quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O óbvio e o obtuso: ensaios sobre fotografia, cinema, pintura, teatro e música, Roland Barthes


Dentro dos olhos

Um signo é aquilo que se repete. Sem repetição, não há signo, pois não poderíamos reconhecê-lo, e é o reconhecimento que origina o signo. Ora, Stendhal observa que o olhar é capaz de dizer tudo, mas não se pode repetir textualmente. Logo, o olhar não é um signo e, no entanto, significa. Em que consiste este mistério? É que o olhar pertence a esse reino da significação cuja unidade não é o signo (descontínuo), e sim a significância, cuja teoria foi esboçada por Benveniste. Opondo-se à língua, ordem dos signos, as artes, em geral, estão ligadas à significância. Nada de surpreendente, pois, que haja uma espécie de afinidade entre o olhar e a música, ou que a pintura clássica tenha reproduzido com amor tantos olhares lânguidos, imperiosos, irados, pensativos etc. Sem dúvida, há na significância um núcleo semântico, sem o que o olhar não poderia dizer alguma coisa: a rigor, um olhar não poderia ser neutro, senão para significar a neutralidade: se é “vago”, este vago está, sem dúvida, cheio de duplicidade; mas, esse núcleo está envolto em um halo, campo de expansão infinita em que o sentido transborda, irradia, sem perder sua impressão (a ação de imprimir-se): é o que ocorre ao escutarmos uma música ou ao contemplarmos um quadro. O “mistério” do olhar, o sentimento de que é feito, situa-se, evidentemente, nessa zona de transbordamento. Eis, pois, um objeto (ou uma entidade) cujo ser depende de seu excesso. Analisemos esses transbordamentos. (p. 277).

Dizem, com desprezo, referindo-se a alguém: “Seu olhar desviava-se...”, como se o olhar tivesse que ser direto, imperioso. A economia psicanalítica, no entanto, diz outra coisa: “Em nossa relação com as coisas, tal como está constituída por intermédio da visão e ordenada nas figuras da representação, alguma coisa passa, transmite-se de etapa em etapa, de maneira que haja sempre, em grau qualquer, algo oculto – é o que se chama o olhar”. E ainda: “De maneira geral, a relação entre o olhar e aquilo que se quer ver é uma relação de engano. O sujeito apresenta-se diferente do que é, o que lhe oferecem ao olhar não é o que ele quer ver. Por essa razão o olho pode funcionar como objeto (a), isto é, ao nível da falta” (Lacan, séminaire XI, pp. 70 e 96). (p. 279).

Massacre no Cambodja: mortos rolam uma escada de uma casa quase inteiramente demolida: no topo, sentado sobre um degrau, um menino olha para o fotógrafo. Os mortos delegaram ao vivo o encargo de olhar-me; é no olhar do menino que vejo os mortos. (p. 279).

BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios sobre fotografia, cinema, pintura, teatro e música. Trad. Léa Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

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