminina dessa espécie zoológica. Era, aliás, a primeira vez que ele via de tão perto criaturas como aquelas associadas pelo instinto da aproximação e era incapaz de imaginar o que é que poderia ocasionar aquela proximidade recíproca. A razão pela qual as mulheres podiam ter escolhido homens como aqueles lhe parecia incompreensível, mas o motivo por que os homens tinham feito sua opção por mulheres como aquelas lhe pareciam ainda mais misterioso. Cada vez que erguia a cabeça era obrigado a deixar seu olhar cair sobre o rosto de uma delas e não encontrava nenhum detalhe que desse prazer ao olho por sua forma agradável ou que exprimisse uma lama terna ou espirituosa. Com certeza lhe faltava algum padrão para avaliá-los, pois não se pode comparar o sexo feminino contemporâneo com a sublime beleza das obras antigas, mas ele tinha a vaga sensação de que não era responsável pela injustiça desse método e de que esses rostos não possuíam algo que ele tinha o direito de exigir no dia-a-dia. Também refletiu durante algumas horas acerca da atitude extraordinária dos homens e chegou à conclusão de que, se dentre todas as loucuras humanas, o primeiro lugar cabe sempre ao casamento, como a maior e a mais inconcebível, conviria, no entanto, reservar o cetro da loucura a essas absurdas viagens de lua-de-mel à Itália (p. 26 e 27).

Mais uma vez se recordou do canário que tinha deixado na prisão, pois ele estava também numa gaiola, e em torno dele passavam apressados os rostos dos jovens casais, tão felizes quanto vazios de expressão, e entre eles somente de quando em quando conseguia olhar pela janela. Aquilo que desfilava no exterior, diante de seus olhos, lhe provocava uma impressão completamente diferente da que recebera alguns anos antes, o que podia muito bem se explicar pela situação na qual se encontrava (p. 27).

Assim terminou, no momento, a conversa. Norbert ainda ouviu um barulho vago e o arrastar de cadeiras, depois voltou a mergulhar em seu meio-sono. Este o conduziu a Pompéia no momento da erupção do Vesúvio. Uma agitação preocupada reinava em torno dele, homens em fuga apressavam-se dos seus lados e de repente ele percebeu o Apolo do Belvedere levando a Vênus Capitolina. Pegava-a e a colocava numa sombra obscura que dissimulava um ob(p. 30)jeto qualquer. Devia ser um carro ou carroça no qual iria levar, pois dali provinha um rangido. Esse evento mitológico não surpreendia muito o jovem arqueólogo, mas o que lhe parecia digno de atenção era o fato de o casal não empregar o grego, mas o alemão, e de ele os ouvir dizer um tempo depois quase retomando consciência:
- Minha adorável Greta!
- Meu querido Augusto!
As imagens oníricas em seguida se transformavam completamente. Em torno do sonhador agora reinava um pesado silêncio no lugar dos barulhos agitados e a fumaça e o brilho da chamas foram substituídos pela luz quente e clara do sol que iluminava as ruínas da cidade soterrada. Esta se transformava aos poucos e se tornava um leito de lençóis brancos iluminados por raios dourados que aos poucos subiam até os olhos do adormecido. Norbert Hanold despertou no meio do esplendor cintilante de uma jovem manhã romana. (p. 29 e 30)

Pareciam ter abandonado o silencioso campo das ruínas, o que em realidade não havia, sem dúvida, acontecido, mas o olho não via mais um só movimento. Assim também, antigamente, há milhares de anos, acontecia com os animais seus ancestrais, os das montanhas e os dos rochedos, era um costume, enquanto o grande Pan repousava, eles também, para não incomodá-lo, se estendiam sem moverem-se ou pousavam aqui e ali, fechando as asas. E era como se submetessem aqui, mais rigorosamente ainda, à lei da calma tórrida e sagrada do meio-dia, desta hora de espectros, quando a vida devia calar-se e esconder-se porque os mortos, a esta hora, despertavam e começavam a conversar na língua muda dos fantasmas. Não era tanto a visão que ficava chocada com este novo aspecto das coisas, mas o sentimento, ou um sexto sentido sem nome, contudo este ficava tão fortemente impressionado e de uma maneira tão decisiva, que a pessoa que o possuísse não poderia se subtrair ao efeito que ele causava (p. 42 e 43).

Sua destreza lhe recusava totalmente os serviços... Não só a sua ciência o tinha abandonado como ele tinha também perdido todo o desejo de reencontrá-la; só se lembrava dela como uma coisa muito longínqua e, em seu sentimento, ela tinha sido uma tia velha, seca e aborrecida, em suma, a criatura mais árida e mais supérflua da terra. Tudo o que pudessem dizer seus lábios enrugados, num tom completamente pedante e apresentando-se como sabedoria, tudo aquilo não passava de vã inutilidade, algo que nada mostrava além da casca ressecada dos frutos da árvore da ciência sem nada dar a perceber de sua essência e de sua íntima compreensão. O que a ciência professava era uma visão arqueológica sem vida, e o que ela falava, uma língua morta para uso dos filólogos. Ela não permitia apreender com a alma, o sentimento, o coração, pouco importa o nome. Ao contrário, aquele que aspirava a essa compreensão deveria, único ser vivo no silêncio abrasado do meio-dia, permanecer aqui entre os restos do passado, para não mais ver com os olhos do corpo, para não mais ouvir com os ouvidos carnais. Nesse momento, de toda a parte isso surgia, sem fazer, porém, um movimento, e começava a falar sem emitir um único som. Nesse momento, o sol tirava de seu entorpecimento fúnebre as pedras velhas, um arrepio abrasado as percorria, os mortos despertavam e Pompéia recomeçava a viver (p. 44 e 45).

Uma só dentre ela, tirada da sonolência pela necessidade de atormentar, se pôs a zumbir em volta do seu nariz. Mas ele não a identificou com o mal absoluto, com o flagelo eterno que aflige a humanidade há milênios, ele a tomou, os olhos fechados, por uma Cleópatra vermelha e dourada ocupada em adejar à volta dele.
Quando de manhã o sol, com a ajuda ativa das moscas, o despertou, ele não se lembrava das miraculosas metamorfoses dignas de Ovídio que se haviam desenrolado ao redor da sua cama. Mas, sem dúvida, algum ser místico havia passado toda a noite ao seu lado, tecendo sonhos, pois sentiu a cabeça pesada e vaga, como se tudo o que sabia aí estivesse aprisionado sem poder sair, a não ser a única coisa da qual tinha consciência: que devia estar outra vez ao meio-dia na casa de Meleagro. (p. 57 e 58)

JENSEN, Wilhelm. Gradiva: uma fantasia pompeiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.

Fedra - Sinfonia, Giovanni Simone Mayr


Giovanni Simone Mayr

Opera: Fedra, melodramma serio in two acts, first performance 26 December 1820, Teatro Regio, Turin.

Libretto: Luigi Romanelli after Phèdre by Jean Racine

Sinfonia

Orchestra: Staatsorchester Braunschweig

Conductor: Gerd Schaller

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Fedra, Jean Racine


Ato I – Cena I

Hipólito: “... Não sei o destino desse rosto querido, ignoro os lugares que o podem esconder” (p. 13).

Hipólito: “Liberto já dos erros de jovem... obstáculos indignos não mais o seduzem... E há muito não tem, nem teme, mais rivais... eu cumpro o meu dever e fujo de lugares em que não quero estar” (p. 14).

Terâmeno: “... Compreendo bem a razão de tuas dores” (p. 15).

Hipólito: “... Tu conheces meu coração desde que eu respiro? Suas batidas altivas, desdenhosas, não podem admitir essa vergonha: já no leite... eu sugava esse orgulho que agora te espanta. E tendo atingido idade mais madura, Eu mesmo me aplaudi, quando me conheci. Tu, que cuidavas de mim com atenção sincera, me repetias sempre a história de meu pai. E sabes bem quantas vezes minha alma, atenta à tua voz, se inflamava ao saber dos seus feitos sem par; Quando tu pintavas esse intrépido herói...Mas, quando falavas de feitos menos gloriosos, promessas oferecidas e aceitas em toda parte...e tantas outras a quem ele nem sequer recorda...Tu sabes que, por não me agradarem nada essas histórias, Eu te pedia então que as encurtasses. Pois ficaria feliz se pudesse rasgar da memória essa metade indigna de uma vida tão bela!...não dominei um só dos monstros com que ele ganhou direito de errar...Essa planta daninha não pode dar rebentos!...Como posso abraçar uma causa que meu pai odeia? Devo dar um exemplo de temeridade, embarcando minha juventude num amor tão louco?” (p. 18).

Terâmeno: “... se tua hora foi determinada ao céu não importarão todas as tuas razões. Teseu te abriu os olhos ao querer fechá-los, e teu ódio, atiçando uma chama rebelde, empresta uma graça maior a essa graça inimiga... Se a doçura existe por que não prová-la? Preferes ser escravo de uma vontade imposta?... A floresta já não ressoa mais com nossos gritos, tuas pálpebras pesam com uma febre estranha. Não há que duvidar, senhor, tu amas, tu queimas, consumido por um mal que em vão dissimulas: É a bela Arícia que te encanta tanto?” (p. 19).

Hipólito: “O dever me obriga” (p. 20).

Cena II

Enone: “... que dor pode igualar-se à minha dor? Morre em meus braços de um mal que não revela. Há em seu espírito uma eterna desordem; À noite, a angústia arranca-a do leito. Quer ver a luz, mas desesperada, me ordena também que ninguém se aproxime...” (p. 20).

Fedra: “Chega de andar... já não tenho mais forças. Meus olhos estão cegos pela luz do dia; os joelhos tremem, não mais me sustentam...” (p. 21).

Enone: “Oh, se nossas lágrimas pudessem acalmar a ira dos deuses!” (p. 21).

Fedra: “... Tudo me aflige e incomoda; tudo conspira para minha aflição” (p. 21).

Enone: “Cada novo desejo teu destrói o anterior... Querias te mostrar e rever a luz do dia. Aí está a luz... mas ao vê-la, tu te escondes, odiando o dia que buscava” (p. 22).

Enone: “... Hei de ver-te para sempre renunciando à vida, fazendo eternamente preparativos fúnebres?” (p. 22).

Fedra: “... Onde foram para minha razão e minha vontade? Eu as perdi: os deuses me arrancaram... Deixo que vejas demais minhas dores vergonhosas; E meus olhos, sem que eu queira, estão cheios de pranto” (p. 23).
Enone: “Se queres te envergonhar, tem vergonha do silêncio que torna mais pungentes as tuas dores... Queres mesmo, sem pena, terminar teus dias? Que furor corta a vida no meio do seu curso? Que maldição ou veneno secou tua nascente? Três vezes as sombras escureceram o céu desde que o sono desertou teus olhos; E três vezes o dia espantou a noite, desde que teu corpo definha sem alimento. Que desígnio horrendo te impulsiona? Que direito tens de atentar contra ti mesma? Ofendes os deuses que te deram a vida...” (p. 24).

Enone: “... Não demora; cada instante te mata. Restaura logo tuas forças desgastadas, enquanto tua chama, quase se consumindo, ainda brilha um pouco e pode reacender” (p. 24 e 25).

Enone: “... Algum remorso te tortura? Que delito será que produz tanta angústia? Tens as mãos maculadas por algum sangue inocente?” (p. 25).

Enone: “Mas que tenebroso anseio vive em teu coração, para mergulhar teu ser em tanto desespero?” (p. 25).

Fedra: “Já te falei demais. Poupe-me o resto. Morro para não revelar essa ânsia funesta” (p. 25).

Fedra: “Estremecerás de horror se eu romper o silêncio.” (p. 26).

Enone: “... em nome das lágrimas que por ti derramei, por teus débeis joelhos que abraço com ternura, livra minha mente da dúvida funesta” (pg. 27).

Fedra: “... A confusão tomou conta da minha alma perdida: meus olhos já não viam; não podia falar; Senti meu corpo tremer de frio e arder em fogo... Eu procurava aflita minha razão perdida; remédios impotentes para um amor incurável!... Minha ferida, ainda viva, recomeçou a sangrar. Não é mais um só arador escondido no peito...Agora meu crime já me enche de horror, sinto ódio da vida e abomino o amor; Eu queria morrer para salvar minha honra; Não revelar nunca essa chama tão negra...Nem tentes reviver com esforços inúteis um resto de calor prestes a se extinguir” (p. 30 e 31).

Cena V

Enone: “... Não haverá outras mãos para enxugar suas lágrimas...” (p. 34).

Ato II – Cena I

Arícia: “Que frívola esperança te faz pensar que me poupe e respeite, em mim só, um sexo que desdenha? Não vês há quanto tempo ele evita meus passos e só vai a lugares que eu não esteja?” (pg. 37).

Ismênia: “... Os olhos... em vão queriam fugir. Esmaeciam, lânguidos, mas não podiam te evitar. Amante, creio, é um nome que ofende sua coragem; mas nos olhos é um amante – se não o é em palavras” (p. 38)*.

Arícia: “... Meu coração escuta avidamente. Mas tua fala não tem qualquer razão!... Um coração nutrido só de amargura e pranto, triste joguete de um destino implacável, pode um dia acordar para o amor e seus loucos tormentos?... espada ceifou tudo e a terra, umedecida, bebeu como horror o sangue desses meus irmãos... Dons que a natureza lhe deu em demasia e que ele despreza ou até ignora... Eu, mais exigente que ela, recuso a glória inglória de aceitar a homenagem oferecida a mil outras – A de entrar num coração com mil portas abertas. Mas tronar dócil uma coragem inflexível, insinuar a dor numa alma insensível, fazer um prisioneiro se revoltar em vão contra os grilhões que descobre que adora, Isso eu desejo: isso me inflama” (p. 38 e 39).


Cena II

Hipólito: “... Quanto às razões de sua ausência demasiado longa; Só a morte, interrompendo seus feitos deslumbrantes, poderia escondê-lo do mundo tanto tempo. Os deuses entregam enfim às parcas homicidas... Espero que teu ódio, respeitando suas virtudes, escute sem rancor esse louvores que lhe são devidos. Uma esperança atenua minha mortal tristeza!... Revogo a lei cujo rigor sempre me opus... Eu te faço tão livre, ou mais livre do que eu” (p. 41).

Hipólito: “... Os córregos dos campos já beberam demais o sangue do teu sangue que ali mesmo brotou...” (p. 42).

Arícia: “Tudo isso que ouço me espanta e me confunde...” (p. 42).

Hipólito: “... Não sei com que cores pintaram meu orgulho; espera o que não creias que um monstro me gerou. Que natureza selvagem, que ódio endurecido ao ver-te não ficariam domados e abrandados? Poderia eu resistir à tua mágica enganosa? “ (p. 43).

Hipólito: “... Vejo que minha razão cedeu ao devaneio: Mas já que comecei a romper o silêncio, não devo mais parar... sem revelar um segredo que meu coração não pode mais guardar... Eu, que ao amor sempre fui ferozmente rebelde, que sempre desprezei os que lhe eram escravos, deplorando o naufrágio dos que achava mais fracos. E pensava poder olhar sempre a borrasca de uma margem segura, Me vejo agora sujeito à lei humana, jogado na voragem e arrastado bem longe de mim! Um instante só derrubou minha presunção confiante; Minha alma tão soberba é enfim prisioneira. Já há mais de seis meses vencido e envergonhado, levando em toda a parte a flecha que me mata, contar ti, contra mim, eu me debato em vão. Quando estás, fujo de ti; se ausente te procuro; até no fundo das matas tua imagem me persegue; a luz clara do dia e as densas sombras da noite tudo me redesenha os encantos que evito!... E agora, como resultado único de meus vão esforços, Eu mesmo me procuro e não me encontro mais... Pode ser que a confissão de um amor assim tão selvagem te deixe envergonhada pelo que provocaste; Que defesa mais tosca do coração que te entrego! Que estranho prisioneiro de vínculo tão belo! Que aos teus olhos a oferenda seja mais preciosa... Não rejeites meus votos por serem tão mal expressos, Hipólito não os faria se tu não existisses” (pg. 43, 44 e 45).

Cena III

Hipólito: “Enquanto isso tu te afastas. E aí eu vou embora. Sem saber se ofendo o encanto daquela que eu adoro! Sem saber se o coração que deixo em tuas mãos...” (p. 46).

Cena V

Fedra: “... Todo o sangue invade meu coração. Esqueço, ao vê-lo, tudo que ia dizer” (p. 47).

Fedra: “Venho juntar minhas lágrimas às tuas dores... Mas um remorso secreto agita meu espírito, pois devo Ter fechado teus ouvidos a seus gritos...” (p. 48).

Fedra: “Se me odiasse eu não poderia me queixar... pois me viste sempre interessada em te prejudicar; Como poderias ler o fundo do meu coração? Fiz tudo que podia para me tornar tua inimiga; Não queria que vivesses onde eu mesma vivia. Em público ou em segredo lutei sem descansar para colocar um oceano entre nós... Contudo, se a pena deve corresponder ao crime, se teu ódio deve igualar meu ódio...” (p. 48).

Fedra: “Não é dado a ninguém ver duas vezes o rio dos mortos... Nos meandros sem fim do labirinto; que riscos eu não aceitaria por esse rosto mágico?” (p. 51).

Fedra: “... Te disse o necessário para evitar enganos... Eu me creia inocente, me perdoe a mim mesma, nem que o amor desvairado que turba a minha razão tenha sido alimentado por uma vil complacência. Objeto infortunado das vinganças celestes, Eu me detesto ainda mais do que tu me detestas... Tentei te parecer odiosa e desumana para melhor resistir alimentei teu ódio. Do que me adiantaram todos esses cuidados? Tu me odiavas mais e eu não te amava menos. Teu encanto crescia com as tuas desventuras; Eu definhava, me debulhava em pranto e me secava em fogo... Se teus olhos por um instante quisessem me olhar... Podes vingar-te agora punindo-me do que fiz por essa horrenda paixão... Liberta o universo de um monstro que te enoja... Não podes deixar vivo esse monstro espantoso; Eis meu coração; aqui deves ferir. Ansioso de expiar a sua culpa, ele bate feliz esperando o teu golpe. Se teu ódio me nega um suplício tão doce, se não queres manchar tuas mãos com um sangue tão vil, poupa teu braço e me dá a tua espada...” (p. 54).

Cena VI

Hipólito: “... Que um esquecimento profundo sepulte para sempre esse segredo horrível!” (p. 55)*.

Hipólito: “... O cetro vai ficar em mãos que o engrandeçam” (p. 56).

Ato III

Cena I

Fedra: “Ah! Tira da minha frente as honras que me enviam; Importuna, queres que eu me deixe ver? Pretendes iludir minha alma desolada? Pelo contrário, me esconde: Eu já falei demais. A minha loucura ousou se revelar abertamente. Eu disse o que jamais ninguém devia ouvir...” (p. 57).

Enone: “Procurando em tua desgraça só causa de lamento, Alimentas o fogo que queres extinguir...” (p. 58).

Fedra: “Eu, reinar! Governar um estado, eu, cuja débil razão já não governa a si mesma? Eu, que perdi o domínio de meus sentimentos e mal respiro na vergonha imensa?...” (p. 58).

Fedra: “Ele conhece meus ardores insensatos. Atravessei as fronteiras da dignidade. Expus, ao meu vencedor, minha intimidade, pois a esperança, furtiva penetrou meu peito. Tu mesma animaste minhas forças vacilantes, incitando-me à vida com abonos e lisonjas; me fizeste crer que eu podia amá-lo” (p. 59).

Fedra: “... Criado nas florestas é rude como elas. Endurecido pelas leis selvagens é a primeira vez que lhe falam de amor. Talvez sua surpresa o tenha emudecido; Ou foram violentas demais as minhas súplicas” (p. 59).

Fedra: “... És minha última esperança: eu te autorizo tudo” (p. 61).

Cena II

Fedra: “Ó tu, que vês a vergonha a que desci... basta de humilhação! Não tens como levar mais longe a tua crueldade. Teu triunfo é perfeito; todos teus dardos acertaram o alvo...” (p. 61).

Cena III

Enone: “É hora de sufocar o pensamento de um amor inútil...” (p. 62).

Fedra: “Eu te preveni, mas não quiseste me ouvir. Venceste com tuas lágrimas os meus justos remorsos...” (p. 63).

Fedra: “... Por que fiz o que fiz?... Eu não sou dessas mulheres impudentes que tiram do crime uma espécie de máscara que põe seu rosto calma e serenidade. Conheço minhas loucuras, não esqueço nenhuma. Já vejo estes muros e estas colunas adquirindo vozes para me acusar...Cessar de viver será um mal tão grande? Aos infelizes a morte não assusta; Só me assusta o nome que eu vou deixar...” (p. 63 e 64).

Fedra: “Queres me obrigar a oprimir e enlamear a inocência?” (p. 65).

Enone: “... Enfrentaria a morte mil vezes com mais tranqüilidade... Temos que realizar a ação que se imponha. Para salvar essa honra em perigo devemos imolar tudo, até a virtude” (p. 66).

Fedra: “... Pela insolência de seus olhos u sei que estou perdida. Faz o que bem entenderes – me entrego a ti. Na confusão em que estou já não confio em mim” (p. 66).

Cena IV

Fedra: “... Não profana uma emoção tão pura; Eu não mereço mais esse afeto tão doce...” (p. 67).

Cena V

Hipólito: “... Que outras obrigações podem deter-me agora? Minha juventude ociosa já mostrou demais sua destreza... Colorir minhas armas com sangue mais glorioso?... Deixa que minha coragem possa enfim se provar. Que eu traga a teus pés espólios memoráveis, ou que uma bela morte eternize minha memória. Que meu fim valoroso seja o meu apogeu e prove ao mundo inteiro que eu era um filho teu” (p. 68 e 69).

Teseu: “... Quando a alma, reentregue a si mesma, só deseja saciar-se em ver o que é amado, eis que sou recebido com medo e calafrios; Todos fogem, se negam aos meus abraços; E eu, contagiado pelo horror que inspiro, preferiria continuar no Épiro” (p. 70).
Cena VI

Hipólito: “Que significam essas palavras que gelaram meu sangue?... O amor incontido espargiu um veneno funesto em sua casa! Eu mesmo estou cheio de um fogo que seu ódio reprova... Foi um o que ele deixou e é outro o que ele encontra. Pressentimentos negros enchem meu coração. Mas a inocência, enfim, não tem nada a temer...” (p. 71).

Ato IV

Cena I

Teseu: “... Com que rigor, que dureza, destino, me persegues! Já não sei onde vou, já não sei onde estou. Ó ternura! Ó bondade assim tão mal recompensada!...O insolente não hesitou em recorrer à violência!...” (p. 72).

Teseu: “... Seu abraço gelado esfriou minha ternura...” (p. 73).

Cena II

Teseu: “... A natureza devia colocar sinais precisos para reconhecermos o coração dos pérfidos!” (p. 74).

Hipólito: “... que sombra funesta conseguiu perturbar tua augusta expressão?...” (p. 74).

Teseu: “Pérfido! Como ousas te mostrar diante de mim? Monstro que os raios do céu já pouparam demais, resto impuro dos facínoras de que livrei a terra! Levou tua luxúria ao leito de teu pai. E ainda ousas vir me exibir essa face inimiga!...Foge traidor! Não desafia o meu ódio. Nem aumenta uma cólera que eu a custo domino. Já é demais, para mim, a eterna ignomínia de ter posto no mundo um filho tão canalha. Que sua morte, vergonhoso à minha memória, ainda enlamará a glória dos meus feitos... Lembra que, como prêmio desse meus esforços, juraste atender qualquer pedido meu. No interminável sofrimento de uma dura prisão jamais implorei tua força imortal; avaro de socorro que me prometeste eu o reservei para uma necessidade extrema... Eu abandono esse traidor a toda a tua cólera; Sufoca em seu sangue esses desejos sujos...” (p. 76).

Hipólito: “... São tantos golpes juntos; imprevistos, que a voz me falta; minhas palavras fogem.” (p. 76).

Hipólito: “... Aprova o respeito que cerra a minha boca, não procura aumentar a dor de tuas feridas; Examina minha vida e recorda quem sou. Alguns crimes antecipam sempre grandes crimes; Quem, em dado momento, ultrapassa as fronteiras do lícito acaba violando as normas mais sagradas; Mas, assim como a virtude, o crime tem escalas... Um só dia não transforma um mortal virtuoso...” (p. 77).

Teseu: “... Eu vejo a causa odiosa dessa tua frieza... Tua alma desdenhava queimar sua chama exigente; Qualquer outro objeto lhe era indiferente” (p. 78).

Teseu: “Tua desfaçatez só aumenta a minha cólera!” (p. 79).

Cena III

Teseu: “Miserável, corres para uma perda inevitável... Eu te amava e apesar de tua ofensa sinto minhas entranhas gelarem por antecipação... Oh, céus, que vês a dor que me acabrunha como pude gerar um filho assim, tão, tão corrompido?” (p. 81).

Cena IV

Teseu: “... Eu sei entender um ardil caviloso...” (p. 83).

Cena V

Fedra: “... Talvez ele tenha até um coração fácil de enternecer: E eu seja o único se que lhe causa aversão...” (p.84).

Cena VI

Fedra: “... Com que filtro mágico cegaram os meus olhos?... O céu lhes aprovava a inocência das carícias; seguiam sem pecado a inclinação do amor...Nutrindo-me de fel, bebendo as próprias lágrimas e, com minha infelicidade sempre vigiada, não podia sequer me desafogar no pranto. Saboreava a medo esse prazer funesto disfarçando minhas mágoas num expressão serena. E muita vezes minha dor tinha que se privar de lágrimas” (p. 86).

Fedra: “... Cada palavra me arrepia os cabelos. Meus delitos já transbordam todas as medidas... Minhas mãos homicidas, prontas a me vingar, anseiam por mergulhar em um sangue inocente... Perseguida por tormentos até meu último dia vivo em torturas uma existência miserável” (p. 88).

Enone: “... Um encanto fatal te arrebatou a alma... O amor, por acaso, venceu somente a ti? A fraqueza é natural ao ser humano... Lamentas um jugo que te escraviza há tanto tempo...” (p. 89).

Fedra: “... Até o fim pretendes continuar me envenenando, desgraçada?... deixa-me só com o destino execrável!... E que o teu castigo assuste para sempre os que, como tu, com as astúcias mais vis, alimentam as fraquezas dos príncipes infelizes, empurrando-os num abismo que atrai seus corações...” (p. 90).

Ato V
Cena I

Arícia: “... Teimas em te calar nesse perigo extremo?... Se dás tão pouco valor às minhas lágrimas, deves te resignar também nunca mais me ver...” (p. 91).

Hipólito: “... Só contigo e com os deuses, abri meu coração... Coisas que até de mim mesmo pretendia esconder... E esquece se puderes. E que jamais tua boca tão pura se abra para falar desse fato obsceno... Só isso eu te exijo,esse silêncio. Abandona a escravidão a que te reduziram...Escapa deste lugar profanado e sombrio, onde a virtude respira um ar envenenado...Que medo te detém? Pareces hesitante! Só o teu interesse inspira minha audácia. Por que, se estou em fogo, te sinto tão gelada?...” (p. 93).

Hipólito: “... Ali nenhum mortal ousa jurar em falso, pois recebe o castigo imediato. E não há freio maior para a mentira do que a certeza da morte inevitável. Lá, se confias, iremos pronunciar os votos solenes de um amor eterno...” (p. 94)*.

Cena II

Teseu: “Deuses! Iluminem minha perturbação, mostrem aos meus olhos a verdade” (p. 94).

Cena III

Teseu: “Teus olhos dominaram seu orgulho selvagem. Seus primeiros suspiros são um triunfo teu” (p. 95).

Arícia: “... Como suportas que as mais vis calúnias enlameiem o caminho de uma vida tão bela? Conheces assim tão pouco o coração de teu filho? Distingues tão mal o crime da inocência? Só a teus olhos uma nuvem negra cobre a virtude evidente a todos...” (p. 96).

Teseu: “Não tente em vão suavizar sua culpa; O amor te cega a favor deste ingrato. Eu creio em testemunhos seguros, inegáveis. Eu mesmo vi correr o pranto da verdade” (p. 96 e 97).

Arícia: “... Fujo à tua presença para não ser forçada a romper meu silêncio” (p. 97).

Cena IV

Teseu: “O que quer dizer isso? Que coisa se esconde numa fala que pára, recomeça e não termina nunca? Desejam me cegar com um fingimento tolo? Os dois conspiram para me confundir? E em mim mesmo, com todo o meu rigor, uma voz lamentosa soa em meu coração; Uma piedade secreta me espanta e me aflige...” (p. 97).

Cena V

Panopéia: “... Tem impresso no rosto um desespero mortal; A palidez da morte já lhe cobre o semblante...” (p. 98).

Panopéia: “A perturbação parece crescer nessa lama confusa. Algumas vezes, acalmando suas dores secretas, abraça os filhos e os banha em lágrimas...” (p.98).

Teseu: “... Penso que acreditei demais em testemunhas falsas e me precipitei, erguendo logo para ti minhas mãos cruéis!...” (p. 99).

Cena VI

Terâmeno: “Os seus guardas aflitos copiavam seu silêncio... Os soberbos corcéis que, em outros tempos, víamos sempre, cheios de ardor, obedecer-lhe à voz, tinham agora os olhos apagados, a cabeça baixa, como reflexos de sua tristeza... Sacudindo o ar imóvel, um grito inenarrável; Do seio da terra uma voz formidável respondeu a um gemido espantoso. Todos os corações gelaram até o mais fundo... seus gemidos sem fim estremeciam as encostas. O céu se agitava ante a visão disforme, a terra tremia, o ar se empesteava...A planície ressoa com os gritos de dor...Para lá eu corro em soluços...traços sangrantes nos indicam o caminho; As rochas estão vermelhas e as árvores em volta gotejam sangue de tufos de cabelo. Eu me aproximo e o chamo; ele me estende a mão, abre um instante o olho moribundo: ‘O céu’- disse ele –‘me arranca a vida inocente...’ (p. 100, 101, 102 e 103).

Cena VII

Teseu: “... Ah, quantas razões de medo; uma suspeita cruel alarma meu coração até o fundo!... Que os meus olhos continuem enganados para sempre... Gostaria de exilar-me do universo inteiro. Tudo parece se erguer contra minha injustiça; A fama do meu nome aumenta o meu suplício: Desconhecido dos homens seria mais fácil esconder-me...” (p.105).


RACINE, Jean. Fedra. Porto Alegre: L&PM, 2001.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Nantas, Émile Zola


O papel sujo, o teto escuro, a miséria e a nudez daquele cômodo sem lareira não o incomodavam. Desde que adormecia diante do Louvre e das Tulheiras, comparava-se um general que se deita em um albergue miserável, á beira de uma estrada, diante da cidade rica e imensa que deve tomar de assalto no dia seguinte (p. 47 e 48).

A história de Nantas era curta. Filho de um pedreiro de Marselha, começara a estudar no liceu da cidade estimulado pela ternura ambiciosa da mamãe, que sonhava transformá-lo em um senhor. Os pais se esfalfaram-se para permitir que chegasse até os exames finais do segundo ciclo. Depois, quando sua mãe morreu. Nantas teve de aceitar ter um empreguinho junto a um negociante, onde arrastou por doze anos uma vida cuja monotonia o exasperava. Teria fugido vinte vezes se seu dever filial não o tivesse mantido preso em Marselha ao lado do pai, que caíra de um andaime e ficara paralisado. A partir daquele momento, teve de suprir todas as necessidades da pequena família. Porém, um dia, ao voltar para casa, encontrou o pedreiro morto, o cachimbo ainda quente ao seu lado. Três dias depois, vendera os poucos pertences do lar e partira para Paris com duzentos francos no bolso (p. 48).

Muitas vezes riram dele quando não parava de fazer confidências e de repetir sua frase favorita, “Sou uma força”, frase que se tornar cômica quando se via em seu fino redingote preto, rasgado nos ombros e cujas mangas lhe subiam acima dos punhos. Aos poucos, construíra dessa forma para si uma religião da força, só vendo a ela no mundo, convencido de que os fortes são de qualquer forma os vitoriosos. De acordo com ele, bastava quere e poder. O resto não tinha importância (p. 48 e 49).

Não era absolutamente uma vontade baixa, um apetite de prazeres vulgares; era o sentimento bem nítido de uma inteligência e de uma vontade que, por não estarem em seu lugar, pretendiam subir com tranqüilidade a esse lugar por uma necessidade natural de lógica (p. 49).

Entrementes sua bolsa se esvaziava, restavam-lhe no máximo uns vinte francos. E foi com esses vinte francos que teve de viver mais um mês comendo só pão, percorrendo Paris de manhã à noite e voltando para dormir sem luz, alquebrado de cansaço, as mãos sempre vazias. Não se desencorajava; só que uma cólera surda começava a dominá-lo. O destino parecia-lhe ilógico e injusto (p. 50).

Ele aceitaria qualquer coisa, pois tinha certeza de que abriria caminho para a fortuna na primeira colocação que encontrasse. A princípio só queria pão, com o que viver em Paris, um terreno qualquer para construir depois pedra sobre pedra. De Montmarte à rue de Lille, caminhou devagar, o coração cheio de amargura. A chuva cessara, uma multidão ocupada chocava-se com ele nas calçadas. Ele deteve-se vários minutos diante da loja de um cambista: talvez cinco francos é possível viver oito dias e em oito dias se fazem muitas coisas. Enquanto sonhava assim, um veículo o sujou, ele teve de limpar o rosto que um jato de lama fustigara. Então passou a andar mais depressa, os dentes cerrados, tomado por uma vontade de ferro de acabar aos socos com a multidão que barrava as ruas: aquilo vingaria a tolice do destino. Quase foi esmagado por um ônibus na rue Richelieu. No meio da place du Carrousel, olhou paras as Tulheiras com ciúme. Na ponte dos Saints-Pères, uma menininha bem vestida obrigou-o a desviar da linha reta por uma matilha; e aquele desvio pareceu-lhe a suprema humilhação: até as crianças impediam-no de passar. Finalmente, refugiado em seu quarto, como um animal ferido que volta para morrer na toca, sentou-se com todo o seu peso na cadeira, extenuado, examinando a calça que a lama enrijecera e seus sapatos deformados que transformavam o assoalho em um lago (p. 50 e 51).

Desta vez era mesmo fim. Nantas perguntava-se como se mataria. Seu orgulho perdurava, achava que seu suicídio puniria Paris. Ser uma força, sentir em si uma potência e não encontrar uma pessoa que o adivinhasse, que lhe desse o primeiro escudo de que precisava! Aquilo parecia-lhe uma tolice monstruosa, todo o seu ser sublevava-se. Além disso, sentia uma imensa decepção quando seus olhares recaíam sobre seus braços inúteis. No entanto, nenhuma tarefa o amedrontava; com a ponta do dedinho, ergueria um mundo; e permanecia ali, rejeitado em seu canto, reduzido à impotência, devorando-se como um leão enjaulado. Mas logo se acalmava, achava a morte maior. Haviam lhe contado, quando era pequeno, a história de um inventor, após construir um máquina maravilhosa, uma dia a quebrara a marteladas diante da indiferença da multidão. Muito bem! Ele era esse homem, carregava nele uma nova força, um mecanismo raro de inteligência e vontade, e ia destruir aquela máquina, despedaçando o crânio no pavimento da rua (p. 51 e 52).

Será que encontramos onde nos vender? Os escroques, que espreitam as oportunidades, morrem na miséria sem jamais colocar a mão em um comprador. Temeu estar sendo o covarde, disse a si mesmo que estava inventando distrações. E sentou-se de novo, jurando que se jogaria da janela assim que a noite caísse (p. 53).

- Veja só, senhora – exclamou -, não nos conhecemos, mas não teríamos de fato motivos para nos detestar assim à primeira vista. Talvez vendo que a senhora me despreza; é porque ignora minha história (p. 65).

E seu discurso foi febril, apaixonado, quando lhe contou sua vida devorada pela ambição em Marselha explicou a raiva de seus dois meses de tentativas inúteis em Paris. Em seguida revelou seu desdém pelo que denominava as convenções sociais nas quais chafurdam os homens comuns. Qual a importância do juízo das multidões quando se pisava sobre elas! Tratava-se de ser superior. A onipotência a tudo desculpava. E, em linhas gerais, descreveu a vida soberana que saberia construir para si. Não temia mais qualquer obstáculo, nada prevalecia contra a força, ele seria forte, feliz (p. 65).

Oh, se a senhora soubesse tudo o que troa em mim, se soubesse das noites ardentes que passei sonhando sempre o mesmo sonho, o tempo todo carregado pela realidade do dia seguinte, a senhora me compreenderia, talvez ficasse orgulhosa de se apoiar em meu braço dizendo para si mesma que está me fornecendo finalmente os meios de ser alguém” (Zola, 2001, p. 65/66).

“A realização de todas as suas ambições não o tocava mais. Nas caixas ao lado, o ruído do ouro aumentara; era a hora em que a casa Nantas roncava, impulsionando todo um mundo. E ele, no meio daquele labor colossal que era obra sua, no apogeu do poder, os olhos estupidamente fixados na carta do imperador, soltou esse lamento de criança, que era a negação de toda a sua vida:
- Não sou feliz... Não sou feliz...
Ele chorava, a cabeça caída na escrivaninha, e suas lágrimas quentes apagavam a carta que o nomeava ministro (p. 78).

Foi a época de sua vida em que realizou seus maiores feitos. Uma voz assoprava-lhe inspirações elevadas e fecundas. À sua passagem, erguia-se um murmúrio de simpatia e admiração. Ele, porém, permanecia insensível aos elogios. Parecia trabalhar sem esperança de recompensa, com a idéia de acumular suas obras, tendo como único intuito tentar o impossível. Toda vez que subia na carreira, consultava o rosto de Flavie. Será que finalmente a esposa fora tocada? Será que ela perdoara sua antiga infâmia para só ver o desenvolvimento de sua inteligência? E ele continuava não surpreendendo qualquer emoção no rosto mudo daquela mulher e dizia-se, tornando ao trabalho: ‘Vamos, não sou digno o suficiente dela, tenho de subir mais, sem parar”. Ele pretendia forçar a felicidade como forçara a fortuna. Toda a crença em sua força voltava-lhe, não admitia outra alavanca nesse mundo, pois é a vontade da vida que fez a humanidade. Quando às vezes se sentia desencorajado, fechava-se para que ninguém suspeitasse das fraquezas de sua carne. Só era possível adivinhar seus combates por seus olhos fundos, com olheiras escuras, onde ardia uma chama intensa (p. 79).

O revólver estava sobre a mesa manca, ao alcance de suas mãos. Agora ele deixara de ter pressa, tinha certeza de que ninguém viria e de que ele se mataria à vontade. Devaneava e dizia a sim mesmo que se encontrava no mesmo ponto em que em outros tempos, trazido de volta para o mesmo lugar, com a mesma vontade de suicídio. Um outro dia, naquele lugar, quisera rebentar a cabeça; então era pobre demais para comprar uma pistola, só dispunha do pavimento da rua, mas a morte era da mesma forma o fim. Assim, na existência, ele só tinha a morte que não enganava, que sempre se mostrava segura e pronta. A única coisa sólida que conhecia era ela, por mais que procurasse, tudo desabara o tempo todo a seus pés, apenas a morte permanecia uma certeza. E ele lamentou ter vivido dez anos a mais. A sua experiência de vida de alcançar a fortuna e o poder lhe parecia-lhe pueril. Para quê esse desperdício de vontade, para quê tanta força produzida já que decididamente a vontade e a força produzida já que decididamente a vontade e a força não eram tudo? Uma paixão bastara para destruí-lo, ele metera-se tolamente a amar Flavie, e o monumento que construíra fendia-se, desabava como um castelo de cartas derrubado pelo sopro de uma criança. Era miserável, parecia com a punição de um estudante gazeteiro sob o qual se quebra um galho e que perece pelo seu pecado. A vida era tola, os homens superiores acabavam tão bobamente quanto os imbecis.
...Uma última lástima amoleceu-o por um segundo naquele momento supremo. Quantas coisas realizaria se Flavie o compreendesse! No dia em que ela o abraçasse dizendo-lhe ‘Eu o amo’, neste dia encontraria a alavanca para levantar o mundo. E seu último pensamento era um grande desprezo pela força, pois a força, que deveria dar-lhe tudo, não conseguira lhe dar Flavie (p. 91).

ZOLA, Émile. A Morte de Olivier Bécaille e Outras Novelas. Porto Alegre: L&PM, 2001

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Morte de Olivier Bécaille, Émile Zola


Por quanto tempo fiquei assim? Não saberia dizer. No nada, uma eternidade e um segundo têm a mesma duração. Eu não era mais. Aos poucos, confusamente, voltou-me a consciência de ser. Continuava dormindo, mas comecei a sonhar. Um pesadelo destacou-se do fundo negro que barrava meu horizonte. E esse meu sonho era uma imaginação estranha que em outros tempos muitas vezes me atormentara de olhos abertos quando, com minha predisposição natural para invenções terríveis, saboreava o prazer atroz de criar catástrofes para mim (p.31).

Até então eu resistira à vertigem, aos sopros de raiva que subiam de vez em quando em mim como uma fumaça de embriaguez. Eu reprimia principalmente os gritos, pois sabia que se gritasse estaria perdido. De repente comecei a gritar, a urrar. Era mais forte do que eu, os urros saíam de minha garganta que desinchava. Pedia socorro com uma voz que não conhecia, ficando cada vez mais transtornado a cada apelo, gritando que não queria morrer. E arranhava a madeira com as unhas, contorcia-me em convulsões de lobo enjaulado. Quanto tempo durou a crise? Não sei, mas ainda sinto a dureza implacável do caixão em que me debatia, ainda ouço a tempestade de gritos e soluços com que enchia aquelas quatro tábuas. Num último clarão de razão, quis me conter e não consegui (p. 37).

Ah, como desejei a morte naquele momento! Durante toda a minha vida, tremera diante do nada; e eu o queria, o exigia, jamais seria tão negro. Que infantilidade temer aquele sono sem sonho, aquela eternidade de silêncio e trevas! A morte só era boa porque suprimia o ser de uma só vez, para sempre. Oh, dormir como as pedras, voltar à argila, deixar de ser! (p. 37).

A fome me torturava, tive de parar, presa de uma vertigem que deixava minhas mãos moles, a mente vacilante. Sugara as gotas que escorriam da picada em meu polegar. Então mordi meu polegar. Então mordi meu braço, bebi meu sangue, esporeado pela dor, reanimado por aquele vinho morno e acre que me molhava a boca. E, voltando ao prego com as duas mãos, consegui arrancá-lo (p. 38).

Sentira perto de mim na fossa as ferramentas dos coveiros e senti a necessidade de reparar o estrago que acabara de fazer, de tapar o buraco, para que não se conseguisse perceber minha ressurreição. Naquele momento, minhas idéias não eram claras; só achava inútil divulgar a aventura, sentindo vergonha de estar vivo quando o mundo inteiro achava que eu estivesse morto. Em meia hora de trabalho consegui apagar qualquer vestígio. E saltei para fora da fossa (p. 40 e 41).

Desde então viajei muito, vivi um pouco por toda parte. Sou um homem medíocre, que trabalhou e comeu como todo mundo. A morte não me amedronta mais; mas ela parece não me querer, agora não tenho qualquer razão para viver, e temo que ela me esqueça (p. 45 e 46).

ZOLA, Émile. A Morte de Olivier Bécaille e Outras Novelas. Porto Alegre: L&PM, 2001.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Entrelinhas, Dostoiévsky



O Entrelinhas destaca Os Irmãos Karamázov, romance que sintetiza a obra de Dostoiévski que acaba de ganhar uma edição em dois volumes, com tradução feita diretamente do russo por Paulo Bezerra.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Freud, a Psicanálise e a Literatura 1



"Freud, a Psicanálise e a Literatura"
(TV Cultura - Entrelinhas)

Nascido Sigismund Schlomo Freud (mas em 1877 abreviou seu nome para Sigmund Freud), aos quatro anos de idade sua família transferiu-se para Viena por problemas financeiros. Morou em Viena até 1938, quando, com a vinda do nazismo (Freud era judeu), foge para a Inglaterra. Era um excelente aluno, porém, por ser judeu, só poderia escolher entre os cursos de Direito ou Medicina, optando por este último.
Sigmund Freud é filho de Jacob Freud e de sua terceira mulher Amalie Nathanson (1835-1930). Jacob, um judeu proveniente da Galiza e comerciante de lã, muda-se a Viena em 1860.
Os primeiros anos de Freud são pouco conhecidos, já que ele destruíra seus escritos pessoais em duas ocasiões: a primeira em 1885 e novamente em 1907. Além disso, seus escritos posteriores foram protegidos cuidadosamente nos Arquivos de Sigmund Freud, aos quais só tinham acesso Ernest Jones (seu biógrafo oficial) e uns poucos membros do círculo da psicanálise. O trabalho de Jeffrey Moussaieff Masson pôs alguma luz sobre a natureza do material oculto.
Em 14 de Setembro de 1886 em Hamburgo, Freud casou-se com Martha Bernays.
Freud e Martha tiveram seis filhos: Mathilde, nascida em 1887, Jean-Martin, nascido em 1889, Olivier, nascido em 1891, Ernst, nascido em 1892, Sophie, nascida em 1893 e Anna, nascida em 1895. Um deles, Martin Freud, escreveu uma memória intitulada Freud: Homem e Pai, na qual descreve o pai como um homem 'sexy', que trabalhava extremamente, por longas horas, mas que adorava ficar com suas crianças durante as férias de verão.
Anna Freud, filha de Freud, foi também uma psicanalista destacada, particularmente no campo do tratamento de crianças e do desenvolvimento psicológico. Sigmund Freud foi avô do pintor Lucian Freud e do ator e escritor Clement Freud, e bisavô da jornalista Emma Freud, da desenhista de moda Bella Freud e do relacionador público Matthew Freud.
Por sua vida inteira Freud teve problemas financeiros. Josef Breuer foi um aliado de Freud em suas idéias e também um aliado financeiro.
Freud criou o termo psicanalise para designar um metodo para investigar os processos incoscientes e inacessiveis de outro modo.
Nos tempos do nazismo, Freud perdeu quatro irmãs (Rosa, Dolfi, Paula, e Marie Freud). Embora Marie Bonaparte tenha tentado retirá-las do país, elas foram impedidas de sair de Viena pelas autoridades nazistas e morreram nos campos de concentração de Auschwitz e de Theresienstadt.


sábado, 7 de agosto de 2010

From Waiter to Writer, Keith Gray



Keith Gray's first paid writing job came at the tender age of 15 - writing his mates' homework. These days, he earns his money through more conventional means as an award-winning writer of books for teenagers. Keith is the Scottish Book Trust's first Virtual Writer in Residence and here he provides some useful hints for aspiring authors.

Creative Writing Masterclass 5: Redrafting, Keith Gray



So you've finished your story... or have you? Keith Gray gives his final session, answering perhaps the hardest question - how do I know when I'm done?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Creative Writing Masterclass 4: Setting, Keith Gray



The penultimate part of the series sees Keith tackling the issue of setting. Where are you going to put your characters? You can also download teachers' notes from the Scottish Book Trust website.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Creative Writing Masterclass 3: Plot, Keith Gray



The third part of the series ask "what makes a story a story?" Watch and learn, then check out Keith's newest novel Ostrich Boys to see if he practices what he preaches.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Creative Writing Masterclass 2: Characters, Keith Gray



After your initial idea, you need to think about the ways in which you're going to create real, believable characters. Here's some thoughts to get you started.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Creative Writing Masterclass 1: Ideas & Inspiration, Keith Gray



Acclaimed Scottish writer Keith Gray begins a 5-part series on writing your first story, from initial ideas to final draft. All the information is at www.scottishbooktrust.com.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Gift of Therapy, Irvin Yalom



Coinciding with the publication of the book with the same title, in this hour-long interview Dr. Yalom discusses the central themes of his life's work as a psychotherapist and writer, and elucidates these topics with engaging stories from his work with patients and his personal life experiences.

Live Case Consultation Psychotherapy Video, Irvin Yalom



Watch Dr. Irvin Yalom consult on cases from three therapists. Dr. Yalom responds to both the clinical issues and the therapists' reactions, always looking for opportunities to bring more focus into the here-and-now of the therapeutic relationship, and highlighting key existential themes.

Neurology and the Passion for Art, V.S. Ramachandran



Why is it that great works of art seem to have a universal appeal, transcending cultural and geographic boundaries? V.S. Ramachandran, director of UCSD's Center for Brain and Cognition has studied how the brain perceives works of art and thinks he may know the answer to this intriguing question. Series: "40/40 Vision Lectures (UCSD Faculty Lecture Series)".