quarta-feira, 6 de abril de 2011

A nova subjetividade, Charles Kiefer

Mais que a emergência de uma nova forma artística – nova em seu suporte material (não o velino, o papiro, o papel de pano ou de celulose, mas o plasma de eletróns) e nova também em seu modo de expressão, em sua linguagem, em seus temas – o blog é a objetivação de uma nova subjetividade. Assim como o diário primitivo era produto da necessidade de instauração da individualidade que as forças produtivas da industrialização geravam (para desenvolver-se o capitalismo necessitou de uma bem-constituída noção de individualidade), o blog, no estágio avançado do capitalismo contemporâneo (em que toda a manifestação cultural transforma-se em mercadoria) é também produto de uma nova necessidade: a da diluição e destruição da noção de identidade nacional e, no limite, da noção clássica de identidade pessoal. Não por acaso, ao mesmo tempo em que multiplicam-se vertiginosamente a criação e o consumo da nova forma artística, destróem-se impiedosamente os fundamentos do Estado-Nação – a moeda nacional, o direito de auto-determinação dos povos –, sob o rolo compressor da globalização. Sob os escombros da velha ordem jurídica internacional, inicia-se a partenogênese de uma identidade planetária. O blog é o sintoma, a aparência – a mimetização deste processo. O ego do diário era um ego pudico e recatado, que se escondia nas páginas de um caderno, acessível somente ao autor, quando não chaveado ou escondido em porões e sótãos; o ego do blog é um ego promíscuo e voyerista. O primeiro, assinava o próprio nome; o segundo, esconde-se – em geral – sob pseudônimo. Há ainda, nesse novo ego, um certo acanhamento, uma saudade de sua antiga ética, mas não por muito tempo. O admirável ou detestável mundo novo está, enfim, nascendo. Ou já nasceu. Intuído por Shakespeare, que viveu no princípio da emergência das novas forças sociais que originariam a burguesia industrial, o brave new world realiza-se agora, sob os nossos teclados (como um desesperado partisan, produzo esta reflexão à mão, a provar, nem que seja para mim mesmo, que as antigas formas estéticas não desaparecem, mas que convivem com as novas, complementam-se, transformam-se). A literatura criou, nos últimos séculos, poderosas imagens mito-poéticas – o amor romântico, a paisagem, o auto-retrato (a deuses e heróis mitológicos, símbolos da aristocracia, a burguesia preferiu pintar-se a si mesma), o detetive, o viajante espacial, o flâner, o boêmio revolucionário. E a literatura vai criar, com maior rapidez, novas imagens, cujas configurações não podemos ainda descrever, mas que já podemos pressentir. Se olharmos para os blogs sem preconceito, sem rigidez e sem pressa, poderemos distinguir neles formas larvares, embrionárias, de uma nova subjetividade. A Idade Média produziu toneladas de romances de cavalaria, mas um único Dom Quixote. Milhares de páginas de folhetins foram escritas no Brasil do século XIX, mas um só Dom Casmurro. O próximo Dom nascerá nas infinitas páginas dos blogs e redimirá aqueles que hoje perdem tempo examinando esses jardins que se bifurcam na Infovia.

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