quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sobre Racine, Roland Barthes


É que, de fato, a transparência é um valor ambíguo: ela é ao mesmo tempo aquilo de que nada se tem para dizer e aquilo de que se tem muito para dizer (p. 5).

Escrever é abalar o sentido do mundo, aí fazer uma interrogação indireta,que o escritor, em vista de um suspense derradeiro, abstém-se de responder. A resposta é dada por cada um de nós, que para aí transporta sua história, sua linguagem,sua liberdade; mas como história, linguagem e liberdade mudam infinitamente, a resposta do mundo do escritor é infinita: não se pára jamais de responder ao que foi escrito longe de toda resposta.

indireto

O fundo desse sistema é uma teologia invertida: o homem carrega sobre si o erro dos Deuses cuja maldade é resgatada pelo sangue (p. 65).

Essa fragmentação das significações tem por objetivo facilitar, de certa maneira,o trabalho intelectual do ouvinte:o ator se crê encarregado de pensar por ele.Há entre o ator trágico burguês e seu público uma relação singular de autoridade, que poderia talvez receber uma definição psicanalítica: o público é como uma criança, o ator é seu substituto materno, ele prepara sua alimentação, dá os alimentos bem cortadinhos que o outro consome passivamente. Está aí uma relação geral que reencontramos em muitas outras artes além do teatro (p. 131).

Mas, de todas as maneiras, a resistência geral dos historiadores da literatura em passar precisamente da literatura à história nos ensina isso: que há um estatuto particular da criação literária; que não somente podemos tratar a literatura como qualquer outro produto histórico (o que ninguém pensa convenientemente), mas ainda que essa especialidade da obra contradiz, numa certa medida, a história, em suma, que a obra é essencialmente paradoxal, que ela é ao mesmo tempo signo de uma história, e resistência a essa história. É esse paradoxo fundamental que aparece, mais ou menos lucidamente, em nossas histórias da literatura; todo mundo sente que a obra escapa, que ela é outra coisa além de sua própria história, da soma de suas fontes, de suas influências ou de seus modelos: um caroço duro, irredutível, na massa difusa dos acontecimentos, das condições, das mentalidades coletivas; eis porque nunca dispomos de uma história da literatura, mas somente de uma história dos literatos (p. 141).

Não exijamos da história mais do que ela pode nos dar: a história não nos dirá jamais o que se passa num autor no momento em que ele escreve. Seria mais eficaz inverter o problema e nos perguntarmos o que uma obra nos dá de seu tempo. Tomemos então deliberadamente a obra como um documento, a marca particular de uma atividade, da qual somente o lado coletivo nos interessará no momento; vejamos, em síntese, o que poderia ser uma história, não da literatura, mas da função literária (p. 142).

Nada se cria de nada; esta lei da natureza Orgânica passa sem sombra de dúvida à criação literária: a personagem não pode nascer senão de uma pessoa. Se ainda se admitisse na figura geradora uma certa indiferenciação, de modo que se tentasse apreender a zona fantasmática da criação; mas são, ao contrário, imitações tão circunstanciais quanto possíveis que se nos propõem, como se fosse verdade que o eu só retém os modelos que não pode deformar;do modelo à cópia exige-se um termo comum ingenuamente superficial: Andrômaca reproduz la Du Parc porque ambas eram viúvas e tinham um filho; Racine é Orestes,porque tinham o mesmo tipo de paixão,etc.(p. 155).

BARTHES, Roland. Sobre Racine. Trad. Antonio Carlos
Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987. 160 p.

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