sexta-feira, 15 de julho de 2011

Reflexões sobre a arte de escrever, Henry Miller

Knut Hamsun disse, certa vez, em resposta a um questionário, que escrevia para matar o tempo. Acho que mesmo que fosse sincero ao fazer uma afirmação dessas estava se iludindo. Escrever, como viver, é uma viagem de descobrimento. A aventura é metafísica: é uma maneira de abordar a vida indiretamente, de adquirir uma visão global ao invés de uma visão parcial do universo. O escritor vive entre o mundo superior e o inferior: toma o caminho para no fim tornar-se o próprio caminho.
Comecei num caos e escuridão absolutos, num alagado ou pântano de idéias, emoções e experiências. Ainda agora não me considero escritor, no sentido comum da palavra. Sou um homem contando a história de sua vida, um processo que parece cada vez mais inexaurível à medida que prossigo. Como a evolução do mundo, ele é infindo. É uma virada pelo avesso, uma jornada através de n dimensões, que resulta em descobrir, em algum ponto do caminho, que o que temos para contar não é tão importante quanto o ato de contar em si. É essa qualidade que a arte possui que lhe dá uma coloração metafísica e a projeta para fora do tempo e do espaço e a concentra ou integra no processo cósmico global. É isso na arte que é terapêutico: significação, inutilidade, infinitude.
Quase desde o começo eu estava profundamente consciente de que não havia uma meta. Nunca espero abarcar o todo, mas meramente dar em cada fragmento isolado, cada obra, a sensação do todo, na medida em que vou escrevendo, porque estou escavando cada vez mais fundo a vida, escavando cada vez mais fundo o passado e o futuro. Com essa escavação sem fim desenvolve-se uma certeza que é maior do que a fé ou a crença. Torno-me cada vez mais indiferente ao meu destino como escritor e cada vez mais seguro do meu destino como homem.
Examino com assiduidade o estilo e a técnica daqueles que uma vez admirei e cultuei: Nietzsche, Dostoievski, Hamsun, até Thomas Mann, que hoje rejeito por ser um habilidoso embusteiro, um fabricante de tijolos, um inspirado jumento ou cavalo de tração. Imitei todos os estilos na esperança de descobrir a chave do segredo torturante da arte de escrever. Finalmente cheguei a um beco sem saída, a um desespero que poucos homens conheceram, porque não havia divórcio entre o eu escritor e o eu homem: fracassar como escritor significava fracassar como homem. E eu fracassei. Percebi que não era nada – menos que nada –, um número negativo. Foi neste ponto, em meio à estagnação do Mar dos Sargaços, por assim dizer, que realmente comecei a escrever. Comecei do nada, lançando tudo ao mar, mesmo aqueles a quem mais amava. No momento em que ouvi minha própria voz fiquei encantado: o fato de ser uma voz isolada, distinta, única, me deu alento. Não me importava se o que escrevia pudesse ser considerado ruim. Bom e ruim saíram do meu vocabulário. Pulei com os dois pés no reino da estética, no reino amoral, aético, não-utilitário da arte. Minha vida em si se tornou uma obra de arte. Encontrara uma voz, estava de novo inteiro. A experiência foi muito semelhante ao que lemos sobre as vidas dos iniciados no Zen. Meu enorme fracasso era a recapitulação da experiência da raça: tinha que me entupir de conhecimento, perceber a futilidade de tudo, destruir tudo, me tornar desesperado, a seguir humilde, e depois me apagar inteiramente, a fim de recuperar minha autenticidade. Tinha que chegar à borda do abismo e então dar um salto no escuro.
Falo agora da Realidade, mas sei que não há como chegar a ela, pelo menos escrevendo. Aprendo menos e percebo mais: aprendo de uma maneira diferente, mais subterrânea. Adquiro cada vez mais o dom da imediação. Estou desenvolvendo a capacidade de perceber, apreender, analisar, sintetizar, categorizar, informar, expressar – tudo ao mesmo tempo. O elemento estrutural das coisas revela-se mais prontamente aos meus olhos. Evito todas as interpretações bem definidas: com a simplificação crescente o mistério se intensifica. O que sei torna-se cada vez mais inexprimível. Vivo na certeza, uma certeza que independe de provas ou de fé. Vivo inteiramente para mim, sem o mínimo amor-próprio ou egoísmo. Vivo a minha parcela de vida e assim favoreço o plano geral. Promovo o desenvolvimento, o enriquecimento, a evolução e a involução do cosmos, todos os dias de todas as formas. Dou tudo que tenho para dar, voluntariamente, e tiro o máximo que me é possível absorver. Sou príncipe e pirata ao mesmo tempo. Sou o sinal de igual, a contraparte espiritual do signo Libra, que foi encravado no Zodíaco original separando Virgem de Escorpião. Acho que existe muito espaço no mundo para todos – grandes profundezas interespaciais, grandes universos de egos, grandes ilhas de renovação, para quem alcançar a individualidade. Na superfície, onde rugem as batalhas históricas, onde tudo é interpretado em termos de dinheiro e poder, talvez haja muita gente, mas a vida só começa quando a pessoa submerge, quando desiste de lutar, afunda e desaparece de vista. Hoje, com a mesma facilidade tanto posso escrever como não escrever: já não há compulsão alguma, já não há terapia alguma nisso. O que quer que faça é feito de pura alegria: deixo cair meus frutos como uma árvore madura. O que o leitor em geral ou o crítico acham não me preocupa. Não estou estabelecendo valores: eu defeco e me alimento. E isso é tudo.
Esta condição de sublime indiferença é um desenvolvimento lógico da vida egocêntrica. Vivi integralmente o problema social morrendo: o verdadeiro problema não é se dar bem com os vizinhos ou contribuir para o progresso do país, mas descobrir o próprio destino, procurar viver em harmonia com o ritmo bem centrado do cosmos. Ser capaz de usar a palavra cosmos com ousadia, usar a palavra alma, tratar de coisas “espirituais” – e esquivar-se de definições, álibis, provas, deveres. O paraíso está em toda a parte e toda estrada nos leva lá se seguirmos por ela tempo suficiente. Só se pode avançar caminhando para trás e depois para o lado e depois subindo e depois descendo. Não há progresso: há um movimento, um deslocamento perpétuo que é circular, espiral, infindo. Cada homem tem o seu destino: o único imperativo é segui-lo, aceitá-lo, a despeito de onde o leve.
Não tenho a mínima idéia de como serão meus livros futuros, nem mesmo o que se seguirá a este. Meus planos e roteiros são os guias mais limitados: deito-os fora quando quero, invento, distorço, deformo, minto, inflo, exagero, maldigo e confundo dependendo do humor. Só obedeço aos meus instintos e à intuição. Não sei nada antecipadamente. Muitas vezes ponho de lado as coisas que não compreendo, certo de que mais tarde elas se tornarão claras e significativas para mim. Tenho fé no homem que está escrevendo, que sou eu mesmo, o escritor. Não acredito em palavras, não importa se foram reunidas pelo mais engenhoso dos homens: acredito na linguagem, que é algo que transcende as palavras, algo de que as palavras dão apenas uma vaga ilusão. As palavras não existem isoladamente, exceto nas mentes dos acadêmicos, etimólogos, filólogos, etc. As palavras divorciadas da linguagem são coisas mortas, e não revelam segredos. Um homem se revela pelo estilo, pela linguagem que criou para si. Para o homem que é puro de coração creio que tudo é cristalino como um sino, até os textos mais esotéricos. Para tal homem o mistério sempre existe, mas o mistério não é misterioso, é lógico, natural, ordenado, e implicitamente aceito. A compreensão não é a penetração do mistério, mas uma aceitação, na qual se vive feliz com ele, nele, através e ao lado dele. Gostaria que minhas palavras fluíssem da mesma maneira que o mundo flui, num movimento sinuoso através de dimensões incalculáveis, eixos, latitudes, climas, condições. Aceito a priori minha inabilidade de realizar tal ideal. Não me incomoda nem um pouco. Em última análise, a própria palavra está prenhe de falhas, é a perfeita manifestação da imperfeição, da consciência da falha. Ao se perceber isso, a própria imperfeição é eliminada. À semelhança do espírito primordial do universo, do inabalável Absoluto, o Único, o Tudo, o criador, isto é, o artista, se expressa pela imperfeição e através dela. Ela é a matéria da vida, o sinal mesmo da existência. Chega-se mais próximo ao cerne da verdade, que suponho seja o objetivo último do escritor, na medida em que ele cessa de lutar, na medida em que abandona a vontade. O grande escritor é o próprio símbolo da vida, do não-perfeito. Caminha sem esforço, dando a ilusão de uma perfeição que emana de algum centro desconhecido, que certamente não é o cérebro, mas é definitivamente um centro, um centro ligado no ritmo de todo o universo e por isso tão sadio, sólido, inabalável, tão durável, desafiador, anárquico, sem propósito, quanto o universo em si. A arte nada ensina a não ser a significação da vida. A grande obra precisa ser inevitavelmente obscura, exceto para uns poucos, para aqueles que, como o próprio autor, são iniciados nos mistérios. A comunicação então é secundária: é a perpetuação que é importante. Para isto basta um único bom leitor.
Se sou revolucionário, como já disseram, é inconscientemente. Não estou rebelado contra a ordem do mundo. “Eu revoluciono”, como dizia Blaise Cendrars dele mesmo. Há uma diferença. Tanto posso viver do lado negativo quanto do lado positivo da cerca. Na verdade, acredito estar um pouco acima desses dois sinais, oferecendo uma proporção entre os dois que se expressa plasticamente, aeticamente, na escrita. Creio que se precisa ultrapassar a esfera e a influência da arte. A arte é apenas um meio para chegar à vida, a uma vida mais fecunda. Não é em si mesma a vida mais fecunda. Meramente aponta o caminho, algo que é desprezado não só pelo público, mas muitas vezes pelo próprio artista. Ao se tornar um fim ela se frustra. A maioria dos artistas está frustrando a vida na tentativa de se atracar com ela. Partiram o ovo em dois. Toda a arte, acredito firmemente, um dia desaparecerá. Mas o artista permanecerá, e a vida se tornará não “uma arte”, mas arte, isto é, definitivamente e para sempre se apropriará do terreno. Na acepção verdadeira nós certamente ainda não estamos vivos. Já não somos animais, mas sem dúvida ainda não somos homens. Desde a aurora da arte todo grande artista vem repisando isso, mas poucos são os que realmente compreenderam. No momento em que a arte for de fato aceita ela cessará de existir. Ela é apenas um substitutivo, uma linguagem-símbolo, para algo que pode ser apreendido diretamente. Mas para que isso seja possível o homem precisa se tornar inteiramente religioso, não um crente, mas o autor primeiro, um deus de fato e de direito. E ele inevitavelmente se tornará. E de todos os volteios desse caminho a arte é o mais glorioso, o mais fecundo, o mais instrutivo. O artista que adquire inteira consciência, conseqüentemente, deixa de ser artista. E a tendência é a consciência, aquela consciência ofuscante em que nenhuma forma de vida atual tem possibilidade de florescer, nem mesmo a arte.
Para alguns, isto poderá parecer mistificação, mas é uma afirmação honesta das minhas convicções atuais. É preciso não esquecer, é claro, que há uma inevitável discrepância entre a verdade em questão e o que a pessoa pensa, até mesmo de si: mas também é preciso não esquecer que existe uma igual discrepância entre o julgamento de outrem e essa mesma verdade. Entre subjetivo e objetivo não há uma diferença vital. Tudo é ilusório e mais ou menos transparente. Todos os fenômenos, inclusive o homem e o que pensa de si, não são senão um alfabeto móvel e mutável. Não há fatos concretos a que se apegar. Assim, ao escrever, mesmo que as minhas distorções e deformações sejam deliberadas, não estão necessariamente mais distantes da verdade das coisas. A pessoa pode ser absolutamente verdadeira e sincera ainda que seja reconhecidamente a mais abominável mentirosa. A ficção e a invenção são o próprio tecido da vida. A verdade não é de modo algum afetada pelas violentas perturbações do espírito.
Assim, quaisquer efeitos que eu possa obter com recursos técnicos, eles nunca resultam apenas da técnica, mas do registro muito preciso da agulha do meu sismógrafo das experiências tumultuadas, múltiplas, misteriosas e incompreensíveis por que passei e que, no processo de escrever, são revividas, de forma diferente, talvez ainda mais tumultuada, mais misteriosa, mais incompreensível. O chamado cerne do fato concreto, que constitui o ponto de partida assim como de renovação, está profundamente engastado em mim: não me seria possível perdê-lo, alterá-lo, disfarçá-lo, por mais que tentasse. E, no entanto, é alterado, do mesmo modo que a face do mundo é alterada, a cada momento que respiramos. Para registrá-lo, então, é preciso dar uma dupla ilusão – uma de suspensão e uma de fluxo. É esse artifício dual, por assim dizer, que dá a ilusão de falsidade: é esta mentira, essa máscara metamórfica, fugaz, que é da própria essência da arte. A pessoa se ancora no fluxo: adota a máscara mentirosa a fim de revelar a verdade.
Muitas vezes pensei que gostaria um dia de escrever um livro explicando como compus certas passagens dos meus livros, ou talvez apenas uma passagem. Acho que poderia escrever um livro de bom tamanho sobre um pequenino parágrafo apenas escolhido ao acaso em minha obra. Um livro sobre o seu começo, sua gênese, sua metamorfose, seu parto, o tempo que transcorreu entre o nascimento da idéia e o seu registro, o tempo que levou para escrevê-la, os pensamentos que tive de permeio enquanto o escrevia, o dia da semana, meu estado de saúde, as condições dos meus nervos, as interrupções havidas, as voluntárias e aquelas que me foram impostas, as multíplices variedades de expressão que me ocorreram no processo de escrever, as alterações, o ponto em que o interrompi e, ao retomá-lo, alterei por inteiro o rumo original, ou o ponto em que habilidosamente interrompi, como um cirurgião procurando tirar o máximo proveito de uma operação ruim, pretendendo voltar e prosseguir algum tempo depois, sem nunca fazê-lo, ou então voltando e retomando o mesmo rumo, inconscientemente, alguns livros depois, quando a lembrança daquele já se apagara completamente. Ou poderia contrapor uma passagem à outra, passagens que o olhar clínico do crítico toma como exemplo disto ou daquilo, e as confunde inteiramente, os críticos de-mente-analítica, que demonstram como um texto aparentemente fácil foi obtido a duras penas enquanto outra passagem difícil, labiríntica, foi escrita com a facilidade de um gêiser em erupção. Ou poderia mostrar como uma passagem originalmente se formou quando eu ainda estava deitado, como se transformou ao me levantar, e tomou a se transformar no momento em que me sentei para registrá-la. Ou poderia exibir o meu bloquinho de notas para provar como o estímulo mais remoto, mais artificial, produziu uma flor humana, quente, semelhante à vida. Poderia apresentar certas palavras descobertas por acaso folheando um livro, mostrar como me fizeram começar – mas quem poderia jamais adivinhar como, de que maneira, iriam me fazer começar? Tudo que os críticos escrevem sobre uma obra de arte, mesmo na melhor das hipóteses, mesmo quando bem fundamentado, convincente, plausível, mesmo quando feito com amor, o que é raro, não representa nada se comparado à verdadeira mecânica, à verdadeira genética da obra de arte. Lembro da minha obra, não palavra por palavra, é certo, mas de uma forma mais precisa, mais confiável; toda a minha obra ficou parecendo um terreno em que fiz uma minuciosa pesquisa geodésica não sentado à escrivaninha, com régua e caneta, mas com o tato, pondo-me de quatro, deitado de barriga, e me arrastando pelo chão centímetro por centímetro, e isso durante um tempo infindo sob todas as condições de tempo. Em suma, estou tão ligado à obra agora como durante a sua execução – mais ligado talvez. A conclusão de um livro nunca foi senão uma mudança na posição do corpo. Ele poderia terminar de mil maneiras diferentes. Nenhuma de suas partes está fechada: poderia retomar a narrativa em qualquer ponto, dar continuidade, abrir canais, túneis, pontes, casas, fábricas, povoá-la com outros habitantes, outra fauna e flora, todos igualmente fiéis. Não tenho nem princípio nem fim, na verdade. Assim como a vida começa a qualquer momento, através de um ato de percepção, também a obra. Mas, cada começo, quer seja de livro, página, parágrafo, oração ou frase, marca uma ligação vital, e é na vitalidade, na durabilidade, na atemporalidade e na imutabilidade dos pensamentos e eventos que mergulho de uma maneira nova, a cada vez. Toda linha e palavra está vitalmente ligada a minha vida, minha vida apenas, seja sob a forma de feito, acontecimento, fato, pensamento, emoção, desejo, evasão, frustração, sonho, devaneio, fantasia, e mesmo de nadas inacabados que flutuam languidamente no cérebro como os fios partidos de uma teia de aranha. Não há nada realmente vago ou tênue – até os nadas são afiados, duros, definidos, duráveis. Como a aranha, volto repetidas vezes à tarefa, consciente de que a teia que teço é feita com a minha própria substância, que nunca me faltará, nunca se esgotará.
No início eu tinha sonhos de rivalizar com Dostoievski. Tinha esperança de oferecer ao mundo imensos e labirínticos conflitos da alma que o devastariam. Mas não decorreu muito tempo e percebi que tinha evoluído a um ponto muito além de Dostoievski – além no sentido da degeneração. Conosco o problema da alma desapareceu ou, por outra, se apresenta sob um disfarce químico estranhamente distorcido. Estamos lidando com elementos cristalinos da alma fragmentada e dispersa. Os pintores modernos expressam esse estado ou condição talvez com maior violência do que o escritor: Picasso é o exemplo perfeito do que quero dizer. Era quase impossível para mim, portanto, pensar em escrever romances; igualmente impensável seguir os diversos caminhos sem saída representados pêlos vários movimentos literários na Inglaterra, França e Estados Unidos. Senti-me compelido, em toda honestidade, a tomar os elementos dispersos e díspares da nossa vida – a vida da alma, não a vida cultural – e manipulá-los de uma maneira muito minha, usando o meu próprio ego fragmentado e disperso, o mais desapiedada e descuidadamente, como faria com destroços e refugos do mundo fenomenal que nos cerca. Nunca senti nenhum antagonismo ou ansiedade pela anarquia que as formas de arte reinantes apresentam; ao contrário, sempre acolhi bem as influências desintegradoras. Numa era marcada pela desintegração, o aniquilamento me parece uma virtude, senão um imperativo moral. Não só nunca senti o menor desejo de conservar, favorecer ou reforçar coisa alguma, mas talvez possa dizer que sempre encarei a decadência como uma expressão tão maravilhosa e rica de vida quando o crescimento.
Acho que devia também confessar que fui levado a escrever porque isto provou ser a única saída para mim, a única tarefa digna da minha capacidade. Tinha honestamente experimentado todos os outros caminhos para a liberdade. Eu era um fracasso deliberado no chamado mundo da realidade, não um fracasso por falta de habilidade. Escrever não era uma “fuga”, uma maneira de me evadir da realidade cotidiana: pelo contrário, significava um mergulho ainda mais profundo na água salobra – um mergulho na fonte onde as águas estavam sendo constantemente renovadas, onde havia perpétuo movimento e agitação. Olhando retrospectivamente a minha carreira, vejo-me como uma pessoa capaz de empreender quase qualquer tarefa, qualquer mister. Foi a monotonia e a esterilidade das outras saídas que me levaram ao desespero. Eu exigia um campo em que fosse simultaneamente senhor e escravo: o mundo da arte é o único campo assim. Penetrei nele sem qualquer talento aparente, um completo noviço, incapaz, desajeitado, atado, quase paralisado pelo medo e a apreensão. Tive de assentar um tijolo sobre o outro, registrar milhões de palavras no papel, antes de escrever uma palavra real, autêntica, arrancada de minhas entranhas. A facilidade de falar que possuía era um estorvo; assimilara todos os vícios do homem instruído. Tinha que aprender a pensar, sentir e ver de uma maneira totalmente nova, de uma maneira não-instruída, de uma maneira própria, o que é a coisa mais difícil do mundo. Tive que me atirar à correnteza, sabendo que provavelmente iria afundar. A grande maioria dos artistas está se atirando com salva-vidas ao pescoço, e quase sempre é o salva-vidas que os faz afundar. Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que existe na vida não é fruto da adaptação, mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. “Nenhuma ousadia é fatal”, disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer. Toda a lógica do universo está contida na ousadia, isto é, na criação a partir do ponto de apoio mais inconsistente e reduzido. No início, essa ousadia é confundida com a vontade, mas com o tempo a vontade esmorece e o processo automático assume o seu lugar, e este, por sua vez, tem que ser interrompido ou abandonado para que se instaure uma nova certeza alheia ao conhecimento, à habilidade, à técnica ou à fé. Pela ousadia chega-se a essa misteriosa posição X do artista, e é esse porto seguro, que ninguém consegue exprimir com palavras, que, no entanto, perdura e destila de cada linha que se escreve.

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