quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sollers Escritor, Roland Barthes


A prática do indireto tem uma função de verdade. Diante da fala expressiva, encarregada de autenticar uma ‘coisa’ concebida como anterior ao discurso, o indireto perturba o próprio processo da expressão, falsifica a relação do centro com as extremidades, opera, quanto a esta ‘coisa’ que a linguagem teria a dizer, uma perpétua deportação, mantendo sempre a quota plena (a informação, o sentido, o fim) para adiante, no inédito – o que é também uma maneira de frustrar a interpretação do texto (p. 27).

Sabe-se cada vez mais que ela [a História] é, tal como a linguagem, um jogo de estruturas, cuja independência respectiva pode ser levada muito mais adiante do que se acreditava: a História também é uma escritura (p. 17).

O que está em causa é aumentar o rasgão do sistema simbólico no qual acaba de viver e vive ainda o Ocidente moderno; este empreendimento de vacilação será impossível, enquanto não se mudar o próprio lugar da cultura ocidental, ou seja, a linguagem: (a uma fala, a uma comunicação, a um instrumento), não se faz mais do que respeitá-la; para descentrá-la e retirar-lhe seus privilégios milenares, fazer aparecer uma escritura nova (e não um novo estilo), é necessária uma prática fundada em teoria (p. 17 e 18).

Na escritura, a sobrenumeração das frases, cujo acúmulo nenhuma regra estrutural pode limitar teoricamente, não tem nada a ver com a adição de mensagens contíguas ou a expansão retórica de detalhes secundários (que se chama ‘desenvolvimento’ de uma idéia): em relação à língua, o discurso é superficialmente combinatória, essencialmente contestador e remunerador; e é nisso que o escritor (aquele que escreve, isto é, que nega os limites obrigatórios de sua própria língua) consiste em ‘inventar’ novos símbolos, mas em operar a mutação do sistema simbólico no seu todo, em revirar a linguagem, não em renová-la (p. 40).

BARTHES, Roland. Sollers Escritor. Trad. Ligia Maria P. Vassalo. Rio de janeiro, Tempo Brasileiro, 1982. (Biblioteca Tempo Universitário, n. 64).

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