quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Fedra, Jean Racine


Ato I – Cena I

Hipólito: “... Não sei o destino desse rosto querido, ignoro os lugares que o podem esconder” (p. 13).

Hipólito: “Liberto já dos erros de jovem... obstáculos indignos não mais o seduzem... E há muito não tem, nem teme, mais rivais... eu cumpro o meu dever e fujo de lugares em que não quero estar” (p. 14).

Terâmeno: “... Compreendo bem a razão de tuas dores” (p. 15).

Hipólito: “... Tu conheces meu coração desde que eu respiro? Suas batidas altivas, desdenhosas, não podem admitir essa vergonha: já no leite... eu sugava esse orgulho que agora te espanta. E tendo atingido idade mais madura, Eu mesmo me aplaudi, quando me conheci. Tu, que cuidavas de mim com atenção sincera, me repetias sempre a história de meu pai. E sabes bem quantas vezes minha alma, atenta à tua voz, se inflamava ao saber dos seus feitos sem par; Quando tu pintavas esse intrépido herói...Mas, quando falavas de feitos menos gloriosos, promessas oferecidas e aceitas em toda parte...e tantas outras a quem ele nem sequer recorda...Tu sabes que, por não me agradarem nada essas histórias, Eu te pedia então que as encurtasses. Pois ficaria feliz se pudesse rasgar da memória essa metade indigna de uma vida tão bela!...não dominei um só dos monstros com que ele ganhou direito de errar...Essa planta daninha não pode dar rebentos!...Como posso abraçar uma causa que meu pai odeia? Devo dar um exemplo de temeridade, embarcando minha juventude num amor tão louco?” (p. 18).

Terâmeno: “... se tua hora foi determinada ao céu não importarão todas as tuas razões. Teseu te abriu os olhos ao querer fechá-los, e teu ódio, atiçando uma chama rebelde, empresta uma graça maior a essa graça inimiga... Se a doçura existe por que não prová-la? Preferes ser escravo de uma vontade imposta?... A floresta já não ressoa mais com nossos gritos, tuas pálpebras pesam com uma febre estranha. Não há que duvidar, senhor, tu amas, tu queimas, consumido por um mal que em vão dissimulas: É a bela Arícia que te encanta tanto?” (p. 19).

Hipólito: “O dever me obriga” (p. 20).

Cena II

Enone: “... que dor pode igualar-se à minha dor? Morre em meus braços de um mal que não revela. Há em seu espírito uma eterna desordem; À noite, a angústia arranca-a do leito. Quer ver a luz, mas desesperada, me ordena também que ninguém se aproxime...” (p. 20).

Fedra: “Chega de andar... já não tenho mais forças. Meus olhos estão cegos pela luz do dia; os joelhos tremem, não mais me sustentam...” (p. 21).

Enone: “Oh, se nossas lágrimas pudessem acalmar a ira dos deuses!” (p. 21).

Fedra: “... Tudo me aflige e incomoda; tudo conspira para minha aflição” (p. 21).

Enone: “Cada novo desejo teu destrói o anterior... Querias te mostrar e rever a luz do dia. Aí está a luz... mas ao vê-la, tu te escondes, odiando o dia que buscava” (p. 22).

Enone: “... Hei de ver-te para sempre renunciando à vida, fazendo eternamente preparativos fúnebres?” (p. 22).

Fedra: “... Onde foram para minha razão e minha vontade? Eu as perdi: os deuses me arrancaram... Deixo que vejas demais minhas dores vergonhosas; E meus olhos, sem que eu queira, estão cheios de pranto” (p. 23).
Enone: “Se queres te envergonhar, tem vergonha do silêncio que torna mais pungentes as tuas dores... Queres mesmo, sem pena, terminar teus dias? Que furor corta a vida no meio do seu curso? Que maldição ou veneno secou tua nascente? Três vezes as sombras escureceram o céu desde que o sono desertou teus olhos; E três vezes o dia espantou a noite, desde que teu corpo definha sem alimento. Que desígnio horrendo te impulsiona? Que direito tens de atentar contra ti mesma? Ofendes os deuses que te deram a vida...” (p. 24).

Enone: “... Não demora; cada instante te mata. Restaura logo tuas forças desgastadas, enquanto tua chama, quase se consumindo, ainda brilha um pouco e pode reacender” (p. 24 e 25).

Enone: “... Algum remorso te tortura? Que delito será que produz tanta angústia? Tens as mãos maculadas por algum sangue inocente?” (p. 25).

Enone: “Mas que tenebroso anseio vive em teu coração, para mergulhar teu ser em tanto desespero?” (p. 25).

Fedra: “Já te falei demais. Poupe-me o resto. Morro para não revelar essa ânsia funesta” (p. 25).

Fedra: “Estremecerás de horror se eu romper o silêncio.” (p. 26).

Enone: “... em nome das lágrimas que por ti derramei, por teus débeis joelhos que abraço com ternura, livra minha mente da dúvida funesta” (pg. 27).

Fedra: “... A confusão tomou conta da minha alma perdida: meus olhos já não viam; não podia falar; Senti meu corpo tremer de frio e arder em fogo... Eu procurava aflita minha razão perdida; remédios impotentes para um amor incurável!... Minha ferida, ainda viva, recomeçou a sangrar. Não é mais um só arador escondido no peito...Agora meu crime já me enche de horror, sinto ódio da vida e abomino o amor; Eu queria morrer para salvar minha honra; Não revelar nunca essa chama tão negra...Nem tentes reviver com esforços inúteis um resto de calor prestes a se extinguir” (p. 30 e 31).

Cena V

Enone: “... Não haverá outras mãos para enxugar suas lágrimas...” (p. 34).

Ato II – Cena I

Arícia: “Que frívola esperança te faz pensar que me poupe e respeite, em mim só, um sexo que desdenha? Não vês há quanto tempo ele evita meus passos e só vai a lugares que eu não esteja?” (pg. 37).

Ismênia: “... Os olhos... em vão queriam fugir. Esmaeciam, lânguidos, mas não podiam te evitar. Amante, creio, é um nome que ofende sua coragem; mas nos olhos é um amante – se não o é em palavras” (p. 38)*.

Arícia: “... Meu coração escuta avidamente. Mas tua fala não tem qualquer razão!... Um coração nutrido só de amargura e pranto, triste joguete de um destino implacável, pode um dia acordar para o amor e seus loucos tormentos?... espada ceifou tudo e a terra, umedecida, bebeu como horror o sangue desses meus irmãos... Dons que a natureza lhe deu em demasia e que ele despreza ou até ignora... Eu, mais exigente que ela, recuso a glória inglória de aceitar a homenagem oferecida a mil outras – A de entrar num coração com mil portas abertas. Mas tronar dócil uma coragem inflexível, insinuar a dor numa alma insensível, fazer um prisioneiro se revoltar em vão contra os grilhões que descobre que adora, Isso eu desejo: isso me inflama” (p. 38 e 39).


Cena II

Hipólito: “... Quanto às razões de sua ausência demasiado longa; Só a morte, interrompendo seus feitos deslumbrantes, poderia escondê-lo do mundo tanto tempo. Os deuses entregam enfim às parcas homicidas... Espero que teu ódio, respeitando suas virtudes, escute sem rancor esse louvores que lhe são devidos. Uma esperança atenua minha mortal tristeza!... Revogo a lei cujo rigor sempre me opus... Eu te faço tão livre, ou mais livre do que eu” (p. 41).

Hipólito: “... Os córregos dos campos já beberam demais o sangue do teu sangue que ali mesmo brotou...” (p. 42).

Arícia: “Tudo isso que ouço me espanta e me confunde...” (p. 42).

Hipólito: “... Não sei com que cores pintaram meu orgulho; espera o que não creias que um monstro me gerou. Que natureza selvagem, que ódio endurecido ao ver-te não ficariam domados e abrandados? Poderia eu resistir à tua mágica enganosa? “ (p. 43).

Hipólito: “... Vejo que minha razão cedeu ao devaneio: Mas já que comecei a romper o silêncio, não devo mais parar... sem revelar um segredo que meu coração não pode mais guardar... Eu, que ao amor sempre fui ferozmente rebelde, que sempre desprezei os que lhe eram escravos, deplorando o naufrágio dos que achava mais fracos. E pensava poder olhar sempre a borrasca de uma margem segura, Me vejo agora sujeito à lei humana, jogado na voragem e arrastado bem longe de mim! Um instante só derrubou minha presunção confiante; Minha alma tão soberba é enfim prisioneira. Já há mais de seis meses vencido e envergonhado, levando em toda a parte a flecha que me mata, contar ti, contra mim, eu me debato em vão. Quando estás, fujo de ti; se ausente te procuro; até no fundo das matas tua imagem me persegue; a luz clara do dia e as densas sombras da noite tudo me redesenha os encantos que evito!... E agora, como resultado único de meus vão esforços, Eu mesmo me procuro e não me encontro mais... Pode ser que a confissão de um amor assim tão selvagem te deixe envergonhada pelo que provocaste; Que defesa mais tosca do coração que te entrego! Que estranho prisioneiro de vínculo tão belo! Que aos teus olhos a oferenda seja mais preciosa... Não rejeites meus votos por serem tão mal expressos, Hipólito não os faria se tu não existisses” (pg. 43, 44 e 45).

Cena III

Hipólito: “Enquanto isso tu te afastas. E aí eu vou embora. Sem saber se ofendo o encanto daquela que eu adoro! Sem saber se o coração que deixo em tuas mãos...” (p. 46).

Cena V

Fedra: “... Todo o sangue invade meu coração. Esqueço, ao vê-lo, tudo que ia dizer” (p. 47).

Fedra: “Venho juntar minhas lágrimas às tuas dores... Mas um remorso secreto agita meu espírito, pois devo Ter fechado teus ouvidos a seus gritos...” (p. 48).

Fedra: “Se me odiasse eu não poderia me queixar... pois me viste sempre interessada em te prejudicar; Como poderias ler o fundo do meu coração? Fiz tudo que podia para me tornar tua inimiga; Não queria que vivesses onde eu mesma vivia. Em público ou em segredo lutei sem descansar para colocar um oceano entre nós... Contudo, se a pena deve corresponder ao crime, se teu ódio deve igualar meu ódio...” (p. 48).

Fedra: “Não é dado a ninguém ver duas vezes o rio dos mortos... Nos meandros sem fim do labirinto; que riscos eu não aceitaria por esse rosto mágico?” (p. 51).

Fedra: “... Te disse o necessário para evitar enganos... Eu me creia inocente, me perdoe a mim mesma, nem que o amor desvairado que turba a minha razão tenha sido alimentado por uma vil complacência. Objeto infortunado das vinganças celestes, Eu me detesto ainda mais do que tu me detestas... Tentei te parecer odiosa e desumana para melhor resistir alimentei teu ódio. Do que me adiantaram todos esses cuidados? Tu me odiavas mais e eu não te amava menos. Teu encanto crescia com as tuas desventuras; Eu definhava, me debulhava em pranto e me secava em fogo... Se teus olhos por um instante quisessem me olhar... Podes vingar-te agora punindo-me do que fiz por essa horrenda paixão... Liberta o universo de um monstro que te enoja... Não podes deixar vivo esse monstro espantoso; Eis meu coração; aqui deves ferir. Ansioso de expiar a sua culpa, ele bate feliz esperando o teu golpe. Se teu ódio me nega um suplício tão doce, se não queres manchar tuas mãos com um sangue tão vil, poupa teu braço e me dá a tua espada...” (p. 54).

Cena VI

Hipólito: “... Que um esquecimento profundo sepulte para sempre esse segredo horrível!” (p. 55)*.

Hipólito: “... O cetro vai ficar em mãos que o engrandeçam” (p. 56).

Ato III

Cena I

Fedra: “Ah! Tira da minha frente as honras que me enviam; Importuna, queres que eu me deixe ver? Pretendes iludir minha alma desolada? Pelo contrário, me esconde: Eu já falei demais. A minha loucura ousou se revelar abertamente. Eu disse o que jamais ninguém devia ouvir...” (p. 57).

Enone: “Procurando em tua desgraça só causa de lamento, Alimentas o fogo que queres extinguir...” (p. 58).

Fedra: “Eu, reinar! Governar um estado, eu, cuja débil razão já não governa a si mesma? Eu, que perdi o domínio de meus sentimentos e mal respiro na vergonha imensa?...” (p. 58).

Fedra: “Ele conhece meus ardores insensatos. Atravessei as fronteiras da dignidade. Expus, ao meu vencedor, minha intimidade, pois a esperança, furtiva penetrou meu peito. Tu mesma animaste minhas forças vacilantes, incitando-me à vida com abonos e lisonjas; me fizeste crer que eu podia amá-lo” (p. 59).

Fedra: “... Criado nas florestas é rude como elas. Endurecido pelas leis selvagens é a primeira vez que lhe falam de amor. Talvez sua surpresa o tenha emudecido; Ou foram violentas demais as minhas súplicas” (p. 59).

Fedra: “... És minha última esperança: eu te autorizo tudo” (p. 61).

Cena II

Fedra: “Ó tu, que vês a vergonha a que desci... basta de humilhação! Não tens como levar mais longe a tua crueldade. Teu triunfo é perfeito; todos teus dardos acertaram o alvo...” (p. 61).

Cena III

Enone: “É hora de sufocar o pensamento de um amor inútil...” (p. 62).

Fedra: “Eu te preveni, mas não quiseste me ouvir. Venceste com tuas lágrimas os meus justos remorsos...” (p. 63).

Fedra: “... Por que fiz o que fiz?... Eu não sou dessas mulheres impudentes que tiram do crime uma espécie de máscara que põe seu rosto calma e serenidade. Conheço minhas loucuras, não esqueço nenhuma. Já vejo estes muros e estas colunas adquirindo vozes para me acusar...Cessar de viver será um mal tão grande? Aos infelizes a morte não assusta; Só me assusta o nome que eu vou deixar...” (p. 63 e 64).

Fedra: “Queres me obrigar a oprimir e enlamear a inocência?” (p. 65).

Enone: “... Enfrentaria a morte mil vezes com mais tranqüilidade... Temos que realizar a ação que se imponha. Para salvar essa honra em perigo devemos imolar tudo, até a virtude” (p. 66).

Fedra: “... Pela insolência de seus olhos u sei que estou perdida. Faz o que bem entenderes – me entrego a ti. Na confusão em que estou já não confio em mim” (p. 66).

Cena IV

Fedra: “... Não profana uma emoção tão pura; Eu não mereço mais esse afeto tão doce...” (p. 67).

Cena V

Hipólito: “... Que outras obrigações podem deter-me agora? Minha juventude ociosa já mostrou demais sua destreza... Colorir minhas armas com sangue mais glorioso?... Deixa que minha coragem possa enfim se provar. Que eu traga a teus pés espólios memoráveis, ou que uma bela morte eternize minha memória. Que meu fim valoroso seja o meu apogeu e prove ao mundo inteiro que eu era um filho teu” (p. 68 e 69).

Teseu: “... Quando a alma, reentregue a si mesma, só deseja saciar-se em ver o que é amado, eis que sou recebido com medo e calafrios; Todos fogem, se negam aos meus abraços; E eu, contagiado pelo horror que inspiro, preferiria continuar no Épiro” (p. 70).
Cena VI

Hipólito: “Que significam essas palavras que gelaram meu sangue?... O amor incontido espargiu um veneno funesto em sua casa! Eu mesmo estou cheio de um fogo que seu ódio reprova... Foi um o que ele deixou e é outro o que ele encontra. Pressentimentos negros enchem meu coração. Mas a inocência, enfim, não tem nada a temer...” (p. 71).

Ato IV

Cena I

Teseu: “... Com que rigor, que dureza, destino, me persegues! Já não sei onde vou, já não sei onde estou. Ó ternura! Ó bondade assim tão mal recompensada!...O insolente não hesitou em recorrer à violência!...” (p. 72).

Teseu: “... Seu abraço gelado esfriou minha ternura...” (p. 73).

Cena II

Teseu: “... A natureza devia colocar sinais precisos para reconhecermos o coração dos pérfidos!” (p. 74).

Hipólito: “... que sombra funesta conseguiu perturbar tua augusta expressão?...” (p. 74).

Teseu: “Pérfido! Como ousas te mostrar diante de mim? Monstro que os raios do céu já pouparam demais, resto impuro dos facínoras de que livrei a terra! Levou tua luxúria ao leito de teu pai. E ainda ousas vir me exibir essa face inimiga!...Foge traidor! Não desafia o meu ódio. Nem aumenta uma cólera que eu a custo domino. Já é demais, para mim, a eterna ignomínia de ter posto no mundo um filho tão canalha. Que sua morte, vergonhoso à minha memória, ainda enlamará a glória dos meus feitos... Lembra que, como prêmio desse meus esforços, juraste atender qualquer pedido meu. No interminável sofrimento de uma dura prisão jamais implorei tua força imortal; avaro de socorro que me prometeste eu o reservei para uma necessidade extrema... Eu abandono esse traidor a toda a tua cólera; Sufoca em seu sangue esses desejos sujos...” (p. 76).

Hipólito: “... São tantos golpes juntos; imprevistos, que a voz me falta; minhas palavras fogem.” (p. 76).

Hipólito: “... Aprova o respeito que cerra a minha boca, não procura aumentar a dor de tuas feridas; Examina minha vida e recorda quem sou. Alguns crimes antecipam sempre grandes crimes; Quem, em dado momento, ultrapassa as fronteiras do lícito acaba violando as normas mais sagradas; Mas, assim como a virtude, o crime tem escalas... Um só dia não transforma um mortal virtuoso...” (p. 77).

Teseu: “... Eu vejo a causa odiosa dessa tua frieza... Tua alma desdenhava queimar sua chama exigente; Qualquer outro objeto lhe era indiferente” (p. 78).

Teseu: “Tua desfaçatez só aumenta a minha cólera!” (p. 79).

Cena III

Teseu: “Miserável, corres para uma perda inevitável... Eu te amava e apesar de tua ofensa sinto minhas entranhas gelarem por antecipação... Oh, céus, que vês a dor que me acabrunha como pude gerar um filho assim, tão, tão corrompido?” (p. 81).

Cena IV

Teseu: “... Eu sei entender um ardil caviloso...” (p. 83).

Cena V

Fedra: “... Talvez ele tenha até um coração fácil de enternecer: E eu seja o único se que lhe causa aversão...” (p.84).

Cena VI

Fedra: “... Com que filtro mágico cegaram os meus olhos?... O céu lhes aprovava a inocência das carícias; seguiam sem pecado a inclinação do amor...Nutrindo-me de fel, bebendo as próprias lágrimas e, com minha infelicidade sempre vigiada, não podia sequer me desafogar no pranto. Saboreava a medo esse prazer funesto disfarçando minhas mágoas num expressão serena. E muita vezes minha dor tinha que se privar de lágrimas” (p. 86).

Fedra: “... Cada palavra me arrepia os cabelos. Meus delitos já transbordam todas as medidas... Minhas mãos homicidas, prontas a me vingar, anseiam por mergulhar em um sangue inocente... Perseguida por tormentos até meu último dia vivo em torturas uma existência miserável” (p. 88).

Enone: “... Um encanto fatal te arrebatou a alma... O amor, por acaso, venceu somente a ti? A fraqueza é natural ao ser humano... Lamentas um jugo que te escraviza há tanto tempo...” (p. 89).

Fedra: “... Até o fim pretendes continuar me envenenando, desgraçada?... deixa-me só com o destino execrável!... E que o teu castigo assuste para sempre os que, como tu, com as astúcias mais vis, alimentam as fraquezas dos príncipes infelizes, empurrando-os num abismo que atrai seus corações...” (p. 90).

Ato V
Cena I

Arícia: “... Teimas em te calar nesse perigo extremo?... Se dás tão pouco valor às minhas lágrimas, deves te resignar também nunca mais me ver...” (p. 91).

Hipólito: “... Só contigo e com os deuses, abri meu coração... Coisas que até de mim mesmo pretendia esconder... E esquece se puderes. E que jamais tua boca tão pura se abra para falar desse fato obsceno... Só isso eu te exijo,esse silêncio. Abandona a escravidão a que te reduziram...Escapa deste lugar profanado e sombrio, onde a virtude respira um ar envenenado...Que medo te detém? Pareces hesitante! Só o teu interesse inspira minha audácia. Por que, se estou em fogo, te sinto tão gelada?...” (p. 93).

Hipólito: “... Ali nenhum mortal ousa jurar em falso, pois recebe o castigo imediato. E não há freio maior para a mentira do que a certeza da morte inevitável. Lá, se confias, iremos pronunciar os votos solenes de um amor eterno...” (p. 94)*.

Cena II

Teseu: “Deuses! Iluminem minha perturbação, mostrem aos meus olhos a verdade” (p. 94).

Cena III

Teseu: “Teus olhos dominaram seu orgulho selvagem. Seus primeiros suspiros são um triunfo teu” (p. 95).

Arícia: “... Como suportas que as mais vis calúnias enlameiem o caminho de uma vida tão bela? Conheces assim tão pouco o coração de teu filho? Distingues tão mal o crime da inocência? Só a teus olhos uma nuvem negra cobre a virtude evidente a todos...” (p. 96).

Teseu: “Não tente em vão suavizar sua culpa; O amor te cega a favor deste ingrato. Eu creio em testemunhos seguros, inegáveis. Eu mesmo vi correr o pranto da verdade” (p. 96 e 97).

Arícia: “... Fujo à tua presença para não ser forçada a romper meu silêncio” (p. 97).

Cena IV

Teseu: “O que quer dizer isso? Que coisa se esconde numa fala que pára, recomeça e não termina nunca? Desejam me cegar com um fingimento tolo? Os dois conspiram para me confundir? E em mim mesmo, com todo o meu rigor, uma voz lamentosa soa em meu coração; Uma piedade secreta me espanta e me aflige...” (p. 97).

Cena V

Panopéia: “... Tem impresso no rosto um desespero mortal; A palidez da morte já lhe cobre o semblante...” (p. 98).

Panopéia: “A perturbação parece crescer nessa lama confusa. Algumas vezes, acalmando suas dores secretas, abraça os filhos e os banha em lágrimas...” (p.98).

Teseu: “... Penso que acreditei demais em testemunhas falsas e me precipitei, erguendo logo para ti minhas mãos cruéis!...” (p. 99).

Cena VI

Terâmeno: “Os seus guardas aflitos copiavam seu silêncio... Os soberbos corcéis que, em outros tempos, víamos sempre, cheios de ardor, obedecer-lhe à voz, tinham agora os olhos apagados, a cabeça baixa, como reflexos de sua tristeza... Sacudindo o ar imóvel, um grito inenarrável; Do seio da terra uma voz formidável respondeu a um gemido espantoso. Todos os corações gelaram até o mais fundo... seus gemidos sem fim estremeciam as encostas. O céu se agitava ante a visão disforme, a terra tremia, o ar se empesteava...A planície ressoa com os gritos de dor...Para lá eu corro em soluços...traços sangrantes nos indicam o caminho; As rochas estão vermelhas e as árvores em volta gotejam sangue de tufos de cabelo. Eu me aproximo e o chamo; ele me estende a mão, abre um instante o olho moribundo: ‘O céu’- disse ele –‘me arranca a vida inocente...’ (p. 100, 101, 102 e 103).

Cena VII

Teseu: “... Ah, quantas razões de medo; uma suspeita cruel alarma meu coração até o fundo!... Que os meus olhos continuem enganados para sempre... Gostaria de exilar-me do universo inteiro. Tudo parece se erguer contra minha injustiça; A fama do meu nome aumenta o meu suplício: Desconhecido dos homens seria mais fácil esconder-me...” (p.105).


RACINE, Jean. Fedra. Porto Alegre: L&PM, 2001.

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