quarta-feira, 11 de maio de 2011

A supersticiosa ética do leitor, Jorge Luiz Borges


A indigente condição das nossas letras, sua incapacidade de atrair, produziram uma superstição do estilo, uma distraída leitura de atenções parciais. Os que padecem dessa superstição entendem por estilo, não a eficácia ou ineficácia de uma página, mas sim as habilidades aparentes do escritor: suas comparações, sua acústica, os lances de sua pontuação e de sua sintaxe. São indiferentes à própria convicção ou à própria emoção: buscam tecniquerías (a palavra é de Miguel de Unamuno) que lhes informarão se o escrito tem ou não direito a lhes agradar. Ouviram dizer que a adjetivação não deve ser trivial, e opinarão que uma determinada página está mal escrita caso não encerre surpresas na ligação dos adjetivos com os substantivos, ainda que sua finalidade geral esteja realizada. Ouviram dizer que a concisão é uma virtude, e entendem por conciso quem se demora em dez frases breves e não quem maneje uma frase longa. (Exemplos normativos dessa charlatanice da brevidade, desse frenesi sentencioso, podem ser encontrados na maneira de escrever do célebre estadista dinamarquês Polônio, de Hamlet, ou desse PolÔnio natural que é Baltazar Gracián.) Ouviram dizer que a repetição, seguida e aproximada, de uma determinada sílaba é cacofonia, e simularão que em prosa isto lhes dói, ainda que em verso lhes proporcione um gosto especial (igualmente simulado, acho eu). Significa que não se fixam na eficácia do mecanismo, e sim na disposição de seus componentes. Subordinam a emoção à ética, ou melhor, a uma etiqueta não contestada. Generalizou-se de tal maneira esta inibição, que já não restam leitores no sentido ingênuo da palavra, já que todos são críticos potenciais.

Tão aceita é esta superstição, que ninguém se atreverá a admitir .ausência de estilo em obras que a ele se referem, principalmente se são obras clássicas. Nao há livro bom sem sua atribuição estilística, da qual ninguém pode prescindir — exceto o autor. Sirva-nos de exemplo o D. Quijote. A crítica espanhola, diante da comprovada excelência dessa novela, não quis pensar que o seu maior valor (e talvez o único irrecusável) fosse o psicológico, e lhe atribui dons de estilo que a muitos parecerão misteriosos. Em verdade, basta revisar alguns parágrafos do Quijote para sentir que Cervantes não era um estilista (pelo menos na atual acepção acústico-decorativa da palavra) e que lhe interessavam demasiado os destinos de Quixote e de Sancho para deixar-se distrair por sua própria voz. Agudeza y arte de ingenio, de Baltazar Gracián — tão laudativa de outras prosas que narram, como a de Guzmán de Alfarache — não se resolve a lembrar-se de Dom Quijote. Quevedo versifica em tom de broma a sua morte, esquecendo-se dele. Poderá objetar-se que os dois exemplos são negativos, porém Leopoldo Lugones, nosso contemporâneo, emite um julgamento explícito: "O estilo é a debilidade de Cervantes, e os estragos causados por sua influência são grandes. Pobreza de cor, insegurança de estrutura, parágrafos arquejantes que nunca acertam com o final, desenvolvendo-se em retorcimentos intermináveis, repetições e falta de proporção, esse o legado dos que não vendo senão na forma a suprema realização da obra imortal, ficaram roendo uma casca cujas asperezas escondiam a fortaleza e o sabor". (El império jesuítico, página 59). E diz, também, o nosso Groussac: "Se hão de descrever-se as coisas como são, deveremos confessar que uma boa metade da obra é de tal forma florida e desalinhavada, que amplamente se justifica a pecha de humilde idioma que lhe atribuíam os rivais de Cervantes. E com isto não me refiro única nem principalmente às impropriedades verbais, às intoleráveis repetições ou trocadilhos, nem tampouco aos retalhos de pesadas grandiloqüências que nos oprimem, mas tão somente à contextura, geralmente desbotada, dessa prosa de sobremesa" (Crítica literária, página 41). Prosa de sobremesa, prosa conversada e não declamada, é essa de Cervantes, e nenhuma outra lhe faz falta. Imagino que esta mesma observação será justa no caso de Dostoievski, de Montaigne ou de Samuel Butler.

Esta vaidade de estilo se afunda em outra vaidade mais patética, que é a da perfeição. Não existe um escritor métrico, por casual e nulo que seja, que não tenha cinzelado (o verbo costuma figurar em sua conversação) seu soneto perfeito, monumento minúsculo que custodia sua possível imortalidade, e que as novidades e aniquilações do tempo deverão respeitar. Trata-se geralmente de um soneto sem rípios, mas que é, ele todo, um rípio; quer dizer, é um resíduo, uma inutilidade. Essa falácia de permanência (Sir Thomas Browne: Urn Burial) foi formulada e recomendada por Flaubert nesta sentença: "A correção (no sentido mais elevado da palavra) obra com o pensamento o mesmo que obraram as águas da Estígia com o corpo de Aquiles: fazem-no invulnerável e indestrutível" (Correspondance, II, página 199). O parecer é terminante, porém não chegou até mim nenhuma experiência que o confirme. (Prescindo das virtudes tónicas da Estígia; essa reminiscência infernal não é um argumento, é uma ênfase.) A página de perfeição, a página onde nenhuma palavra pode ser alterada sem dano, é a mais precária de todas. As mudanças da linguagem apagam os sentidos laterais e os matizes; a página "perfeita" é a que consta desses delicados valores e que com mais facilidade se desgasta. Inversamente, a página que tem vocação de imortalidade pode atravessar o fogo das erratas, das versões aproximativas, das leituras distraídas, das incompreensões, sem deixar sua alma na provação. Não se pode alterar impunemente (assim o afirmam aqueles que restabelecem o seu texto) nenhuma das linhas fabricadas por Gôngora; o Quijote, porém, ganha batalhas póstumas contra seus tradutores e sobrevive a qualquer versão descuidada. Heine, que jamais o ouviu em espanhol, celebrou-o para sempre. Mais vivo que os ansiosos artifícios verbais do estilista é o fantasma alemão, escandinavo ou industânico do Quijote.

Não gostaria que a moralidade desta comprovação fosse compreendida como desespero ou niilismo. Tampouco desejo fomentar negligências, nem creio em uma virtude mística na frase obrusa e no epíteto grosseiro. Afirmo que a omissão voluntária desses dois ou três agrados menores — distrações oculares da metáfora, auditivas do ritmo e surpreendedoras da interjeição ou o hipérbato — costumam provar-nos que a paixão do tema tratado manda no escritor, e isto é tudo. A aspereza de uma frase lhe é tão indiferente à genuína literatura como a sua suavidade. A economia prosódica não é menos forasteira da arte que a caligrafia ou a ortografia, ou, ainda, a pontuação: certeza de que as origens judiciais da retórica e a musicalidade do canto nos ocultaram sempre. A equivocação favorita da literatura contemporânea é a ênfase. Palavras definitivas, palavras que postulam sabedorias divinatórias ou angelicais ou, ainda, de uma firmeza mais que humana — único, nunca, sempre, tudo, perfeição, acabado — pertencem ao comércio habitual de todo escritor. Não pensam que falar demasiado de uma coisa revele maior inabilidade do que não falar nada, e que a generalização e a intensificação descuidadas possam traduzir uma pobreza que é sentida pelo leitor. Suas imprudências causam uma depreciação do idioma. Assim ocorre em francês, cuja locução Je suis navré muitas vezes quer dizer Não irei tomar chá com vocês, e cujo aimer foi rebaixado a gostar. Esse hábito hiperbólico do francês está presente, também, em sua linguagem escrita; Paul Valéry, herói da lucidez que organiza, transcreve esquecíveis e esquecidas linhas de La Fontaine, e afirma nelas (contra alguém): ces plus beaux vers du monde (o mais bonito verso do mundo, Variété, 84).

Quero lembrar-me agora do futuro e não do passado. Já se pratica a leitura em silêncio, sintoma venturoso. Já existe o leitor mudo de versos. Dessa capacidade sigilosa a uma escritura puramente ideográfica — direta comunicação de experiências, não de sons — há uma distância enorme, porém sempre menos dilatada que o futuro.

Releio estas negações e penso: Ignoro se a música sabe desesperar da música e o mármore do mármore, porém a literatura é uma arte que sabe profetizar o tempo em que terá emudecido, enfurecer-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar seu fim.

(1930)

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