quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Porto Alegre dança um tango literário com o Brasil, Léa Masina


Léa Masina é crítica literária, bacharel em Direito, doutora em Literatura Comparada e professora no Instituto de Letras da UFRGS, autora da obra Percursos de leitura, entre outras.

Dançar tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco, foi escolhido pela Academia Brasileira de Letras para receber, este ano, o Prêmio de Ficção. A distinção foi atribuída à coletânea publicada por L&PM Editores, com textos selecionados pelo autor. Amigos e leitores do escritor estão em festa, comemorando o reconhecimento da obra literária de um dos contistas mais expressivos do Brasil, um escritor altamente profissionalizado, que desenvolve e articula, aqui no sul, intensa atividade intelectual. Escrevendo ficção, traduzindo escritores, orientando e apoiando editoras e planos editoriais, correspondendo-se com intelectuais e amigos brasileiros e platinos, Faraco há muitos anos vem contribuindo, sistematicamente, para qualificar a literatura brasileira. Portanto, nada mais justo do que a legitimação de sua obra ficcional pelas instâncias acadêmicas.

Dançar tango em Porto Alegre chegou ao centro do país por mérito do editor, que investiu em sua distribuição. Lido e compreendido, venceu o preconceito que advém da tendência homogeneizadora de cada leitor, que pretende reconhecer-se no que lê. O Brasil que Faraco oferece aos brasileiros destaca-se por suas peculiaridades e suas diferenças. Para compreendê-lo, é preciso perfazer um caminho cultural histórico e lembrar, por exemplo, que a literatura do Norte e do Nordeste, desde os anos 30, já integra o imaginário brasileiro, ao passo que a literatura gaúcha ainda é pouco lida fora do Rio Grande do Sul. Por aqui, circulam alegações, uma das quais, a dominante, é a de que os textos sul-rio-grandenses possuem um caráter essencialmente localista. Diz-se, para compensar, que por isso mesmo existe aqui um circuito de produção cultural quase auto-suficiente:temos bons escritores identificados com temáticas locais, um público-leitor fiel e atento, boas editoras, uma Feira do Livro consagrada como evento cultural permanente e, ainda, o Seminário de Literatura de Passo Fundo, que legitima e consagra os escritores do Brasil. Além disso, diz-se também que os textos dos escritores sul-rio-grandenses são difíceis de compreender, que abusam de vocabulário de uso restrito, marcado por laivos dialetais. Evidente que, por trás disso, há um preconceito anti-regionalista, concepção literária anacrônica e representativa de ideologias extremamente reacionárias. No contexto da literatura brasileira, a que a sul-rio-grandense sempre acompanha, essas manifestações são indicativas de que as diferenças culturais do sul do país, originadas pela proximidade com os países do Prata, vem sendo, há muito tempo, rechaçadas pelas instâncias legitimadoras da cultura nacional. Nós, os gaúchos, somos os brasileños platinos.

Agora, é óbvio que alguma coisa mudou. Talvez seja a postura da crítica que se dispõe a avaliar o legado do século. E assim, dentre os textos exemplares da literatura brasileira, inclui a obra de Sérgio Faraco como um texto especial, digno de um prêmio nacional de ficção.

Tem-se afirmado em diversas ocasiões que o regionalismo de Sérgio Faraco representa o melhor veio da literatura brasileira, porque registra, ficcionalmente, o que é peculiar e característico à cultura da região. A diferença cultural é um dos aspectos importantes da obra desse escritor fronteiriço, que escreve sobre um espaço regional, que é o seu, e que existe e continuará existindo, quer seja no Rio Grande do Sul, no Norte, no Nordeste, em Minas ou onde for que haja uma vertente cultural não de todo contaminada pela homogeneização urbana. Como já foi dito por inúmeros críticos, um escritor pode ver o universo a partir do seu quintal. E rever o seu quintal por uma ótica que o integre ao conjunto maior de que faz parte. Isso, se me expresso bem, não anula a diferença, ao contrário, visa acentuá-la, matizando-a com as cores do particular e do específico. No caso de Sérgio Faraco, o específico é a criação literária de uma cultura fronteiriça, presente nos recortes temáticos, na cosmovisão das personagens e na linguagem.

Dançar tango em Porto Alegre, que toma o título de um dos contos eróticos mais bem realizados da literatura brasileira, divide-se em três partes. A primeira reúne textos de cunho regional, de natureza telúrica, em que a presença da campanha gaúcha se evidencia pelo caráter fronteiriço das histórias contadas. Há, nesses contos de recorte realista, a revelação de uma sintaxe cultural que articula, a seu modo, os componentes brasileiros e platinos, deixando claro que a literatura dá forma a uma visão de mundo intrínsecamente formada pelo contexto histórico e social. E também pelo antropológico, eis que as personagens de Sérgio Faraco agem segundo uma lógica também fronteiriça, produto de uma cultura brasileira extremamente diferenciada, urdida nos séculos de convívio com a cultura platina. E entram aí os mitos, os arquétipos, os modelos de comportamento que se formam na vida social. E que se transculturam, para usar uma expressão do crítico uruguaio Ángel Rama, ao referir-se ao processo de transformação por que passam as literaturas quando emigram de um sistema cultural para outro.

Mas como literatura se faz com palavras, contribui para a excelência dos contos de Sérgio Faraco o modo como o escritor assenhora-se da frase, da palavra, deixando para o leitor a sensação de vida. O boleio platino das frases, algumas expressões em espanhol, preservando a oralidade da fala e trabalhando a naturalidade do texto, completam a tarefa de tornar verossímeis esses textos, em que os sentimentos humanos destacam-se pela perspicácia e pela delicadeza com que o autor os engendra. Nos contos de Faraco, o amor se revela em formas múltiplas, com uma delicadeza e uma finura psicológica que só se lêem nos grandes escritores.

Nos textos ligados à temática regional, a concepção da complexidade humana revela-se no modo como o narrador subverte o mito da gauchônia, este sim, superado pelo tempo. Os gaúchos fronteiriços de Sérgio Faraco têm sentimentos e por isso vivem conflitos íntimos, como o rapazinho de "Dois guachos", cuja ambivalência com relação à figura da irmã serve de contraponto à rudeza primitiva dos costumes da campanha. Em "Noite de matar um homem", a experiência da primeira morte, espécie de ritual de iniciação na comunidade dos changueiros e dos contrabandistas e bandidos da fronteira, torna-se dramática: o indivíduo eliminado nem trazia armas consigo, só uma pequena gaita de boca. Em "Travessia", há o menino que se inicia com o tio no contrabando, cruzando a fronteira pelo rio. Esses ritos de iniciação repetem-se noutros contos, como se o escritor procurasse compreender, pelas vertentes da ficção, o que se passa no coração dos homens, quando vivem situações-limite das quais sairão, para sempre, transformados. Em "O vôo da garça-pequena", Maria Rita, a menina prostituta, têm idéias e encomenda um rádio ao contrabandista López. Ela deseja voar, como a mais graciosa de todas as aves do banhado, a garça-pequena com seu véu de noiva, suas plumas alvíssimas, e voava longe, para o alto, e era o vôo mais tristonho e mais bonito. Em "Guapear com frangos", os gaúchos arrastam o corpo, já decomposto, de Guido Sarasua, na obrigação de não deixar corpo de homem sem velório. O percurso, em meio ao calor, aos odores da matéria em decomposição e à ação das aves carniceiras, das moscas e dos vermes, termina com um golpe de misericórdia: E como quem parte uma acha de lenha (...) abriu-lhe o osso do peito ao meio. Já em "Sesmarias do urutau mugidor", confrontam-se os valores da cultura antiga com a do homem urbano. Nesse conto, o personagem-narrador, por ser um homem culto, um escritor, favorece, com seus monólogos, uma leitura crítica do confronto de culturas, com seus valores e seus rituais de preservação e sobrevivência. Espécie de alter-ego do próprio escritor, suas emoções fluem numa narrativa densa e perceptiva, que vê o íntimo das demais personagens para respeitá-las e tratá-las com dignidade. Seu encontro final, quando Maria deita-se com ele e lhe pergunta se ouvira o urutau mugindo, e ele responde que era apenas um boi, pode ser lido como metáfora desses processos de trocas culturais: cada um preserva a sua unidade, embora componha, com o outro, um conjunto novo. Híbrido, se quisermos. Ou transculturado.

Mas Dançar Tango... compõe-se de mais duas partes. A segunda acolhe contos em que um personagem, menino, descobre os viéses do mundo. Este não se apresenta de forma monolítica ou maniqueísta: pelo contrário, o amor e o carinho convivem com perdas irreparáveis, como a morte e outras mortes, o que torna o conjunto de textos uma espécie de visão do mundo, apreendida no seu processo de formação.

São, porém, os contos do terceiro bloco, que deixam ler, de forma muito clara, o que Sérgio Faraco concebe ser a função do escritor. Em todas as histórias, as marcas visíveis são a solidariedade, a generosidade, o reconhecimento das qualidades humanas, a dignificação do homem, independente da adversidade e das circunstâncias. As personagens de "A dama do Bar Nevada", "Um aceno na garoa", "Dançar tango em Porto Alegre", são prostitutas, marginais, mendigos, gente desvalida e desesperada, que vive situações-limite. Lidando com essa matéria humana, Faraco mostra, com a força de sua ficção, que o respeito e a dignidade não são adereços tão-só de cidadãos distintos e abonados. Sem proselitismo e sem concessões a idéias que não sejam exatamente aquelas que o conto está a exigir, Faraco constrói um painel de seres desvalidos, pobre-coitados que a sociedade, por princípio, exclui. Nesses contos, no entanto, o autor resgata um detalhe qualquer, para que nós, leitores, possamos saber que para todos ainda resta uma esperança.

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