quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dançar tango em Porto Alegre, Sergio Faraco


CARREGAVA POUCA ROUPA NA VALISE. Duas camisas, uma calça grossa, meias e cuecas que me envergonhavam quando precisava pendurá-las para secar. Era, enfim, a roupa que eu tinha, mais a do corpo e o casaco listrado que trazia nos ombros, prevenindo o frio da madrugada. Um casaco antigo, resistente, comprara-o em certa ocasião para procurar emprego em Porto Alegre. Ele durava, mas os empregos... As pessoas costumavam me demitir como contristadas: “O senhor trabalha devagar e é muito distraído” ou “O senhor se esquece demais de suas obrigações”. Era engraçado que, depois de tantos anos, estivesse retornando á capital para tentar novo emprego e vestisse o mesmíssimo casaco. Mudava o mundo, minha roupa não.
Quase duas horas e o trem atravessava a noite escura, uma viagem sem fim, Uruguaiana a Porto Alegre era como a volta ao mundo. Noite úmida, fria, o vidro da janela se embaciava e eu me distraia imaginando como seria, numa noite assim, ver do campo o trem passar. Devia causar algum assombramento a cobra do ferro, luminosa, vomitando na treva o seu clamor de bielas rugidoras. Tinha vontade de erguer o vidro, espiar o tênder e a locomotiva numa curva da estrada, lembrança do tempo em que, menino, me debruçava no perigo para fruir a pressão do vento e investigar o trajeto das fagulhas. Mas não convinha. Havia crianças no vagão, pessoas idosas, e eu também não era jovem.
Me aborrecia com aquela idéia, os achaques de um homem maduro, quando a passageira ao lado advertiu:
- O senhor vai acabar queimando meu vestido.
Movi tão depressa o braço que o cigarro me escapou da mão e, infortunadamente, foi cair em seu regaço. Na tentativa de salvar-lhe a roupa meu desempenho não foi o melhor.
- Quer ter a bondade de tirar as mãos?
Passageiros mais próximos nos olharam e um deles sacudiu a cabeça, decerto pensando que eu tinha desacatado a moça.
Distante daqueles problemas pequeninos, o maquinista tocava seu trem. Meia hora até Santa Maria, no corredor um funcionário recolhia os bilhetes dos que iam descer. Observei minha companheira. Ela embarcava em Cacequi e desde lá quase não se movera. Agora estava outra vez imóvel, olhar perdido no vazio. Sua aparente melancolia estimulava minhas veleidades de bom samaritano, mas me continha, evitando dirigir-lhe a palavra. Tristeza por tristeza já bastavam as minhas de homem só.
E foi ela, afinal, quem começou.
- Eu sei que o senhor não fez por mal.
- Oh, não se preocupe.
Mas ela se preocupava, insistia em desculpar-se. O vagão sacolejava, de vez em quando caía nos olhos uma mecha de cabelo, que afastava com alguma negligência. Era uma jovem senhora de modos esquisitos. Tão quieta, longínqua, e no entanto, ao falar, parecia conter-se. Gesticulava lentamente, como sem vontade, mas um gesto perdido não raro se completava com um movimento brusco, imprevisto, deixando o interlocutor hesitante em pensá-la nervosa ou apenas absorta. Magra, um pouco mais do que deveria, mas se quisesse seria bem bonita, era só despertar, dando mais vida àqueles olhos de um castanho profundo.
Com um apito prolongado e o repique da sineta o trem se anunciou à estação de Santa Maria. Luzes, homens andando apressados pela gare, já freava o trem e crescia na plataforma o burburinho, multidões que fluíam e refluíam como sem destino, e no meio delas, como mortos em pé, como estátuas de exaustiva eternidade, aquelas indefectíveis criaturas paradas, olhando o trem, que sempre me intrigavam. Me perguntava se estariam partindo ou esperando alguém, talvez chegando, talvez admirando o trem, eu as contemplava e me perguntava que sonhos, angústias, tormentos não se ocultavam naqueles corações imperscrutáveis
Alheia ao movimento, ás misteriosas questões da vida e da morte suscitadas pelas estações, minha companheira nem ao menos olhava para fora.
- Acho que vou descer um pouco- disse-lhe.
Afastou as pernas, notei-lhe os joelhos redondos, as pernas bem torneadas.
- Quer que lhe traga alguma coisa? Uma revista?
Me olhou, era a primeira vez que o vazia mais longamente. Disse que ia sair também e descemos juntos.
Estação de Santa Maria, encruzilhada de trens, de antigas baldeações para as cidades da serra, da campanha, com seu cheiro de carvão e de fumaça, comida quente, ferro e pedregulho, e os vendedores de confeitos e maças argentinas, e os revisteiros oferecendo exemplares de O Cruzeiro, A Cigarra, Grande Hotel, e os bilheteiros de loteria anunciando o 13, o 17, o 44, com uma pressa cheia de ansiedade... Estação de Santa Maria, festa urgente, provisória, quase trágica, era em Santa Maria que as locomotivas prendiam ou desprendiam seus engates, que os vagões se separavam, que as composições partiam nas sombras da noite com suspiros de fumo e soluços de bielas, era em Santa Maria que as pessoas vindas de longe se encontravam, também ali se separavam, ou que se viam pela primeira vez e nunca mais. Estação de Santa Maria, encruzilhada de trens, ah quisera eu que em Santa Maria pudesse encontrar alguém que também estivesse à procura de alguém, e se a ninguém me fosse dado encontrar, que ao menos me encontrasse a mim mesmo, perdido que andava na pradaria sem carril da minha alma atormentada.
Levei-a ao restaurante da estação, onde nos serviram café quente e sanduíches. Fiz alguma observações a respeito do frio, da geada, do mau estado dos trens, ela me ouvia sem atenção, apenas assentindo ou murmurando qualquer coisa inexpressiva. No outro lado do salão, encarapitado numa escada bamba, um garçom colava esparadrapos nas frestas da janela.
- Aposto que ele vai escorregar.
Mas o homem se equilibrava e ela logo se desinteressou. Que chato, eu pensava, me sentindo um estranho no umbral de seu mundo ensimesmado. Ah, e não era novidade eu notar que alguém não apreciava minha companhia. Eu também era um pouco “difícil”. Gostava das pessoas, mas para que me aproximasse delas, me expusesse e as aceitasse lisamente, era preciso de que de algum modo tivesse de ajudá-las. Quando não era o caso, ou não tinha ocasião de fazê-lo, me surpreendia como sem função, não sabia do que falar e me tornava superficial, cerimonioso.
Disse-lhe que ia voltar para o vagão.
- Espere – disse ela, como despertando.
Fitava-me, inquieta, tocou na minha mão.
- Estou pedindo para o senhor ficar e nem sei se o senhor, se tu... simpatizaste comigo.
- Eu? – murmurei, atônito.
- Ainda não simpatizo contigo, mas... não deve ser difícil, é só a gente conversar um pouco.
O tom era incerto, dúbio, estaria brincando? Tropeçando nas palavras, disse-lhe que aquilo de simpatizar ou não, realmente, era algo importante, mas que me confundia tratar do assunto com tamanha objetividade.
- São as circunstâncias...
- Que circunstâncias?
- Ah, não me pergunta isso agora.
Acendi um cigarro e logo apaguei, para que não me visse com a mão trêmula.
- Como é teu nome?
- Jane.
- Em princípio, simpatizo contigo e... não, desculpa, não era isso que eu queria dizer.
Ela sorriu.
- A gente viaja no mesmo trem, isso é uma viagem tão longa, cansativa, não é preciso dizer muita coisa.
Seus olhos postos nos meus, não, não era preciso dizer mais nada e, no entanto eu me assombrava. Quis tomar-lhe a mãe, ela a recolheu.
- Aqui não.
Quando retornávamos, pediu:
- Fala com o Chefe do Trem, sempre há cabines desocupadas.
Talvez se tratasse de uma mulher que, em viagem, desejava divertir-se, mas a questão era justamente essa: não dava a impressão de que o divertimento fosse o seu objetivo. Que pretendia de mim? Que circunstâncias eram aquelas que mencionara com uma ponta de impaciência? Eu estava com medo. Ter medo do desconhecido era outra marca da minha idade madura e eu costumava me demorar em sondagens e meditações antes de me decidir por qualquer coisa.
Procurei o Chefe do Trem, por certo, mas longe de me regozijar com a promessa de uma noite de prazer, inquietava-me a sensação do passo no escuro.
No compartimento havia dois beliches e a pia com um espelho. Coloquei nossas maletas sob a cama e, a seu pedido, baixei a cortina da janela. Ela experimentou a torneira.
- Não tem água.
- Nuca tem.
Mas a luz da cabeceira funcionava.
- Essa ascendeu.
- Menos mal.
Ia verificar a outra, junto ao espelho, ela me tomou da mão e a sua estava úmida.
- Me ajuda – murmurou.
Ajudá-la? Em que sentido? O trem punha-se em movimento e me deixei ficar com ela em pé, contra a parede, querendo que sentisse que podia desejá-la.
- Vem.
Sentou comigo, e quando a abracei novamente deixou escapar um soluço. Ocultou o rosto nas mãos, e que surpresa, chorava.
- Que houve? Fiz alguma coisa errada?
Olhava-a, pensando que a situação era nova. Da enigmática companheira de banco não restava um vestígio e em seu lugar havia uma mulher com problemas que, pelo visto, em breve me contaria. De algum modo me sentia mais à vontade.
- Que espécie de ajuda esperas de mim?
Enxugou as lágrimas com o dorso a mão, pediu um cigarro.
- Se preferes – tornei-, podemos voltar para o vagão.
- Não, não quero.
O trem diminuiu a marcha, parecia que ia parar. Dois apitos e reacelerou. Pois baixo de nós, o bater das rodas nas emendas dos trilhos. Recém deixáramos Santa Maria, eram quatro horas, havia muito chão pela frente, muita escuridão antes que o primeiro albor viesse clarear nossa janela.
Acariciei suas mãos entre as minhas, com remorso por ter estado a receá-la. Era como se me inquietasse com estalidos de folhagem, e espiando, desse com uma podre coelhinha assustada. E depois, quando começou a falar, positivamente, suas dificuldades não eram pequenas. Questões de vida e de morte, era natural quer não as intuísse ao redor de si, pois já as trazia dentro do peito. O marido enfermo em Porto Alegre suas entranhas mastigadas num processo irreversível, havia semana que o visitara, encontrando-o tão consumido que dava menos pena do que horror. Sempre o amara muito, mas agora não sabia o que sentia. Sentia, sim, um aperto no coração, e estava desesperada.
- É uma tortura a gente saber que vai perder alguém, ter está certeza. Podes me ajudar- e me beijou no rosto, um beijo sôfrego e molhado. – Quero esquecer meu marido, a doença, meu filho, o dinheiro, tudo. Quero uma noite diferente.
Fazia muito frio e a janela da cabina deixava entrar um fio de vento.
- Está bem – eu disse -, vamos tentar.
Outra vez o trem diminuiu a marcha, apitou, mas não reacelerou. Foi parando devagar, as rodas ringindo no ferro e os vagões tironeando, deu mais um apito e, finalmente, imobilizou-se.
Deitados lado a lado, quietos, nós esperávamos, decerto, pelo movimento do trem, e quando ele deu novo sinal e aquele solavanco de partida, foi uma surpresa: recuava. Mas parou em seguida e lá na frente a máquina foi desligada. Fez-se um silêncio súbito, povoado de pequenos ruídos. Algumas vozes chegavam até nós, de longe, e mais audíveis os rumores do carro-restaurante. Um grilo tenaz do lado de fora e uma sombra passou por ali, carregando uma lanterna.
- Que aconteceu?
Afastei a cortina. À frente, á esquerda da linha, lucarnas de uma mordida débeis fímbrias de luz na escuridão. E luzes ainda, adiante, sobre os trilhos: dois, três candeeiros, homens abaixados inspecionaram os dormentes.
- Consertem a linha.
Por algum tempo acompanhei a movimentação dos homens, mas é certo que não os via, ah, que hora para me assaltarem as recordações. Do poço da memória resgatava velhos e usados encantamentos, um passado remoto que continuava vivo, uma roda de tílburi, pedaços de uma ária esquecida, uns olhos castanhos, um seio pequenino na concha da mão, fragmentos fugazes como o canto do grilo ao pé do trem, aquilo teria realmente existido ou eram fantasias consagradas pela solidão?
Começamos devagar, desajeitados, não é fácil de se amar quando o amor é eleito para remediar. Pouco a pouco nossos beijos foram tomando gosto. E a pressão macia do seu corpo no meu, e o regaço movediço procurando meu sexo, parecia outra fantasia, mas não, aquela mulher que queria ser possuída era algo bem natural e concreto. Desejava-a, por certo, mas ao meu desejo, para quebrantá-lo, aderia uma mistura de bondade e susto, impulsos contraditórios que me estimulavam mais a aconchegá-la, a niná-la, do que a enterrar-lhe um músculo ás entranhas. Eu fracassava e Jane percebeu. Sentou-se e me olhou, entre curiosa e aborrecida. Sem demora me desabotoou, pôs-se a examinar meu sexo à luz mortiça do beliche. Acariciava-o com gestos delicados, minuciosos, fixada de tal modo numa pele dobrada ou num feixe de vasos que me sentia como um terceiro e um intruso naquele colóquio de sensual introspecção. Minha sexualidade, porém, só se libertou com um pensamento pulha: se não a satisfizesse, procuraria outro que o faria sem nenhum pudor, talvez o Chefe do Trem, que andava batendo às portas, talvez o camareiro do carro-leito, que a olhara com um ricto obsceno. E imaginei aqueles homens sobre ela, penetrando-a com gana, e aquela Jane, que a mim se oferecia tão sofredora, a suspirar de prazer tendo entre as pernas um fauno estúpido. E já me instigava outra imagem perturbadora: sua boca de lábios grossos tão próxima do membro em crescimento e meio deformado, quase brutal a sua face algo tristonha.
Movia-se de novo no trem e então ela começou a me masturbar, vagarosamente e compassadamente, e enquanto o fazia usou a língua, de início com timidez, como tateando, mas também se comprazia e logo me masturbava com maior vigor, tornando mais demorada as lambidas.
- Não te conheço, não sei quem és – murmurou, e parecia que falava consigo mesma –, e no entanto estou te acariciando, te lambendo, querendo te chupar...
E no primeiro arquejo, naquela queda livre que é a aproximação do orgasmo, só então me abocanhou, me sugou, e estremeceu ao receber a golfada do meu gozo.
Foi preciso que me sentasse, depois de largo tempo, foi preciso que lhe empurrasse suavemente o rosto para que abandonasse meu sexo dolorido, cabeça pousada em meu regaço, os lábios entreabertos num lambuso só atravessado de cabelos.
- Jane.
- Não fala.
Afaguei-lhe o rosto, uma ternura misteriosa me unia àquela mulher.
- Ás vezes pensou que minha vida é um sonho- disse ela-, e que nada disso que acontece é verdade. Não sei explicar direito, parece que quem está comigo aqui no trem, fazendo isso contigo, não sou eu mesma, é outra pessoa, outra Jane, e a verdadeira fica de fora, apenas assistindo.
Nada comentei, ela me olhou.
- Não quer ouvir?
- Quero sim, continua.
Mas não continuou. Abraçou minha coza, encolheu-se, tentava acomodar-se na cama estreita.
- Quer um cigarro?
- Não.
- Acho que vou fumar um pouco.
- Não, agora não, por favor.
O trem andando, balançando, o ruído das rodas nos trilhos e o calor dos nossos corpos, um cansaço de animal saciado, era bom, era uma entrega, era o portal do sono. Mas o sonho foi um pesadelo. Havia uma grande cratera num monte, na qual se formava uma bolha visguenta. Eu do lado de fora, assistindo seu desmesurado crescimento, e outro eu também estava lá, do lado de dentro, envolvido pela bolha. Quando ela explodiu, espargindo coágulos de sangue e num derrame de trastes mal cheirosos, aquele eu encurralado voltou a mergulhar nos abismos da cratera, até retornar a superfície noutra bolha. Vem, eu gritava e dava-lhe a mão, ele se encolhia, receoso, e escolhia permanecer em sua morada estranha.
Quando despertei, Jane se despia e me despi também. Voltara-se para a parede e eu olhara seu corpo nu, alvíssimo e bem feito, as pernas roliças, as nádegas firmes e arrebitadas, cintura fina, as costas lisas com um pequeno sinal no ombro, de onde pendia um cabelo solitário.
- Estou com frio.
Beijei-a na nuca, nas costas, apalpei-lhe as nádegas muito juntas. Ao contato de minha mão ela relaxou, expondo-se. Vendo-a assim, de bruços, pernas entreabertas e se oferecendo, um desejo selvagem se apossou de mim. Nem pensar em me comover com seu desespero, ela estava me pondo maluco com aquele propósito de dar-se em nome de um sofrimento. Comecei a penetrá-la. Gemeu, mas ainda assim tentava me ajudar, esgarçando-se. Como se quisesse sofrer mais. Tal dose de prazer, tal dose de castigo, uma justiça insana que eu fingia ignorar. Suas nádegas nas minhas virilhas, o calor e a pressão de seu reto, um novo orgasmo estava vindo e foi então que uma parte minha se rebelou. Não, disse comigo, não serei o seu algoz.
- Te vira – pedi.
- Não, não quero.
Recuei, sai de dentro dela.
- Te vira – insisti, agarrando-a pelos ombros.
Tentou livrar-se das minhas mãos, choramingou.
- Não, por favor, estás me machucando.
Era surpreendente a energia que empregava para libertar-se e era quase uma insensatez, mas como pedir coerência a uma mulher em fuga, debatendo-se entre o desejo e a culpa? Com uma violência de que não me sabia capaz, e certamente machucando-a um pouco, fiz com que voltasse e abrisse as pernas e me recebesse de frente. Um protesto desesperado eu calei com um desespero de beijos e ela, vencida, me abraçou. E se tornou macia, cada parte do seu corpo se ajustava numa parte minha e seus movimentos vinham completar os meus. E era outra mulher, doce e faminta, e me dava beijos e me segredava o que sentia e pedia mais depressa e queria morrer e depois suspiros e depois um grito, logo outro grito e palavras loucas que eu nunca ouvira de mulher, beijos como nunca me haviam beijado e estertores que principiavam com gemidos e iam terminando aos poucos, entre contrações de vagina e jatos de esperma, num estuário de muco e saliva.
Não, nunca tinha sido tão bom, e o que se seguiu, não sei, talvez no momento não estivesse compreendido, era uma sensação esquisita, minúscula a princípio, esgueirando-se em mim como através dos poros, depois se avolumando, se espalhando, um certo contentamento, uma certa felicidade, uma vontade muito grande de gostar, gostar de tudo, e eram outros olhos com que olhava ao meu redor, vendo a pia, a lâmpada do beliche, o casaco pendurado, ai, meu casaco, meu xergão velho, companheiro de tantas noites, madrugadas, um junto do outro no sofá da casa, fazendo sala para Miss Solidão...
Como estávamos, ficamos. Já clareava o dia quando despertei, cansado, moído. Jane estava à janela, olhando os campos branquicentos da geada.
- Que horas são?
- Passa das seis.
- Ainda temos duas horas.
Ela me olhou rapidamente.
- E de manhã- tornei-, vais embora, simplesmente...
Me olhou de novo. Disse-lhe então que agora podia responder com segurança àquela pergunta que me fizera em Santa Maria, se simpatizava ou não com ela. Pois simpatizava muito. E disse-lhe mais: algo importante havia acontecido em mim. Que eu era um homem soturno, mergulhado em lembranças juvenis e de mal com a vida, nem amigos conseguia fazer, mas que algo acontecera, podia até jurar. E queria muito vê-la em Porto Alegre, talvez não em seguida, mas mais tarde, ou quando quisesse.
- Como te esqueces das coisas...
- Não é verdade – protestei, argumentando que, a despeito do que a levara a me procurar, podíamos começar de novo em terra firme e era isso que eu queria.
Olhos baixos, parecia tão triste que me constrangia, mas eu não pensava em desistir.
- Te dou meu endereço.
Levantou-se, ligou a lâmpada do espelho. Passava a escova no cabelo, como sem vontade. Nenhuma pintura no rosto, nenhum artifício, e como era bela na indecisa luz que vinha um pouco da lâmpada, um pouco da suava claridade do amanhecer.
- Jane.
- Vou ao restaurante. Queres que eu te trague uma torrada?
Ia abrir a porta, voltou-se.
- Foi uma noite e tanto, tipo letra de tango.
- Gostas de tango? A gente podia se encontrar em Porto Alegre e...
- Por favor.
- Sei que seria uma loucura, mas...
- É uma loucura.
- Espera, não vai.
Levantei-me também.
- Conheço uma casa em Porto Alegre onde se dança tango, é um lugar muito bonito, muito romântico.
- Dançar tango em Porto Alegre, que idéia.
Abriu a porta.
- Olha, queria que soubesse que não me senti usado.
E abracei-a, um impulso me fazia apertá-la, protegê-la de algo que não sabia o que era, mas, desconfiava, podia roubá-la de mim.
- Escuta, não vai, fica comigo.
Sua resposta foi um beijo demorado, quase amoroso. Livrou-se do abraço e saiu.
Deite-me. Queria pensar, apelar à minha razão, e não conseguia. Uma mulher desconhecida, uma viagem de trem, um leito, uma noite de prazer, e ali estava eu feito um garoto de colégio, repentinamente apaixonado. E não podia conceber o dia seguinte sem aquela mulher que, com suas maluquices, dera um sopro de vida aos meus dias sem sabor de velho precoce. Não podia conceber que, no dia seguinte, fosse fazer as mesmas coisas que fizera até então. Disparate? Mas eu me perguntava se de fato não havia sentido, ou se não era mais humano, natural, que a vida acontecesse assim mesmo, loucamente. Sim, precisava pensar, ou por outra, por que pensar? Por que não me entregar à aventura de amar que me fazia tanto bem?
O trem deu uma parada brusca e rolei na cama, dando com as ancas na parede da pia. Ouvi gritos no corredor, outros dias mais distantes, som de vidros quebrados e objetos caindo e rolando no chão.
- Merda – gritou alguém a minha porta.
Tive um pressentimento atroz. Vesti-me às pressas e deixei a cabina, abrindo caminhos entre as pessoas que se acotovelavam no corredor. Perguntava, ninguém sabia o que tinha acontecido. Fui adiante, percorri dois vagões de passageiros inquietos e curiosos, ao retornar notei que alguns homens se aglomeravam do lado de fora. Entre eles, o Chefe do Trem. Desci. O funcionário gesticulava com os passageiros.
- Voltem aos seus lugares. Todos para o trem, vamos subir.
- Que aconteceu? – perguntei.
- Um acidente. Agora voltem todos, por favor.
- Que tipo de acidente?
- Ora, senhor, retorne ao seu lugar, não insista.
- Que tipo de acidente? – repeti, aos gritos, segurando-o pelos ombros.
Ele se desvencilhou resolutamente das minhas mãos.
- O senhor está muito nervoso, amigo. Se esta informação o tranqüiliza, é sua: nossa trem matou um animal.
- Obrigado – eu disse, num fio de voz.
Voltei-me, subitamente exausto e com vontade de chorar. Jane estava na porta no vagão, com um pé no estribo. Ao ver-me tentou pular para o chão e perdeu o equilíbrio, eu a segurei e apertei contra mim.
- Meu Deus – disse ela – , eu cheguei a pensar, eu pensei...
- Eu também – eu disse.
Subimos.
- Escuta- tornou ela, ofegante-. Como é teu nome? Incrível, ainda não sei o teu nome.
Lá fora o funcionário ainda insistia com os curiosos: vamos para dentro, vamos para o trem. E o trem parado no meio do campo, o dia clareando, um frio cortante e nós avançávamos lentamente pelos corredores apinhados, em busca do carro-leito. Jane me tomara da mão e me puxava. Vendo-a assim, desenvolta, eu sentia que algo vicejava forte em mim, uma nova energia, uma vontade de viver, de conviver, compartilhar, e tinha certeza, uma certeza doce, cálida e total, de que agora ela pensava como eu, que valia a pena tentar ainda uma vez, que valia a pena dançar um tango em Porto Alegre. Que importava se era ou não era amor? Sempre, mas sempre mesmo, seria uma vitória (p. 132 a 150).

Conto extraído do livro: FARACO. Sergio. Dançar tango em Porto Alegre. Porto Alegre: L&PM, 1999.

Nenhum comentário:

Postar um comentário