quarta-feira, 15 de setembro de 2010

História e Narração em Walter Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin


Ao se tornar sinônimo de novo, o conceito de moderno assume uma dimensão certamente essencial para a nossa compreensão de modernidade, mas, ao mesmo tempo, uma dinâmica interna que ameaça implodir sua relação com o tempo. De fato, se o novo está, por definição, destinado a transformar-se no seu contrário, no não mais novo, no obsoleto e no envelhecido, então o moderno designa um espaço de atualidade cada vez mais restrito. Em outros termos, a linha de demarcação, outrora tão clara entre o moderno e o antigo, tende a apagar-se, pois o moderno se transforma cada vez mais rapidamente em seu contrário. Ao se definir como novidade, a modernidade adquire uma característica que, ao mesmo tempo, a constitui e a destrói. Essa dialética explica o ritmo ofegante que escande o cotidiano do pintor da vida moderna, sempre adiantado em relação a seus contemporâneos, mas sempre atrasado em relação à novidade fugaz. (p. 48).

A cidade moderna não é mais um simples lugar de passagem em oposição à estabilidade da Cidade divina, mas o palco isolado de um teatro profano onde a destruição acaba por vencer sempre. Nesse contexto, Benjamin realça a significação decisiva das grandes obras empreendidas por Haussmann no mesmo ano em que Baudelaire escreve “O Pintor da Vida Moderna”. A “reurbanização” de Paris destrói bairros inteiros, apaga o labirinto das ruazinhas medievais, abre grandes avenidas e alamedas “modernas”, num gesto arquitetônico no qual ruínas e fundações se confundem. Haussmann realiza materialmente a confluência entre o antigo e o moderno pela manifestação da fragilidade do presente: as ruínas do passado correspondem às de hoje; a morte não habita só os palácios de ontem, mas já corrói os edifícios que estamos erguendo. (p. 50).
A busca incessante do novo só é, pois, uma agitação irrisória que mal recobre a atividade subterrânea e tenaz de um tempo mortífero. Segundo Benjamin, esta compreensão da temporalidade é inseparável da produção capitalista, em particular do seccionamento do tempo no trabalho industrial e da transformação dos produtos da atividade humana em mercadorias, “novidades” sempre prestes a se transformarem em sucata. (p. 50).

A desvalorização dos objetos – até dos seres humanos, qual a prostituta – transformados em mercadorias, quebra a relação de imediaticidade do sujeito poético com as coisas e com as palavras que as dizem. Esta desvalorização é intensificada pela ação corrosiva do tempo que as transformações de Paris expõem como uma ferida ao olhar do poeta:

(Paris muda! Mas nada na minha melancolia
Mudou! Novos palácios, andaimes, blocos,
Antigas alamedas, tudo para mim se torna alegoria,
E minhas caras lembranças são mais pesadas que as rochas.)
(trad. J.M.G.) (p. 51).

A casa particular torna-se uma espécie de refúgio contra um mundo exterior hostil e anônimo. O indivíduo burguês, que sofre de uma espécie de despersonalização generalizada, tenta remediar este mal por uma apropriação pessoal e personalizada redobrada de tudo o que lhe pertence no privado: suas experiências inefáveis (Erlebnisse), seus sentimentos, sua mulher, seus filhos, sua casa e seus objetos pessoais. No texto “Sobre Paris, Capital do Século XIX”, Benjamin analisa, de maneira muito feliz, os interiores burgueses do fim do século, com seus móveis estofados, seus tapetes espessos, sua luz filtrada, suas fotografias e suas pinturas escolhidas, enfim, todos aqueles acessórios essenciais que deveriam sugerir uma intimidade que sumiu do mundo público; tais acessórios também têm a função de ressaltar a marca do seu proprietário, reduzido ao anonimato quando deixa sua moradia: “Habitar significa deixar rastros”, diz Benjamin. Despossuído do sentido da sua vida, o indivíduo tenta, desesperadamente, deixar a marca de sua possessão nos objetos pessoais: iniciais bordadas num lenço, estojos, bolsinhos, caixinhas, tantas tentativas de repetir no mundo dos objetos o ideal da moradia. Benjamin observa com humor que o veludo não é por acaso um dos materiais preferidos desta época: os dedos do proprietário deixam nela, facilmente, seu rastro. (p. 59 e 60).

Trechos do livro: GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e Narração em Walter Benjamin. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.

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