quinta-feira, 24 de março de 2011

Conferência XXIX: Revisão da teoria dos sonhos, Sigmund Freud


SENHORAS E SENHORES:

Depois de um intervalo de mais de quinze anos, se eu os reuni novamente para discutir com os senhores quais novidades, e quais melhoramentos, talvez, o tempo intercorrente possa ter introduzido na psicanálise, é correto e adequado, sob mais de um ponto de vista, que devamos voltar nossa atenção primeiramente para a posição que ocupa a teoria dos sonhos. Esta ocupa um lugar especial na história da psicanálise e assinala um ponto decisivo; foi com ela que a psicanálise progrediu de método psicoterapêutico para psicologia profunda. Também, desde aí, a teoria dos sonhos permaneceu o que é mais característico e peculiar na jovem ciência, algo em relação ao qual não há similar no restante de nosso conhecimento, uma área de território novo que foi reavido das crenças populares e do misticismo. O caráter exótico das asserções que ela foi obrigada a apresentar, fê-la desempenhar o papel de senha, cujo uso decidiu quem poderia tornar-se seguidor da psicanálise e a quem ela permaneceria para sempre incompreensível. Eu próprio considerei a teoria dos sonhos âncora de salvação durante aqueles tempos duros nos quais os fatos não-reconhecidos das neuroses costumavam confundir meu julgamento inexperiente. Sempre que eu começava a ter dúvidas com referência à correção de minhas conclusões hesitantes, a transformação exitosa de um sonho absurdo e intrincado em processo mental inteligível da pessoa que teve o sonho vinha renovar minha confiança de estar no caminho certo.
Portanto, é de especial interesse para nós, no caso particular da teoria dos sonhos, por um lado, seguir as vicissitudes por que passou a psicanálise durante este intervalo, e, por outro lado, verificar que progressos fez para ser compreendida e valorizada pelo mundo contemporâneo. Posso dizer-lhes desde logo que os senhores ficarão desapontados em ambos esses sentidos.
Examinemos os volumes da Internationale Zeitschrift für (ärztliche) Psychoanalyse [Revista Internacional de Psicanálise (Médica)], na qual, desde 1933, os escritos de peso em nossa área de trabalho têm sido reunidos. Nos volumes iniciais, os senhores encontrarão um título de seção que se repete, ‘Sobre a Interpretação de Sonhos’, contendo numerosas contribuições sobre diferentes pontos da teoria dos sonhos. No entanto, quanto mais prosseguirem cronologicamente nesse exame, mais raras se tornam essas contribuições e, por fim, o título de seção desaparece completamente. Os analistas fazem como se não tivessem nada mais a dizer acerca de sonhos, como se nada mais houvesse a ser acrescentado à teoria dos sonhos. Se os senhores, contudo, perguntarem quanto da interpretação de sonhos foi aceito pelos intrusos — pelos muitos psiquiatras e psicoterapeutas que aquecem sua panela de sopa em nosso fogo (aliás, sem serem muito agradecidos à nossa hospitalidade), por aqueles que são catalogados como pessoas cultas, que têm o hábito de assimilar os achados mais surpreendentes da ciência, pelos literatos e pelo público em geral —, a resposta dá poucos motivos para se ficar satisfeito. Algumas fórmulas passaram a ser do conhecimento geral, entre elas algumas que nós nunca apresentamos — tal como a tese de que todos os sonhos são de natureza sexual —, mas coisas realmente importantes, como a fundamental diferença entre o conteúdo manifesto dos sonhos e os pensamentos oníricos latentes, a percepção de que a função de realização de desejos dos sonhos não é contradita pelos sonhos de ansiedade, a impossibilidade de interpretar um sonho a menos que se tenha à disposição as respectivas associações do sonhador, acima de tudo a descoberta de que o essencial nos sonhos é o processo da elaboração onírica — tudo isso ainda parece quase tão alheio ao conhecimento da maioria das pessoas, como o era há trinta anos. Estou em condições de dizer isto, pois, no decorrer desse período, tenho recebido inumeráveis cartas cujos autores apresentam seus sonhos para interpretação, ou pedem informações acerca da natureza dos sonhos, e declaram que leram o meu trabalho A Interpretação de Sonhos, embora em cada frase revelem sua falta de compreensão de nossa teoria dos sonhos. Tudo isso, porém, não nos dissuadirá de mais uma vez dar uma descrição coerente daquilo que sabemos acerca dos sonhos. Os senhores haverão de lembrar-se de que, da última vez, dedicamos uma série inteira de conferências a mostrar como chegamos a compreender esse fenômeno mental até então inexplicado.

Suponhamos, pois, que alguém — um paciente em análise, por exemplo — nos conta um de seus sonhos. Haveremos de supor que, dessa maneira, ele nos estará fazendo uma das comunicações a que se obrigou pelo fato de haver iniciado um tratamento analítico. Por certo que é uma comunicação feita por meios inadequados, pois os sonhos não são, em si mesmos, uma forma de comunicação social, não são um meio de fornecer informação. Na verdade, nem nós compreendemos o que o sonhador tenta dizer-nos, e ele próprio igualmente o ignora. E, então, temos de tomar uma decisão rápida. Por um lado, o sonho pode ser, conforme no-lo asseguram os médicos não-analistas, um sinal de que o sonhador dormiu mal, de que nem todas as partes do seu cérebro repousaram por igual, de que algumas áreas do cérebro, sob a influência de estímulos desconhecidos, esforçaram-se por continuar funcionando, mas só foram capazes de fazê-lo de um modo muito incompleto. Se é este o caso, faremos bem em não mais nos interessar pelo produto de uma perturbação noturna destituída de valor psíquico: pois o que poderíamos esperar obter, da investigação dele, que fosse de utilidade para nossos propósitos? Ou, por outro lado — mas é claro que, desde o princípio, decidimos de outro modo. Temos — bastante arbitrariamente, forçoso é admiti-lo — feito a suposição, adotada como postulado, de que mesmo esse sonho ininteligível deve ser um ato psíquico inteiramente válido, com sentido e valor, que podemos utilizar na análise como qualquer outra comunicação. Somente o resultado de nosso experimento pode demonstrar se estamos certos. Se formos capazes de transformar o sonho em uma comunicação de valor desse tipo, evidentemente teremos a perspectiva de aprender algo novo e de receber comunicações de uma espécie que de outro modo seria inacessível para nós.
Agora, no entanto, as dificuldades de nossa tarefa e os enigmas de nosso tema surgem diante de nossos olhos. Como iremos propor a transformação do sonho em comunicação normal e como iremos explicar o fato de que algumas das comunicações do paciente assumiram uma forma que é ininteligível tanto para ele como para nós?
Como vêem senhoras e senhores, desta vez estou tomando o caminho não de uma exposição genética, mas de uma exposição dogmática. Nosso primeiro passo consiste em estabelecer nossa nova atitude para com o problema dos sonhos, introduzindo dois novos conceitos e nomes. O que tem sido chamado de sonho descrevemos como texto do sonho, ou sonho manifesto, e aquilo que estamos procurando, o que suspeitamos existir, por assim dizer, situado por trás do sonho, descreveremos como pensamentos oníricos latentes. Havendo feito isto, podemos expressar nossas duas tarefas conforme se segue. Temos de transformar o sonho manifesto em sonho latente, e explicar como, na mente do sonhador, o sonho latente se tornou sonho manifesto. A primeira parte é uma tarefa prática, pela qual é responsável a interpretação de sonho; exige uma técnica. A segunda parte é uma tarefa teórica, cuja atribuição é explicar a hipotética elaboração onírica; e só pode ser uma teoria. Ambas, a técnica de interpretação de sonhos e a teoria da elaboração onírica, têm de ser recriadas.
Por qual delas, pois, haveremos de começar? Pela técnica da interpretação de sonhos, penso eu; apresentará uma aparência mais concreta e causará uma impressão mais vívida nos senhores.

Pois bem, então o paciente nos contou um sonho, que nos caberá interpretar. Ouvimos passivamente, sem colocar em ação nossa capacidade de reflexão. Que fazemos, a seguir? Decidimos preocupar-nos o menos possível com aquilo que ouvimos, o sonho manifesto. Naturalmente, esse sonho manifesto mostra todos os tipos de características que não nos são propriamente indiferentes. Pode ser coerente, harmoniosamente construído como uma composição literária, ou pode apresentar-se confuso a ponto de ser ininteligível, quase como um delírio; pode conter elementos absurdos, ou anedotas, e conclusões aparentemente espirituosas; ao sonhador pode parecer claro e preciso, ou obscuro e nebuloso; suas imagens podem exibir uma intensidade de percepções sensoriais plenas, ou pode estar cheio de sombras como nevoeiro indistinto; as mais diversas características podem estar presentes no mesmo sonho, distribuídas por diferentes partes dele; o sonho, enfim, pode mostrar um tom afetivo indiferente, ou estar acompanhado de sentimentos da mais intensa alegria ou sofrimento. Os senhores não devem supor que não pensamos nada acerca dessa interminável diversidade encontrada nos sonhos manifestos. A ela retornaremos posteriormente, e nela encontraremos muita coisa de que podemos fazer uso em nossas interpretações. Mas, por agora, despreza-la-emos e seguiremos o caminho principal que leva à interpretação de sonhos. Ou seja, pedimos ao sonhador, também, para livrar-se da impressão que lhe causou o sonho manifesto, desviar sua atenção do sonho como um todo para as diferentes partes do seu conteúdo e nos referir sucessivamente tudo o que lhe ocorre à mente com relação a cada uma dessas partes — quais associações se lhe apresentam, se ele as focaliza uma por uma, separadamente.
É curiosa essa técnica, não? — não é a maneira habitual de lidar com uma comunicação ou expressão. E sem dúvida os senhores adivinham que, por trás desse procedimento, há hipóteses que ainda não foram explicitamente formuladas. Prossigamos, porém. Em que ordem havemos de fazer com que o paciente conte as partes do seu sonho? Aqui, várias possibilidades se nos abrem. Simplesmente podemos seguir a ordem cronológica na qual apareceram durante a narrativa do sonho. Isto é o que se pode chamar de o método mais estrito, clássico. Ou podemos dirigir o sonhador a fim de que inicie com a procura dos ‘resíduos diurnos’ no sonho; pois a experiência nos ensinou que quase todo sonho inclui remanescentes de uma recordação ou de uma alusão a algum evento (ou, freqüentemente, a diversos eventos) do dia anterior ao sonho, e, se seguimos essas conexões, muitas vezes, de modo imediato, chegamos à transição do mundo onírico, aparentemente muito remoto, para a vida real do paciente. Ou ainda, podemos dizer-lhe que comece por aqueles elementos do conteúdo do sonho que lhe chamaram a atenção por sua especial clareza e intensidade sensorial; pois sabemos que o paciente achará especialmente fácil produzir associações a eles. Não faz nenhuma diferença por qual desses métodos abordamos as associações que andamos buscando.
E a seguir obtemos essas associações. O que elas nos trazem é das mais variadas espécies: lembranças do dia anterior, o ‘dia do sonho’, e de épocas há muito transcorridas, reflexões, discussões, com argumentos pró e contra, confissões e indagações. Algumas dessas associações, o paciente as despeja; quando chega a outras, detém-se, por um momento. A maioria delas mostra nítida conexão com alguns elementos do sonho; não é para admirar, de vez que esses elementos eram o seu ponto de partida. Mas também acontece, às vezes, o paciente apresentá-las com estas palavras: ‘Isto me parece não ter absolutamente nenhuma relação com o sonho, mas conto-lhe porque me ocorre à mente.’
Se se ouvem essas abundantes associações, logo se observa que elas têm mais em comum com o conteúdo do sonho, do que seus pontos de partida sozinhos. Elas lançam surpreendente luz sobre todas as diferentes partes do sonho, preenchem lacunas entre as mesmas, e tornam inteligíveis suas estranhas justaposições. No final, é-se levado a entender a relação entre as associações e o conteúdo do sonho. Vê-se que o sonho é uma seleção resumida, feita a partir das associações, uma seleção feita, é verdade, consoante regras que ainda não temos compreendido: os elementos do sonho são como representantes escolhidos por eleição dentre uma massa de pessoas. Não pode haver dúvida de que, por meio de nossa técnica, apreendemos algo do qual o sonho é um substituto e no qual se situa o valor psíquico do sonho, mas que não mostra mais suas enigmáticas peculiaridades, sua aparência estranha e sua confusão.No entanto, não se façam confusões. As associações ao sonho ainda não são os pensamentos oníricos latentes. Estes estão contidos nas associações, assim como um álcali no líquido-mãe, mas ainda não muito inteiramente contidos nelas. Por um lado, as associações nos dão muito mais do que nos é necessário para formular os pensamentos oníricos latentes — ou seja, todas as explicações, transições e conexões que o intelecto do paciente há de produzir no decorrer de sua aproximação aos pensamentos oníricos. Por outro lado, uma associação freqüentemente sofre uma parada precisamente diante do pensamento onírico genuíno: ela somente chegou perto deste e apenas teve contato com ele através de alusões. Nesse ponto, nós próprios intervimos; completamos aquilo que são idéias vagas, tiramos conclusões inegáveis e damos expressão plena àquilo que o paciente apenas mencionou com suas associações. Isto soa como se permitíssemos ao nosso engenho e capricho brincarem com o material posto à nossa disposição pelo sonhador, e como se dele nós fizéssemos mau uso a fim de interpretar em suas comunicações aquilo que não pode ser interpretado a partir delas. E não é fácil mostrar a legitimidade de nosso procedimento numa descrição do mesmo. Basta, porém, que os senhores efetuem uma análise por si mesmos ou estudem um bom relato de uma análise em nossa bibliografia, e os senhores se certificarão da maneira convincente como atua um trabalho interpretativo como este.
Se, de modo geral, basicamente, ao interpretar sonhos, dependemos das associações do sonhador, já em relação a determinados elementos do conteúdo onírico adotamos uma atitude bastante independente, principalmente porque assim temos de fazê-lo, porque, via de regra, as associações deixam de se concretizar no caso desses mesmos elementos. Em um estágio inicial, verificamos que isto acontece sempre em relação ao mesmos elementos; não são muito numerosos, e a experiência repetida nos tem ensinado que eles devem ser considerados e interpretados como símbolos de alguma outra coisa. Em contraste com os outros elementos oníricos, pode ser-lhes atribuída uma significação fixa, a qual, no entanto, não precisa ser isenta de ambigüidade e cujo alcance é determinado por meio de regras especiais, desconhecidas para nós. De vez que nós sabemos como traduzir esses símbolos, e o sonhador não sabe, a despeito de se haver utilizado deles, pode acontecer que o sentido de um sonho possa, de imediato, se nos tornar claro tão logo tenhamos ouvido o texto do sonho, antes mesmo de havermos feito qualquer esforço de interpretá-lo, ao passo que ele ainda permanece um enigma para o sonhador. Contudo, falei-lhes tanto, em minhas conferências anteriores sobre simbolismo, sobre nossos conhecimentos acerca do mesmo e sobre os problemas que ele nos propõe, que não necessito repeti-lo hoje.
Este, pois, é o nosso método de interpretar sonhos. Uma primeira questão justificável é a seguinte: ‘Podemos interpretar todos os sonhos por meio desse método? E a resposta é: ‘Não, absolutamente não; mas são tantos os que podemos interpretar, que nos sentimos confiantes na utilidade e na correção do procedimento.’ ‘Mas por que não todos?’ A resposta a isto tem algo importante a nos ensinar, que de imediato nos conduz aos fatores determinantes psíquicos da formação dos sonhos: ‘Porque o trabalho de interpretar é efetuado contra uma resistência, que varia desde dimensões banais até a inexpugnabilidade (pelo menos até onde alcança a eficiência de nossos métodos atuais).’ É impossível, durante o nosso trabalho, desprezar as manifestações dessa resistência. Em determinados pontos, as associações são fornecidas sem hesitação e a primeira ou a segunda idéia que ocorrem ao paciente proporcionam uma explicação. Em outros pontos, há uma parada, o paciente hesita antes de nos fornecer uma associação e, com isso, muitas vezes temos de ouvir uma longa cadeia de idéias antes de receber algo que nos ajude a compreender o sonho. Certamente temos razão ao pensar que, quanto mais longa e cheia de rodeios for a cadeia de associações, tanto maior a resistência. Podemos detectar a mesma influência em ação no esquecimento de sonhos. Muito freqüentemente acontece que um paciente, apesar de todos os esforços, não consegue lembrar-se de um dos seus sonhos. Contudo, depois de termos sido capazes de, no decurso de uma certa quantidade de trabalho analítico, eliminar uma dificuldade que tinha estado perturbando sua relação com a análise, o sonho esquecido subitamente reemerge. Cabem aqui, também, duas outras observações. Freqüentemente sucede que, no início, uma parte do sonho é omitida, e, depois, acrescentada como adendo. Isto deve ser considerado como uma tentativa de esquecer essa parte. A experiência mostra que é essa determinada parte a mais importante: supomos ter havido uma resistência maior no caminho da comunicação desta, do que na das demais porções do sonho. Ademais, amiúde verificamos que uma pessoa que teve um sonho se esforça por evitar esquecer-se de seus sonhos, pondo-os por escrito imediatamente após acordar. Podemos dizer-lhe que isto não tem utilidade. Pois a resistência, contra a qual garantiu a preservação do texto do sonho, se deslocará, então, para as associações respectivas e tornará o sonho manifesto inacessível à interpretação. Tendo em vista esses fatos, não temos por que nos surpreender se um aumento adicional na resistência suprime as associações completamente e, por conseguinte, não leva a nada a interpretação do sonho.
De tudo isso concluímos que a resistência que encontramos no trabalho de interpretar os sonhos deve também ter compartilhado da origem destes. Realmente, podemos fazer uma distinção entre sonhos que surgiram sob leve e sob elevada pressão da resistência. Essa pressão, contudo, varia também de lugar para lugar, dentro de um mesmo sonho; é responsável pelas lacunas, obscuridades e confusões que podem interromper a continuidade até dos sonhos mais nítidos.
Mas, que coisa cria a resistência, e contra o que ela se dirige? Bem, a resistência é, para nós, o sinal mais seguro de um conflito. Deve haver aqui uma força que procura expressar algo e outra força que se esforça por evitar sua expressão. O que então resulta, em conseqüência, como sonho manifesto, pode combinar todas as decisões em que se condensou essa luta entre duas tendências. Num ponto, uma dessas forças pode ter conseguido efetuar o que quis dizer, ao passo que, em outro ponto, é a instância contrária que fez a comunicação pretendida eclipsar-se completamente, ou ser substituída por algo que não revela qualquer traço seu. Os casos mais comuns e mais característicos de construção onírica são aqueles nos quais o conflito terminou em uma conciliação, de forma tal que a instância com voz ativa certamente foi capaz de dizer o que quis, mas não da forma como quis — apenas numa forma acentuada, distorcida, irreconhecível. Assim, se os sonhos não fornecem um quadro fiel dos pensamentos oníricos, e se o trabalho de interpretação se faz necessário a fim de transpor o hiato entre estes, isto é resultado da instância oponente, inibidora e limitadora, que inferimos de nossa percepção da resistência enquanto estamos interpretando sonhos. Enquanto estudávamos os sonhos como fenômenos isolados, independentes das estruturas psíquicas que lhes são afins, denominávamos essa instância de o censor dos sonhos.Há muito os senhores estão cientes de que essa censura não é uma instituição exclusiva da vida onírica. Sabem que o conflito entre as duas instâncias psíquicas, que nós — impropriamente — descrevemos como o ‘reprimido inconsciente’ e o ‘consciente’, domina toda a nossa vida mental e que a resistência contra a interpretação dos sonhos, sinal de uma censura onírica, nada mais é que a resistência devida à repressão, pela qual as duas instâncias estão separadas. Os senhores também sabem que o conflito entre essas duas instâncias pode, sob determinadas condições, produzir outras estruturas psíquicas que, assim como os sonhos, são o resultado de conciliações; e os senhores não haverão de esperar que eu lhes repita aqui tudo o que estava contido em minha introdução à teoria das neuroses, a fim de lhes demonstrar o que sabemos acerca dos fatores determinantes da formação de tais conciliações. Os senhores perceberam que o sonho é um produto patológico, o primeiro membro da classe que inclui os sintomas histéricos, as obsessões e os delírios, sendo, contudo, diferenciado dos outros por sua transitoriedade e por sua ocorrência sob condições que fazem parte da vida normal. Pois levemos na devida conta que, conforme já foi assinalado por Aristóteles, a vida onírica é a forma como funciona nossa mente durante o estado de sono. O estado de sono implica um afastamento do mundo externo real, e aí temos a condição necessária para o desenvolvimento de uma psicose. O mais cuidadoso estudo das psicoses graves não nos revelará um único aspecto que seja mais característico desses estados patológicos. Nas psicoses, porém, o apartar-se da realidade é levado a cabo por duas espécies de vias: ou porque o reprimido inconsciente se tornou excessivamente forte, de modo a dominar o consciente, que se liga à realidade; ou porque a realidade se tornou tão intoleravelmente angustiante, que o ego ameaçado se lança nos braços das forças instintuais inconscientes, em uma revolta desesperada. A inofensiva psicose onírica é o resultado de uma retirada em relação ao mundo externo, retirada conscientemente desejada e apenas temporária, e desaparece quando são reassumidas as relações com o mundo externo. Durante o isolamento da pessoa em estado de sono, também se efetua uma modificação na distribuição de sua energia psíquica; uma parte do dispêndio em repressão, que normalmente é exigido a fim de submeter o inconsciente, pode sereconomizada, pois se o inconsciente faz uso de sua relativa liberação para propósitos ativos, encontra fechada a via que conduz à motilidade, e o único caminho aberto é um caminho inofensivo que leva à satisfação alucinatória. Agora, portanto, um sonho pode ser formado; mas o fato da censura mostra que, mesmo durante o sono, mantém-se muito da resistência devida à repressão.
Aqui se nos apresenta um meio de responder à pergunta que pretende saber se os sonhos também possuem uma função, se eles estão incumbidos de alguma realização útil. A condição de repouso livre de estímulo, que o estado de sono deseja estabelecer, é ameaçada desde três direções diferentes: de modo relativamente casual, por estímulos externos, durante o sono, e por interesses do dia anterior, que não podem ser interrompidos, e, de uma forma inevitável, pelos impulsos instintuais reprimidos insatisfeitos que estão à espera de uma oportunidade de se expressarem. Em conseqüência da diminuição das repressões, no sono, haveria o risco de que o repouso proporcionado pelo sono fosse interrompido sempre que uma estimulação de fora ou de dentro conseguisse vincular-se com uma fonte instintual inconsciente. O processo de sonhar permite ao produto de elementos confluentes desse tipo encontrar uma saída através de uma experiência alucinatória inofensiva, e desse modo assegura a continuação do sono. O fato de um sonho ocasionalmente acordar a pessoa que dorme, quando se desenvolve ansiedade, não contradiz essa função, mas antes, talvez, assinala que o guardião considera a situação por demais perigosa e não se sente mais em condições de controlá-la. E então, muito freqüentemente, enquanto ainda dormimos, ocorre-nos um consolo que busca impedir-nos o despertar: ‘Mas, afinal, é apenas um sonho!’
Isto era o que eu queria dizer-lhes, senhoras e senhores, acerca da interpretação de sonhos, cuja tarefa é abrir caminho do sonho manifesto para os pensamentos oníricos latentes. Quando isto foi conseguido, o interesse por um sonho, na medida em que diz respeito à análise prática, na sua maior parte chega ao fim. A comunicação que recebemos na forma de sonho, nós a acrescentamos ao restante das comunicações do paciente e prosseguimos com a análise. Entretanto, temos interesse em nos demorar um pouco mais no sonho. Somos tentados a estudar o processo pelo qual os pensamentos oníricos latentes são transformados em sonho manifesto. A isto denominamos ‘elaboração onírica’. Conforme os senhores se recordam, descrevi esse processo de modo tão detalhado em minhas conferências anteriores, que posso limitar minha atual revisão ao resumo mais conciso.O processo da elaboração onírica, portanto, é algo inteiramente novo e diferente, não se assemelhando a nada conhecido anteriormente. Ele nos deu a oportunidade de entrevermos, pela primeira vez, os processos que se realizam no sistema inconsciente, mostrando-nos que são bastante diferentes daquilo que conhecemos acerca de nosso pensar consciente, e a este forçosamente hão de parecer absurdos e incorretos. A importância dessa constatação foi ainda acrescida da descoberta de que, na construção dos sintomas neuróticos, estão em atividade os mesmos mecanismos (não nos aventuramos a dizer ‘processos de pensamento’) que aqueles que transformaram os pensamentos oníricos latentes em sonho manifesto.
Nisto que segue, não poderei evitar um método esquemático de exposição. Suponhamos que, num determinado caso, temos diante de nós todos os pensamentos latentes, carregados de uma quantidade maior ou menor de afeto, pelos quais o sonho manifesto foi substituído após sua interpretação ter sido completada. Então nos causará espécie uma diferença entre esses pensamentos latentes, e essa diferença nos assinala um ponto importante. Quase todos esses pensamentos oníricos são reconhecidos ou identificados pelo sonhador; ele admite haver pensado isto, agora ou em alguma outra época, ou admite que pudesse haver pensado. Há somente um único pensamento que recusa aceitar; é-lhe estranho ou até mesmo repulsivo; talvez possa rejeitá-lo com sentimentos veementes. Torna-se agora evidente para nós que os outros pensamentos são partes de uma cadeia de pensamentos conscientes ou, mais precisamente, pré-conscientes. Podem ter sido pensados na vida desperta, também, e, na verdade, foram formados provavelmente durante o dia precedente. Esse único pensamento, o pensamento repudiado, porém, ou, para dizer melhor, esse único impulso é filho da noite; pertence ao inconsciente do sonhador, e por esse motivo é repudiado e rejeitado por ele. Teve de esperar pelo relaxamento noturno da repressão, a fim de chegar a alguma forma de expressão. Ainda assim, é uma expressão acentuada, deformada e disfarçada; sem nosso trabalho de interpretação de sonhos não o teríamos encontrado. Esse impulso inconsciente tem de agradecer à sua vinculação com os demais pensamentos oníricos, os não-censuráveis, pela oportunidade de transpor furtivamente a barreira da censura em um disfarce não evidente. Por outro lado, os pensamentos oníricos pré-conscientes têm de agradecer a essa mesma vinculação pela possibilidade de ocupar a vida mental também durante o sono. Pois não há dúvida quanto a isto: esse impulso inconsciente é o verdadeiro criador do sonho; é o que produz a energia psíquica para a construção do sonho. Assim como qualquer outro impulso instintual, não pode tender a nenhuma outra coisa se não à sua própria satisfação; e nossaexperiência em interpretar sonhos nos mostra também que este é o sentido de todo o sonhar. Em todo sonho existe um impulso instintual que é apresentado como estando já satisfeito. Pelo fato de que, durante o sono, a vida mental está cerrada à realidade e se produz uma regressão a mecanismos primitivos, isto possibilita que a almejada satisfação seja experimentada numa forma alucinatória, como estando a ocorrer no presente. Em conseqüência dessa regressão que existe, no sonho, as idéias são transformadas em imagens visuais, ou seja, os pensamentos oníricos latentes são dramatizados e ilustrados.
Esse elemento da elaboração onírica dá-nos informações acerca de alguns dos mais surpreendentes e peculiares aspectos dos sonhos. Repetirá o curso dos eventos da formação onírica. Para começar: o desejo de dormir é o afastamento intencional do mundo externo. E depois, duas conseqüências disto para o aparelho mental: a primeira, a possibilidade de nele emergirem métodos de funcionamento mais antigos e mais primitivos — a regressão; a segunda, a diminuição da resistência devida à repressão que pesa sobre o inconsciente. Como resultado desse último fator, surge a possibilidade para a formação de um sonho, e disto tiram vantagem as causas precipitantes, os estímulos internos e externos que se tornaram ativos. O sonho que se origina dessa maneira já é uma estrutura fundada em conciliação. Tem uma dupla função: por um lado, é egossintônico, pois, eliminando os estímulos que estão interferindo com o sono, serve ao desejo de dormir; por outro lado, permite que um impulso instintual reprimido obtenha a satisfação que nessas circunstâncias é possível na forma da realização alucinada de um desejo. Todo o processo de formar um sonho, que é permitido pelo ego em estado de sono, é, entretanto, sujeito à condição da censura, exercida pelo resto de repressão ainda operante. Não posso apresentar de modo mais simples esse processo: ele não é mais simples. Posso, contudo, prosseguir, agora, com minha descrição da elaboração onírica.
Retornemos, uma vez mais, aos pensamentos oníricos latentes. Seu elemento mais poderoso é o impulso instintual reprimido, que neles criou uma expressão para si mesmo, com base na presença de estímulos casuais e pela transferência para os resíduos diurnos — embora uma expressão atenuada e disfarçada. Como todo impulso instintual, também ele pressiona no sentido da satisfação pela ação; mas o seu caminho à motilidade está bloqueado pelas regulações fisiológicas que o estado de sono implica; é compelido a tomar o caminho de retorno em direção à percepção e acontentar-se com uma satisfação alucinada. Os pensamentos oníricos latentes se transformam, pois, em um agrupamento de imagens sensoriais e de cenas visuais. O que nos parece tão novo e tão estranho é o modo como lhes ocorre fazer esse percurso. Todos os instrumentos lingüísticos pelos quais expressamos as relações mais sutis dos pensamentos — as conjunções e as preposições, as alterações devidas à declinação e à conjugação — são eliminados, porque não há meio de representá-los; assim como uma linguagem primitiva, sem nenhuma gramática, expressa-se apenas a matéria-prima do pensamento, e os termos abstratos são substituídos pelos termos concretos que estão na sua base. Depois disso, o que resta certamente pode parecer desconexo. O abundante emprego de símbolos, que se tornaram estranhos ao pensar consciente, para representar determinados objetos e processos, está em harmonia semelhante com a regressão arcaica do aparelho mental e com as exigências da censura.
Outras modificações feitas nos elementos dos pensamentos oníricos, contudo, vão muito além disto. Aqueles elementos que podem permitir que qualquer ponto de contato seja detectado entre eles, são condensados em novas unidades. No processo de transformar os pensamentos em imagens, dá-se inequívoca preferência àqueles que permitem esse agrupamento, essa condensação; é como se atuasse uma força que sujeitasse o material à compressão e concentração. Em conseqüência da condensação, um elemento do sonho manifesto pode corresponder a numerosos elementos dos pensamentos oníricos latentes; mas, também, inversamente, um elemento dos pensamentos oníricos pode estar representado por diversas imagens no sonho.
Ainda mais notável é o outro processo — deslocamento ou mudança do acento — que, no pensar consciente, encontramos somente como raciocínio falho ou como meio de construir uma anedota. As diversas idéias contidas nos pensamentos oníricos, na realidade, não possuem todas valor igual; são caracterizadas com quotas de afeto de magnitude variável e, por conseguinte, julgadas importantes e merecedoras de interesse em maior ou menor grau. Na elaboração onírica, essas idéias estão separadas dos afetos a elas vinculados. Os afetos são tratados independentemente; podem ser deslocados para alguma coisa diversa, podem ser mantidos, podem sofrer modificações, ou podem absolutamente não aparecer no sonho. A importância das idéias que foram despojadas de seu afeto retorna, no sonho, como intensidade sensorial das imagens oníricas; mas observamos que esse acento passou de elementos importantes para elementos indiferentes. Assim, algo que desempenhou apenas um papel secundário nos pensamentos oníricos, parece ter sidoempurrado para o primeiro plano, no sonho, como sendo a coisa principal; ao passo que, pelo contrário, o que era a essência dos pensamentos oníricos só encontra passagem e representação indistinta no sonho. Nenhuma outra parte da elaboração onírica é tão responsável por tornar o sonho estranho e incompreensível para o sonhador. O deslocamento é o meio principal usado na distorção onírica, à qual os pensamentos oníricos devem submeter-se sob a influência da censura.
Após haverem essas influências sido aplicadas sobre os pensamentos oníricos, o sonho está quase completo. Um fator adicional, um tanto variável, também entra em jogo — o fator conhecido como ‘elaboração secundária’ — depois de o sonho ter sido apresentado perante a consciência como objeto da percepção. Neste ponto, tratamo-lo como em geral estamos acostumados a tratar os conteúdos de nossa percepção: preenchemos as lacunas e introduzimos conexões, e, ao fazê-lo, freqüentemente somos culpados de grandes equívocos. Essa atividade, que poderia ser descrita como uma atividade racionalizadora e que, pelo menos, provê o sonho de uma aparência externa homogênea que não pode corresponder ao seu conteúdo verdadeiro, também pode, contudo, estar omitida ou apenas estar expressa em grau muito modesto — caso em que o sonho exibirá ostensivamente todas as suas fendas e rachaduras. Também não se deve esquecer, por outro lado, que a elaboração onírica nem sempre opera com igual energia; muitas vezes limita-se apenas a determinadas partes dos pensamentos oníricos, e a outras permite que apareçam inalteradas no sonho. Em tais casos, tem-se a impressão de o sonho ter efetuado as mais delicadas e complexas operações intelectuais, de haver meditado, feito chistes, chegado a decisões e resolvido problemas, enquanto tudo isso é produto de nossa atividade mental normal, pode ter sido executado igualmente durante o dia anterior ao sonho, assim como durante a noite, não tem nenhuma relação com a elaboração onírica e não esclarece nada de característico dos sonhos. E não é demais insistir, mais uma vez, no contraste existente, dentro dos próprios pensamentos oníricos, entre o impulso instintual inconsciente e os resíduos diurnos. Enquanto estes mostram toda a multiplicidade de nossos atos mentais, aquele, que se torna propriamente a força motriz da formação do sonho, encontra sua saída invariavelmente na realização de um desejo.

Eu poderia ter-lhes dito todas essas coisas há quinze anos atrás; e, na verdade, creio ter dito, de fato, naquela época. Agora, permitam-me reunir essas mudanças e descobertas novas tal como podem ter sido feitas durante o intervalo. Já expressei meu temor de que os senhores achem que istorepresenta muito pouco e deixem de compreender por que eu os obriguei a ouvir a mesma coisa duas vezes. No entanto, nesse período se passaram quinze anos, e espero ser este o meu mais fácil meio de restabelecer contato com os senhores. Ademais, estas são coisas tão fundamentais, de tão decisiva importância para compreender a psicanálise, que se pode sentir-se satisfeito ao ouvi-las uma segunda vez; e vale a pena saber que permaneceram exatamente as mesmas por quinze anos.
Na bibliografia desse período, os senhores, naturalmente, encontrarão uma grande quantidade de material que confirma os dados anteriores e que aduz novos detalhes, e disto pretendo dar-lhes algumas amostras. Aliás, também poderei dizer-lhes algumas coisas que, de fato, já eram conhecidas anteriormente. O que está em questão é principalmente o simbolismo nos sonhos e os outros métodos de representação dos mesmos. Agora ouçam isto. Faz só bem pouco tempo, a faculdade de medicina de uma universidade americana recusou-se a permitir à psicanálise o status de ciência, com base no fato de que ela não comporta nenhuma prova experimental. Poderiam ter levantado a mesma objeção com relação à astronomia; na realidade, a experimentação com corpos celestes é particularmente difícil. Aí, tem-se de buscar apoio na observação. Não obstante, alguns investigadores vienenses efetivamente deram um passo inicial com a confirmação experimental de nosso simbolismo onírico. Já em 1912, um certo Dr. Schrötter verificou que, se forem dadas instruções para sonhar sobre temas sexuais a pessoas profundamente hipnotizadas, então, no sonho que assim é provocado, o material sexual emerge, sendo o seu lugar ocupado por símbolos que nos são familiares. Por exemplo, foi dito a uma mulher que sonhasse com relação sexual com uma amiga. Em seu sonho, aparecia com um saco de viagem no qual estava colado o letreiro: ‘Só para Senhoras’. Experimentos ainda mais impressionantes foram efetuados por Betlheim e Hartmann, em 1924. Eles trabalharam com pacientes que sofriam daquilo que se conhece como psicose confusional de Korsakoff. A esses pacientes contaram histórias do tipo evidentemente sexual e observaram as distorções que apareciam quando os pacientes eram instruídos a reproduzir o que lhes havia sido contado. Também aí surgiram os símbolos de órgãos sexual e de relação sexual que conhecemos — entre eles, o símbolo da escada, o qual, conforme acertadamente observam os escritores, jamais poderia ter sido alcançado por um desejo consciente de deformar.Em uma série de experimentos muito interessante, Herbert Silberer [1909 e 1912] mostrou que se pode, por assim dizer, pegar em flagrante a elaboração onírica no ato de transformar pensamentos abstratos em imagens visuais. Se ele tentava forçar a si mesmo a executar trabalho intelectual enquanto estava em estado de fadiga e sonolência, o pensamento muitas vezes desaparecia e era substituído por uma visão, que obviamente era um substituto do pensamento.
Aqui está um exemplo simples. ‘Eu pensei’, diz Silberer, ‘em ter que revisar uma passagem imperfeita em um ensaio.’ A visão: ‘Vi-me aplainando um pedaço de madeira.’ Durante essas experiências, muitas vezes sucedeu que o conteúdo da visão não era o pensamento de que então se tratava, mas o próprio estado subjetivo do experimentador, enquanto este fazia o esforço — o estado em lugar do objeto. Isto é descrito por Silberer como um ‘fenômeno funcional’. Um exemplo mostrar-lhes-á prontamente o que se quer dizer com isso. O autor estava esforçando-se por comparar as opiniões de dois filósofos acerca de determinada questão. Em sua condição sonolenta, porém, uma dessas opiniões passou a escapar dele e, finalmente, ele teve uma visão de que estava pedindo informações a uma secretária descortês que estava inclinada sobre sua escrivaninha e que começou a não lhe dar atenção, e então ela lançou-lhe um olhar desagradável e inamistoso. As condições sob as quais os experimentos foram feitos provavelmente explicam por si mesmas por que a visão, que foi induzida, representava com tanta freqüência um evento de auto-observação.
Ainda não terminamos esse assunto dos símbolos. Existem alguns que acreditamos ter identificado, os quais, não obstante, nos preocuparam porque não pudemos explicar como esse determinado símbolo veio a ter essa determinada significação. Em tais casos, confirmações de outras fontes — da filologia, do folclore, da mitologia ou do ritual — tinham de ser especialmente bem-vindas. Um exemplo desse tipo é o símbolo de um sobretudo ou capote [em alemão ‘Mantel‘]. Temos afirmado que, num sonho de uma mulher, isto significa um homem. Suponho que os senhores ficarão impressionados ao ouvir que Theodor Reik (1920) nos dá esta informação: ‘Duranteas extremamente antigas cerimônias nupciais dos beduínos, o noivo cobre a noiva com um capote especial conhecido como “Aba” e diz as seguintes palavras rituais: “De hoje em diante, ninguém te cobrirá, exceto eu!”’ (Citado de Robert Eisler [1910, 2, 599 e seg.]). Também encontramos diversos símbolos novos; a respeito de pelo menos dois deles eu lhes falarei. Segundo Abraham (1922), uma aranha, em sonhos, é um símbolo da mãe, mas da mãe fálica, a qual tememos; assim, o medo de aranhas expressa temor do incesto materno e horror aos genitais femininos. Os senhores sabem, talvez, que a criação mitológica, a cabeça da Medusa, pode ser atribuída ao mesmo motif do medo de castração. O outro símbolo, sobre o qual quero falar-lhes, é o da ponte, que foi explicado por Ferenczi (1921 e 1922). Primeiro, ela significa o órgão masculino, que une os pais no coito; mas depois desenvolve outras significações que derivam desta primeira. Na medida em que é absolutamente graças a esse órgão que somos capazes de vir ao mundo, para fora do líquido amniótico, uma ponte se torna a travessia desde o outro mundo (o estado de não-nascido, o útero) até este mundo (a vida); e, como os homens também descrevem a morte como um retorno ao útero (a água), uma ponte também adquire o significado de algo que leva à morte, e finalmente, em mais uma mudança de seu sentido original, significa transições ou modificações de condição, genericamente. Está de acordo com isto o fato de que uma mulher, que ainda não sobrepujou seu desejo de ser homem, tenha freqüentes sonhos com pontes que são muito curtas para alcançar a outra margem.
No conteúdo manifesto dos sonhos, com muita freqüência encontramos quadros e situações que lembram temas familiares em contos de fadas, lendas e mitos. A interpretação de tais temas, portanto, elucida os interesses originais que criaram esses temas, embora, ao mesmo tempo, não devamos esquecer, naturalmente, a alteração de significado pela qual esse material foi atingido no decorrer do tempo. Nosso trabalho de interpretação traz à luz, por assim dizer, a matéria-prima, que deve, no mais das vezes, ser descrita como sexual no mais amplo sentido, mas que encontrou as mais variadas aplicações em adaptações posteriores. Derivações desse tipo são capazes de fazer despenhar sobre nós a fúria de todos os eruditos investigadores não-analíticos, como se nós estivéssemos procurando negar ou menosprezar tudo o que foi posteriormente erigido em sua base original. Não obstante, tais descobertas são instrutivas e interessantes. O mesmo fato procede, quando se situa a origem de determinados temas nas artes plásticas, como, por exemplo, quando M. J. Eisler (1919), seguindo indicações de sonhos de seus pacientes, deu umainterpretação analítica do jovem brincando com um menininho, representado no Hermes de Praxíteles. E, por fim, não posso resistir à vontade de assinalar quão freqüentemente a interpretação dos sonhos elucida, de modo especial, temas mitológicos. Assim por exemplo, a lenda do Labirinto pode ser reconhecida como uma representação do nascimento anal: as vias sinuosas são os intestinos e o fio de Ariadne é o cordão umbilical.
Os métodos de representação empregados pela elaboração onírica — material fascinante, dificilmente capaz de ser exaurido — têm-se tornado, através de estudo mais atento, cada vez mais familiares para nós. Dar-lhes-ei alguns exemplos deles. Assim, por exemplo, os sonhos representam uma relação de freqüência por meio da multiplicação de coisas semelhantes. Eis aqui um notável sonho de uma jovem. Sonhou que chegava a um grande saguão e encontrava nele alguém sentado numa cadeira; isto se repetia seis ou oito vezes, ou mais; porém, em cada uma das vezes, era seu pai. Compreende-se isto facilmente quando descobrimos, partindo de detalhes acessórios da interpretação, que tal sala significava o útero. O sonho então se torna equivalente à fantasia, habitualmente encontrada em meninas, de se haverem encontrado com o pai já durante sua vida intra-uterina, quando ele visitava o útero enquanto sua mãe estava grávida. Os senhores não devem confundir-se pelo fato de algo estar invertido no sonho — que o ‘entrar’ de seu pai é deslocado para ela; aliás, isto também tem um significado especial todo próprio. A multiplicação da figura do pai só pode expressar o fato de que o evento em questão ocorria repetidas vezes. Afinal, deve-se admitir que o sonho não se está excedendo muito ao expressar a freqüência através da multiplicidade. Foi necessário apenas remontar à significação original da primeira palavra; hoje ela significa para nós uma repetição no tempo, contudo deriva de uma acumulação no espaço. De modo geral, com efeito, onde é possível, a elaboração onírica muda as relações temporais em espaciais, e assim as representa. Em um sonho, por exemplo, pode-se ver uma cena entre duas pessoas que parecem muito pequenas e à grande distância, como se estivessem sendo olhadas pelo lado errado de um binóculo de ópera. Aqui, tanto a pequenez como o distanciamento no espaço têm o mesmo significado: o que significa é o distanciamento no tempo e devemos entender que a cena é de um passado remoto.
E, também, os senhores podem recordar que, em minhas conferências anteriores, já lhes disse (e ilustrei o fato com exemplos) que aprendemos afazer uso, em nossas interpretações, até mesmo dos aspectos puramente formais do sonho manifesto — isto é, transformá-los em material oriundo dos pensamentos oníricos latentes. Conforme os senhores já sabem, todos os sonhos que se passam numa noite só pertencem a um mesmo contexto. Não é, contudo, um fato destituído de importância se esses sonhos parecem, ao sonhador, um todo contínuo, ou se ele os divide em diversas partes, e em quantas partes. O número de tais partes, com freqüência, corresponde a igual número de pontos focais separados na formação estrutural dos pensamentos oníricos latentes, ou de tendências conflitantes na vida mental da pessoa que teve o sonho, cada um dos quais encontra uma expressão dominante, embora nunca exclusiva, em uma determinada parte do sonho. Um sonho introdutório breve e um sonho principal, mais longo, que àquele se segue, freqüentemente estão na relação de prótase e de apódose [cláusulas condicional e conseqüencial], da qual um exemplo claro será encontrado nas anteriores conferências. Um sonho que é descrito pelo sonhador como ‘um tanto interpolado’ realmente corresponderá a uma cláusula dependente nos pensamentos oníricos. Franz Alexander (1925) mostrou, em um estudo sobre pares de sonhos, que não raro acontece dois sonhos de uma mesma noite compartilharem do cumprimento da tarefa do sonho produzindo uma realização de desejos em dois estádios, se eles são tomados conjuntamente, embora cada sonho separadamente não atinja esse resultado. Suponha-se, por exemplo, que o desejo contido no sonho tenha como seu conteúdo alguma ação ilícita com relação a determinada pessoa. Então, no primeiro sonho, a pessoa aparecerá sem disfarce, mas a ação será apenas timidamente insinuada. O segundo sonho comportar-se-á de modo diferente. A ação será nomeada sem disfarce, mas a pessoa será tornada irreconhecível ou será substituída por alguém indiferente. Isto, os senhores haverão de recordar, dá uma impressão de efetiva astúcia. Outra relação semelhante entre dois membros de um par de sonhos se encontra onde um representa uma punição e o outro representa a realização de desejos condenáveis. Equivale ao seguinte: ‘se se aceita o castigo por isto, pode-se continuar a se permitir a coisa proibida.’

Não posso deter os senhores, por mais tempo, nessas descobertas de menor importância ou nas discussões relativas ao emprego da interpretação de sonhos no trabalho da análise. Sinto que seguramente os senhores estão impacientes por ouvir quais mudanças foram feitas em nossos pontos de vista fundamentais relativos à natureza e significação dos sonhos. Já os avisei de que, precisamente nisto, há pouco a relatar-lhes. O ponto mais controvertido em toda a teoria foi, sem dúvida, a afirmação de que todos os sonhos são realizações de desejos. A objeção inevitável e sempre recorrente, levantada pelos leigos, de que, não obstante, há tantos sonhos de ansiedade, foi, penso que posso dizê-lo, completamente eliminada em minhas conferências anteriores. Com a divisão em sonhos de realização de desejos, sonhos de ansiedade e sonhos de punição, mantivemos intacta nossa teoria.
Também os sonhos de punição constituem realizações de desejo, embora não de desejos dos impulsos instintuais, mas de desejos da instância crítica, censora e punidora da mente. Se temos diante de nós um sonho de punição puro, uma operação mental fácil nos possibilitará restaurar o sonho de realização de desejos ao qual o sonho de punição é a resposta correta, e que, devido a esse repúdio, foi substituído como sonho manifesto. Como sabem, senhoras e senhores, o estudo dos sonhos foi o que por primeiro nos auxiliou a compreender as neuroses, e os senhores julgarão natural que nosso conhecimento das neuroses, posteriormente, conseguiu influenciar nossa visão dos sonhos. Conforme os senhores haverão de ouvir, fomos obrigados a postular a existência, na mente, de uma especial instância crítica e proibidora, a qual denominamos de ‘superego’. Embora reconhecendo que a censura dos sonhos é também uma função dessa instância, fomos levados a examinar, com maior cuidado, a parte desempenhada pelo superego na construção dos sonhos.
Contra a teoria da realização de desejos dos sonhos surgiram apenas duas dificuldades sérias. Uma discussão a respeito destas afastar-nos-ia muito do caminho que seguimos e, na verdade, ainda não nos proporcionou qualquer conclusão inteiramente satisfatória.
A primeira dessas dificuldades apresenta-se no fato de que as pessoas que experimentaram um choque, um trauma psíquico grave — tal como acontecia, com tanta freqüência, durante a guerra, e tal como propicia a base para a histeria traumática —, são regularmente reconduzidas, em seus sonhos, à situação traumática. De acordo com nossas hipóteses referentes à função dos sonhos, isto não deveria ocorrer. Que impulso decorrente de desejospoderia satisfazer-se retornando, dessa maneira, a essa experiência traumática tão desagradável? É difícil imaginar.
Encontramos a segunda dificuldade quase diariamente no curso de nosso trabalho analítico; e não implica objeção tão importante quanto a outra. Uma das atribuições da psicanálise, como sabem, é erguer o véu da amnésia que oculta os anos iniciais da infância, e trazer à memória consciente as manifestações do início da vida sexual infantil que está contida neles. Ora, essas experiências sexuais iniciais de uma criança estão vinculadas a penosas vivências de ansiedade, proibição, desapontamento e punição. Podemos entender que tenham sido reprimidas; mas, sendo assim, não podemos compreender como têm elas acesso tão livre à vida onírica, como oferecem o padrão para tantas fantasias oníricas e como os sonhos se enchem de reproduções dessas cenas das infância e de alusões às mesmas. Deve-se admitir que seu caráter desagradável e o propósito realizador de desejos da elaboração onírica parecem estar longe de serem mutuamente compatíveis. Pode ser, contudo, que, nesse caso, estejamos exagerando a dificuldade. Afinal, essas mesmas experiências infantis têm ligadas a elas todos os desejos instintuais não satisfeitos, duradouros, os quais, através da vida, proporcionam a energia para a construção dos sonhos e a que podemos sem dúvida creditar a possibilidade de, em sua poderosa irrupção, forçar a vinda à superfície, junto com o restante, do material de eventos penosos. E, por outro lado, a maneira e a forma em que esse material é reproduzido mostra inequivocamente os esforços da elaboração onírica dirigidos a negar o desprazer, por meio da deformação, e a transformar a decepção em concessão.
Nas neuroses traumáticas as coisas são diferentes. No caso destas, os sonhos regularmente terminam em geração de ansiedade. Não teríamos receio de admitir, penso eu, que aqui a função do sonho falhou. Não invocarei o ditado segundo o qual a exceção comprova a regra: sua sabedoria me parece ser a mais questionável. Mas, sem dúvida, a exceção não subverte a regra. Se, no interesse de estudá-la, isolamos determinada função psíquica, como o sonhar, do mecanismo psíquico como um todo, possibilitamos a descoberta das leis que lhe são peculiares; quando, porém, a inserimos novamente no contexto geral, devemos estar preparados para descobrir que esses achados são obscurecidos e prejudicados por colidirem com outras forças. Dizemos que um sonho é a realização de um desejo; mas se os senhores querem levar em conta essas últimas objeções, os senhores podem dizer, ainda assim, que um sonho é uma tentativa de realização de um desejo. Ninguém que possa devidamente constatar a dinâmica da mente haverá de supor que os senhores tenham dito algo diferente disto. Em determinadas circunstâncias, um sonho só é capaz de levar a efeito a sua intenção de modo muito incompleto, ou, então, tem de abandoná-la por inteiro. A fixação inconsciente a um trauma parece estar, acima de tudo, entre esses obstáculos à função de sonhar. Enquanto a pessoa que dorme é obrigada a sonhar, porque o relaxamento da repressão, à noite, permite que se torne ativa a pressão ascendente da fixação traumática, há um fracasso no funcionamento da sua elaboração onírica, que gostaria de transformar os traços de memória do evento traumático em realização de um desejo. Nessas circunstâncias, acontecerá que a pessoa não pode dormir, que ela desiste de dormir por medo de que falhe a função do sonhar. As neuroses traumáticas oferecem-nos aqui um caso extremo; mas devemos admitir que as experiências da infância também são de natureza traumática, e não há por que nos surpreendermos se interferências relativamente banais na função dos sonhos podem surgir também sob outras condições.

Conferência XXIX: Revisão da teoria dos sonhos (1933[1932]). In: FREUD, Sigmund, V. XXII.

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