quarta-feira, 6 de abril de 2011

Blogs, Charles Kiefer

Todo produto cultural – ainda o mais alienado e superficial –, oculta na sombra da aparência a massa sólida e substanciosa que o projeta. A um olhar rápido, e que não penetra a matéria observada, os blogs não passam de “trenzinhos-elétricos de diversão do ego”, onde adolescentes desorientados estariam fazendo mera catarse, como têm dito aqueles que condenam, geralmente sequer sem conhecer, essa nova forma de expressão. Num certo aspecto, a acusação é verdadeira. Nesses novos espaços de comunicação, o ego passeia – como passeou, solene, na tragédia áurea, na lírica clássica e no drama burguês – porque o texto real ou virtual é a casa do ego, onde o ser lança os seus fundamentos. E no labirinto do ego devorador é de pouca ou de nenhuma importância a diferença entre a dor de Homero e a angústia de uma estagiária de comunicação. É bom que o ego passeie pelos blogs, e que se expanda, e que se desnude, especialmente nessa fase fundadora, de pura ex-pressão, quando o que é quer vir para fora, embora saia apertado, e abaixo de vaias. De tanto mostrar-se, a expressão, no choque permanente contra o leito do rio da experiência, arredondará as suas formas, polirá as suas arestas, e se transformará em arte. (O que chamamos de Homero é a lenta sedimentação de um processo popular polifônico, que a tardia gramática helenista transformou em modelo de “bem-escrever”). E então, o olhar apressado há de deter-se sobre o novo objeto e será capaz de ad-mirá-lo. Em sua protoforma, os blogs “parecem” ser a escória de uma civilização voyerista, o destilado mais recente da tecnificação absoluta. No entanto, como à natureza apavora o absoluto e as afirmações categóricas, ela própria se encarregará de vingar-se, transformando, ainda uma vez, o periférico e marginal em central e integrado. Os blogs podem vir a ser a mais autêntica forma de expressão artística do século XXI.

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