sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Grão da Voz, Roland Barthes


Os homens dão um sentido ao seu modo de escrever; com palavras, a escritura cria um sentido que as palavras não possuem de início. É isso que eu tento exprimir (p. 15).

A escritura é a arte de formular questões e não de respondê-las ou de resolvê-las (p. 16).

Não se pode fazer da escritura a simples ‘tradução’ da imagem ou da fala, nem mesmo fazer da escritura um objeto entre outros objetos de transmissão, de expressão, de tradução. A escritura – não digo a fala – é um sistema que se basta a si mesmo, e é talvez isso que faz com que ele suscite uma interrogação inesgotável (p. 57).

O texto só pode ser uma trança conduzida de forma extremamente retorcida, entre o simbólico e o imaginário. Não se pode escrever – pelo menos estou convencido disso – sem imaginário. O mesmo acontece, sem dúvida, com a leitura (p. 270).

Isto a que se chama escritura – ou seja, o trabalho do corpo que está às voltas com a linguagem – passa pelo estilo. Há sempre uma fase estilística no trabalho de escritura. A escritura começa mesmo pelo estilo, que não é o bem-escrever: ele se refere, já o dizia em O Grau Zero da Escritura, ao profundo do corpo, e não pode ser reduzido a uma intenção de boniteza parcamente estética (p. 223).

A escritura de um escritor liga-se essencialmente a um critério de indeterminabilidade” (p. 120).


BARTHES, Roland. O Grão da Voz. Trad. Anamaria Skinner, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1995.

Nenhum comentário:

Postar um comentário