sexta-feira, 20 de maio de 2011

O último leitor, Ricardo Piglia


Prólogo

“O real não é o objeto da representação, mas o espaço em que se dá um mundo fantástico” (p. 12).


“A arte é uma forma sintética do universo, um microcosmo que reproduz a especificidade do mundo” (p. 13).


“Uma moeda era um minúsculo oráculo privado, e nas encruzilhadas da vida era jogada para o alto para que se soubesse o que decidir. O destino está na esfinge de uma moeda” (p. 14).


“– Um mapa – disse – é uma síntese da realidade, um espelho que nos guia na confusão da vida” (p. 14).


“A imagem imprecisa de meu rosto se refletia no vidro da janela” (p. 17).


“Naquele momento compreendi o que já sabia: o que podemos imaginar sempre existe, em outra escala, em outro tempo, nítido e distante, como num sonho” (p. 17).

O que é um leitor/ Papéis avulsos


“Um leitor também é aquele que lê mal, distorce, percebe confusamente. Na clínica da arte de ler, nem sempre o que tem melhor visão lê melhor” (p. 19).


“Primeira questão: a leitura é uma arte da microscopia, da perspectiva e do espaço (não só os pintores se ocupam dessas coisas). Segunda questão: a leitura é coisa de óptica, de luz, uma dimensão da Física” (p. 20).


“O leitor viciado, o que não consegue deixar de ler, e o leitor insone, o que está sempre desperto, são representações extremas do que significa ler um texto, personificações narrativas da complexa presença do leitor na literatura. Eu os chamaria de leitores puros; para eles a leitura não é apenas uma prática, mas uma forma de vida” (p. 21).


“Não nos perguntaremos tanto o que é ler, como quem é aquele que lê (onde está lendo, para quê, em que condições, qual é a sua história)” (p. 24).


“Para poder definir o leitor, diria Macedonio, primeiro é preciso saber encontrá-lo. Ou seja, nomeá-lo, individualizá-lo, contar sua história. A literatura faz isso: dá ao leitor um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica” (p. 25).


Os rastros de Tlön


“Sempre existe algo de inquietante, ao mesmo tempo estranho e familiar, na imagem concentrada de alguém que lê, uma misteriosa intensidade que a literatura fixou inúmeras vezes. O sujeito se isolou , parece separado do real” (p. 25).

“O exame microscópico das leituras também se expande: o leitor vai da citação para o texto como série de citações, do texto para o volume como série de textos, do volume para a enciclopédia, da enciclopédia para a biblioteca. Esse espaço fantástico não tem fim porque supõe a impossibilidade de encerrar a leitura, a sensação acachapante de tudo o que ainda falta ler” (p. 26).


“A falta é imediatamente assimilada ao que foi subtraído. Há nisso um quê político que remete ao complô, a uma lógica cruel e sigilosa que altera a ordem do mundo. Alguém está de posse do que falta, alguém o apagou. Não é um enigma nem um mistério, é um segredo, no sentido etimológico (scernere significa ‘pôr à parte’, ‘esconder’). Uma página – um livro – sumiu, a carta foi roubada, o sentido vacila e, nessa vacilação, emerge o fantástico” (p. 27).


“A versão contemporânea da pergunta ‘o que é um leitor?’ se instala nesse lugar. O leitor perante o infinito e a proliferação. Não o leitor que lê um livro, mas o leitor perdido numa rede de signos” (p. 27).


“Podemos ler filosofia como literatura fantástica, diz Borges, ou seja, podemos transformar a filosofia em ficção mediante um deslocamento e um erro deliberado, um efeito produzido no ato mesmo de ler” (p. 28).


“A leitura é ao mesmo tempo a construção de um universo e um refúgio diante da hostilidade do mundo” (p. 29).


“A quietude a que se refere a hipálage está no ato de ler; tudo fica suspenso; a vida, por fim, se deteve” (p. 29).


“Encontramos de novo a fissura, a excisão que leitura viria exprimir. Um contraste entre as exigências práticas, digamos, e aquele momento de quietude, de solidão, aquela forma de recolhimento, de isolamento, em que o sujeito se perde, indeciso, na rede dos signos” (p. 29).


“Melhor seria dizer: a leitura constrói um espaço entre o imaginário e o real, desmonta a clássica oposição binária entre ilusão e a realidade. Não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler” (p. 29).


“Muitas vezes o ponto em que se cruzam o sonho e a vigília, a vida e a morte, o real e a ilusão, é representado pelo ato de ler” (p. 29).


“A pergunta ‘o que é um leitor?’ é também a pergunta sobre como os livros vão parar nas mãos daquele que os lê, como é narrada a entrada nos textos” (p. 33).


“A leitura, como dissemos, é vista como isolamento e solidão, como outro tipo de subjetividade. Nesse sentido, Hamlet é um herói da consciência moderna porque é um leitor. O que está em jogo é a interioridade” (p. 36).


“A leitura se opõe a outro universo de sentido. A outra maneira de construir o sentido, melhor dizendo. Habitualmente, o que o sujeito está deixando de lado é um aspecto do mundo, um mundo paralelo. E o ato de ler, de ter um livro, costuma articular essa passagem. A letra tem algo de mágico, como se convocasse um mundo ou o anulasse” (p. 37).


“A escrita existe caso tenham sido criadas as condições que a possibilitem” (p. 48).


“Esse procedimento de relacionar ‘por caminhos tortuosos’ o vivido com o escrito, de perceber fragmentos cifrados de realidade nos textos, é uma das chaves do efeito Kafka” (p. 50).
“A literatura dá forma à experiência vivida, constrói-a como tal e a antecipa” (p.50).


“A escrita é um resumo da vida, condensa a experiência e a torna possível” (p. 51).


“Só entende o que viveu, ou o que está por viver, quando está escrito. Narrar não serve para recordar, mas para tornar visível. Para tornar visível as conexões, os gestos, os lugares, a disposição dos corpos” (p. 51).


“Escreve ao outro aquilo que viveu. Escreve para que o outro leia o sentido novo que a narração produziu no que já foi vivido. O outro deve ler a realidade tal como ele a experimenta” (p. 51).


“Ler desvenda novas conexões” (p. 54).


“Somente é visível o que é impossível. Toda luneta é de pouco alcance” (p. 55).


“Cada leitura produz uma narrativa. A leitura suspende a experiência e a recompor em outro contexto” (p. 55).


“Aquela mulher fugaz é uma conexão, uma ponte, está ligada a sua literatura, àquilo que Kafka entende por literatura” (p. 56).


“É possível prender uma mulher por intermédio da escrita? Para fazê-la fazer o quê? Ler... Antes de mais nada é preciso pô-la à prova com as cartas: depois submete-a a uma leitura obediente, uma empregada; tem de ler e permanecer presa à escrita” (p. 59).

“As cartas são uma prova desse mecanismo de controle e sedução (e de escravidão)” (p. 59).


“Obrigar o outro a ler. Uma mulher é a figura sentimental que permite realizar uma união entre a escrita e a vida” (p. 59).


“Todos os escritores são cegos – em sentido alegórico à la Kafka –, não conseguem ver seus manuscritos. Têm necessidade do olhar de um outro. Uma mulher amada que leia a partir de outro lugar, mas com seus próprios olhos. Não é possível ler os próprios textos se não for sob os olhos de outrem” (p. 68).


“... a assimilação do leitor a uma posição feminina na tradição grega. A passividade estaria ligada à impossibilidade do leitor de discutir e interrogar um texto escrito, diferentemente do que acontece na oralidade” (p. 72).


“Como em Hamlet, como em D. Quixote, a melancolia é uma marca vinculada à leitura, em certo sentido, à doença da leitura, ao excesso dos mundos irreais, ao olhar caracterizado pela contemplação e o excesso de sentido. Mas não se trata de loucura, do limite produzido pela leitura a partir do exemplo clássico do Quixote, mas da lucidez extrema” (p. 77).


“O leitor entendido como um decifrador, como intérprete, muitas vezes foi uma sinédoque ou uma alegoria do intelectual. A figura do sujeito que lê faz parte da construção da figura do sujeito intelectual no sentido moderno. Não só como letrado, mas como alguém que enfrenta o mundo numa relação que em princípio é mediada por um tipo específico de saber. A leitura funciona como um modelo geral de construção do sentido. A indecisão do intelectual é sempre a incerteza quanto à interpretação, quanto às múltiplas possibilidades da leitura” (p. 98).


“Há uma tensão entre o ato de ler e a ação política. Certa oposição implícita entre leitura e decisão, entre leitura e vida prática. Essa tensão entre a leitura e a experiência, entre a leitura e a vida, está muito presente na História que estamos tentando construir. Muitas vezes o que se leu é o filtro que permite dar sentimento à experiência; a leitura é um espelho da experiência, define-a, dá-lhe forma” (p. 98).


“Se o narrador é aquele que transmite o sentido do vivido o leitor é aquele que está em busca do sentido da experiência perdida” (p. 100).


“A leitura se opõe a um mundo hostil, como os restos ou lembranças de outra vida” (p. 101).


“Existe uma tensão entre a vida social e uma coisa pessoal e privada, uma tensão entre a vida política e a vida pessoal. E a leitura é a metáfora dessa diferença” (p. 102).
“A leitura vinculada a certa solidão em meio à rede social é um diferença que resiste” (p.106).


“Trata-se de unir a arte e a vida, escrevendo o que se vive. Experiência vivida e escrita imediata, quase escrita automática” (p. 109).


“Ser escritor é ter um fundo de experiência sobre o qual se apóiam e se definem a forma e o estilo” (p. 109).


“A história da leitura é também a História da iluminação” (p. 139).
“É freqüente que a idéia de alguém que tem apenas um livro em que se cifra um mundo perdido se reproduza em escala ampliada” (p. 144).


“Um território devastado no qual alguém reconstrói o mundo perdido a partir da leitura de um livro. Melhor seria dizer: a crença no que está escrito num livro permite manter e reconstruir o real perdido” (p. 145).


“A experiência se organiza e se escande a partir do ato de ler” (p. 148).


“O leitor ideal é aquele que está fora da sociedade” (p. 148).

“O sujeito que lê na solidão se isola porque está imerso na sociedade, do contrário não precisaria fazê-lo” (p. 149).


“Nenhum livro está, por mais bem-sucedido que pareça. O texto fechado e perfeito não existe: o acabamento, no sentido artesanal, faz com que se busquem os lugares de construção em seu avesso e se apresente o problema do sentido de outra maneira” (p. 158).


“A leitura como um modo de sonhar acordado, como sonho diurno, como entrada em outra realidade” (p. 170).

PIGLIA, Ricardo. O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

4 comentários:

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    1. Olá, Angélica, tudo bem? Que bom que gostaste. Um abraço, Paulo

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  2. Fiquei com muita vontade de ler esse livro.
    Adorei o post.
    Um abraço,
    Taiana

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    1. Olá, Tatiana, tudo bem? Espero que tenhas conseguido ler o livro. Vale a pena. Um abraço, Paulo

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