segunda-feira, 30 de maio de 2011

Maurice Blanchot, A conversa infinita


“Escrever, então, passa a ser uma responsabilidade terrível. Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever, desse ponto de vistas, é a maior violência que existe, pois transgride a Lei, toda lei e sua própria lei” (p. 9).

“Poderíamos reduzir a quatro as possibilidades formais que se oferecem ao homem de pesquisa: primeiro ele leciona; segundo ele é homem de saber, e este saber está ligado às formas sempre coletivas da pesquisa especializada (psicanálise-ciência da não ciência – ciências humanas, pesquisas científicas fundamentais); terceiro ele associa sua pesquisa à afirmação de uma ação política; quarto ele escreve. Professor; homem de laboratório; homem da práxis; escritor. Estas são suas metamorfoses. Hegel, Freud, Einstein, Marx, Lênin, Nietzsche e Sade” (p. 32).

“Uma das questões que se colocam à linguagem da pesquisa é ligada a esta exigência de uma descontinuidade. Como falar de modo que a palavra seja essencialmente plural? Como pode afirmar-se a busca de uma palavra plural, fundada não mais na igualdade e na desigualdade, nem na predominância e na subordinação, tampouco na mutualidade recíproca, mas na dissimetria e na irreversibilidade, de tal modo que, entre duas palavras, uma de infinidade esteja sempre implicada como movimento da própria significação? Ou ainda, como escrever de tal maneira que a continuidade do movimento da escrita possa deixar intervir fundamentalmente a interrupção como sentido e a ruptura como forma? Por enquanto, diferiremos a abordagem dessa questão. Observaremos somente que toda linguagem na qual se trata de interrogar e não responder é uma linguagem na qual tudo começa pela decisão (ou distração) de um vazio inicial” (p. 36 e 37).

Questionar é, então, avançar ou recuar para o horizonte de toda a questão. Questionar, portanto, é colocar-se na impossibilidade de questionar com questões parciais, é experimentar a impossibilidade de questionar particularmente, embora, contudo, toda questão seja particular e tanto melhor colocada quanto mais firmemente responde à particularidade da posição. Toda questão é determinada. Determinada, ela é esse próprio movimento pelo qual o indeterminado ainda se mantém na determinação da questão” (p. 42).

“A questão é movimento, a questão de tudo é totalidade de movimento e movimento de tudo. Na simples estrutura gramatical da interrogação, já podemos sentir a abertura da palavra interrogante. Há uma exigência de outra coisa: incompleta, a palavra que questiona afirma não ser mais do que uma parte. A questão seria, portanto, contrariamente ao que acabamos de dizer, essencialmente parcial; ela seria o local onde a palavra sempre se dá como inacabada. O que significaria, então, a questão de tudo, não fosse a afirmação de que no todo ainda se mantém latente a particularidade de tudo?” (p. 42).

“A questão, sendo palavra inacabada, apóia-se no inacabamento. Ela não é incompleta enquanto questão; ela é, ao contrário, a palavra que o fato de declarar-se incompleta realiza. A questão substitui no vazio a afirmação plena, ela a enriquece com esse vazio anterior. Por intermédio da questão, oferecemo-nos a coisa e oferecemo-nos o vazio que nos permite não tê-la ainda ou tê-la como desejo. A questão é o desejo do pensamento” (p. 43).

“Por um instante transformado em pura possibilidade, o estado de coisas não volta ao que era. O Sim categórico não pode devolver aquilo que por um momento foi apenas possível; bem mais, ele nos tira a dádiva e a riqueza da possibilidade, pois agora afirma o ser daquilo que é, mas como o afirma em resposta, é indiretamente e de maneira apenas mediata que ele o afirma. Assim, no Sim da resposta, perdemos o dado direto, imediato, e perdemos a abertura, a riqueza da possibilidade. A resposta é a desgraça da questão” (p. 43).

“O que significa que ela revela a desgraça que está escondida na questão. Aliás, essa é a marca desagradável da resposta. A resposta não é desgraçada em si mesma; ela guarda para si a segurança; caracteriza-a uma espécie de altivez. Aquele que responde é, implicitamente, superior àquele que interroga. De uma criança que esquece o estatuto da infância, dizemos é respondão. Responder é a maturidade da questão” (p. 43).

“Entretanto, a questão exigiria resposta? Sem dúvida, há na questão uma lacuna que busca ser preenchida. Mas é uma estranha lacuna. Ela não tem a rudeza da negação, ela não aniquila, ela não recusa. Se ela é uma potência onde se exerce algo negativo, essa potência se apropria dele num estágio em que este negativo não alcançou sua plena determinação negativa” (p. 44).

“A interrogação é esse movimento em que o ser gira e aparece com a suspensão do ser em sua virada” (p. 44).

“Mas a questão não se prossegue na resposta, ao contrário, ela é concluída pela respostas, e por ela fechada. Ela inaugura um tipo de relação caracterizada pela abertura e o livre movimento, e o que ela encontra para satisfazê-la é o que fecha e o que pára. A questão tão espera a resposta, mas a resposta não apazigua a questão e, embora ela encerre, não termina com a espera que é a questão da questão. Questão, resposta, encontramos entre esses dois termos o confronto de uma relação estranha, na medida em que, na resposta, a questão chama pelo que lhe é estranho e, ao mesmo tempo, quer permanecer na resposta como esse giro da questão que a resposta pára, para interromper o movimento e proporcionar o repouso. Somente a resposta, respondendo, deve retomar em si a essência da questão que não é extinta para aquilo que lhe responde” (p. 44 e 45).

“Mas para a dialética, não há questão terminal. Onde terminamos, começamos. Onde começamos, só começamos de fato se o começo está novamente no final de tudo, ou seja, o resultado – o produto – do movimento do todo. É a exigência circular. O ser se desdobra como o movimento girando em círculo, e esse movimento vai do mais interior ao mais exterior, da interioridade não desenvolvida à exteriorização que o aliena, e dessa alienação que o exterioriza até a plenitude realizada e reinteriorizada. Movimento sem fim, porém desde sempre já finalizado. A história é a realização infinita desse movimento desde sempre já realizado” (p. 47).

“Evoquemos por um instante a Esfinge como questão, o homem como resposta. O ser que questiona é necessariamente ambígüo: é a própria ambigüidade que questiona. O homem, quando se interroga, sente-se interrogado por algo inumano, e se sente às voltas com algo que não interroga. Édipo, diante da Esfinge, é, à primeira vista, o homem diante do não-homem, ele já está diante de si mesmo. Será a questão sem seriedade apoiada pela seriedade do que está em jogo, a questão mais profunda? Em todo caso, uma profunda questão. A questão profunda, é o homem como Esfinge, a parte perigosa, inumana e sagrada, que imobiliza e mantém imobilizado diante dela, no face a face de um instante o homem que, com simplicidade e auto-suficiência, diz-se simplesmente, homem. A resposta de Édipo não é apenas uma resposta. É a própria questão, mas que mudou de sentido. Quando a Esfinge fala, na linguagem leviana e perigosa que é a dela, é para dar voz à questão mais profunda, e quando Édipo responde, dizendo com segurança a palavra única que convém, é para opor-lhe o homem enquanto ‘questão de tudo’. Memorável confronto da questão profunda e da questão de conjunto” (p. 49 e 50).

“O poder do boato não está na força de que ele diz, mas no seguinte: no fato dele pertencer ao espaço onde tudo o que se diz sempre já foi dito, continua a ser dito, não cessará de ser dito. O que fico sabendo através do boato, necessariamente já ouvi dizer: é aquilo que se relata e que, como tal, não pede nem autor nem garantia nem verificação, que não sofre contestação, pois sua única verdade, incontestável, é a de ser relatada, num movimento neutro em que o relato parece reduzido a sua pura essência, pura relação entre ninguém e nada” (p. 54).

“E toda palavra, então, é de fuga, precipita a fuga, ordena todas as coisas para a confusão da fuga, palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo” (p. 57).

“O saber eclipsa aquele que sabe. A paixão desinteressada, a modéstia, a invisibilidade, eis o que arriscamos perder sabendo pura e simplesmente” (p. 63).

- Lembro-me de que a primeira significação da palavra encontrar não é a de forma alguma encontrar, no sentido do resultado prático ou científico. Encontrar é tornear, dar a volta, rodear. Encontrar um canto é tornear o movimento melódico, fazê-lo girar. Aqui não existe nenhuma idéia de finalidade, ainda menos de parada. Encontrar é quase exatamente a mesma palavra que buscar, que se diz: ‘dar a volta em’” (p. 63 e 64).

“Escrever, não é expor a palavra ao olhar. O jogo da etimologia corrente faz da escrita um corte, um dilaceramento, uma crise” (p. 66).

“Um simples lembrete: o instrumento adequado para a escrita era o mesmo da incisão: o estilete” (p. 66).

“Em cada palavra, todas as palavras” (p. 67).

“A palavra é, para o olhar, guerra e loucura. A terrível palavra ultrapassa todo limite e, até, o ilimitado do todo: ela toma a coisa por onde não se a toma, por onde não é vista, nem nunca será vista; ela transgride as leis, liberta-se da orientação, ela desorienta” (p. 67).

“O conceito (toda linguagem pois) é o instrumento neste empreendimento para instaurar o reino seguro. Incansavelmente, edificamos o mundo, a fim de que a secreta dissolução, a universal corrupção que rege o que ‘é’, seja esquecida em favor desta coerência de noções e de objetos, de relações e de formas, clara, definida, obra do homem tranqüilo, onde o nada não poderia infiltrar-se e nos tornar felizes” (p. 73).

“A linguagem é de natureza divina, não porque nomeando ela eternize, mas porque, diz Hegel, ‘ela inverte imediatamente o que nomeia, pra transformá-lo numa outra coisa’, não dizendo aquilo que não é, mas falando precisamente em nome deste nada que dissolve tudo, sendo o devir falante da própria morte e no entanto, interiorizando esta morte, purificando-a talvez, para reduzi-la ao duro trabalho do negativo, pelo qual, num combate incessante, o sentido vem a nós e nós a ele” (p. 75 e 76).

“De fato, quando eu falo, reconheço que somente existe palavra porque o que ‘é’ desapareceu naquilo que o nomeia, fulminando para tornar-se a realidade do nome: a vida desta morte, eis o que é admiravelmente a palavra, a mais ordinária e, num nível mais elevado, a do conceito. Resta no entanto que – e seria cegueira esquecê-lo e covardia aceitá-lo –, o que ‘é’ precisamente, desapareceu: algo estava, que não está mais aí; como reencontrar, como recuperar em minha palavra, esta presença anterior que precisa excluir para falar, falar dela? Aqui, evocaremos o eterno tormento de nossa linguagem, cuja nostalgia volta-se para aquilo que sempre faz falta, pela necessidade na qual se encontra a linguagem de ser falta para o dizer” (p. 77).

“Quanto mais distante ou mais difícil é o objeto da esperança, tanto mais a esperança que o afirma é profunda e próxima de seu destino de esperança: tenho pouco a esperar, quando aquilo que espero está quase a meu alcance” (p. 84).

“Não somos nunca pura e simplesmente, nós somos apenas a partir e em função das possibilidades que somos. É uma de nossas dimensões essenciais. A palavra possível se esclarece então, em relação com a palavra poder, e depois com a palavra potência (eu simplifico muito)” (p. 85).

“Até a morte é poder: não é um simples fato que vai me acontecer, acontecimento objetivo e constatável. Aí vai cessar meu poder de ser, aí não poderei mais estar. Mas, desta não possibilidade, a morte, na medida em que ela me pertencee somente a mim, visto que ninguém pode morrer minha morte por mim sempre aberta até meu fim, realiza ainda um poder” (p. 85).
“Nesta perspectiva, nossas relações no mundo e como mundo são sempre, finalmente, relações de potência, onde a potência está em germe na possibilidade. Ficando nos traços mais aparentes de nossa linguagem, quando falo, tenho sempre uma relação de potência. Eu pertenço, quer saiba ou não, a uma rede de poderes da qual me sirvo, lutando contra a potência que se afirma contra mim: toda palavra é violência, violência que se exerce já sobre aquilo que a palavra nomeia e que ela não pode nomear senão retirando dela a presença – sinal, nós o vimos, de que a morte fala (essa morte que é poder), quando eu falo. Ao mesmo tempo, sabemos que quando se discute não se luta. A linguagem é a ação pela qual a violência aceita não estar aberta, mas escondida, renunciar a se esgotar numa ação brutal para reservar-se visando um domínio mais potente, não se afirmando mais desde então, mas no entanto no cerne de toda afirmação” (p. 86).

“O estrangeiro vem de outro lugar e nunca está onde estamos, não pertence a nosso horizonte e não aparece em nenhum horizonte representável, de forma que o invisível seria o seu lugar, entendo com isto, segundo uma terminologia que às vezes usamos: o que se desvia de todo o visível e de todo invisível” (p. 99).

“O eu finito pensa o infinito. Neste pensamento, o pensamento pensa o que o ultrapassa infinitamente e o que ele não pode dar conta por si próprio: ele pensa então mais do que pensa. Experiência única. Quando eu penso o infinito, penso aquilo que não posso pensar (porque se eu tivesse do infinito uma representação adequada, se eu o compreendesse, assimilando-o, tornando-o igual a mim, tratar-se-ia apenas do finito); eu tenho, pois, um pensamento que ultrapassa meu poder, um pensamento que na medida mesma em que é pensado por mim, é o absoluto ultrapassamento deste eu que o pensa, quer dizer, uma relação com o que está absolutamente fora de mim-mesmo: o outro” (p. 100).

“Eros ainda é o desejo nostálgico da unidade perdida, um movimento de retorno em direção ao Ser verdadeiro. O desejo metafísico é desejo daquilo com o que não se foi nunca unido, desejo do eu, não somente separado, mas feliz com sua separação que o faz eu e, no entanto, tendo relação com aquilo de que ele permanece separado, do que ele não tem nenhuma necessidade e que é desconhecido, o estrangeiro: outrem” (p. 101).

“Quando falo ao outro, eu faço um apelo a ele. Antes de tudo, a palavra é esta interpelação, esta invocação onde o invocado está fora de alcance, é, mesmo injuriado, respeitado, mesmo obrigado a calar-se, instado à presença da palavra, e não reduzido ao que eu digo dele, tema de discurso ou assunto de conversa, mas aquele que está sempre além, e fora de mim, me ultrapassando e pairando acima de mim, posto que eu o peço, desconhecido, virar-se para mim e, estrangeiro, ouvir-me. Na palavra, é o exterior que fala dando lugar à palavra e permitindo falar” (p. 103).

“Há linguagem, porque não existe nada de ‘comum’ entre aqueles que se exprimem, separação que é suposta – não superada, mas confirmada – em toda palavra verdadeira, se nós não tivéssemos nenhuma novidade a comunicar, se pelo discurso não me viesse algo de estranho, capaz de me instruir, falar seria desnecessário. Por isto que, no mundo onde reinasse apenas a lei do Mesmo e o futuro da realização dialética, o homem – pode-se supô-lo – perderia seu rosto e sua linguagem” (p. 104).

BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita. São Paulo: Escuta, 2001. 152 p.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Weak Messianism: Walter Benjamin's arcades project



Alexander Gelley, Professor of Comparative Literature at UC Irvine, talks about his book on Walter Benjamin, with particular focus on Benjamin's conception of history and urban culture. Walter Benjamin, the German-Jewish thinker of the Weimar period, left his Arcades Project unfinished when he died in 1940. Its aim was to awaken a collective subject, heir of the Marxist proletariat, a collective not yet actual and still under the spell of the "phantasmagoria" of the nineteenth-century. Benjamin's "weak messianism" is best conceived as a form of writing designed to incite a readership by means of image, example, anecdote, citation. Series: Humanitas.

Who killed Walter Benjamin, parte 1



Primera parte del documental realizado por David Mauas en 2007.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Walter Benjamin, Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo


“Para o estilo Makart do final Segundo Império, a moradia se torna uma espécie de cápsula. Concebe-se como um estojo do ser humano e nela o acomoda com todos os seus pertences, preservando, assim, os seus pertences, como a natureza preserva no granito uma fauna extinta” (p. 44).

“De um lado, o homem privado; senta-se na sacada como num balcão nobre; se quer correr os olhos pela feira, tem à disposição um binóculo de teatro. Do outro, o consumidor, o anônimo, que entra num café e que logo, atraído pelo magneto da massa que o unge incessantemente, tornará a sair. De um lado, toda a espécie de pequenas estampas do gênero, que, reunidas, formam um álbum de gravuras coloridas; do outro, um esboço que seria capaz de inspirar um grande gravador: uma multidão a perder de vista, onde ninguém é para o outro nem totalmente nítido nem totalmente opaco” (p. 46).

“Baudelaire amava a solidão, mas a queria na multidão” (p. 47).

“Se, no começo, as ruas se transformavam para ele em interiores, agora são esses interiores que se transformam nas ruas, e, através do labirinto das mercadorias, ele vagueia como outrora através do labirinto urbano” (p. 51).

“A multidão não é apenas o mais novo refúgio do proscrito; é também o mais novo entorpecente do abandonado. O flâneur é um abandonado na multidão. Com isso, partilha a situação da mercadoria. Não está consciente dessa situação particular, mas nem por isso ela age menos sobre ele. Penetra-o como um narcótico que o indeniza por muitas humilhações. A ebriedade a que se entrega o flâneur é a da mercadoria em torno da qual brame a corrente dos fregueses” (p. 51 e 52).

“Se a mercadoria tivesse uma alma – com a qual Marx, ocasionalmente, faz graça –, esta seria a mais plena de empatia já encontrada no reino das almas, pois deveria procurar em cada um o comprador a cuja mão e a cuja morada se ajustar. Ora, essa empatia é a própria essência da ebriedade à qual o flâneur se abandona na multidão. ‘O poeta goza o inigualável privilégio de poder ser, conforme queira, ele mesmo ou qualquer outro. Como almas errantes que buscam um corpo, penetra, quando lhe apraz, a personagem de qualquer um. Para o poeta, tudo está aberto e disponível; se alguns espaços lhe parecem fechados, é porque aos seus olhos não valem a pena serem inspecionados’. O que fala aqui é a própria mercadoria, e essas últimas palavras dão realmente uma noção bastante precisa daquilo que ela murmurava ao pobre-diabo que passa diante de uma vitrine com objetos belos e caros. Estes não querem saber nada dele; não sentem nenhuma empatia por ele” (p. 52).

“Pois a multidão é de fato um capricho da natureza, se se pode transpor essa expressão para as relações sociais. Uma rua, um incêndio, uma acidente de trânsito, reúnem pessoas, como tais, livres de determinação de classe. Apresentam-se como aglomerações concretas, mas socialmente permanecem abstratas, ou seja, isoladas em seus interesses privados. Seu modelo são os fregueses que, cada qual em seu interesse privado, se reúnem na feira em torno da ‘coisa comum’. Muitas vezes, essas aglomerações possuem apenas existência estatística. Ocultam aquilo que perfaz sua real monstruosidade, ou seja, a massificação dos indivíduos por meio do acaso de seus interesses privados. Porém, se essas aglomerações saltam aos olhos – e disso cuidam os Estados totalitários fazendo-se permanente e obrigatória em todos os projetos a massificação de seus clientes –, então vem à luz seu caráter ambíguo, sobretudo para os próprios implicados. Estes racionalizam o acaso da economia mercantil – acaso que os junta – com o ‘destino’ no qual a ‘raça’ se reencontra a si mesma. Com isso, dão curso livre simultaneamente ao instinto gregário e ao comportamento automático” (p. 58).

“Por detrás das máscaras que usava o poeta em Baudelaire guardava o incógnito. O tanto que tinha de provocador no trato, tinha de prudente em sua obra. O incógnito é a lei de sua poesia. Sua versificação é comparável à planta de uma grande cidade, na qual alguém pode movimentar-se despercebido, encoberto por quarteirões de casas, portais, cocheiras e pátios. Nessa planta indicam-se às palavras seu lugar exato como aos conspiradores antes da eclosão da revolta. Baudelaire conspira com a própria língua, calcula os seus efeitos passo a passo. Que sempre tenha evitado descobrir-se frente ao leitor atraiu os mais capazes” (p. 95).

“Na verdade, a experiência é matéria da tradição, tanto na vida privada quanto na coletiva. Forma-se menos com dados isolados e rigorosamente fixados na memória, do que dados acumulados e com freqüência inconscientes, que afluem à memória” (105).

Se fosse intenção da imprensa fazer com que o leitor incorporasse à própria experiência as informações que lhe fornece, não alcançaria seu objetivo. Seu propósito, no entanto, é o oposto, e ela o atinge. Consiste em isolar os acontecimentos do âmbito onde pudessem afetar a experiência do leitor. Os princípios da informação jornalística (novidade, concisão, inteligibilidade e, sobretudo, falta de conexão entre uma notícia e outra) contribuem para esse resultado, do mesmo modo que a paginação e o estilo lingüísticos” (p. 107).

“Na substituição da antiga forma narrativa pela informação, e da informação pela sensação reflete-se a crescente atrofia da experiência. Todas essas formas, por sua vez, se distinguem da narração, que é uma das mais antigas formas de comunicação. Esta não tem a pretensão de transmitir um acontecimento, pura e simplesmente (como a informação o faz); integra-o à vida do narrador, para passá-lo aos ouvintes como experiência. Nela ficam impressas as marcas do narrador como os vestígios das mãos do oleiro no vaso de argila” (p. 107).

“Emprestar uma alma a esta multidão é o desejo mais íntimo do flâneur. Os encontros com ela são para ele a vivência que nunca se cansa de narrar. Certos reflexos dessa ilusão não podem ser abstraídos da obra de Baudelaire – uma ilusão que, de resto, continua atuando até hoje. O unanimismo de Jules Romain é um de seus mais admirados frutos tardios” (p. 113).

“É a multidão fantasma das palavras, dos fragmentos, dos inícios de versos com que o poeta, nas ruas abandonadas, trava o combate pela presa poética” (p. 113).

“O pedestre sabia ostentar em certas condições sua ociosidade provocativamente. Por algum tempo, em torno de 1840, foi de bom-tom levar tartarugas a passear pela galerias. De bom grado, o flâneur deixava que elas lhe prescrevessem o ritmo de caminhar. Se o tivessem seguido, o progresso deveria ter aprendido esse passo. Não foi ele, contudo, a dar a última palavra, mas sim Taylor, transformando em lema o ‘Abaixo a flânerie” (p. 122).

“Entre os inúmeros gestos de comutar, inserir, acionar etc., especialmente o ‘click’ do fotógrafo trouxe consigo muitas conseqüências. Uma pressão do dedo bastava para fixar um acontecimento por tempo ilimitado. O aparelho como que aplicava ao instante um choque póstumo” (p. 124).

“Baudelaire fala do homem que mergulha na multidão como em um tanque de energia elétrica” (p. 124 e 125).

“Uniformidade da indumentária, do comportamento e, não menos importante, a uniformidade dos gestos. O sorriso – exemplo a dar o que pensar. É presumivelmente, o que está subentendido no hoje familiar keep smiling, que atua no caso como um amortecedor gestual” (p. 125).

“O operário não-especializado é o mais profundamente degradado pelo condicionamento imposto pela máquina. Seu trabalho se torna alheio a qualquer experiência. Nele a prática não serve para nada o que o Lunapark realiza com seus brinquedos oscilantes, giratórios e diversões similares não é senão uma amostra do condicionamento a que se encontra submetido o operário não-especializado na fábrica (uma amostra que lhe substituirá por vezes toda uma programação, pois a arte do cômico, na qual o homem do povo se permitia ser iniciado no Lunapark, prosperava nos períodos de desocupação” (p. 126).

“Quanto mais curto é o tempo de adestramento do operário industrial, tanto mais longo é o dos militares. Talvez faça parte da preparação da sociedade para uma guerra total essa transferência do adestramento da produção para o da destruição” (p. 126).

“Na vida, quanto mais cedo alguém formular um desejo, tanto maior será a possibilidade de que se cumpra. Quando se projeta um desejo distante no tempo, tanto mais se pode esperar por sua realização. Contudo, o que nos leva longe no tempo é a experiência que o preenche e o estrutura. Por isso o desejo realizado é o coroamento da experiência. Na simbólica dos povos, a distância no espaço pode assumir o papel da distância no tempo; esta a razão porque a estrela cadente, precipitando-se na infinita distância do espaço, se transformou no símbolo do desejo realizado. A bolinha de marfim rolando para a próxima casa numerada, a próxima carta em cima de todas as outras, é a verdadeira antítese da estrela cadente. O tempo contido no instante em que a luz da estrela cadente cintila para uma pessoa é constituído da mesma matéria do tempo definido por Joubert...” (p. 129).

“É contudo inerente ao olhar a expectativa de ser correspondido por quem o recebe. Onde essa expectativa é correspondida (e ela, no pensamento, tanto pode se ater a um olhar deliberado da atenção como a um olhar na simples acepção da palavra), aí cabe ao olhar a experiência da aura em toda a sua plenitude” (p. 139).

“Um olhar poderia ter efeito tanto mais fascinante quanto mais profunda fosse a distância daquele que olha e que foi superada nesse olhar. Esta dinâmica continua intacta nos olhos que refletem o olhar como um espelho. Estes olhos, por isso mesmo, nada conhecem da distância” (p. 141).

“É evidente que o olho do habitante das metrópoles está sobrecarregado com funções de segurança” (p. 142).

“O spleen é o sentimento que corresponde à catástrofe em permanência” (p. 154).

“O curso da História como se apresenta sob o conceito da catástrofe não pode dar ao pensador mais ocupação que o caleidoscópio nas mãos de uma criança, para a qual, a cada giro, toda a ordenação sucumbe ante uma nova ordem. Essa imagem tem uma bem fundada razão de ser. Os conceitos dos dominantes foram sempre o espelho graças ao qual se realizava a imagem de uma ‘ordem’ – o caleidoscópio deve ser destroçado” (p. 154).

“Quanto mais o poeta for rico em recursos em sua arte, tanto mais será desprovido de subterfúgios perante a sua época” (p. 156).

“A idéia do eterno retorno derivava seu esplendor de já não se poder contar em todas as circunstâncias, como retorno da estabilidade em prazos mais curtos que os oferecidos pela eternidade. O retorno das constelações cotidianas se tornou gradativamente mais raro e com isso o surdo pressentimento de que nos deveríamos contentar com as constelações cósmicas pôde despertar. Em suma, o hábito se preparava para renunciar a alguns dos seus direitos. Diz Nietzsche: ‘Amo os hábitos de curta duração’, e já Baudelaire foi incapaz de desenvolver hábitos estáveis durante a vida inteira” (p. 157).

“Na prostituição das grandes cidades a mulher se torna artigo de massa” (p. 162).

“O ambiente objetivo do homem adota, cada vez mais brutalmente, a fisionomia da mercadoria. Ao mesmo tempo, a propaganda se põe a ofuscar o caráter mercantil das coisas. À enganadora transfiguração do mundo das mercadorias se contrapõe sua desfiguração no alegórico. A mercadoria procura olhar-se a si mesma na face, ver a si própria no rosto. Celebra sua harmonização na puta” (p. 163).

“Procurou, de uma maneira heróica, humanizar a mercadoria. Esse intento tem sua contrapartida na tentativa burguesa simultânea de humanizar a mercadoria de uma maneira sentimental. Dar à mercadoria, como ao homem, uma casa. Isso era o que, naquela época, se esperava dos estojos, das capas e dos forros com que se cobriam os objetos caseiros dos burgueses” (p. 164).

“Para o dialético, o que importa é ter o vento da história universal em suas velas. Para ele pensar significa: içar velas. Como estão dispostas, isso importa. Para ele, palavras são apenas velas. O modo como são dispostas é o que transforma em conceito” (p. 166).

“A lembrança é a relíquia secularizada” (p. 172).

“A lembrança é o complemento da ‘vivência’, nela se sedimenta a crescente auto-alienação do ser humano que inventariou seu passado como propriedade morta. No século XIX, a alegoria saiu do mundo exterior para se estabelecer no mundo interior. A relíquia provém do cadáver, a lembrança, da experiência morta, que, eufemisticamente, se intitula vivência” (p. 172).

“Citação de Hofmannstahl: “Ler aquilo que nunca foi escrito”.

“A rua conduz o flâneur a um tempo desaparecido. Para ele, todas são íngremes. Conduzem para baixo, se não para as mães, para um passado que pode ser tanto mais enfeitiçante na medida em que não é o seu próprio, o particular. Contudo, este permanece sempre o tempo de uma infância. Mas por que o de sua vida vivida? No asfalto sobre o qual caminha, seus passos despertam uma surpreendente ressonância. O lampião a gás que resplandece sobre o calçamento projeta uma luz ambígua sobre esse fundo duplo” (p. 185 e 186).

“Uma embriaguez acomete aquele que longamente vagou sem rumo pelas ruas. A cada passo, o andar ganha potência crescente. Sempre menor se torna a sedução das lojas, dos bistrôs, das mulheres sorridentes e sempre mais irresistível o magnetismo da próxima esquina, de uma massa de folha distantes, de um nome de rua. Então vem a fome. Mas ele não quer saber das mil e uma maneiras de aplacá-la. Como um animal ascético, vagueia através de bairros desconhecidos até que, no mais profundo esgotamento, afunda em seu quarto, que o recebe estranho e frio” (p. 186).

“Paisagem – eis no que se transforma a cidade para o flâneur. Melhor ainda, para ele, a cidade se cinde em seus pólos dialéticos. Abre-se para ele como paisagem e, como quarto, cinge-o” (p. 186).

“Quando dizemos que um rosto se assemelha a outro, isso significa que certos traços desse segundo rosto, para nós, se mostram no primeiro, sem que este deixe de ser o que era” (p. 187).

“Em 1939, era elegante levar consigo uma tartaruga ao passear. Isso dá uma noção do ritmo do flanar nas galerias” (p. 187).

“As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente inquieto, eternamente agitado, que, entre os muros dos prédios vive, experimenta, reconhece e inventa tanto quanto os indivíduos ao abrigo de suas quatro paredes. Para esse ser coletivo, as tabuletas das firmas, brilhantes e esmaltadas, constituem decoração mural tão boa ou melhor que o quadro a óleo no salão burguês; os muros com ‘défense d’afficher’ (proibido colocar cartazes) são sua escrivaninha, as bancas de jornal, seus móveis do quarto de dormir, e o terraço do café. A sacada de onde observa o ambiente. O gradil, onde os operários do asfalto penduram a jaqueta, isso é o vestíbulo, e o portão que, na linha dos pátios, leva ao ar livre, o longo corredor que assusta o burguês, é para ele o acesso aos aposentos da cidade. A galeria é o seu salão. Nela, mais do que em qualquer outro lugar, a rua se dá a conhecer como o interior mobiliado e habitado pelas massas” (p. 194 e 195).

“O flâneur é um observador do mercado. O seu saber é vizinho à ciência oculta da conjuntura. Ele é, no reino dos consumidores, o emissário do capitalista” (p. 199).

“A fantasmagoria do flâneur: a partir dos rostos, fazer a leitura da profissão, da origem e do caráter” (p. 202).

“Vestígio e aura. O vestígio é aparecimento de uma proximidade, por mais distante que esteja aquilo que o deixou. A aura é o aparecimento de uma distância, por mais próximo que esteja aquilo que a suscita. No vestígio, apossamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera de nós” (p. 226).

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. 1ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Obras escolhidas; v.3).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ricardo Piglia conversa con Rodrigo Fresán y Canal-L

Entrelinhas - Ricardo Piglia



O programa entrevista o autor de Respiração Artificial - romance que realiza uma síntese das duas principais vertentes da literatura argentina contemporânea, representadas pelo cerebral Jorge Luis Borges e pelo visceral Roberto Arlt. Piglia esteve na Fliporto, a festa literária pernambucana, que este ano aconteceu em Olinda, onde conversou com o Entrelinhas

Entrevista al escritor argentino Ricardo Piglia



Aprovechamos la presencia del autor en la Casa tras presentar su última novela "Blanco nocturno".

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A literatura e o método de Ricardo Piglia



Considerado um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o romancista argentino Ricardo Piglia esteve no Brasil em novembro para uma participação na Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco. Lá, concedeu uma entrevista a VEJA em que falou em detalhes da sua produção e de seu novo livro, "Blanco Nocturno".

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O último leitor, Ricardo Piglia


Prólogo

“O real não é o objeto da representação, mas o espaço em que se dá um mundo fantástico” (p. 12).


“A arte é uma forma sintética do universo, um microcosmo que reproduz a especificidade do mundo” (p. 13).


“Uma moeda era um minúsculo oráculo privado, e nas encruzilhadas da vida era jogada para o alto para que se soubesse o que decidir. O destino está na esfinge de uma moeda” (p. 14).


“– Um mapa – disse – é uma síntese da realidade, um espelho que nos guia na confusão da vida” (p. 14).


“A imagem imprecisa de meu rosto se refletia no vidro da janela” (p. 17).


“Naquele momento compreendi o que já sabia: o que podemos imaginar sempre existe, em outra escala, em outro tempo, nítido e distante, como num sonho” (p. 17).

O que é um leitor/ Papéis avulsos


“Um leitor também é aquele que lê mal, distorce, percebe confusamente. Na clínica da arte de ler, nem sempre o que tem melhor visão lê melhor” (p. 19).


“Primeira questão: a leitura é uma arte da microscopia, da perspectiva e do espaço (não só os pintores se ocupam dessas coisas). Segunda questão: a leitura é coisa de óptica, de luz, uma dimensão da Física” (p. 20).


“O leitor viciado, o que não consegue deixar de ler, e o leitor insone, o que está sempre desperto, são representações extremas do que significa ler um texto, personificações narrativas da complexa presença do leitor na literatura. Eu os chamaria de leitores puros; para eles a leitura não é apenas uma prática, mas uma forma de vida” (p. 21).


“Não nos perguntaremos tanto o que é ler, como quem é aquele que lê (onde está lendo, para quê, em que condições, qual é a sua história)” (p. 24).


“Para poder definir o leitor, diria Macedonio, primeiro é preciso saber encontrá-lo. Ou seja, nomeá-lo, individualizá-lo, contar sua história. A literatura faz isso: dá ao leitor um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica” (p. 25).


Os rastros de Tlön


“Sempre existe algo de inquietante, ao mesmo tempo estranho e familiar, na imagem concentrada de alguém que lê, uma misteriosa intensidade que a literatura fixou inúmeras vezes. O sujeito se isolou , parece separado do real” (p. 25).

“O exame microscópico das leituras também se expande: o leitor vai da citação para o texto como série de citações, do texto para o volume como série de textos, do volume para a enciclopédia, da enciclopédia para a biblioteca. Esse espaço fantástico não tem fim porque supõe a impossibilidade de encerrar a leitura, a sensação acachapante de tudo o que ainda falta ler” (p. 26).


“A falta é imediatamente assimilada ao que foi subtraído. Há nisso um quê político que remete ao complô, a uma lógica cruel e sigilosa que altera a ordem do mundo. Alguém está de posse do que falta, alguém o apagou. Não é um enigma nem um mistério, é um segredo, no sentido etimológico (scernere significa ‘pôr à parte’, ‘esconder’). Uma página – um livro – sumiu, a carta foi roubada, o sentido vacila e, nessa vacilação, emerge o fantástico” (p. 27).


“A versão contemporânea da pergunta ‘o que é um leitor?’ se instala nesse lugar. O leitor perante o infinito e a proliferação. Não o leitor que lê um livro, mas o leitor perdido numa rede de signos” (p. 27).


“Podemos ler filosofia como literatura fantástica, diz Borges, ou seja, podemos transformar a filosofia em ficção mediante um deslocamento e um erro deliberado, um efeito produzido no ato mesmo de ler” (p. 28).


“A leitura é ao mesmo tempo a construção de um universo e um refúgio diante da hostilidade do mundo” (p. 29).


“A quietude a que se refere a hipálage está no ato de ler; tudo fica suspenso; a vida, por fim, se deteve” (p. 29).


“Encontramos de novo a fissura, a excisão que leitura viria exprimir. Um contraste entre as exigências práticas, digamos, e aquele momento de quietude, de solidão, aquela forma de recolhimento, de isolamento, em que o sujeito se perde, indeciso, na rede dos signos” (p. 29).


“Melhor seria dizer: a leitura constrói um espaço entre o imaginário e o real, desmonta a clássica oposição binária entre ilusão e a realidade. Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler” (p. 29).


“Muitas vezes o ponto em que se cruzam o sonho e a vigília, a vida e a morte, o real e a ilusão, é representado pelo ato de ler” (p. 29).


“A pergunta ‘o que é um leitor?’ é também a pergunta sobre como os livros vão parar nas mãos daquele que os lê, como é narrada a entrada nos textos” (p. 33).


“A leitura, como dissemos, é vista como isolamento e solidão, como outro tipo de subjetividade. Nesse sentido, Hamlet é um herói da consciência moderna porque é um leitor. O que está em jogo é a interioridade” (p. 36).


“A leitura se opõe a outro universo de sentido. A outra maneira de construir o sentido, melhor dizendo. Habitualmente, o que o sujeito está deixando de lado é um aspecto do mundo, um mundo paralelo. E o ato de ler, de ter um livro, costuma articular essa passagem. A letra tem algo de mágico, como se convocasse um mundo ou o anulasse” (p. 37).


“A escrita existe caso tenham sido criadas as condições que a possibilitem” (p. 48).


“Esse procedimento de relacionar ‘por caminhos tortuosos’ o vivido com o escrito, de perceber fragmentos cifrados de realidade nos textos, é uma das chaves do efeito Kafka” (p. 50).
“A literatura dá forma à experiência vivida, constrói-a como tal e a antecipa” (p.50).


“A escrita é um resumo da vida, condensa a experiência e a torna possível” (p. 51).


“Só entende o que viveu, ou o que está por viver, quando está escrito. Narrar não serve para recordar, mas para tornar visível. Para tornar visível as conexões, os gestos, os lugares, a disposição dos corpos” (p. 51).


“Escreve ao outro aquilo que viveu. Escreve para que o outro leia o sentido novo que a narração produziu no que já foi vivido. O outro deve ler a realidade tal como ele a experimenta” (p. 51).


“Ler desvenda novas conexões” (p. 54).


“Somente é visível o que é impossível. Toda luneta é de pouco alcance” (p. 55).


“Cada leitura produz uma narrativa. A leitura suspende a experiência e a recompor em outro contexto” (p. 55).


“Aquela mulher fugaz é uma conexão, uma ponte, está ligada a sua literatura, àquilo que Kafka entende por literatura” (p. 56).


“É possível prender uma mulher por intermédio da escrita? Para fazê-la fazer o quê? Ler... Antes de mais nada é preciso pô-la à prova com as cartas: depois submete-a a uma leitura obediente, uma empregada; tem de ler e permanecer presa à escrita” (p. 59).

“As cartas são uma prova desse mecanismo de controle e sedução (e de escravidão)” (p. 59).


“Obrigar o outro a ler. Uma mulher é a figura sentimental que permite realizar uma união entre a escrita e a vida” (p. 59).


“Todos os escritores são cegos – em sentido alegórico à la Kafka –, não conseguem ver seus manuscritos. Têm necessidade do olhar de um outro. Uma mulher amada que leia a partir de outro lugar, mas com seus próprios olhos. Não é possível ler os próprios textos se não for sob os olhos de outrem” (p. 68).


“... a assimilação do leitor a uma posição feminina na tradição grega. A passividade estaria ligada à impossibilidade do leitor de discutir e interrogar um texto escrito, diferentemente do que acontece na oralidade” (p. 72).


“Como em Hamlet, como em D. Quixote, a melancolia é uma marca vinculada à leitura, em certo sentido, à doença da leitura, ao excesso dos mundos irreais, ao olhar caracterizado pela contemplação e o excesso de sentido. Mas não se trata de loucura, do limite produzido pela leitura a partir do exemplo clássico do Quixote, mas da lucidez extrema” (p. 77).


“O leitor entendido como um decifrador, como intérprete, muitas vezes foi uma sinédoque ou uma alegoria do intelectual. A figura do sujeito que lê faz parte da construção da figura do sujeito intelectual no sentido moderno. Não só como letrado, mas como alguém que enfrenta o mundo numa relação que em princípio é mediada por um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção do sentido. A indecisão do intelectual é sempre a incerteza quanto à interpretação, quanto às múltiplas possibilidades da leitura” (p. 98).


“Há uma tensão entre o ato de ler e a ação política. Certa oposição implícita entre leitura e decisão, entre leitura e vida prática. Essa tensão entre a leitura e a experiência, entre a leitura e a vida, está muito presente na História que estamos tentando construir. Muitas vezes o que se leu é o filtro que permite dar sentimento à experiência; a leitura é um espelho da experiência, define-a, dá-lhe forma” (p. 98).


“Se o narrador é aquele que transmite o sentido do vivido o leitor é aquele que está em busca do sentido da experiência perdida” (p. 100).


“A leitura se opõe a um mundo hostil, como os restos ou lembranças de outra vida” (p. 101).


“Existe uma tensão entre a vida social e uma coisa pessoal e privada, uma tensão entre a vida política e a vida pessoal. E a leitura é a metáfora dessa diferença” (p. 102).
“A leitura vinculada a certa solidão em meio à rede social é um diferença que resiste” (p.106).


“Trata-se de unir a arte e a vida, escrevendo o que se vive. Experiência vivida e escrita imediata, quase escrita automática” (p. 109).


“Ser escritor é ter um fundo de experiência sobre o qual se apóiam e se definem a forma e o estilo” (p. 109).


“A história da leitura é também a História da iluminação” (p. 139).
“É freqüente que a idéia de alguém que tem apenas um livro em que se cifra um mundo perdido se reproduza em escala ampliada” (p. 144).


“Um território devastado no qual alguém reconstrói o mundo perdido a partir da leitura de um livro. Melhor seria dizer: a crença no que está escrito num livro permite manter e reconstruir o real perdido” (p. 145).


“A experiência se organiza e se escande a partir do ato de ler” (p. 148).


“O leitor ideal é aquele que está fora da sociedade” (p. 148).

“O sujeito que lê na solidão se isola porque está imerso na sociedade, do contrário não precisaria fazê-lo” (p. 149).


“Nenhum livro está, por mais bem-sucedido que pareça. O texto fechado e perfeito não existe: o acabamento, no sentido artesanal, faz com que se busquem os lugares de construção em seu avesso e se apresente o problema do sentido de outra maneira” (p. 158).


“A leitura como um modo de sonhar acordado, como sonho diurno, como entrada em outra realidade” (p. 170).

PIGLIA, Ricardo. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

XIV Jornada do ESIPP: desCONSTRUINDO o feminino

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Psychoanalysis and Literature



Cathy Caruth, Mark Edmundson, Paul Fry, Margaret Ann Fitzpatrick Hanly, and Meredith Anne Skura.

Literature and Psychoanalysis: reciprocal insights



Roundtable discussion with Maurice Charney, Geoffrey Hartmann, Zvi Lothane, Paul Schwaber, and Meredith Anne Skura.

150 years after the birth of Freud



Roundtable discussion featuring Sander Abend, Jacqueline Amati Mehler, Alain de Mijolla, Claudio Eizirik, Charles Hanly, and Edward Nersessian.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Heinz Kohut, reflections on empathy



Kohut's final speech, "Reflections on Empathy", was given at the 1981 Self Psychology conference in Berkeley, California. He was aware he was dying, and at the conclusion of his speech he announced his final farewell. This is a Lifespan Learning Institute video.

Wilfred Bion en la Tavistock Clinic



El siguiente fragmento corresponde al pasaje comprendido entre marcas del Seminario II de la edición en español editada por Hormé y traducida por Leandro Stitzman.Versión original: The Tavistock Seminars. Karnac, London, 2005 Fuente del video: http://www.melanie-klein-trust.org.uk/index.html

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A supersticiosa ética do leitor, Jorge Luiz Borges


A indigente condição das nossas letras, sua incapacidade de atrair, produziram uma superstição do estilo, uma distraída leitura de atenções parciais. Os que padecem dessa superstição entendem por estilo, não a eficácia ou ineficácia de uma página, mas sim as habilidades aparentes do escritor: suas comparações, sua acústica, os lances de sua pontuação e de sua sintaxe. São indiferentes à própria convicção ou à própria emoção: buscam tecniquerías (a palavra é de Miguel de Unamuno) que lhes informarão se o escrito tem ou não direito a lhes agradar. Ouviram dizer que a adjetivação não deve ser trivial, e opinarão que uma determinada página está mal escrita caso não encerre surpresas na ligação dos adjetivos com os substantivos, ainda que sua finalidade geral esteja realizada. Ouviram dizer que a concisão é uma virtude, e entendem por conciso quem se demora em dez frases breves e não quem maneje uma frase longa. (Exemplos normativos dessa charlatanice da brevidade, desse frenesi sentencioso, podem ser encontrados na maneira de escrever do célebre estadista dinamarquês Polônio, de Hamlet, ou desse PolÔnio natural que é Baltazar Gracián.) Ouviram dizer que a repetição, seguida e aproximada, de uma determinada sílaba é cacofonia, e simularão que em prosa isto lhes dói, ainda que em verso lhes proporcione um gosto especial (igualmente simulado, acho eu). Significa que não se fixam na eficácia do mecanismo, e sim na disposição de seus componentes. Subordinam a emoção à ética, ou melhor, a uma etiqueta não contestada. Generalizou-se de tal maneira esta inibição, que já não restam leitores no sentido ingênuo da palavra, já que todos são críticos potenciais.

Tão aceita é esta superstição, que ninguém se atreverá a admitir .ausência de estilo em obras que a ele se referem, principalmente se são obras clássicas. Nao há livro bom sem sua atribuição estilística, da qual ninguém pode prescindir — exceto o autor. Sirva-nos de exemplo o D. Quijote. A crítica espanhola, diante da comprovada excelência dessa novela, não quis pensar que o seu maior valor (e talvez o único irrecusável) fosse o psicológico, e lhe atribui dons de estilo que a muitos parecerão misteriosos. Em verdade, basta revisar alguns parágrafos do Quijote para sentir que Cervantes não era um estilista (pelo menos na atual acepção acústico-decorativa da palavra) e que lhe interessavam demasiado os destinos de Quixote e de Sancho para deixar-se distrair por sua própria voz. Agudeza y arte de ingenio, de Baltazar Gracián — tão laudativa de outras prosas que narram, como a de Guzmán de Alfarache — não se resolve a lembrar-se de Dom Quijote. Quevedo versifica em tom de broma a sua morte, esquecendo-se dele. Poderá objetar-se que os dois exemplos são negativos, porém Leopoldo Lugones, nosso contemporâneo, emite um julgamento explícito: "O estilo é a debilidade de Cervantes, e os estragos causados por sua influência são grandes. Pobreza de cor, insegurança de estrutura, parágrafos arquejantes que nunca acertam com o final, desenvolvendo-se em retorcimentos intermináveis, repetições e falta de proporção, esse o legado dos que não vendo senão na forma a suprema realização da obra imortal, ficaram roendo uma casca cujas asperezas escondiam a fortaleza e o sabor". (El império jesuítico, página 59). E diz, também, o nosso Groussac: "Se hão de descrever-se as coisas como são, deveremos confessar que uma boa metade da obra é de tal forma florida e desalinhavada, que amplamente se justifica a pecha de humilde idioma que lhe atribuíam os rivais de Cervantes. E com isto não me refiro única nem principalmente às impropriedades verbais, às intoleráveis repetições ou trocadilhos, nem tampouco aos retalhos de pesadas grandiloqüências que nos oprimem, mas tão somente à contextura, geralmente desbotada, dessa prosa de sobremesa" (Crítica literária, página 41). Prosa de sobremesa, prosa conversada e não declamada, é essa de Cervantes, e nenhuma outra lhe faz falta. Imagino que esta mesma observação será justa no caso de Dostoievski, de Montaigne ou de Samuel Butler.

Esta vaidade de estilo se afunda em outra vaidade mais patética, que é a da perfeição. Não existe um escritor métrico, por casual e nulo que seja, que não tenha cinzelado (o verbo costuma figurar em sua conversação) seu soneto perfeito, monumento minúsculo que custodia sua possível imortalidade, e que as novidades e aniquilações do tempo deverão respeitar. Trata-se geralmente de um soneto sem rípios, mas que é, ele todo, um rípio; quer dizer, é um resíduo, uma inutilidade. Essa falácia de permanência (Sir Thomas Browne: Urn Burial) foi formulada e recomendada por Flaubert nesta sentença: "A correção (no sentido mais elevado da palavra) obra com o pensamento o mesmo que obraram as águas da Estígia com o corpo de Aquiles: fazem-no invulnerável e indestrutível" (Correspondance, II, página 199). O parecer é terminante, porém não chegou até mim nenhuma experiência que o confirme. (Prescindo das virtudes tónicas da Estígia; essa reminiscência infernal não é um argumento, é uma ênfase.) A página de perfeição, a página onde nenhuma palavra pode ser alterada sem dano, é a mais precária de todas. As mudanças da linguagem apagam os sentidos laterais e os matizes; a página "perfeita" é a que consta desses delicados valores e que com mais facilidade se desgasta. Inversamente, a página que tem vocação de imortalidade pode atravessar o fogo das erratas, das versões aproximativas, das leituras distraídas, das incompreensões, sem deixar sua alma na provação. Não se pode alterar impunemente (assim o afirmam aqueles que restabelecem o seu texto) nenhuma das linhas fabricadas por Gôngora; o Quijote, porém, ganha batalhas póstumas contra seus tradutores e sobrevive a qualquer versão descuidada. Heine, que jamais o ouviu em espanhol, celebrou-o para sempre. Mais vivo que os ansiosos artifícios verbais do estilista é o fantasma alemão, escandinavo ou industânico do Quijote.

Não gostaria que a moralidade desta comprovação fosse compreendida como desespero ou niilismo. Tampouco desejo fomentar negligências, nem creio em uma virtude mística na frase obrusa e no epíteto grosseiro. Afirmo que a omissão voluntária desses dois ou três agrados menores — distrações oculares da metáfora, auditivas do ritmo e surpreendedoras da interjeição ou o hipérbato — costumam provar-nos que a paixão do tema tratado manda no escritor, e isto é tudo. A aspereza de uma frase lhe é tão indiferente à genuína literatura como a sua suavidade. A economia prosódica não é menos forasteira da arte que a caligrafia ou a ortografia, ou, ainda, a pontuação: certeza de que as origens judiciais da retórica e a musicalidade do canto nos ocultaram sempre. A equivocação favorita da literatura contemporânea é a ênfase. Palavras definitivas, palavras que postulam sabedorias divinatórias ou angelicais ou, ainda, de uma firmeza mais que humana — único, nunca, sempre, tudo, perfeição, acabado — pertencem ao comércio habitual de todo escritor. Não pensam que falar demasiado de uma coisa revele maior inabilidade do que não falar nada, e que a generalização e a intensificação descuidadas possam traduzir uma pobreza que é sentida pelo leitor. Suas imprudências causam uma depreciação do idioma. Assim ocorre em francês, cuja locução Je suis navré muitas vezes quer dizer Não irei tomar chá com vocês, e cujo aimer foi rebaixado a gostar. Esse hábito hiperbólico do francês está presente, também, em sua linguagem escrita; Paul Valéry, herói da lucidez que organiza, transcreve esquecíveis e esquecidas linhas de La Fontaine, e afirma nelas (contra alguém): ces plus beaux vers du monde (o mais bonito verso do mundo, Variété, 84).

Quero lembrar-me agora do futuro e não do passado. Já se pratica a leitura em silêncio, sintoma venturoso. Já existe o leitor mudo de versos. Dessa capacidade sigilosa a uma escritura puramente ideográfica — direta comunicação de experiências, não de sons — há uma distância enorme, porém sempre menos dilatada que o futuro.

Releio estas negações e penso: Ignoro se a música sabe desesperar da música e o mármore do mármore, porém a literatura é uma arte que sabe profetizar o tempo em que terá emudecido, enfurecer-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar seu fim.

(1930)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entrevista com Gabriel Rolón



Entrevista completa a Gabriel Rolón en Mundo Casella.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Marcha Fúnebre, Machado de Assis


O DEPUTADO Cordovil não podia pregar olho uma noite de agosto de 186... Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do Imperador, e durante o baile não tivera o mínimo incômodo moral nem físico. Ao contrário, a noite foi excelente; tão excelente que um inimigo seu, que padecia do coração, faleceu antes das dez horas, e a notícia chegou ao Cassino pouco depois das onze.
Naturalmente concluis que ele ficou alegre com a morte do homem, espécie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta de outra. Digo te que concluis mal; não foi alegria, foi desabafo. A morte vinha de meses, era daquelas que não acabam mais, e moem, mordem, comem, trituram a pobre criatura humana. Cordovil sabia dos padecimentos do adversário. Alguns amigos, para o consolar de antigas injúrias, iam contar lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil pagava lhes com alguma palavra de compaixão, que o alvissareiro anotava, e repetia, e era mais sincera naquele que neste. Enfim acabara de padecer; daí o desabafo.
Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em política, não gostava do mal alheio. Quando rezava, ao levantar da cama: "Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dívidas, como nós perdoamos aos nossos devedores"... não imitava um de seus amigos que rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de língua; esse chegava a cobrar além do que eles lhe deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguém, decorava tudo e mais alguma cousa, e ia repeti lo a outra parte. No dia seguinte, porém, a bela oração de Jesus tornava a sair dos lábios da véspera com a mesma caridade de ofício.
Cordovil não ia nas águas desse amigo; perdoava deveras. Que entrasse no perdão um tantinho de preguiça, é possível, sem aliás ser evidente. Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa minguar força à ação do mal. Não esqueça que o deputado só gos
tava do mal alheio em política, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto à causa da inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.
Coitado! descansou, disse Cordovil.
Conversaram da longa doença do finado. Também falaram das várias mortes deste mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de César, não por motivo do ferro, mas por inesperada e rápida.
Tu quoque? perguntou lhe um colega rindo.
Ao que ele, apanhando a alusão, replicou:
Éu, se tivesse um filho, quisera morrer às mãos dele. O parricídio, estando fora do comum, faria a tragédia mais trágica.
Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com sono, e foi cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa, sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto, que duas praças de polícia estavam levantando do chão.
Assassinado? perguntou ele ao lacaio, que descera da almofada para saber o que era.
Não sei, não, senhor.
Pergunta o que é.
Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, que falava a outros.
O moço aproximou se da portinhola, antes que o deputado recusasse ouvi lo. Referiu lhe então em poucas palavras o acidente a que assistira.
Vínhamos andando, ele adiante, eu atrás. Parece que assobiava uma polca. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e disse que "morreu de repente". Foi se juntando gente, a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou dele. Quer ver o defunto?
Não, obrigado. Já se pode passar?
Pode.
Obrigado. Vamos, Domingos.
Domingos trepou à almofada, o cocheiro tocou os animais, e o carro seguiu até à Rua de S. Cristóvão, onde morava Cordovil.
Antes de chegar à casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada à do inimigo pessoal, excelente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delícia passada ou em que esperança futura; revivia o que vivera, ou antevia o que podia viver, senão quando, a morte pegou da delícia ou da esperança, e lá se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dor, ou, se alguma teve, foi acaso brevíssima, como um relâmpago que deixa a escuridão mais escura.
Então pôs o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta anos não dançavam. Podia até dizer que ele só dançou até aos vinte. Não era dado a moças, tivera um afeição única na vida, aos vinte e cinco anos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe faltassem noivas, mormente depois de perder o avô, que lhe deixou duas fazendas. Vendeu as ambas e passou a viver consigo, fez duas viagens à Europa, continuou a política e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão delas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da Marinha, não passou de sete meses. Nem a pasta lhe deu glória, nem a demissão desgosto. Não era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.
Mas se lhe tivesse sucedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil compôs de imaginação a cena, ele caído de bruços ou de costas, o prazer turbado, a dança interrompida... e dali podia ser que não; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a orquestra continuando por instantes a oposição do compasso e da confusão. Não faltariam braços que o levassem para um gabinete, já morto, totalmente morto.
"Tal qual a morte de César", ia dizendo consigo.
E logo emendou:
"Não, melhor que ela; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. Não sentiria nada."
Cordovil deu consigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que após longos dias ou longos meses e anos, como o adversário que perdera algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de chapéu, que se perdia no ar com a própria mão e a alma que lhe dera movimento. Um cochilo e o sono eterno. Achava lhe um só defeito, o aparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do Imperador, ao som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas públicas, essa morte pareceria de encomenda. Paciência, uma vez que fosse repentina.
Também pensou que podia ser na Câmara, no dia seguinte, ao começar o debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e citações. Não quis imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou e apareceu de si mesmo. O salão da Câmara, em
vez do do Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silêncio. Cordovil em pé começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e fitar o presidente: "Releve me a Câmara que lhe tome algum tempo, serei breve, buscarei ser justo..." Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a língua pararia, o coração também, e ele cairia de golpe no chão. Câmara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a erguê lo; um, que era médico, verificaria a morte; não diria que fora de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por outro estilo mais técnico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da comissão que acompanharia o finado ao cemitério...
Cordovil quis rir da circunstância de imaginar além da morte, o movimento e o saimento, as próprias notícias dos jornais, que ele leu de cor e depressa. Quis rir, mas preferia cochilar; os olhos é que, estando já perto de casa e da cama, não quiseram desperdiçar o sono, e ficaram arregalados.
Então a morte, que ele imaginara pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Câmara, apareceu ali mesmo no carro. Supôs ele que, ao abrirem lhe a portinhola, dessem com o seu cadáver. Sairia assim de urna noite ruidosa para outra pacífica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem espécie alguma de luta ou resistência. O estremeção que teve fez lhe ver que não era verdade. Efetivamente, o carro entrou na chácara, estacou, e Domingos saltou da almofada para vir abrir lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava com um castiçal e vela acesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e os pés sentiam que os degraus eram deste mundo; se fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a cama; era a mesma dos sonos quietos e demorados.
Veio alguém?
Não, senhor, respondeu o escravo distraído, mas corrigiu logo: Veio, sim, senhor; veio aquele doutor que almoçou com meu senhor domingo passado.
Queria alguma cousa?
Disse que vinha dar a meu senhor uma boa notícia, e deixou este bilhete que eu botei ao pé da cama.
O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos antigos que usavam contar lhe a marcha da moléstia. Quis ser o primeiro a anunciar o desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Enfim, morrera o patife. Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou vinham a dar neles, acrescendo que não atribuiu esse único objeto à visita. Vinha passar a noite; só ali soube que Cordovil fora o Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:
Coitado! Vivam as mortes súbitas!
Florindo, se referisse o gesto e a frase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrepender da canseira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar se para dormir, ouviu as últimas ordens e despediu se. Cordovil deitou se.
Ah! suspirou ele estirando o corpo cansado.
Teve então uma idéia, a de amanhecer morto. Esta hipótese, a melhor de todas, porque o apanharia meio morto, trouxe consigo mil fantasias que lhe arredarem o sono dos olhos. Em parte, era a repetição das outras, a participação à Câmara, as palavras do presidente, comissão para o saimento, e o resto. Ouviu lástimas de amigos e de fâmulos, viu notícias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar que era já sonho. Não era. Chamou se ao quarto, à cama, a si mesmo: estava acordado.
A lamparina deu melhor corpo à realidade. Cordovil espancou as idéias fúnebres e esperou que as alegres tomassem conta dele e dançassem até cansá lo. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memória de todos eles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente extintos. Gestos, cenas de sociedade e de família, panoramas, repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixara de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastigá los. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviais e tristes, e palavra de todos os feitios. O tacto, o olfato, todos fizeram o seu ofício, durante um prazo que ele não calculou.
Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não pôde, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu se e foi ao relógio; eram três horas. Insensivelmente levou o à orelha a ver se estava parado; estava andando, dera lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um bom sono; deitou se, cobriu a cabeça para não ver a luz.
Ah! foi então que o sono tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como seria a morte, se quisesse levá lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a força acentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O sono, que ia a recuar, tornou atrás, e veio estirar se ao lado deles, passando lhe aqueles braços leves e pesados, a um tempo, que tiram à pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis conchegá los ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra à mão nem tempo de ir buscá la. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o sono de si, tão aborrecido ficou este reformador de cansados.
Que terá ele hoje contra mim? perguntaria o sono, se falasse.
Tu sabes que ele é mudo por essência. Quando parece que fala é o sonho que abre a boca à pessoa; ele não, ele é a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada acorda na pedra um som, e a regularidade do gesto torna aquele som tão pontual que parece a alma de um relógio. Vozes de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janela batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua e a noite de Cordovil. Tudo era propício ao sono.
Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéia de amanhecer morto apareceu outra vez. O sono recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o sono ia a grudar lhe os olhos, a lembrança da morte os abria, até que ele sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu uma janela e encostou se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janela. Parece que era frio, porque não sentia mais nada.
A gente continuava a passar, o céu a clarear, um assobio da estrada de ferro deu sinal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanso; o céu fazia economia de estrelas, apagando as à medida que o sol ia chegando para o seu ofício. Tudo dava idéia de vida. Naturalmente a idéia da morte foi recuando e desapareceu de todo, enquanto o nosso homem, que suspirou por ela no Cassino, que a desejou para o dia seguinte na Câmara dos Deputados, que a encarou no carro, voltou lhe as costas quando a viu entrar com o sono, seu irmão mais velho, ou mais moço, não sei.
Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, não súbita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o cemitério. Agora é que lhe via a filosofia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a segunda. Morte súbita não acabava de entender o que era.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Machado de Assis, A Crônica e a História (Parte 5)

Machado de Assis, A Crônica e a História (Parte 4)

Machado de Assis, A Crônica e a História (Parte 3)

Machado de Assis, A Crônica e a História (Parte 2)

Machado de Assis, A Crônica e a História



O documentário Machado de Assis - A Crônica e a História resgata a atividade de cronista do escritor que é considerado o maior representante da literatura nacional. Machado de Assis deixou registrada nos jornais as características humana, social e política do Brasil da segunda metade do século 19.