segunda-feira, 30 de maio de 2011

Maurice Blanchot, A conversa infinita


“Escrever, então, passa a ser uma responsabilidade terrível. Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever, desse ponto de vistas, é a maior violência que existe, pois transgride a Lei, toda lei e sua própria lei” (p. 9).

“Poderíamos reduzir a quatro as possibilidades formais que se oferecem ao homem de pesquisa: primeiro ele leciona; segundo ele é homem de saber, e este saber está ligado às formas sempre coletivas da pesquisa especializada (psicanálise-ciência da não ciência – ciências humanas, pesquisas científicas fundamentais); terceiro ele associa sua pesquisa à afirmação de uma ação política; quarto ele escreve. Professor; homem de laboratório; homem da práxis; escritor. Estas são suas metamorfoses. Hegel, Freud, Einstein, Marx, Lênin, Nietzsche e Sade” (p. 32).

“Uma das questões que se colocam à linguagem da pesquisa é ligada a esta exigência de uma descontinuidade. Como falar de modo que a palavra seja essencialmente plural? Como pode afirmar-se a busca de uma palavra plural, fundada não mais na igualdade e na desigualdade, nem na predominância e na subordinação, tampouco na mutualidade recíproca, mas na dissimetria e na irreversibilidade, de tal modo que, entre duas palavras, uma de infinidade esteja sempre implicada como movimento da própria significação? Ou ainda, como escrever de tal maneira que a continuidade do movimento da escrita possa deixar intervir fundamentalmente a interrupção como sentido e a ruptura como forma? Por enquanto, diferiremos a abordagem dessa questão. Observaremos somente que toda linguagem na qual se trata de interrogar e não responder é uma linguagem na qual tudo começa pela decisão (ou distração) de um vazio inicial” (p. 36 e 37).

Questionar é, então, avançar ou recuar para o horizonte de toda a questão. Questionar, portanto, é colocar-se na impossibilidade de questionar com questões parciais, é experimentar a impossibilidade de questionar particularmente, embora, contudo, toda questão seja particular e tanto melhor colocada quanto mais firmemente responde à particularidade da posição. Toda questão é determinada. Determinada, ela é esse próprio movimento pelo qual o indeterminado ainda se mantém na determinação da questão” (p. 42).

“A questão é movimento, a questão de tudo é totalidade de movimento e movimento de tudo. Na simples estrutura gramatical da interrogação, já podemos sentir a abertura da palavra interrogante. Há uma exigência de outra coisa: incompleta, a palavra que questiona afirma não ser mais do que uma parte. A questão seria, portanto, contrariamente ao que acabamos de dizer, essencialmente parcial; ela seria o local onde a palavra sempre se dá como inacabada. O que significaria, então, a questão de tudo, não fosse a afirmação de que no todo ainda se mantém latente a particularidade de tudo?” (p. 42).

“A questão, sendo palavra inacabada, apóia-se no inacabamento. Ela não é incompleta enquanto questão; ela é, ao contrário, a palavra que o fato de declarar-se incompleta realiza. A questão substitui no vazio a afirmação plena, ela a enriquece com esse vazio anterior. Por intermédio da questão, oferecemo-nos a coisa e oferecemo-nos o vazio que nos permite não tê-la ainda ou tê-la como desejo. A questão é o desejo do pensamento” (p. 43).

“Por um instante transformado em pura possibilidade, o estado de coisas não volta ao que era. O Sim categórico não pode devolver aquilo que por um momento foi apenas possível; bem mais, ele nos tira a dádiva e a riqueza da possibilidade, pois agora afirma o ser daquilo que é, mas como o afirma em resposta, é indiretamente e de maneira apenas mediata que ele o afirma. Assim, no Sim da resposta, perdemos o dado direto, imediato, e perdemos a abertura, a riqueza da possibilidade. A resposta é a desgraça da questão” (p. 43).

“O que significa que ela revela a desgraça que está escondida na questão. Aliás, essa é a marca desagradável da resposta. A resposta não é desgraçada em si mesma; ela guarda para si a segurança; caracteriza-a uma espécie de altivez. Aquele que responde é, implicitamente, superior àquele que interroga. De uma criança que esquece o estatuto da infância, dizemos é respondão. Responder é a maturidade da questão” (p. 43).

“Entretanto, a questão exigiria resposta? Sem dúvida, há na questão uma lacuna que busca ser preenchida. Mas é uma estranha lacuna. Ela não tem a rudeza da negação, ela não aniquila, ela não recusa. Se ela é uma potência onde se exerce algo negativo, essa potência se apropria dele num estágio em que este negativo não alcançou sua plena determinação negativa” (p. 44).

“A interrogação é esse movimento em que o ser gira e aparece com a suspensão do ser em sua virada” (p. 44).

“Mas a questão não se prossegue na resposta, ao contrário, ela é concluída pela respostas, e por ela fechada. Ela inaugura um tipo de relação caracterizada pela abertura e o livre movimento, e o que ela encontra para satisfazê-la é o que fecha e o que pára. A questão tão espera a resposta, mas a resposta não apazigua a questão e, embora ela encerre, não termina com a espera que é a questão da questão. Questão, resposta, encontramos entre esses dois termos o confronto de uma relação estranha, na medida em que, na resposta, a questão chama pelo que lhe é estranho e, ao mesmo tempo, quer permanecer na resposta como esse giro da questão que a resposta pára, para interromper o movimento e proporcionar o repouso. Somente a resposta, respondendo, deve retomar em si a essência da questão que não é extinta para aquilo que lhe responde” (p. 44 e 45).

“Mas para a dialética, não há questão terminal. Onde terminamos, começamos. Onde começamos, só começamos de fato se o começo está novamente no final de tudo, ou seja, o resultado – o produto – do movimento do todo. É a exigência circular. O ser se desdobra como o movimento girando em círculo, e esse movimento vai do mais interior ao mais exterior, da interioridade não desenvolvida à exteriorização que o aliena, e dessa alienação que o exterioriza até a plenitude realizada e reinteriorizada. Movimento sem fim, porém desde sempre já finalizado. A história é a realização infinita desse movimento desde sempre já realizado” (p. 47).

“Evoquemos por um instante a Esfinge como questão, o homem como resposta. O ser que questiona é necessariamente ambígüo: é a própria ambigüidade que questiona. O homem, quando se interroga, sente-se interrogado por algo inumano, e se sente às voltas com algo que não interroga. Édipo, diante da Esfinge, é, à primeira vista, o homem diante do não-homem, ele já está diante de si mesmo. Será a questão sem seriedade apoiada pela seriedade do que está em jogo, a questão mais profunda? Em todo caso, uma profunda questão. A questão profunda, é o homem como Esfinge, a parte perigosa, inumana e sagrada, que imobiliza e mantém imobilizado diante dela, no face a face de um instante o homem que, com simplicidade e auto-suficiência, diz-se simplesmente, homem. A resposta de Édipo não é apenas uma resposta. É a própria questão, mas que mudou de sentido. Quando a Esfinge fala, na linguagem leviana e perigosa que é a dela, é para dar voz à questão mais profunda, e quando Édipo responde, dizendo com segurança a palavra única que convém, é para opor-lhe o homem enquanto ‘questão de tudo’. Memorável confronto da questão profunda e da questão de conjunto” (p. 49 e 50).

“O poder do boato não está na força de que ele diz, mas no seguinte: no fato dele pertencer ao espaço onde tudo o que se diz sempre já foi dito, continua a ser dito, não cessará de ser dito. O que fico sabendo através do boato, necessariamente já ouvi dizer: é aquilo que se relata e que, como tal, não pede nem autor nem garantia nem verificação, que não sofre contestação, pois sua única verdade, incontestável, é a de ser relatada, num movimento neutro em que o relato parece reduzido a sua pura essência, pura relação entre ninguém e nada” (p. 54).

“E toda palavra, então, é de fuga, precipita a fuga, ordena todas as coisas para a confusão da fuga, palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo” (p. 57).

“O saber eclipsa aquele que sabe. A paixão desinteressada, a modéstia, a invisibilidade, eis o que arriscamos perder sabendo pura e simplesmente” (p. 63).

- Lembro-me de que a primeira significação da palavra encontrar não é a de forma alguma encontrar, no sentido do resultado prático ou científico. Encontrar é tornear, dar a volta, rodear. Encontrar um canto é tornear o movimento melódico, fazê-lo girar. Aqui não existe nenhuma idéia de finalidade, ainda menos de parada. Encontrar é quase exatamente a mesma palavra que buscar, que se diz: ‘dar a volta em’” (p. 63 e 64).

“Escrever, não é expor a palavra ao olhar. O jogo da etimologia corrente faz da escrita um corte, um dilaceramento, uma crise” (p. 66).

“Um simples lembrete: o instrumento adequado para a escrita era o mesmo da incisão: o estilete” (p. 66).

“Em cada palavra, todas as palavras” (p. 67).

“A palavra é, para o olhar, guerra e loucura. A terrível palavra ultrapassa todo limite e, até, o ilimitado do todo: ela toma a coisa por onde não se a toma, por onde não é vista, nem nunca será vista; ela transgride as leis, liberta-se da orientação, ela desorienta” (p. 67).

“O conceito (toda linguagem pois) é o instrumento neste empreendimento para instaurar o reino seguro. Incansavelmente, edificamos o mundo, a fim de que a secreta dissolução, a universal corrupção que rege o que ‘é’, seja esquecida em favor desta coerência de noções e de objetos, de relações e de formas, clara, definida, obra do homem tranqüilo, onde o nada não poderia infiltrar-se e nos tornar felizes” (p. 73).

“A linguagem é de natureza divina, não porque nomeando ela eternize, mas porque, diz Hegel, ‘ela inverte imediatamente o que nomeia, pra transformá-lo numa outra coisa’, não dizendo aquilo que não é, mas falando precisamente em nome deste nada que dissolve tudo, sendo o devir falante da própria morte e no entanto, interiorizando esta morte, purificando-a talvez, para reduzi-la ao duro trabalho do negativo, pelo qual, num combate incessante, o sentido vem a nós e nós a ele” (p. 75 e 76).

“De fato, quando eu falo, reconheço que somente existe palavra porque o que ‘é’ desapareceu naquilo que o nomeia, fulminando para tornar-se a realidade do nome: a vida desta morte, eis o que é admiravelmente a palavra, a mais ordinária e, num nível mais elevado, a do conceito. Resta no entanto que – e seria cegueira esquecê-lo e covardia aceitá-lo –, o que ‘é’ precisamente, desapareceu: algo estava, que não está mais aí; como reencontrar, como recuperar em minha palavra, esta presença anterior que precisa excluir para falar, falar dela? Aqui, evocaremos o eterno tormento de nossa linguagem, cuja nostalgia volta-se para aquilo que sempre faz falta, pela necessidade na qual se encontra a linguagem de ser falta para o dizer” (p. 77).

“Quanto mais distante ou mais difícil é o objeto da esperança, tanto mais a esperança que o afirma é profunda e próxima de seu destino de esperança: tenho pouco a esperar, quando aquilo que espero está quase a meu alcance” (p. 84).

“Não somos nunca pura e simplesmente, nós somos apenas a partir e em função das possibilidades que somos. É uma de nossas dimensões essenciais. A palavra possível se esclarece então, em relação com a palavra poder, e depois com a palavra potência (eu simplifico muito)” (p. 85).

“Até a morte é poder: não é um simples fato que vai me acontecer, acontecimento objetivo e constatável. Aí vai cessar meu poder de ser, aí não poderei mais estar. Mas, desta não possibilidade, a morte, na medida em que ela me pertencee somente a mim, visto que ninguém pode morrer minha morte por mim sempre aberta até meu fim, realiza ainda um poder” (p. 85).
“Nesta perspectiva, nossas relações no mundo e como mundo são sempre, finalmente, relações de potência, onde a potência está em germe na possibilidade. Ficando nos traços mais aparentes de nossa linguagem, quando falo, tenho sempre uma relação de potência. Eu pertenço, quer saiba ou não, a uma rede de poderes da qual me sirvo, lutando contra a potência que se afirma contra mim: toda palavra é violência, violência que se exerce já sobre aquilo que a palavra nomeia e que ela não pode nomear senão retirando dela a presença – sinal, nós o vimos, de que a morte fala (essa morte que é poder), quando eu falo. Ao mesmo tempo, sabemos que quando se discute não se luta. A linguagem é a ação pela qual a violência aceita não estar aberta, mas escondida, renunciar a se esgotar numa ação brutal para reservar-se visando um domínio mais potente, não se afirmando mais desde então, mas no entanto no cerne de toda afirmação” (p. 86).

“O estrangeiro vem de outro lugar e nunca está onde estamos, não pertence a nosso horizonte e não aparece em nenhum horizonte representável, de forma que o invisível seria o seu lugar, entendo com isto, segundo uma terminologia que às vezes usamos: o que se desvia de todo o visível e de todo invisível” (p. 99).

“O eu finito pensa o infinito. Neste pensamento, o pensamento pensa o que o ultrapassa infinitamente e o que ele não pode dar conta por si próprio: ele pensa então mais do que pensa. Experiência única. Quando eu penso o infinito, penso aquilo que não posso pensar (porque se eu tivesse do infinito uma representação adequada, se eu o compreendesse, assimilando-o, tornando-o igual a mim, tratar-se-ia apenas do finito); eu tenho, pois, um pensamento que ultrapassa meu poder, um pensamento que na medida mesma em que é pensado por mim, é o absoluto ultrapassamento deste eu que o pensa, quer dizer, uma relação com o que está absolutamente fora de mim-mesmo: o outro” (p. 100).

“Eros ainda é o desejo nostálgico da unidade perdida, um movimento de retorno em direção ao Ser verdadeiro. O desejo metafísico é desejo daquilo com o que não se foi nunca unido, desejo do eu, não somente separado, mas feliz com sua separação que o faz eu e, no entanto, tendo relação com aquilo de que ele permanece separado, do que ele não tem nenhuma necessidade e que é desconhecido, o estrangeiro: outrem” (p. 101).

“Quando falo ao outro, eu faço um apelo a ele. Antes de tudo, a palavra é esta interpelação, esta invocação onde o invocado está fora de alcance, é, mesmo injuriado, respeitado, mesmo obrigado a calar-se, instado à presença da palavra, e não reduzido ao que eu digo dele, tema de discurso ou assunto de conversa, mas aquele que está sempre além, e fora de mim, me ultrapassando e pairando acima de mim, posto que eu o peço, desconhecido, virar-se para mim e, estrangeiro, ouvir-me. Na palavra, é o exterior que fala dando lugar à palavra e permitindo falar” (p. 103).

“Há linguagem, porque não existe nada de ‘comum’ entre aqueles que se exprimem, separação que é suposta – não superada, mas confirmada – em toda palavra verdadeira, se nós não tivéssemos nenhuma novidade a comunicar, se pelo discurso não me viesse algo de estranho, capaz de me instruir, falar seria desnecessário. Por isto que, no mundo onde reinasse apenas a lei do Mesmo e o futuro da realização dialética, o homem – pode-se supô-lo – perderia seu rosto e sua linguagem” (p. 104).

BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita. São Paulo: Escuta, 2001. 152 p.

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