quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Rumor da língua, Roland Barthes


[...] a escritura propõe sentido sem parar, mas é para evaporá-lo: ela procede a uma isenção sistemática do sentido. Por isso mesmo, a literatura (seria melhor passar-se a dizer a escritura), recusando designar ao texto (e ao mundo como texto) um ‘segredo’, isto é, um sentido último, liberar uma atividade a que se poderia chamar contrateleológica, propriamente revolucionária, pois a recusa de parar o sentido é finalmente a recusa de Deus e de suas hipóteses: a razão, a ciência, a lei (p. 69 e 70).

Só a escritura... efetua a linguagem na sua totalidade (p. 28).

[...] a escritura é a destruição de toda voz, de toda origem. A escritura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo aonde foge o nosso sujeito, o branco-e-preto onde vem se perder toda identidade, a começar pelo do corpo que escreve (p. 65).

[...] desde que um fato é contado, para fins intransitivos, e não para agir diretamente sobre o real, isto é, finalmente fora de qualquer função que não seja o exercício do símbolo, produz-se esse desligamento, a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escritura começa (p. 65).

A escritura pode fazer tudo de uma língua e, em primeiro lugar, devolver-lhe a liberdade (p. 245).


BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira, prefácio de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo, Brasiliense, 1988.


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