quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sonho de uma Noite de Verão, William Shakespeare


Primeiro Ato
Cena I

Teseu: “...Acorde o atrevido e frágil espírito do júbilo, expulse a melancolia daqui para os funerais. Essa pálida companhia não combina com nossa pompa (p. 7 e 8).

Egeu: “... esse enfeitiçou o coração de minha criança... Tu à luz do luar cantaste, ao pé de sua janela, com voz dissimulada, versos de dissimulado amor e roubaste para ti os afetos de sua fantasia com braceletes tecidos de teus cabelos, anéis, bugigangas, palavras imaginosas, truques, doces baratos, ramalhetes de florzinhas, gulodices, todos mensageiros de muita força e prevalência sobre uma juventude ainda não calejada. Com astúcia surrupiaste o coração de minha filha...” (pg. 8 e 9).

Hérmia: “... Suplico à sua Graça que me perdoe, desconheço que forças me fazem audaciosa e, tampouco, sei por que isso diz respeito à minha modéstia, estar aqui, em vossa presença, a advogar minhas idéias...” (p.10).

Teseu: “... Questione seus desejos, tenha em mente a sua pouca idade, examine com cuidado seu temperamento e sua estirpe, o sangue que lateja em suas veias... Porém, mais mundanamente feliz é a rosa destilada que aquela que, murchando em seus castos espinhos, cresce, vive e morre em abençoada solteirice” (p. 10).

Lisandro: “... E ela, doce dama, baba-se por ele, pôs-se devotadamente doida de amor por ele, idolatra-o, esse homem maculado e inconstante” (p. 12).

Teseu: “... estando por demais ocupado com meus assuntos pessoais, disso me esqueci completamente... (p. 12).

Lisandro: “Pois então, meu amor! Por que tens as faces tão pálidas? Como pode acontecer de as rosas desmaiarem tão rápido?” (p. 13).

Hérmia: “Possivelmente por falta de chuva, coisa que eu poderia muito bem garantir-lhes com a tempestade de meus olhos” (p. 13).

Lisandro: “... Em todas as histórias e romances que eu pudesse ter lido, que eu pudesse ter ouvido me contarem, a trajetória de um amor verdadeiro nunca transcorreu em caminhos suaves...” (p. 13).

Lisandro: “Ou, se havia uma compaixão no escolher! Guerra, morte ou doença sitiando aquele amor, tornando-o momentâneo como o som, veloz como uma sombra, curto como todos os sonhos, breve como um relâmpago na mais fuliginosa das noites, o relâmpago que, num ímpeto apaixonado, mostra o céu e terra e, antes que um homem tenha a capacidade de dizer ‘Olha!’, devoram-no os beiços da escuridão. Com essa rapidez, o que era brilhante alcança a ruína” (p. 14).

Hérmia: “Mas, então, se amantes fiéis sempre foram traídos, isso é uma lei do destino. Assim sendo, ensinemos nós com paciência e esta nossa provação, porque é de costume carregar essa cruz, tão devida ao amor como os pensamentos e sonhos e suspiros, desejos e lágrimas, todos acompanhantes, coitados, de nossa imaginação (p. 14).

Hérmia: “... Juro-te, elo arco mais forte de Cupido, por sua melhor seta de ponta dourada, pela simplicidade das pombas de Vênus, por tudo que faz as almas entrelaçarem-se, por tudo que faz os amores prosperarem e pelo fogo em que ardeu a rainha de Cartago quando o falso troiano foi avistado partindo sob velas enfunadas... por todos os juramentos que os homens já quebraram em todos os tempos. Porque muitos mais eles são do que contaram as mulheres ao longo dos tempos... nesse exato lugar que me indicaste, amanhã estarei seguramente para contigo encontrar-me” (p. 15).

Helena: “... Ah, como é feliz a tua beleza! Teus olhos são estrela-guia e o doce ar em tua boca, mais melodioso que a cotovia aos ouvidos de um pastor quando o trigo aparece verdejante, quando surgem nos espinheiros os primeiros botões de flor. As enfermidades são contagiantes; mas, ah, contagiosa fosse a formosura, gostaria eu de contagiar-me de tuas palavras... Meus ouvidos deveriam infectar-se de tua voz e, meus olhos, dos teus olhos. Minha boca deveria contagiar-se de doce melodia de tua boca...ensina-me com que artes tu balanças os movimentos do coração de Demétrio” (p. 16).

Hérmia: “Quanto mais o detesto, mais ele vem atrás de mim” (p. 16).

Helena: “Quanto mais o quero, mais ele me detesta” (p. 16).

Hérmia: “... por mais encantos que tenha o meu amor, ele conseguiu transformar o paraíso num inferno” (p. 17).

Lisandro: “... a você nossos planos revelaremos: amanhã à noite, quando Febe contemplar o próprio rosto, prateado, no espelho das águas, decorando com pérolas liqüefeitas a grama, de tantas folhas cortantes composta, naquela hora que sempre oculta os amantes em fuga pelos portões...” (p. 17).

Hérmia: “E na floresta, onde seguidas vezes ti e eu, sobre canteiros de pálidas prímulas, costumávamos nos deitar, aliviando nossos corações de seus doces segredos... Devemos deixar passar fome nossos olhos. Que careçam eles daquilo que alimenta os amantes, até amanhã na escuridão da meia-noite” (p. 18).

Helena: “Como são felizes uns, muito mais que outros podem ser!... Ele não quer saber daquilo que todos, menos ele, sabem... O amor não enxerga com os olhos e sim com a mente, por isso pinta-se cego o Cupido alado. Tampouco a mente do Amor tem faro para qualquer discernimento. Com asinhas e sem olhos, representa a pressa da imprudência. Dizem, portanto que o Amor é uma criança; porque, ao escolher, ele é tantas vezes enganado. Como meninos travessos numa brincadeira quebram as próprias promessas, assim o menino Amor comete perjúrio em todo o canto.... minhas lindas gotas de amor viraram fumaça ” (p.18 e 19).

Cena II

Fundilho (p. 21):
As pedras pesadas,
tremores irados,
Das portas das jaulas
Abriram cadeados.
Brilhou de mui longe
O carro de Apolo;
E pôs e dispôs
Das Parcas bobocas.

Segundo Ato
Cena I

Fada: “Por cima dos vales, por cima dos montes, através de espinhos, através de flores, por cima de muros, por cima de paliçadas, através do fogo, através da água, Eu passeio por todo o lugar, mais veloz que a esfera lunar...Sou eu a orvalhar, nela, o olhar que faz a grama verdejar. As prímulas, belas e altas, real guarda, têm manchas nas jaquetas douradas: São rubis, um imperial favor; Nessas pintas reside seu sabor. Procuro pingentes, gotas orvalhadas em orelhas de prímulas, pérolas penduradas...” (p. 26).

Bute: “... ela forçosamente segura o rapaz amado, enfeita-o com coroas de flores e faz dele a sua maior alegria. Desde então eles jamais se encontram – em nenhum arvoredo, em nenhum gramado, nem perto de uma fonte límpida, nem sob o brilho cintilante de um céu estrelado – sem que troquem farpas entre si...” (p. 27).

Bute: “... tem vezes em que me ponho à espreita, no caneco de uma velha faladeira, bem como se fosse maçã azeda e assada e, quando do caneco ela vai beber, bato-lhe nos beiços e derrubo-lhe a cerveja nas nojentas pelancas do pescoço...” (p. 28).

Titânea: “... Por isso os ventos, ao silvarem para nós em vão, parecem agora se vingar: sugaram dos mares névoas contagiosas que, ao caírem sobre a terra, transformaram até o mais insignificante dos rios em orgulhoso curso de água, a tal ponto que os rios subjugaram seus continentes. Assim foi que o boi esforçou-se longas horas na canga e em vão; o lavrador perdeu todo o seu suor e o milho, ainda verde no pé, apodreceu antes mesmo de criar-se a barba da juventude. O curral permanece vazio no campo alagado e os urubus engordam com os rebanhos dizimados... Por isso, pálida de raiva, a lua, governante das marés, molha o ar que se respira e faz aflorar em grande número as corizas e as doenças reumáticas. E ao longo desse tempo destemperado vemos as estações alterando-se: grisalhas e gélidas geadas caem no colo ainda quente da rosa mais vermelha; nos cabelos ralos e poucos e nevados daquele velho senhor, o Inverno, assenta-se uma coroa perfumada das doces florzinhas de verão, como se fosse zombaria; a primavera, o verão, o outono fecundo, o furioso inverno, mudam seus trajos costumeiros; e o mundo, desnorteado com o que produz cada estação, sequer sabe qual é qual. E uma igual proliferação de males nasce de nossas brigas, de nossas desavenças. Somos pais e origem desses males” (p. 31).

Oberon: “Naquele mesmo momento enxerguei (mas tu não podias enxergar), voando entre a frígida lua e a terra, Cupido, de arma em punho: fez mira, ele, na direção de uma linda vestal, coroada pelo Ocidente e libertou desde seu arco a flecha do amor, com muita habilidade e energia... como se devesse trespassar uma centena de milhares de corações. Contudo, eu pude ver a flamejante flecha extinguir-se nos castos raios de lua aguada; e a imperial devota passou adiante, em virginal meditação, livre de fantasias amorosas. Eu porém, observei onde caiu o dardo de Cupido: bem em cima de uma florzinha do Ocidente, antes branca como o leite, agora púrpura com a ferida do amor. E as donzelas chamam de amor-perfeito àquele amor ocioso...” (p. 33).

Helena: “Você me atrai, como se fosse um imã, um pedaço frio de ferro, duro como o seu coração. E contudo, você é imã que atrai ferro, pois meu coração é confiável como o aço. Dispa-se você de sua força magnetizante e eu já não terei forças para segui-lo” (p. 35).

Demétrio: “Por um acaso eu tento seduzi-la? Digo-lhe palavras amorosas? Ou não será que, ao contrário, com toda a franqueza, eu lhe digo que não a amo, nem poderia amá-la?” (p. 35).

Helena: “Sua virtude é minha proteção, pois quando vejo o seu rosto, não é noite. Tampouco este bosque carece de mundos de companhia, pois você, aos meus olhos, é o mundo todo. Então, como pode-se dizer que estou sozinha se o mundo todo está aqui, olhando para mim?” (p. 36).

Helena: “Nem a mais selvagem das feras tem um coração como o seu...” (p. 36).

Helena: “... Nós, mulheres, não podemos lutar por um amor, como os homens podem; nós devemos ser cortejadas e não fomos feitas para cortejar... Eu te seguirei e transformarei inferno em paraíso, morrendo junto às mãos que tanto amo” (p. 37).

Cena II

Lisandro: “Ah, veja o real sentido, minha querida, de minha inocência! O amor só tem significado na conversação amorosa. Eu quero dizer que meu sentimento está costurado ao seu, tanto que o nosso é um sentimento só; dois corações acorrentados por um juramento, de tal maneira que são dois corações e uma só promessa de casamento...” (p. 41).

Hérmia: “... Que o teu amor nunca se modifique antes de terminada a tua doce vida!” (p. 42).

Lisandro: “... que o sono traga a ti todo o teu repouso” (p. 42).

Bute: “... Quando acordares, perderás o sono: Por acusa do amor, não pregará o olho...” (p. 43).

Helena: “Ah, que já me falta ar, nesta ridícula caçada amorosa!... Como foi que puseram tão brilhantes aqueles olhos? Por certo que não foi com lágrimas salgadas, Fosse isso... meus olhos são muito mais vezes lavados que os dela...” (p. 43).

Lisandro: “E por ti atravessarei labaredas de fogo, doce criatura!... A natureza mostra-se mágica e consigo enxergar teu coração através de teu peito...” (p. 44).

Lisandro:”...Quem não trocaria um corvo por uma pombinha? A vontade de um homem muda de sentido conforme a razão e a razão me diz que você é a donzela mais valorosa. Enquanto ainda em crescimento, coisa nenhuma está madura até chegar a sua hora. Eu, sendo jovem, até este momento não havia amadurecido o meu raciocínio. Alcançando agora o ápice do discernimento humano, a razão torna-se mestre-de-cerimônias para meu desejo, conduz-me até seus olhos, onde posso ler verdadeiras histórias de amor, escritas nas mias preciosas páginas de amor” (p. 44 e 45).

Lisandro: “... Pois assim como o estômago detesta profundamente haver se nauseado porque empanturrou-se de doces e assim como os homens que mais detestam as falsas crenças são os que tiveram de abandoná-las, porque nelas acreditavam, do mesmo modo eu, dentre todos os que te odeiam, sou quem mais te odeia, a ti, minha náusea e minha heresia! Que todas as forças levem o meu amor e o meu vigor...” (p. 45 e 46).

Terceiro Ato
Cena I

Titânia: “Suplico-te, gentil mortal, canta de novo. Meu ouvido enamorou-se de tua voz; também meu olho encantou-se com tua forma; e a força de tuas belas virtudes por força me leva, à primeira vista, dizer, que te amo” (p. 54).

Cena II

Bute: “... Quando dão uma espiada nele, foi como gansos selvagens que o caçador, rastejando, avistasse, ou como as gralhas de plumagem parada na cabeça, em numerosa revoada, alçando vôo e esganiçando-se ao estampido de uma arma de fogo, separando-se e enlouquecidamente espalhando-se pelo céu; assim foi que , ao enxergarem-no, escafederam-se os seus camaradas. Eu sapateio com força e, assustados, um vai tropeçando uma, duas, três vezes...” (p. 59).

Demétrio: “Mas, ah... por que você rejeita este que tanto a ama? Melhor seria deitar palavras tão cáusticas sobre um cruel inimigo” (p.59).

Hérmia: “... Nem o sol foi tão verdadeiro e leal com o dia como ele foi comigo...” (p. 60).

Demétrio: “Não tem sentido acompanhá-la, com o sangue fervendo-lhe nas veias... E o peso de minha tristeza pesa cada vez mais. E o meu sono, falido por causa da tristeza, está em dívida comigo, o que traz acréscimo à minha tristeza. Mesmo que seja um pouquinho, algo dessa conta ele agora vai me pagar, pois em troca de algum descanso aqui vou me deitar” (p. 61 e 62).

Bute: “Então prevalece o destino: para cada homem que mantém sua palavra, um milhão de outros falham, quebrando um juramento depois do outro” (p. 62).

Oberon: “... é aquela que está doente de amor, fisionomia pálida, suspirando de paixão, cada suspiro custando-lhe uma gota de seu precioso e jovem sangue...” (p. 62).

Bute: “... Ele chega pelo amor dela suplicando. Podemos ver e, já daqui a pouco: ridículo espetáculo estarão encenando. Senhor, que esses mortais são bobos!” (p. 63).

Bute: “... Não tem coisa que mais me apraz na vida que as coisas extraordinariamente acontecidas” (p. 64).

Lisandro: “... Zombaria e escárnio nunca se apresentam sob a forma de lágrimas...” (p. 64).

Helena: “Você prossegue, exibindo mais e mais sua astúcia. É uma verdade destruindo outra verdade! É um combate diabólico numa guerra santa!... Coloque suas juras de amor, para ela e para mim, nos pratos de uma balança e eles vão estar equilibrados, os dois igualmente leves, cheios de palavras vazias” (p. 64).

Demétrio: “A que, meu amor, devo compara teus olhos? O cristal é turvo. Ah, quão maduros mostram-se teus lábios, essas beijáveis cerejas; quão tentadora essa fruta que é tua boca!...” (p. 65).

Demétrio: “Não desacredite uma lealdade que você desconhece, a menos que você queira pagar correr o risco de por isso pagar caro...” (pg. 66 e 67).

Helena: “... como deuses engenhosos, bordamos com nossas agulhas uma única flor, num pano só, sentadas as duas na mesma almofada, as duas garganteando a mesma música, afinadas no mesmo tom, como se nossas mãos, nossas vozes, nossas mentes, um lado do meu corpo e um lado do seu tivessem se incorporado. Assim foi que crescemos juntas, como uma cereja dupla, aparentemente dividida em duas, mas na verdade uma união dividida, duas adoráveis frutas moldadas em um único talo; éramos, assim, dois corpos em aparência, mas um só coração. Dois em um, como num brasão da heráldica, revelando a união de duas famílias numa só, com pluma ou elmo coroado na crista...” (p. 68).

Hérmia: “... O que fez você, esgueirou-se na noite e veio roubar de meu amado o próprio coração?” (p. 72).

Bute: “... Os espíritos amaldiçoados, que se fizeram enterrar nas encruzilhadas ou que se fizeram levar pelas águas, esses já se recolheram aos seus leitos infestados de vermes, com medo de que o dia testemunhe suas desgraças. Como por vontade própria exilaram-se da luz, devem agora e para sempre acompanhar, coniventes, a noite escura e carrancuda” (p. 77).

Oberon: “... Eu muitas vezes diverti-me no amor da Manhã; como um homem das florestas, posso andar pelo arvoredo até os portões de um poente totalmente rubro, que se abrirá sobre Netuno com belos e abençoados raios, transformando em amarelo dourado suas correntezas verdes e salgadas...” (p. 78).

Lisandro: “Vem, Ó gentil dia: mostra-me uma vez só tua luz pardacenta...” (p. 79).

Helena: “... E tu, sono, que às vezes cerra um olhar carregado de tristeza, poupa-me por alguns instantes de minha própria companhia” (p. 80 e 81).

Bute: “... Cupido é um grandíssimo velhaco: deixa pobres fêmeas de raciocínio fraco” (pg. 81).

Hérmia: “Nunca antes tão cansada, nunca antes tão magoada, salpicada de orvalho e arranhada por espinhos de roseira brava, não consigo mais nem me arrastar, não consigo mais seguir adiante. Minhas pernas já não acompanham a minha vontade. Aqui repousarei até o raiar do dia” (p. 81).

Bute (p. 81 e 82):

Neste chão
Sonha o teu sonho;
Minha mão
Pinga no teu olho,
gentil rapaz enamorado, uma reparação...

Quarto Ato
Cena I

Titânia: “Vem senta nesta cama florida, enquanto eu acaricio teu rosto adorável e prendo rosas almiscaradas em tua cabeça lisa e macia... alegria do meu coração” (p. 83).

Oberon: “... Estás vendo essa doce visão?... Estava ela à cata de doces mimos de flores para esse detestável bobalhão... E o mesmo orvalho que antes estava acostumado a inchar como pérolas redondas, orientais, luminosas e cristalinas nas flores em botão, agora figurava nos olhos nos olhos das lindas florzinhas como lágrimas, deplorando a sua própria desgraça... Que ele desperte quando os outros despertarem... e que não mais pensem nos incidentes desta noite, pois eles não foram nada além da agitação selvagem de um sonho...Volta a ser como costumavas ser; Volta a ver como costumavas ver...” (p. 87).

Titânia: “... Ah, como meus olhos detestam-lhe o semblante agora!” (p. 87).

Bute: “Agora, quando acordares, espreita o mundo com os teus próprios olhos de bobo” (P. 87).

Bute: “... escute e preste atenção: Da cotovia matutina já se ouve sua bela canção” (p. 88).

Oberon (p.88):

Vamos, minha rainha: em solene silêncio
Vamos bem rápido o globo circundar
As sombras da noite nós perseguiremos;
Mais rápido que a errante figura lunar.

Hipólita: “... Além do arvoredo, era o céu, as fontes d’água, toda a região ao redor parecia um único e mútuo alarido. Jamais ouvi desarmonia tão musical, trovoadas tão suaves” (p. 89).

Lisandro: “... devo responder-vos que eu mesmo estou confuso, meio sono, meio acordando. Mas, por enquanto, eu vos juro, não sei dizer mesmo como vim parar aqui. Mas, como eu penso... e eu só contaria verdade...” (p. 91).

Demétrio: “... Mas, meu caro senhor, desconheço por que forças...mas por alguma força foi...que meu amor por Hérmia como neve derreteu-se. Aquele amor agora mais me parece a lembrança de uma brincadeira à toa, de um passatempo predileto da infância...Como se fosse uma doença, passei a odiar a comida de meu prato; agora, na saúde, retorno meu paladar natural e quero-a, amo-a, desejo-a e a ela serei fiel para sempre fiel” (p. 92).

Teseu: “Belos amantes, afortunadamente vocês se encontram. Desse discurso em breve ouviremos mais...” (p. 92).

Demétrio: “Essas coisas parecem pequenas e indistintas, como montanhas ao longe, que não se podem distinguir das nuvens” (p. 92 e 93).

Hérmia: “A mim me parece que estou vendo essas coisas como vesga, quando tudo parece duplo” (p. 93).

Demétrio: “Vocês tem certeza de que estamos acordados? Parece-me que ainda estamos dormindo, sonhando...” (p. 93).

Fundilho: “... Tive uma visão das mais fantásticas. Tive um sonho e não há sabedoria humana que possa dizer que sonho foi esse. Não passa de um asno o homem que quiser começar a tentar explicar esse sonho... O olho do homem não ouviu, o ouvido do homem não viu, a mão do homem não é capaz de sentir gosto, sua língua não pode conceber, nem seu coração relatar o que foi o meu sonho...” (p. 94).

Cena II

Fundilhos: “... E, meus queridíssimos atores, não comam cebola nem alho, pois estaremos pronunciando dulcíssimas palavras...” (p. 97).

Quinto Ato
Cena

Teseu: “... Os amantes e os loucos têm cérebros tão fervilhantes, fantasias tão imaginativas, que acabam por conceber mais do que a fria razão pode compreender. O lunático, o amante e o poeta são compostos tão somente de imaginação. Um enxerga tantos demônios que estes não cabem em todo o vasto inferno; assim é o louco. O amante, tão desvairado quanto, enxerga a beleza de Helena de Tróia no rosto de uma cigana. O poeta revira os olhos num fino e furioso frenesi, lança um olhar do céu para a terra, outro da terra para o céu, à medida que a imaginação vai desenhando os contornos de coisas não conhecidas, a pena do poeta vai lhes dando formas e coloca um nada etéreo em uma habitação local e inventa-lhe um nome. Uma imaginação forte tem truques tais que, se concebe uma alegria, inclui também um causador dessa alegria; ou então à noite, imaginando algum medo, como é fácil confundir um arbusto com um urso!” (p. 98 e 99).

Teseu: “Eis que chegam os apaixonados, cheios de alegria e jovialidade. Que a alegria, queridos amigos, a alegria e dias de amor sempre renovados acompanhem os seus corações!” (p. 99).

Teseu: “... é impossível uma coisa ser equivocada quando são a singeleza e a reverência que a oferecem...” (p. 102).

Hipólita: “Eu não gosto de ver mesquinharias realçadas e tampouco gosto de ver gente esforçando-se para cumprir com sua obrigação e falhando ao tentar agradar” (p. 102).

Teseu: “Mais generosos estaremos sendo nós então, agradecendo-lhes por coisa nenhuma. Nosso divertimento será ver a fortuna que há no infortúnio deles. E aquilo que o pobre esforço não conseguir, o nobre respeito fará, percebendo a força da encenação e não seu mérito... Assim é que, no meu entender, têm língua amarrada o amor e a simplicidade: quanto menos falam, mais dizem” (p. 103).

Lisandro: “Ele tratou o prólogo como quem monta um potro selvagem para domá-lo e não sabe quando parar. Uma boa lição, milorde: não basta falar; há que se falar com correção” (p. 104).

Hipólita: “Realmente, ele apresentou o prólogo como uma criança toca a flauta: sons desgovernados” (p. 104).

Teseu: “Sua fala parecia uma corrente de elos enroscados uns nos outros; nenhum fica prejudicado, mas tudo fica desordenado...” (p. 105).

Demétrio: “Não é de se duvidar, milorde: um leão pode muito bem falar quando tantos asnos o fazem” (p. 106).

Demétrio: “Não tem remédio, meu senhor, quando sabe-se que as paredes têm ouvidos e disso não avisam” (p. 109).

Hipólita: ”Essa é a maior bobajada que já ouvi” (p. 109).

Teseu: “Os melhores nesse grupo são tão somente sombras e os piores não são piores, se a imaginação lhes der algum crédito” (p. 109).

Leão: “Vós, senhoras, vós cujos corações gentis temem o menor dos monstruosos camundongos correndo no piso, podeis aqui e agora, porventura, tremer e estremecer quando o bravo leão bradar leonino em rugido selvagem, em raiva cega. Pois saibam que eu, por ser Justinho, o marceneiro, sou um leão feroz e de modo algum uma leonina mamãe de leõezinhos; pois se eu, como leão, tivesse de entrar em combate aqui neste lugar, as senhoras teriam de ter pena de minha vida” (p. 110).

Píramo: “... Que coisa tão triste, tão dolorosa! Olhos não querem ver? Como pode isso ser?... Aproximem-se, Fúrias, vejam! Venham, Parcas, venham, para os fios, as lãs e as linhas cortar, para aniquilar, concluir e matar” (p. 113).

Tisbe: “... Lamentem-se amantes; Um alho-poró, seus olhos verdejantes. Ah, vocês, as três Parcas, as três irmãs, Venham, cheguem-se a mim em seus afãs; Minhas mãos lívidas, leitosas, Deitem-nas em sangue, vermelhosas. A vida dele vocês ceifaram, o fio de seda vocês tosquiaram. Língua, nem uma palavra! Vem, confiável espada, Fura meu peito, lâmina aguçada” (p. 116).

Oberon: “Por toda a casa, espalhem luz tremeluzente junto ao fogo quase morto, dormente...” (p. 118).

Bute (p. 120):

“Se nós, sombras, vos ofendemos,
Pensai nos seguintes termos:
O que vos sucedeu foi adormecer,
E essas visões que a vós parecíeis ver
Compuseram o nosso tema, tolo
E à toa, nada mais que um sonho.
Não censureis este nosso tema;
Perdoai-nos e haverá emenda.
No caso de sorte imerecida,
Escapando nós de vaias viperinas,
Como sou um Bute honesto,
Das retificações eu em encarrego.
Não sou Bute mentiroso
E dou boa-noite a todos.
Palmas, se quiserdes bater!
Em troca, vou a peça refazer.

“A esse propósito, diria a respeito da razão e do mito o que Chesterton dizia em relação ao poeta e ao lógico: o primeiro quer enfiar a cabeça no céu, o segundo quer enfiar o céu na cabeça: é por isso que esta arrebenta” (Augusto Novaski).


SHAKESPEARE, William. Sonho de uma Noite de Verão. Porto Alegre: L&PM, 2001.

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