segunda-feira, 11 de abril de 2011

A angústia da influência: uma teoria da poesia, Harold Bloom


Sinopse: Seis razões revisionárias

1. Clinamen é a desleitura ou a desapropriação poética propriamente dita; a palavra vem de Lucrécio, onde significa um desvio dos átomos, o que torna possível qualquer mudança no universo.Um poeta se desvia ao ler o poema de seu precursor de tal forma a executar um clinamen com relação a ele. Isto aparece como movimento corretivo em seu próprio poema, sugerindo que o poema precursor fora acurado até certo ponto, mas deveria, então, ter se desviado, precisamente na direção em que se move o novo poema.

2. Tessera é a complementação e antítese; a palavra vem, não da fabricação de mosaicos, onde ainda é empregada, mas de cultos ancestrais dos mistérios, onde significa um sinal de reconhecimento um fragmento, digamos, de alguma vasilha, que unido aos outros reconstitui o todo. Um poeta complementa antiteticamente seu precursor ao ler o poema-ascendente de tal forma a preservar seus termos mas alterar seu significado, como se o precursor não tivesse ido longe o bastante.

3. Kenosis é um mecanismo de ruptura semelhante aos mecanismos de defesa empregados pela psique contra as compulsões de repetição; kenosis, portanto, é um movimento na direção de uma descontinuidade com relação ao precursor. A palavra vem de São Paulo, onde significa a humilização, ou esvaziamento de Jesus por si mesmo, quando aceita a redução da estatura divina à humana. O poeta posterior, aparentemente esvaziando-se de sua própria inspiração, sua divindade fabulatória, supostamente se torna humilde, como se estivesse deixando de ser poeta, mas a vazante é executada de tal forma em relação a um poema-de-vazante precursor que o precursor também se vê esvaziado, de modo que o segundo poema não é tão absoluto quanto parece.

4. Demonização: movimento na direção de um Contra-Sublime próprio, como reação ao Sublime do precursor; a palavra vem da tradição neoplatônica em geral, onde um ente intermediário (o daimon), nem divino, nem humano, se incorpora ao adepto para auxiliá-lo. O poeta posterior se apresenta aberto ao que acredita ser uma potência no poema-ascendente que não pertence, de fato, a este, mas sim a uma extensão ôntica imediatamente além do precursor. É isto o que faz, então, em seu poema, ao postar-se com relação ao poema-ascendente de tal forma que, ao generalizá-lo, despreza o que existe de único no trabalho do precursor.

5. Askesis: movimento de autopurgação que ambiciona alcançar um estado de isolamento; a palavra, comum como é (cf. ascese), pode ser encontrada particularmente na prática de xamanistas pré-socráticos, como Empédocles. O poeta mais recente não passa aqui, como numa kenosis, por um movimento revisionário de esvaziamento, mas sim de diminuição; renuncia a uma parcela de suas virtudes humanas e imaginativas, de maneira a se separar de todos, incluindo o precursor, e o faz, no poema, ao postar-se com relação ao poema-ascendente de tal forma que este deve sofrer uma askesis; as virtudes do precursor também se vêem truncadas.

6. Apophrades ou o retorno dos mortos; a palavra vem dos dias infaustos, dias de má-sorte, quando os mortos de Atenas voltavam a habitar a casa onde haviam vivido. O poeta mais recente, em sua própria fase final, já sob o peso de uma solidão da imaginação que é quase um solipsismo, sustenta seu próprio poema de tal forma aberto à obra do precursor que, inicialmente, poderíamos pensar ter-se completado a volta ao círculo, nos transportando de volta aos dias sufocantes de seu aprendizado, antes que sua força tivesse começado a se fazer sentir nas razões revisionárias. Mas o poema, agora, é sustentado em aberto, enquanto que outrora fora, de fato, aberto, e o efeito estranhíssimo (unheimlich) é que o sucesso do novo poema faz com que este nos apareça, agora, não como obra do ascendente, mas como se o segundo poeta houvesse, ele mesmo, escrito a obra característica de seu precursor.

Trechos destacados da obra de Bloom:

“A história da poesia (...) é considerada como indistinguível da influência poética, já que os poetas fortes fazem a história deslendo-se uns aos outros, de maneira a abrir um espaço próprio de fabulação” (p. 33).

“Talentos mais fracos são presa de idealizações: a imaginação capaz se apropria de tudo para si. Mas nada vem do nada e a apropriação envolve, portanto, imensas angústias de débito: pois que criador forte jamais desejaria a consciência de não se ter criado a si mesmo” (p. 33).

“Esta opinião de que a influência poética virtualmente não existe, exceto para a fúria de produtividade dos pedantes é, ela mesma, a ilustração de um dos modos em que a influência poética se expressa como variedade da melancolia, ou do princípio da angústia” (p. 35).

“Mas a influência poética não acarreta, por definição, a diminuição da originalidade; com igual freqüência, é capaz de tornar um poeta mais original, o que não quer dizer necessariamente melhor. As profundezas da influência poética não podem ser reduzidas ao estudo das fontes, ou à história das idéias, ou aos padrões de figuração” (p.36).

“Para Ben Jonson, a influência ainda é uma saúde. A imitação, para ele, é a ?capacidade de converter para uso próprio a substância ou as riquezas de algum outro poeta; de elevar algum homem excelente acima de todos os demais e de tal forma seguir, então, seu exemplo a ponto de tornar-se indistinguível dele, ou tão próximo a ele que se poderia tomar a cópia pelo original” (p. 58-9).

“Estar escravizado ao sistema de qualquer precursor, diz Blake, é se ver inibido em sua criatividade por um mecanismo obsessivo de racionalização e comparação (presumivelmente de seu próprio trabalho para com o do precursor). A Influência Poética é, portanto, uma doença da autoconsciência” (p. 61).


“A Influência Poética quando envolve dois poetas autênticos, fortes procede sempre por uma desleitura do poeta anterior, um ato de correção criativa que é, na verdade, e necessariamente, uma interpretação distorcida. A história das influências poéticas produtivas, que é a história da tradição central da poesia do Ocidente a partir da Renascença, é uma história da angústia e da caricatura autoprotetora, da distorção, do revisionismo voluntarioso e perverso, sem o que a poesia moderna, como tal, não poderia existir” (p. 62).

“Nenhum poeta moderno é um poeta da unidade, seja qual for sua crença professada. Poetas modernos são necessariamente e miseravelmente dualistas, porque essa miséria, essa pobreza é o ponto de partida de sua arte” (p. 67).

“Pode causar estranheza que opiniões de peso sejam encontradas em obras de poetas, e não de filósofos. A razão é que os poetas escrevem por meio do entusiasmo e da imaginação; existem em nós sementes do conhecimento, assim como há fogo na pedra; essas sementes são extraídas pelos filósofos por um esforço racional, mas os poetas as arrancam a golpes de imaginação, o que lhes confere um brilho redobrado” (Descartes) (p. 73).

“Já está na hora de abandonarmos o projeto fracassado de ?compreender? qualquer poema como uma entidade isolada. Chegou a hora de nos lançarmos à tentativa de aprender a ler todo poema como a interpretação deliberadamente equivocada que um poeta, como poeta, constrói em relação a algum poema precursor, ou à poesia em geral” (p. 77).

“O desvio, ou clinamen entre o poeta forte e seu Progenitor Poético é executado pelo próprio ente do poeta posterior, e a verdadeira história da poesia moderna seria, assim, o registro acurado desses desvios revisionários” (p. 78).

“Noutra passagem, no entanto, Goethe dá testemunho de sua convicção de que os modelos não sejam, afinal, outra coisa senão espelhos de nós mesmos: ?ser amado pelo que se é: esta é a grande exceção. A maior parte dos homens só ama no outro aquilo que empresta a ele, só ama no outro sua versão do outro; isto é, a si mesmo” (p. 85).

“Só é propriedade do poeta aquilo que for capaz de nomear pela primeira vez” (p. 100).

“Empregava-se a Tessera na tradição de antigos mistérios religiosos, onde a reunião de dois pedaços quebrados de cerâmica servia como sinal de reconhecimento entre os iniciados" (p. 103).

“Uma vez que a poesia (como o trabalho do sonho) é mesmo regressiva e arcaica, e uma vez que o precursor não será nunca integrado ao superego (o Outro que nos rege), mas sim a uma parcela do id, a desleitura é natural para o efebo. Mesmo o trabalho do sonho é uma mensagem. ou uma tradução, e portanto uma forma de comunicação, mas um poema é uma comunicação deliberadamente distorcida, estropiada. É uma destradução dos precursores. A despeito de todos os seus esforços, um poema será sempre uma díade, e não uma mônada, mas uma díade que se rebela permanentemente contra o terror de uma comunicação unilateral” (p. 108).

“O unheimlich é percebido toda vez que somos lembrados de nossa tendência interna a nos abandonarmos a padrões obsessivos de comportamento. Anulando o princípio de prazer, o daimon em nós se entrega à compulsão de repetição” (p. 113).

“Entre as categorias de angústia, Freud situa a classe do unheimlich, ?na qual, como pode-se ver, a angústia provém de alguma coisa do reprimido que retorna. Todavia, acrescenta, esse não-familiar, poderia igualmente ser denominado de familiar, porque o não-familiar não é, na verdade, nada de novo ou estranho, mas algo familiar e bem estabelecido na mente, e que só se torna estranho por um processo de repressão” (p. 114).

“Kenosis, ou esvaziamento, um movimento da imaginação devotado, de uma só vez, à anulação e ao isolamento. A palavra kenosis vem de São Paulo, quando descreve a humilização de Cristo, ao passar de divindade a homem. No poeta forte, a kenosis é um ato revisionário, através do qual tem lugar um esvaziamento, ou vazante com relação ao precursor” (p. 125).

“A kenosis é um movimento mais ambivalente do que o clinamen ou a tessera, e necessariamente transporta a poesia a regiões mais profundas do significado antitético. Pois na kenosis a batalha do artista contra a arte foi perdida, e o poeta cai ou se esvazia num confinamento do tempo e do espaço, na mesma medida em que anula o modelo do precursor, através de uma deliberada e consciente ruptura de continuidade. Sua postura parece ser a do precursor (como a postura de Keats parece ser a de Milton no primeiro dos dois Hyperions), mas o significado dessa postura é anulado; ela sofre um esvaziamento de prioridade, que é uma espécie de qualidade divina, e o poeta assim fica mais isolado não apenas de seus companheiros, mas também de suas próprias continuidades” (p. 127).

“Todo poeta está preso numa relação dialética (transferência, repetição, erro, comunicação) com outro poeta ou outros poetas” (p. 128).

“A crítica aristotélica, ou retórica, ou fenomenológica, ou estruturalista é sempre redutora: o poema é reduzido a idéias, imagens, objetos ou fonemas” (p. 132).

“Todo poema é o desvirtuamento de um poema-pai. Um poema não é a superação de uma angústia, mas a própria angústia” (p. 132).

“Interpretação não existe: só existe a desinterpretação, e toda crítica é uma poesia em prosa” (p. 133).

“Poesia é angústia da influência, é desapropriação, é uma perversão disciplinada. Poesia é desentendimento, mal-compreensão, mésalliance” (p. 133).

“Um poema surge não tanto em resposta ao tempo presente, como até Rilke pensava, quanto em resposta a outros poemas” (p. 137).

“Van der Berg, num surpreendente ensaio sobre o significado do movimento humano, localiza três dimensões onde esse significado pode surgir: a natureza, o eu interior e o olhar do outro. Se procurarmos o significado do movimento poético, no sentido do porte e dos gestos de um poema, da mesma forma como se fala em porte e gestos humanos, esses três domínios se traduzirão em estranhamento, solipsismo e olhar imaginário do precursor. Para apropriar-se da paisagem do precursor, o efebo deve torná-la ainda mais distanciada de si. Para atingir um ego ainda mais profundo que o do precursor, o efebo deve tornar-se mais solipsista. Para esquivar-se do olhar imaginário do precursor, o efebo deve procurar restringir seu alcance, o que resulta perversamente num alargamento do olhar, de tal forma que raramente poderá ser evitado” (p. 144).

“Cada poema é uma evasão não só de outro poema, mas também de si mesmo; o que equivale a dizer que todo poema é uma interpretação desvirtuada do que poderia ter sido” (p. 161).

“Minha tese, aqui, que aliás me desagrada, é a de que em sua askesis purificadora o poeta forte só tem consciência de si mesmo e daquele Outro que deve, afinal, destruir: seu precursor, que a esta altura bem pode ser uma figura imaginária ou composta, mas que continua a ser formado por poemas, poemas reais do passado, que não se deixam esquecer. Porque clinamen e tessera se esforçam para corrigir ou complementar os mortos, kenosis e demonização laboram para reprimir a memória dos mortos, mas a askesis é o embate propriamente dito, uma luta-até-a-morte com os mortos” (p. 162).

Glossário

Efebo: Na Grécia Antiga, rapaz que atingiu a puberdade. No texto, o sentido é figurado, de aprendiz.

Solipsismo: Doutrina filosófica segundo a qual a única realidade no mundo é o Eu. Idealismo subjetivo.


Trechos do livro: BLOOM, Harold. A angústia da influência: uma teoria da poesia. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

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