terça-feira, 24 de agosto de 2010

Nantas, Émile Zola


O papel sujo, o teto escuro, a miséria e a nudez daquele cômodo sem lareira não o incomodavam. Desde que adormecia diante do Louvre e das Tulheiras, comparava-se um general que se deita em um albergue miserável, á beira de uma estrada, diante da cidade rica e imensa que deve tomar de assalto no dia seguinte (p. 47 e 48).

A história de Nantas era curta. Filho de um pedreiro de Marselha, começara a estudar no liceu da cidade estimulado pela ternura ambiciosa da mamãe, que sonhava transformá-lo em um senhor. Os pais se esfalfaram-se para permitir que chegasse até os exames finais do segundo ciclo. Depois, quando sua mãe morreu. Nantas teve de aceitar ter um empreguinho junto a um negociante, onde arrastou por doze anos uma vida cuja monotonia o exasperava. Teria fugido vinte vezes se seu dever filial não o tivesse mantido preso em Marselha ao lado do pai, que caíra de um andaime e ficara paralisado. A partir daquele momento, teve de suprir todas as necessidades da pequena família. Porém, um dia, ao voltar para casa, encontrou o pedreiro morto, o cachimbo ainda quente ao seu lado. Três dias depois, vendera os poucos pertences do lar e partira para Paris com duzentos francos no bolso (p. 48).

Muitas vezes riram dele quando não parava de fazer confidências e de repetir sua frase favorita, “Sou uma força”, frase que se tornar cômica quando se via em seu fino redingote preto, rasgado nos ombros e cujas mangas lhe subiam acima dos punhos. Aos poucos, construíra dessa forma para si uma religião da força, só vendo a ela no mundo, convencido de que os fortes são de qualquer forma os vitoriosos. De acordo com ele, bastava quere e poder. O resto não tinha importância (p. 48 e 49).

Não era absolutamente uma vontade baixa, um apetite de prazeres vulgares; era o sentimento bem nítido de uma inteligência e de uma vontade que, por não estarem em seu lugar, pretendiam subir com tranqüilidade a esse lugar por uma necessidade natural de lógica (p. 49).

Entrementes sua bolsa se esvaziava, restavam-lhe no máximo uns vinte francos. E foi com esses vinte francos que teve de viver mais um mês comendo só pão, percorrendo Paris de manhã à noite e voltando para dormir sem luz, alquebrado de cansaço, as mãos sempre vazias. Não se desencorajava; só que uma cólera surda começava a dominá-lo. O destino parecia-lhe ilógico e injusto (p. 50).

Ele aceitaria qualquer coisa, pois tinha certeza de que abriria caminho para a fortuna na primeira colocação que encontrasse. A princípio só queria pão, com o que viver em Paris, um terreno qualquer para construir depois pedra sobre pedra. De Montmarte à rue de Lille, caminhou devagar, o coração cheio de amargura. A chuva cessara, uma multidão ocupada chocava-se com ele nas calçadas. Ele deteve-se vários minutos diante da loja de um cambista: talvez cinco francos é possível viver oito dias e em oito dias se fazem muitas coisas. Enquanto sonhava assim, um veículo o sujou, ele teve de limpar o rosto que um jato de lama fustigara. Então passou a andar mais depressa, os dentes cerrados, tomado por uma vontade de ferro de acabar aos socos com a multidão que barrava as ruas: aquilo vingaria a tolice do destino. Quase foi esmagado por um ônibus na rue Richelieu. No meio da place du Carrousel, olhou paras as Tulheiras com ciúme. Na ponte dos Saints-Pères, uma menininha bem vestida obrigou-o a desviar da linha reta por uma matilha; e aquele desvio pareceu-lhe a suprema humilhação: até as crianças impediam-no de passar. Finalmente, refugiado em seu quarto, como um animal ferido que volta para morrer na toca, sentou-se com todo o seu peso na cadeira, extenuado, examinando a calça que a lama enrijecera e seus sapatos deformados que transformavam o assoalho em um lago (p. 50 e 51).

Desta vez era mesmo fim. Nantas perguntava-se como se mataria. Seu orgulho perdurava, achava que seu suicídio puniria Paris. Ser uma força, sentir em si uma potência e não encontrar uma pessoa que o adivinhasse, que lhe desse o primeiro escudo de que precisava! Aquilo parecia-lhe uma tolice monstruosa, todo o seu ser sublevava-se. Além disso, sentia uma imensa decepção quando seus olhares recaíam sobre seus braços inúteis. No entanto, nenhuma tarefa o amedrontava; com a ponta do dedinho, ergueria um mundo; e permanecia ali, rejeitado em seu canto, reduzido à impotência, devorando-se como um leão enjaulado. Mas logo se acalmava, achava a morte maior. Haviam lhe contado, quando era pequeno, a história de um inventor, após construir um máquina maravilhosa, uma dia a quebrara a marteladas diante da indiferença da multidão. Muito bem! Ele era esse homem, carregava nele uma nova força, um mecanismo raro de inteligência e vontade, e ia destruir aquela máquina, despedaçando o crânio no pavimento da rua (p. 51 e 52).

Será que encontramos onde nos vender? Os escroques, que espreitam as oportunidades, morrem na miséria sem jamais colocar a mão em um comprador. Temeu estar sendo o covarde, disse a si mesmo que estava inventando distrações. E sentou-se de novo, jurando que se jogaria da janela assim que a noite caísse (p. 53).

- Veja só, senhora – exclamou -, não nos conhecemos, mas não teríamos de fato motivos para nos detestar assim à primeira vista. Talvez vendo que a senhora me despreza; é porque ignora minha história (p. 65).

E seu discurso foi febril, apaixonado, quando lhe contou sua vida devorada pela ambição em Marselha explicou a raiva de seus dois meses de tentativas inúteis em Paris. Em seguida revelou seu desdém pelo que denominava as convenções sociais nas quais chafurdam os homens comuns. Qual a importância do juízo das multidões quando se pisava sobre elas! Tratava-se de ser superior. A onipotência a tudo desculpava. E, em linhas gerais, descreveu a vida soberana que saberia construir para si. Não temia mais qualquer obstáculo, nada prevalecia contra a força, ele seria forte, feliz (p. 65).

Oh, se a senhora soubesse tudo o que troa em mim, se soubesse das noites ardentes que passei sonhando sempre o mesmo sonho, o tempo todo carregado pela realidade do dia seguinte, a senhora me compreenderia, talvez ficasse orgulhosa de se apoiar em meu braço dizendo para si mesma que está me fornecendo finalmente os meios de ser alguém” (Zola, 2001, p. 65/66).

“A realização de todas as suas ambições não o tocava mais. Nas caixas ao lado, o ruído do ouro aumentara; era a hora em que a casa Nantas roncava, impulsionando todo um mundo. E ele, no meio daquele labor colossal que era obra sua, no apogeu do poder, os olhos estupidamente fixados na carta do imperador, soltou esse lamento de criança, que era a negação de toda a sua vida:
- Não sou feliz... Não sou feliz...
Ele chorava, a cabeça caída na escrivaninha, e suas lágrimas quentes apagavam a carta que o nomeava ministro (p. 78).

Foi a época de sua vida em que realizou seus maiores feitos. Uma voz assoprava-lhe inspirações elevadas e fecundas. À sua passagem, erguia-se um murmúrio de simpatia e admiração. Ele, porém, permanecia insensível aos elogios. Parecia trabalhar sem esperança de recompensa, com a idéia de acumular suas obras, tendo como único intuito tentar o impossível. Toda vez que subia na carreira, consultava o rosto de Flavie. Será que finalmente a esposa fora tocada? Será que ela perdoara sua antiga infâmia para só ver o desenvolvimento de sua inteligência? E ele continuava não surpreendendo qualquer emoção no rosto mudo daquela mulher e dizia-se, tornando ao trabalho: ‘Vamos, não sou digno o suficiente dela, tenho de subir mais, sem parar”. Ele pretendia forçar a felicidade como forçara a fortuna. Toda a crença em sua força voltava-lhe, não admitia outra alavanca nesse mundo, pois é a vontade da vida que fez a humanidade. Quando às vezes se sentia desencorajado, fechava-se para que ninguém suspeitasse das fraquezas de sua carne. Só era possível adivinhar seus combates por seus olhos fundos, com olheiras escuras, onde ardia uma chama intensa (p. 79).

O revólver estava sobre a mesa manca, ao alcance de suas mãos. Agora ele deixara de ter pressa, tinha certeza de que ninguém viria e de que ele se mataria à vontade. Devaneava e dizia a sim mesmo que se encontrava no mesmo ponto em que em outros tempos, trazido de volta para o mesmo lugar, com a mesma vontade de suicídio. Um outro dia, naquele lugar, quisera rebentar a cabeça; então era pobre demais para comprar uma pistola, só dispunha do pavimento da rua, mas a morte era da mesma forma o fim. Assim, na existência, ele só tinha a morte que não enganava, que sempre se mostrava segura e pronta. A única coisa sólida que conhecia era ela, por mais que procurasse, tudo desabara o tempo todo a seus pés, apenas a morte permanecia uma certeza. E ele lamentou ter vivido dez anos a mais. A sua experiência de vida de alcançar a fortuna e o poder lhe parecia-lhe pueril. Para quê esse desperdício de vontade, para quê tanta força produzida já que decididamente a vontade e a força produzida já que decididamente a vontade e a força não eram tudo? Uma paixão bastara para destruí-lo, ele metera-se tolamente a amar Flavie, e o monumento que construíra fendia-se, desabava como um castelo de cartas derrubado pelo sopro de uma criança. Era miserável, parecia com a punição de um estudante gazeteiro sob o qual se quebra um galho e que perece pelo seu pecado. A vida era tola, os homens superiores acabavam tão bobamente quanto os imbecis.
...Uma última lástima amoleceu-o por um segundo naquele momento supremo. Quantas coisas realizaria se Flavie o compreendesse! No dia em que ela o abraçasse dizendo-lhe ‘Eu o amo’, neste dia encontraria a alavanca para levantar o mundo. E seu último pensamento era um grande desprezo pela força, pois a força, que deveria dar-lhe tudo, não conseguira lhe dar Flavie (p. 91).

ZOLA, Émile. A Morte de Olivier Bécaille e Outras Novelas. Porto Alegre: L&PM, 2001

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