segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Inéditos, volume 1 – Teoria, Roland Barthes


Muitas vezes me perguntei por que gosto de escrever (à mão, é claro), a tal ponto que em muitas ocasiões o esforço tantas vezes ingrato do trabalho intelectual é resgatado, a meu ver, pelo prazer de ter diante de mim (assim como a mesa do artesão) uma bela folha de papel e uma boa caneta: ao mesmo tempo em que reflito no que devo escrever (é o que acontece nesse exato momento), sinto minha mão agir, virar, ligar, mergulhar, levantar-se freqüentemente, no ato das correções, rasurar ou estilhaçar a linha, aumentar o espaço até a margem, construindo assim, a partir de traços miúdos e aparentemente funcionais (as letras), um espaço que é simplesmente o espaço da arte: sou artista, não no sentido de figurar um objeto, porém mais fundamentalmente porque na escrita meu corpo goza ao traçar, incisar ritmicamente uma superfície virgem (sendo o virgem o infinitamente possível).

BARTHES, Roland. Inéditos, volume 1 – Teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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