segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Ar e os Sonhos: Ensaio sobre a imaginação do movimento, Gaston Bachelard


Para quem conhece o devaneio escrito, para quem sabe viver, plenamente viver, ao correr da pena, o real está tão longe! O que se tinha a dizer é tão depressa suplantado pelo que nos surpreendemos a escrever, que sentimos bem que a linguagem escrita cria o seu próprio universo. Um universo das frases se ordena sobre a página branca, numa coerência de imagens que não raro tem leis bastante variadas, mas que conserva sempre as grandes leis do imaginário. As revoluções que modificam os universos escritos se fazem em proveito de universos mais vivos, menos empolados, mas sem nunca suprimir as funções dos universos imaginários. Aliás, mesmo em imagens literárias isoladas, sentimos em ação essas funções cósmicas da literatura. Uma
imagem literária basta às vezes para nos transportar de um universo a outro. É nisso que a imagem literária aparece como a função mais inovadora da linguagem. A linguagem evolui muito mais por suas imagens que por seu esforço semântico (Bachelard, 1990, p.258).

Verbo que se escreve tem sobre o verbo falado a imensa vantagem de evocar ecos abstratos em que os pensamentos e os sonhos se repercutem. A palavra enunciada nos toma muita força, exige demasiada
presença, não nos faculta o total domínio de nossa lentidão. Há imagens literárias que nos engajam em reflexões indefinidas, silenciosas. Percebemos então que na própria imagem se incorpora um silêncio em profundidade. Se quisermos estudar essa integração do silêncio ao poema, não é preciso fazer dela a simples dialética linear das pausas e dos sons ao longo de uma recitação. Importa compreender que o princípio do silêncio em poesia é um pensamento oculto, um pensamento secreto. No momento em que um pensamento hábil em ocultar-se sob suas imagens espreita na sombra um leitor, os ruídos se abafam e a leitura começa, a lenta leitura sonhadora. Na busca de um pensamento oculto sob os sedimentos expressivos desenvolve-se a geologia do silêncio (Bachelard, 1990, p. 259).

Tomada em sua vontade de trabalhar a expressão, a imagem literária é uma realidade física que tem um relevo especial; mais exatamente, é o relevo psíquico, o psiquismo em vários planos. Ela grava ou eleva. Reencontra uma profundidade ou sugere uma elevação. Sobe ou desce entre céu e terra. É polifônica por ser polissemântica. Se os sentidos se dividem em demasia, ela pode cair no "jogo de palavras". Se ela se encerra num sentido único, pode cair no didatismo. O verdadeiro poeta evita os dois perigos. Ele joga e ensina. Nele, o verbo reflete e reflui. Nele, o tempo se põe a esperar. O verdadeiro poema desperta um invencível desejo de ser relido. Tem-se imediatamente a impressão de que a segunda leitura nos dirá mais que a primeira. E a segunda leitura - é mais lenta que a primeira. É uma leitura recolhida. Nunca terminamos de sonhar o poema, nunca terminamos de pensá-lo. E às vezes vem um grande verso, um verso carregado de tamanha dor ou de tamanho pensamento que o leitor – o leitor solitário - murmura: e nesse dia a leitura não seguirá adiante (p. 260).

As imagens têm um estilo. As imagens cósmicas são estilos literários. A literatura é um mundo válido. Suas imagens são primeiras. São as imagens do sonho falante, do sonho que vive no ardor da imobilidade noturna, entre o silêncio e o murmúrio. Uma vida imaginária – “a verdadeira vida" - se anima em torno de uma imagem literária pura (p. 261).

Em quaisquer circunstâncias, a vida toma muito para ter o bastante. É preciso que a imaginação tome muito para que o pensamento tenha o bastante. É preciso que a vontade imagine muito para realizar o bastante (p. 262).

BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos: Ensaio sobre a imaginação do movimento. São
Paulo: Martins Fontes.

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