terça-feira, 2 de agosto de 2011

Comentários sobre Owen Renik, Elizabeth Bott Spillius (Tradução pessoal do comentário feito por Elizabeth Bott Spillius)

Como sempre, Owen Renik, apresenta uma admirável e contundente declaração de seu ponto de vista sobre a intersubjetividade na psicanálise, e me sinto lisonjeada por ter sido convidada a emitir comentários sobre isso.
A abordagem de Renik parece estratificar-se em duas vertentes: a primeira expõe que a verdade é definida pelo próprio pensador que a concebe; tal enunciado, esmiuçado de modo menos tendencioso, afirmaria que a existência da verdade seria independente da do pensador, mas que só poderia ganhar vida pela subjetividade de quem a engendrasse. O segundo apontamento, mais pragamático e cru – como preferem os americanos – culminaria nisso: a verdade se comprovaria por si só, e ponto final.
Minhas suposições diferem tacitamente das de Renik. Terei cautela ao comentar o trabalho, até porque tive dificuldades em acompanhar a linha de raciocínio do colega. A leitura, por vezes, fez com que me sentisse intimidada. Em cada parágrafo, concordava com as premissas aventadas, e creio que outros psicanalistas seguiriam a mesma tendência, sem intenções de refutá-las. A sintaxe de Renik confundiu-me ao longo do texto: as construções frasais não pareciam coesas. A linguagem eclipsava as conclusões demonstradas. Talvez minha inépcia tivesse feito com que me perdesse no decorrer das exposições, não o sei. O fato era que não conseguia prosseguir na empreitada, independente de qualquer motivo substancial. A situação se reverteu quando lancei um olhar mais acurado e atento ao que apreendia das páginas.
Por exemplo, logo no início do artigo, Renik asseverou que “o insight é co-criado pelo analista e pelo paciente e se assemelha, portanto, a uma descoberta feita dois. Na acepção oriunda do glossário psicanalítico, a co-criação e a descoberta são especificidades distintas, mas conservam graus de parentesco”. Apesar de não estar familiarizada com a palavra ‘co-criação’, empregada na primeira sentença, concordo com a proposição. Mas, ainda assim, não consigo perceber a sutileza e o elo da segunda frase com a que a antecedeu na oração. Para mim, ‘o ato de criar’ não se equipara ao de ‘descobrir’. ‘Criar’ significa dar vida ao novo, ao que previamente não existia; e ‘descobrir’ supõe a existência de algo oculto, à espera de forças ou ações que modifiquem seu status indefinido. Logo, constata-se, são termos diferentes. Freud observou os pacientes e a si mesmo, e com isso ‘descobriu’ a reiteração de certos padrões e ‘criou’ – para descrevê-los – o termo Complexo de Édipo. Ele não ‘criou’ os comportamentos presenciados na clínica e nem ‘descobriu’ o termo que os englobou e os convencionou.
Então, como Renik ligou o primeiro enunciado ao segundo na citação[1] destacada? Penso que a conexão, na primeira frase, tenha a ver com a comparação entre os dois conceitos e, na segunda, com a equivalência de ambos, o que gera imprecisão. Ao examinar com minúcia o que foi expresso, concordo, em partes, com a denominação de que “o insight é co-criado pelo analista e pelo paciente”; no entanto, discordo da consideração que se sucedeu daí: “e se assemelha, portanto, a uma descoberta feita dois”. Nesse ponto, cuja aporia se concentra – questão filosófica pertinente –, não me senti em condições de entender ou de julgar a relevância. Marcia Cavell (1998), treinada na arte da filosofia, colheu da estilística de Renik as asserções que tratavam da verdade e notou que todas se referiam, em alguma medida, a situações e a metas peculiares, inerentes ao processo analítico. Pelas entrelinhas, a estudiosa também percebeu que Renik aposta – sem que reconheça – mais na realidade objetiva, ou seja, as contradições internas demonstraram involuntariamente sua inclinação para tal crença. Foi aí que percebi que não estava tão equivocada em minha interpretação. Continuei a ler.
Só que, para meu desalento, me deparei com uma corruptela. Fui mais devagar quando Renik mencionou que “não se sustenta mais a famosa imagem do paciente comparada ao do ingênuo viajante de trem que haveria de descrever a sucessão das paisagens ao condutor. Na analogia, o primeiro ditaria o percurso e, na dinâmica, o segundo – o analista – decidiria quais geografias explorar e para onde se dirigir”. Fiquei a imaginar o que o levou a infligir mudanças tão radicais ao que Freud sugeriu em 1913, à página 135. A alusão de Freud ao “viajante sentado próximo à janela” recebeu, na versão de Renik, acréscimos, como o de ser “ingênuo”; outra distorção foi essa: “alguém que estava dentro da carruagem”, como Freud escreveu, acabou por se tornar o “condutor de um trem”.
O autor parece ter inventado para si um antagonista, alguém ou uma entidade, afora o leitor, para argumentar e pôr às claras as ideologias e as ortodoxias presentes na psicanálise – e eu suponho que ele, apesar de discordamos, sim, em vários pontos, não tenha se dirigido a mim (que tenho afinidades teóricas com Melanie Klein) e nem aos meus colegas. Renik repudia o mito que converte o analista em detentor do saber. Com veemência, quer dilapidar a efígie do analista/condutor que avalia o psiquismo do paciente e os progressos do tratamento conforme os seus cânones pessoais e insemina, em uma relação vertical, a verdade no outro. O emblema do analista evocado na crítica do autor nos remete às gerações passadas, mais precisamente aos psicólogos do ego. É evidente que a intenção de Renik é a de favorecer a eclosão de uma atmosfera analítica dotada de maior liberdade e igualdade, objetivo que, sem dúvida, atrai a simpatia de muitos profissionais. Entretanto, ele parece subestimar a silenciosa revolução processada a partir das conquistas desses tais condutores de trem. Ou posso estar enganada. Não estou tão familiarizada com a psicanálise americana quanto Renik está.
De qualquer forma, o panorama da psicanálise sofreu mudanças não só nos Estados Unidos como em outros países. Na época de Freud, a tarefa se concentrava na observação do envolvimento do paciente com o analista, ou melhor, no fenômeno da transferência. A contratransferência, como nos trouxe Renik em 1993, era percebida somente como interferência e, ao contrário de Freud, que recomendou aos analistas a precaução e a vigilância para com as manifestações da subjetividade, ele acredita que tais ações seriam impossíveis de vigorar. As primeiras modificações conceituais referentes à contratransferência ocorreram amplamente na Grã-Bretanha e, de forma moderada, nos Estados Unidos. A despeito disso, as novas atitudes frente à contratransferência não proporcionaram que a formulação da subjetividade ganhasse relevância na época. Assim como o artigo de Heimann, publicado em 1950, explicou que a contratransferência poderia ser útil para a compreensão da dinâmica mental do paciente, o de Money-Kyle, de 1956, intitulado “A contratransferência normal e os seus desvios”, também o fez, e isso gerou, por conseguinte, um grande impacto na comunidade psicanalítica. O título do artigo de Money-Kyle já anunciava que a contratransferência era “normal”, útil e que as tentativas de erradicá-la malograriam. A partir de vinhetas de caso, ele forneceu distinções e implicações a respeito do que se consideraria “normal” e “indesejável” no processo. A cultura vigente assumia aos poucos o fato de que o analista, na situação clínica, gerava efeitos sobre o objeto de estudo que tratava e vice-vera. Outra diferença é que o termo “neutro” nunca foi enfatizado no contexto analítico na Grã-Bretanha e nem no continente europeu. A preocupação do campo de saber da Psicologia do Ego com a neutralidade sempre nos pareceu estranha, pois atribuía aos analistas qualidades que os tornavam insondáveis e misteriosos. Em razão disso, na Grã-Bretanha e na Europa, a batalha foi menos intensa em busca da “moda” do reconhecimento da subjetividade, da questão do tratamento pessoal e da supervisão para conservar a salubridade da interação entre analista e paciente.
A partir dos artigos de Renik (datados de 1993, 1995, 1998, 2001) verifiquei que, assim como eu, o autor pensa que o analista deve ficar atento ao que a sua subjetividade pode despertar no paciente e no campo analítico. Depreende-se daí uma conclusão, a de que o analista observa a si e ao impacto ou aos sentimentos que mobiliza no outro. Talvez eu tenha levado mais longe do que o autor o tópico em pauta, até porque considero possível que o analista esteja subjetivamente envolvido na interação, desde que tenha consciência e discernimento do que a sessão representa e significa tanto para um quanto para o outro, ou seja, é necessário que uma parte do analista fique suspensa, como um terceiro elemento que observa o que se passa no encontro. E isso não pode ser feito no mesmo instante; talvez seja algo posterior à consulta. Pressinto que haja uma flutuação, um “dentro” e “fora” oscilante, ao longo da sessão. Há momentos em que a interação esquenta e outros em que esfria, e só após o encontro é que o analista se percebe capaz de ampliar a visão da experiência que se plasmou e de entender os sentimentos e associações aflorados.
Como saber como se deu a construção do insight (ou da interpretação)? Como validá-la? Em minha experiência, concordar ou discordar dos insights produzidos pelo paciente e pelo analista não é o mesmo que atribuir valores de certo ou de errado ou de fabricar convenções. A validade das construções analíticas, no meu ponto de vista, baseia-se na constante revisão e reavaliação por parte do analista e do paciente, principalmente do analista, no caso, pois a “supervalorização de ideias” pode ser nociva e deve ser assistida; Britton e Steiner (1994) preferem que se enfatize o “fato selecionado” como nos descreveu Bion (1962, p. 72, 1967, p. 127).
Penso que para Renik o tipo de verificação proposta no parágrafo anterior não parece ser bom o suficiente, pois o autor considera que a única meta terapêutica é a que beneficia o paciente; então, de acordo com ele, não haveria motivos de se buscar nenhuma meta, ou melhor, nenhum objetivo que partisse do escopo “psicanalítico”, visto que isso faria com que se andasse em círculos. “Os insights válidos”, afirma Renik, “são os que produzem efeitos terapêuticos duradouros; e as técnicas analíticas úteis são as que geram insights válidos”. Verdade: validade é sinônimo de eficácia. A asserção mostrou-se muito simples. Vejo que os insights válidos podem ser alcançados pela inatividade terapêutica, ou, inversamente, os insights inválidos poderiam surgir a partir de algum aspecto particular do progresso da análise, como por exemplo, a transferência de cura ou circunstâncias que ocorrem fora do espaço analítico. Algo mais íntimo e profundo a respeito da ligação entre o processo psicanalítico e as mudanças psíquicas precisa ser compreendido.
Na opinião de Rachel Blass (2003), existe uma tensão inerente ao estabelecimento das metas em psicanálise. Ela pensa que isto se dá porque os valores éticos do analista diferem dos do paciente, e os objetivos de realização pessoal e de autoconhecimento de um e de outro levam a contradições. A título de elucidação: para o autor, a realização pessoal se configura como a possibilidade de o self do paciente vir a se tornar mais integrado; já o autoconhecimento trata dos desejos imediatos e conscientes, delimitados pela perspectiva que o paciente tem de si mesmo no momento. Renik, de acordo com Blass, é o defensor extremista do aspecto ético que contempla o autoconhecimento, e destaca o seguinte artigo: “A experiência do benefício terapêutico pelo paciente” (Renik, 2001). Mas mesmo ele, acrescenta, respeita a primeira polaridade ética – a da realização pessoal –, pois se preocupa em catalisar os benefícios terapêuticos através da introspecção e do autoconhecimento. À semelhança de Marcia Cavell, Blass pensa que Renik reconhece a polaridade oposta mais do que esmiúça em seus escritos.
Renik acredita que os resultados de pesquisas revelarão o que é válido ou não, o que funciona e o que falha no processo, esperança sobre a qual sou menos otimista do que ele, porque os instrumentos de investigação parecem rudimentares para tal façanha e não farão, em princípio, jus ao problema e à complexidade que o tema requer. Embora a pesquisa em questão privilegie a generalização ao invés da “cientificidade” e tenha como foco as intervenções para que se aprimore a técnica e as ideias psicanalíticas, não a considero como o mais importante estudo a ser desenvolvido. Como Britton (1998), vejo que os fatores que têm maior relevância combinam na clínica a observação, a identificação do problema e a tentativa de resolver obstáculos, tais como: transferência; atuação e repetição em detrimento da recordação; contratransferência e mudanças de postura geradas a partir daí; o papel da agressividade, assim como os desejos sexuais em jogo; transformações no vínculo analista-paciente; e, no caso de uma abordagem kleiniana, o significado da cisão, da projeção e da introjeção, da integração e da fragmentação.
A hipótese de Renik de que a autorrevelação complicaria a situação analítica foi refutada pelo argumento criado por ele próprio, o de que os insights são feitos a dois, de forma intersubjetiva. Ora, será que temos aí uma declaração válida? Neste caso, discordei no início e, no fim, parcialmente com a proposição. Aqui, penso que o problema seja o da discriminação entre autorrevelações úteis ao processo analítico e as que são arroubos de exibicionismo e que se prestam apenas à gratificação de aspectos narcíseos do analista. Aos moldes de uma análise clássica, acredito que o anonimato, em algum grau, é importante. Em um artigo intitulado “O analista anônimo como ideal e os problemas da autorrevelação” (1995), Renik esboça as primeiras versões que retratam o lado destrutivo e egoísta da assunção do anonimato; parece que o autor vê o anonimato como um fenômeno inevitavelmente improdutivo e desfavorável à analise. Em seguida, ele define a natureza e a manifestação adequada do que chama de autorrevelação. Trata-se de se certificar de que o paciente compreendeu a atitude do analista, tanto quanto possível, e de verificar o que da exposição foi relevante ao paciente. A visão que Renik nos transmite é a de que o ato de desvelar é pontual, seletivo e estabelece – como costumo chamar – uma relação “simétrica” no processo analítico, efeito esse que não se consegue e nem se compara à regra fundamental da psicanálise, a da associação livre, que é aleatória por si só.
Em seu presente artigo “Intersubjetividade em análise”, Renik não deixa claro e nem discute se o envolvimento entre analista e paciente é construído e entendido a partir de suas respectivas subjetividades ou se a relação é de qualidade “simétrica”, como chamo. No meu modo de ver, pressuponho que a análise seja constituída pela assimetria, já que um membro da díade procura “ajuda”, enquanto o outro tem expectativas de “conceder ajuda”. A julgar pelo que escreveu em “O analista anônimo como ideal e os problemas da autorrevelação” (1995), Renik e eu encontramos pontos de intersecção no assunto, embora as diferenças terminológicas dificultem um pouco o discernimento entre “simetria” (relação horizontal) e “assimetria” (relação vertical). Para Renik, analista e paciente são “epistemologicamente simétricos”. Isso significa que são genuinamente e potencialmente subjetivos. Entretanto, ele diz que “simetria não é identidade” (p.486). O paciente confia as associações e os sentimentos ao analista em vista de ampliar a sua consciência; o analista comunica os pensamentos com a finalidade de recrudescer a consciência do paciente. Como Cavell e Blass, dou-me conta de que a visão de mundo e as definições de Renik, em se tratando da relação analítica, não diferem das concepções que tenho, e isso me faz ter outra perspectiva, oposta à inicial.
De modo geral, sou adepta à formulação de Renik de que a análise clínica é intersubjetiva. Não poderia ser de outra forma? No entanto, tentei descrever os meus pontos de vista que divergem dos dele, principalmente os que trataram do relativismo da verdade. Aposto em duas hipóteses: a primeira é a de que a verdade exista independentemente daquele que a concebe; a segunda, a de que a verdade não é construída e encontra-se à espera de ser descoberta. E, para finalizar, amparo-me na recente declaração de Hanna Segal (2002): “Toda a ciência tem como alvo a verdade. Neste sentido, a Psicanálise é singular, pois considera que a busca pela verdade é em si terapêutica”.

Referências

Bion WR (1962). Learning from experience. London: Heinemann.
Bion WR (1967). Second thoughts. London: Heinemann.
Blass R (2003). On ethical issues at the foundation of the debate over the goals of psychoanalysis. Int J Psychoanal 84:929-43.
Britton R (1998). Unpublished discussion of Owen Renik's paper 'The analyst's subjectivity and the analyst's objectivity' at the British Psycho-Analytical Society. Britton R, Steiner J (1994). Interpretation: Selected fact or overvalued idea? Int J Psychoanal 75:1169-78.
Cavell M (1998). In response to Owen Renik's 'The analyst's subjectivity and the analyst's objectivity'. Int J Psychoanal 79:1195-202.
Freud S (1913). On beginning the treatment (Further recommendations on the technique of psycho-analysis I). SE 12, p. 121-44.
Heimann P (1950). On counter-transference. Int J Psychoanal 31:81-4.
Money-Kyrle R (1956). Normal counter-transference and some of its deviations. Int J Psychoanal 37:360-6.
Renik O (1993). Analytic interaction: Conceptualizing technique in light of the analyst's irreducible subjectivity. Psychoanal Q 62:553-71. Renik O (1995). The ideal of the anonymous analyst and the problem of self-disclosure. Psychoanal Q 64:466-95.
Renik O (1998). The analyst's subjectivity and the analyst's objectivity. Int J Psychoanal 79: 487-97.
Renik O (2001). The patient's experience of therapeutic benefit. Psychoanal Q 70:231-41. Segal H (2002). Yesterday, today and tomorrow. Inaugural Lecture for The Centre for the Advancement of Psychoanalytic Studies of the British Psycho-Analytical Society.


[1] “Insight is something co-created by analyst and patient as much as it is something discovered by analyst and patient. To differentiate co-creation from discovery in clinical psychoanalysis is to establish a specious distinction”.

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