segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Morte de Olivier Bécaille, Émile Zola


Por quanto tempo fiquei assim? Não saberia dizer. No nada, uma eternidade e um segundo têm a mesma duração. Eu não era mais. Aos poucos, confusamente, voltou-me a consciência de ser. Continuava dormindo, mas comecei a sonhar. Um pesadelo destacou-se do fundo negro que barrava meu horizonte. E esse meu sonho era uma imaginação estranha que em outros tempos muitas vezes me atormentara de olhos abertos quando, com minha predisposição natural para invenções terríveis, saboreava o prazer atroz de criar catástrofes para mim (p.31).

Até então eu resistira à vertigem, aos sopros de raiva que subiam de vez em quando em mim como uma fumaça de embriaguez. Eu reprimia principalmente os gritos, pois sabia que se gritasse estaria perdido. De repente comecei a gritar, a urrar. Era mais forte do que eu, os urros saíam de minha garganta que desinchava. Pedia socorro com uma voz que não conhecia, ficando cada vez mais transtornado a cada apelo, gritando que não queria morrer. E arranhava a madeira com as unhas, contorcia-me em convulsões de lobo enjaulado. Quanto tempo durou a crise? Não sei, mas ainda sinto a dureza implacável do caixão em que me debatia, ainda ouço a tempestade de gritos e soluços com que enchia aquelas quatro tábuas. Num último clarão de razão, quis me conter e não consegui (p. 37).

Ah, como desejei a morte naquele momento! Durante toda a minha vida, tremera diante do nada; e eu o queria, o exigia, jamais seria tão negro. Que infantilidade temer aquele sono sem sonho, aquela eternidade de silêncio e trevas! A morte só era boa porque suprimia o ser de uma só vez, para sempre. Oh, dormir como as pedras, voltar à argila, deixar de ser! (p. 37).

A fome me torturava, tive de parar, presa de uma vertigem que deixava minhas mãos moles, a mente vacilante. Sugara as gotas que escorriam da picada em meu polegar. Então mordi meu polegar. Então mordi meu braço, bebi meu sangue, esporeado pela dor, reanimado por aquele vinho morno e acre que me molhava a boca. E, voltando ao prego com as duas mãos, consegui arrancá-lo (p. 38).

Sentira perto de mim na fossa as ferramentas dos coveiros e senti a necessidade de reparar o estrago que acabara de fazer, de tapar o buraco, para que não se conseguisse perceber minha ressurreição. Naquele momento, minhas idéias não eram claras; só achava inútil divulgar a aventura, sentindo vergonha de estar vivo quando o mundo inteiro achava que eu estivesse morto. Em meia hora de trabalho consegui apagar qualquer vestígio. E saltei para fora da fossa (p. 40 e 41).

Desde então viajei muito, vivi um pouco por toda parte. Sou um homem medíocre, que trabalhou e comeu como todo mundo. A morte não me amedronta mais; mas ela parece não me querer, agora não tenho qualquer razão para viver, e temo que ela me esqueça (p. 45 e 46).

ZOLA, Émile. A Morte de Olivier Bécaille e Outras Novelas. Porto Alegre: L&PM, 2001.

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