segunda-feira, 14 de março de 2011

Minha tradução do poema À memória de Sigmund Freud, de W.H. Auden

Quando há tantos a quem devemos lamentar,
quando da aflição emerge à débil consciência
o nó que suprime a angústia
que vem atar a época inteira,
de quem falaremos? A cada dia sepultam-se entre nós
os que fizeram do bem um legado,
os que não se vergaram ao jugo
e pereceram em esperanças
para a mudança vicejar.

Assim foi este doutor: ainda aos oitenta desejou
pensar a vida, não pelo auspicioso futuro,
e sim a partir dos desvios,
das obediências, das adulações
que subordinam a todos,
mas o tal anseio foi negado: fechou os olhos sobre a imagem derradeira,
comum a todos, dos familiares reunidos,
uns perplexos; outros, enciumados, no leito de morte.


Até o fim, a fauna noturna,
ansiosa por se desvelar
no fulgente halo do reconhecimento,
acompanhou-o, e as sombras,
infusas em mistérios,
agora tristes, voltaram-se alhures,
pois, em meio ao exílio,
em terras londrinas,
o importante Judeu
por lá faleceu
e deixou à deriva
os interesses de outrora.

Apenas o Ódio exultava-se
com a possibilidade de alargar domínios
por meio da legião dos sombrios artífices,
que cobrem de cinzas os jardins
e acreditam purificar-se pela barbárie.

Porque os acolheu, sem rancor ou falsidade,
é que eles ainda sobrevivem
num mundo diverso,
transformado pelo simples olhar
de quem tem a honestidade da criança
e a aptidão de rememorar do velho.

Não era de todo astuto: apenas pediu ao infeliz Presente
que declamasse ao Passado, em modos de lição poética,
o trecho em que se deu, há tempos atrás,
a gênese das acusações
e, de repente, vendo no verso a estupefação,
sentiu-se mais humilde, solidário à vida,
capaz de tratar o futuro como a um amigo,
sem constrangimentos e livre da máscara da retidão
que petrifica e artificializa os gestos.

Não é de se admirar que os cânones culturais da Antiguidade,
munidos de técnicas de descolonização,
previssem o declínio dos príncipes,
o colapso dos padrões econômicos de lucro e de frustração:
se ele seguisse adiante,
a vida de hoje se tornaria impossível,
o monólito Estatal ruiria
e esterilizaria a ação dos vingadores.


É claro que recorreram a Deus,
mas ele, à semelhança de Dante,
manteve o curso em direção à fossa infecta,
em meio aos rebotalhos, condenados à rejeição e à calúnia,
e nos mostrou a face rebuçada do mal,
não a conhecida, que pune os atos vis,
mas a que negamos, por falta de fé,
com as nossas concupiscências opressoras e hipócritas.

Se ele assumia a pose autocrática e o rigor paterno, que tanto execrava,
como ardil para camuflar os discursos e as declarações,
era porque vivia há muito entre inimigos
e precisava de tais recursos como amuleto:
muitas vezes, pode ter se equivocado ou proferido absurdos,
só que agora já não é mais homem,
é todo o clima de opiniões
sob o qual conduzimos nossas vidas:
ele, assim como o tempo, pode ou não ajudar,
o orgulho, jactar-se,
os tiranos, imitá-lo sem prestigiá-lo;
nada disso importa:
encontra-se sorrateiramente entranhado
nos ciclos da evolução
e estende-se até mesmo ao remoto e mísero ducado;

ao tatear a robustez dos ossos, insuflou ânimo às crianças,
abandonadas em sua pequenez, essa turba anônima,
que no mel sorveu o azedume e provou o gosto do medo,
foi relegada à negligência,
confinada em lares de liberdade cerceada,
e agora ressurgem, dos confins da censura,
como se fossem espectros delidos da memória,
para que as devolvamos o brilho
e as restituamos os valores ofuscados;

jogos que imaginaríamos deixar de lado ao crescermos,
ruídos que jamais nos atreveríamos a rir,
caretas que fazemos quando ninguém nos olha.
Sim, quis mais do que isso. Ser livre
é irmanar-se à solidão. Unir as metades desiguais,
fraturadas pelo próprio senso de justiça,
foi o que almejou,

e também restabelecer a vontade e a lucidez aos altaneiros;
às minorias, devolver as posses,
que serviriam apenas às áridas contendas
e daria ao filho a próspera dádiva de sentir como sua mãe o fez:
nos alertaria para sermos mais otimistas em meio às trevas,
não pelas maravilhas cifradas em seus interstícios,
mas porque o obscuro merece a nossa afeição. Já as criaturas encantadoras
suplicam com o olhar para que as convidemos
a cegamente nos seguir:
são exiladas que habitam o futuro
que vive em nosso poder
e que se rejubilariam,
se o permitíssemos,
em conceder iluminação à humanidade,
assim como ele o fez,
e até mesmo conteriam em si
o grito por “Judas” que haveríamos de emitir,
assim como ele o suportou,
e todos, a exemplo, deveriam fazer.
A voz unívoca e racional claudica. Sob a sua lápide,
a caterva de Impulsos lamenta a perda do ente querido:
triste encontra-se Eros, construtor de cidades,
e chorosa está a anárquica Afrodite.

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