quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Gradiva: uma fantasia pompeiana, Wilhelm Jensen


Norbert Hanold foi, durante a viagem, cercado de adejos e arrulhos, como se se encontrasse num pombal ambulante, e foi assim, pela primeira vez na vida, obrigado a prestar atenção, com o olho e o ouvido, nas criaturas humanas que o cercavam...Levou em consideração, em primeiro lugar, a parte feminina dessa espécie zoológica. Era, aliás, a primeira vez que ele via de tão perto criaturas como aquelas associadas pelo instinto da aproximação e era incapaz de imaginar o que é que poderia ocasionar aquela proximidade recíproca. A razão pela qual as mulheres podiam ter escolhido homens como aqueles lhe parecia incompreensível, mas o motivo por que os homens tinham feito sua opção por mulheres como aquelas lhe pareciam ainda mais misterioso. Cada vez que erguia a cabeça era obrigado a deixar seu olhar cair sobre o rosto de uma delas e não encontrava nenhum detalhe que desse prazer ao olho por sua forma agradável ou que exprimisse uma lama terna ou espirituosa. Com certeza lhe faltava algum padrão para avaliá-los, pois não se pode comparar o sexo feminino contemporâneo com a sublime beleza das obras antigas, mas ele tinha a vaga sensação de que não era responsável pela injustiça desse método e de que esses rostos não possuíam algo que ele tinha o direito de exigir no dia-a-dia. Também refletiu durante algumas horas acerca da atitude extraordinária dos homens e chegou à conclusão de que, se dentre todas as loucuras humanas, o primeiro lugar cabe sempre ao casamento, como a maior e a mais inconcebível, conviria, no entanto, reservar o cetro da loucura a essas absurdas viagens de lua-de-mel à Itália (p. 26 e 27).

Mais uma vez se recordou do canário que tinha deixado na prisão, pois ele estava também numa gaiola, e em torno dele passavam apressados os rostos dos jovens casais, tão felizes quanto vazios de expressão, e entre eles somente de quando em quando conseguia olhar pela janela. Aquilo que desfilava no exterior, diante de seus olhos, lhe provocava uma impressão completamente diferente da que recebera alguns anos antes, o que podia muito bem se explicar pela situação na qual se encontrava (p. 27).

Assim terminou, no momento, a conversa. Norbert ainda ouviu um barulho vago e o arrastar de cadeiras, depois voltou a mergulhar em seu meio-sono. Este o conduziu a Pompéia no momento da erupção do Vesúvio. Uma agitação preocupada reinava em torno dele, homens em fuga apressavam-se dos seus lados e de repente ele percebeu o Apolo do Belvedere levando a Vênus Capitolina. Pegava-a e a colocava numa sombra obscura que dissimulava um ob(p. 30)jeto qualquer. Devia ser um carro ou carroça no qual iria levar, pois dali provinha um rangido. Esse evento mitológico não surpreendia muito o jovem arqueólogo, mas o que lhe parecia digno de atenção era o fato de o casal não empregar o grego, mas o alemão, e de ele os ouvir dizer um tempo depois quase retomando consciência:
- Minha adorável Greta!
- Meu querido Augusto!
As imagens oníricas em seguida se transformavam completamente. Em torno do sonhador agora reinava um pesado silêncio no lugar dos barulhos agitados e a fumaça e o brilho da chamas foram substituídos pela luz quente e clara do sol que iluminava as ruínas da cidade soterrada. Esta se transformava aos poucos e se tornava um leito de lençóis brancos iluminados por raios dourados que aos poucos subiam até os olhos do adormecido. Norbert Hanold despertou no meio do esplendor cintilante de uma jovem manhã romana. (p. 29 e 30)

Pareciam ter abandonado o silencioso campo das ruínas, o que em realidade não havia, sem dúvida, acontecido, mas o olho não via mais um só movimento. Assim também, antigamente, há milhares de anos, acontecia com os animais seus ancestrais, os das montanhas e os dos rochedos, era um costume, enquanto o grande Pan repousava, eles também, para não incomodá-lo, se estendiam sem moverem-se ou pousavam aqui e ali, fechando as asas. E era como se submetessem aqui, mais rigorosamente ainda, à lei da calma tórrida e sagrada do meio-dia, desta hora de espectros, quando a vida devia calar-se e esconder-se porque os mortos, a esta hora, despertavam e começavam a conversar na língua muda dos fantasmas. Não era tanto a visão que ficava chocada com este novo aspecto das coisas, mas o sentimento, ou um sexto sentido sem nome, contudo este ficava tão fortemente impressionado e de uma maneira tão decisiva, que a pessoa que o possuísse não poderia se subtrair ao efeito que ele causava (p. 42 e 43).

Sua destreza lhe recusava totalmente os serviços... Não só a sua ciência o tinha abandonado como ele tinha também perdido todo o desejo de reencontrá-la; só se lembrava dela como uma coisa muito longínqua e, em seu sentimento, ela tinha sido uma tia velha, seca e aborrecida, em suma, a criatura mais árida e mais supérflua da terra. Tudo o que pudessem dizer seus lábios enrugados, num tom completamente pedante e apresentando-se como sabedoria, tudo aquilo não passava de vã inutilidade, algo que nada mostrava além da casca ressecada dos frutos da árvore da ciência sem nada dar a perceber de sua essência e de sua íntima compreensão. O que a ciência professava era uma visão arqueológica sem vida, e o que ela falava, uma língua morta para uso dos filólogos. Ela não permitia apreender com a alma, o sentimento, o coração, pouco importa o nome. Ao contrário, aquele que aspirava a essa compreensão deveria, único ser vivo no silêncio abrasado do meio-dia, permanecer aqui entre os restos do passado, para não mais ver com os olhos do corpo, para não mais ouvir com os ouvidos carnais. Nesse momento, de toda a parte isso surgia, sem fazer, porém, um movimento, e começava a falar sem emitir um único som. Nesse momento, o sol tirava de seu entorpecimento fúnebre as pedras velhas, um arrepio abrasado as percorria, os mortos despertavam e Pompéia recomeçava a viver (p. 44 e 45).

Uma só dentre ela, tirada da sonolência pela necessidade de atormentar, se pôs a zumbir em volta do seu nariz. Mas ele não a identificou com o mal absoluto, com o flagelo eterno que aflige a humanidade há milênios, ele a tomou, os olhos fechados, por uma Cleópatra vermelha e dourada ocupada em adejar à volta dele.
Quando de manhã o sol, com a ajuda ativa das moscas, o despertou, ele não se lembrava das miraculosas metamorfoses dignas de Ovídio que se haviam desenrolado ao redor da sua cama. Mas, sem dúvida, algum ser místico havia passado toda a noite ao seu lado, tecendo sonhos, pois sentiu a cabeça pesada e vaga, como se tudo o que sabia aí estivesse aprisionado sem poder sair, a não ser a única coisa da qual tinha consciência: que devia estar outra vez ao meio-dia na casa de Meleagro. (p. 57 e 58)

JENSEN, Wilhelm. Gradiva: uma fantasia pompeiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.

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