quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Como viver junto: simulações romanescas de alguns espaços cotidianos: cursos no Collège de France, Roland Barthes



Ora, todas as utopias escritas são utopias sociais, de Platão a Fourier: busca de uma maneira ideal de organizar o poder (p. 256).

Nunca se pode dizer melhor, ou redizer, ou dizer algo diverso daquilo que diz uma boa frase: daí a natureza profundamente estéril da dissertação. O sujeito escolar sofre por ser encurralado numa tarefa que não pode produzir nada, e que até mesmo altera. (Não sei se, nos liceus, continuam a dar frases para serem comentadas. No meu tempo, era mais ou menos a regra.) (p. 277).

2) Pensar a partir de uma palavra. É melhor. Pois a palavra é puro significante. Ela não explode em “comentários”, mas em outros significantes – segundo pelo menos duas vias, a meu ver, régias:

a) A etimologia, a pseudo-origem, o engodo da origem, o devir, o tremular diacrônico do vocábulo, suas reviravoltas, seus paradoxos. Exemplo: a própria palavra “discurso”; correr de cá para lá, separando ou afastando os episódios de linguagem: “o discurso amoroso” – lenço indistinto e sonífero de fala longa e construída (com partes solidárias).

b) a conotação, o campo conotativo, isto é, a sedimentação dos usos rotineiros, a vibração social da palavra.
(p. 277).


Com respeito à etimologia, reviravolta: discurro = correr para todos os lados (dis = separação, afastamento em sentidos opostos) (p. 278 e 279).

Discursus latino: corrida de um lado para outro, divagações discordantes. Essa palavra indica a passagem ao sentido moderno. “Discours”: uma espécie de excursão, de divagação (p. 279).


BARTHES, Roland. Como viver junto: simulações romanescas de alguns espaços cotidianos: cursos no Collège de France, 1976-1977/ Roland Barthes; texto estabelecido, anotado e apresentado por Claude Coste; tradução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Coleção Roland Barthes).

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