segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Resposta à Elizabeth Bott Sipllius, Owen Renik

Estou encantado com o comentário que Elizabeth Bott Spillius teceu sobre o meu artigo. Ao levantar questões e objeções com peculiar propriedade e franqueza, ela me deu a oportunidade de revisitar, esclarecer e reelaborar inúmeros pontos que mereciam mais atenção.
A citação escolhida para a conclusão do escrito mostra que Spillius considera a psicanálise como uma ciência que tem como meta a verdade. E é aí que colonizamos o mesmo território, ignorado por outros colegas que não enxergam a psicanálise como uma empresa que necessita de métodos científicos para avançar em seus desígnios. Ao mesmo tempo, Spillius pontua que não adere ao “meu pragmatismo americano cru: a verdade se comprovaria por si só, e ponto final”. Aqui reside uma importante contradição que gerou mal-entendidos.
Não há nada tipicamente americano em meu pragmatismo. O meu pragmatismo, se o tenho, é o do método experimental, que corrobora, fundamenta e é inerente aos métodos científicos universais. Com isso, não seria grosseiro afirmar que a verdade se comprovaria por si só, e ponto final. Em matéria de ciência, as hipóteses verdadeiras são sempre as que funcionam melhor – as que em um vasto arranjo de condições predizem com sucesso os fenômenos. O antônimo do pragmatismo seria a crença em artigos de fé. Galileu propôs que a Terra se movia ao redor do sol porque tal hipótese mostrou-se, no decorrer de observações astronômicas, elegante, previsível e mais convincente do que a anterior, a do heliocentrismo. O clero, porém, rejeitou a formulação de Galileu. Da mesma forma, a psicanálise que não se respaldasse no pragmatismo e na ciência se converteria, potencialmente, em religião.
Em relação a isso, notei que Spillius não conseguiu entender que “diferenciar co-criação de algo a ser desvendado na clínica é estabelecer distinções operacionais”. Para ela, criação significa dar vida ao novo, ao que previamente não existia, e descoberta supõe a existência de algo oculto, à espera de forças ou ações que modifiquem seu status indefinido. Em contrapartida, os cientistas percebem com acuidade que criação e descoberta são equivalentes e, ao longo do processo, tendem a adquirir múltiplas perspectivas. Talvez a mais emocionante descoberta do século XIX tenha sido a eletricidade, vastas correntes de elétrons que afluem dos pólos negativos para os positivos. O trabalho de gerenciar a direção dessas correntes permitiu o desenvolvimento de inúmeros recursos, tais como o da energia elétrica que ilumina as metrópoles, a do rádio e de outras maravilhas da atualidade. Então, no século XX, descobriu-se que a concepção de que a eletricidade consistia em vastas correntes de elétrons que afluíam dos pólos negativos para os positivos tombou abaixo e foi substituída pela ideia de uma série de sucessivas interações entre átomos adjacentes. Tal descoberta trouxe à baila os transistores de rádios que serviram de base para confeccionar a revolucionária tecnologia da vida moderna, o microchip. Como explicar a descoberta de que os elétrons se difundiam em correntes no século XIX? Em que parte da natureza foi possível prever a existência de correntes elétricas? A costa leste da América foi confundida com as índias pelos primeiros exploradores e, em analogia, será que, ainda hoje, poderíamos pensar que as correntes elétricas estão aí, mas ainda não as compreendemos de todo? Não, não podemos afirmar isso, pois se os elétrons denominados pelos cientistas do século XIX existem de fato, os microchips e os transistores nunca se converteriam em realidade. A física que contempla o estado físico da matéria e que explica os microchips e os transistores contradiz a existência de correntes elétricas. As descobertas do século XX, concernentes à natureza da eletricidade, invalidam e substituem as da do século XIX. Este fragmento que selecionei da história da ciência mostra que o processo de descoberta não consiste no simples reconhecimento de que as coisas existem; trata-se da criação de novas verdades que se contrastam com as antigas e que determinam o que funciona melhor ou não. Retornando à psicanálise e ao exemplo de Spillius: ao descobrir um padrão que chamou de Complexo de Édipo, Freud não o encontrou previamente na natureza; ou seja, ele criou uma proposição que até agora funciona melhor do qualquer outra para explicar o evento em questão.
Tais preceitos metodológicos foram revisados, e espero que isso evidencie o fato de que Spillius não está de todo correta ao escrever que “para Renik, o único objetivo válido é o de beneficiar o paciente no tratamento”. Não penso que a meta psicoterapêutica de beneficiar o paciente seja absolutamente válida. Diferente do que nos trouxe Spillius, meu ponto de vista não é o de que se tenham “metas psicanalíticas”, mas sim o de que se possa eleger a melhor forma de se produzir insights e de beneficiar o paciente, independente da afinidade teórica e da especialidade de cada analista. Ao julgar a validade do insight, com base na conquista de benefícios, estabelecemos, pela experimentação, o teste de nossas hipóteses. Validar o trabalho clínico nos modos científicos implica acompanhar variáveis que não estejam vinculadas à teoria psicanalítica – nisso eu e Spillius concordamos. Blass, citado por Spillius, estabelece tal conexão e sugere que a consciência da experiência de benefício terapêutico é um critério à parte e não equivale à realização “plena de seus potenciais” (2003, p. 935). Ao fazer esta objeção, Blass nos mostra que a busca de objetivos estritamente teóricos na clínica tendem a privilegiar o analista como sendo um perito, o detentor da verdade, e isso instaura a circularidade, ou melhor, a estagnação do processo; o que faltou acrescentar aí foi como “o potencial do self” do paciente pode ser determinado? E por quem?
Prossigamos com o tópico da autorrevelação do analista e as implicações intersubjetivas advindas daí. Concordo plenamente com a posição de Spillius quando explica o seguinte: “penso que o problema seja o da discriminação entre autorrevelações úteis ao processo analítico e as que são arroubos de exibicionismo e que se prestam apenas à gratificação de aspectos narcíseos do analista... É essencial distinguir o que é útil ao processo e o que deve permanecer em ‘anônimo’”. Eu nunca fui a favor da autorrevelação gratuita ou contra o tato que se deve ter em relação às exposições que dizem respeito ao analista: em minhas digressões apenas me opus à visão tradicional que categoriza a autorrevelação como um fator inibidor do processo analítico. Penso, ademais, que Spillius está certa ao apontar a confusão terminológica gerada pelas expressões “simetria” e “assimetria” aplicadas à relação terapêutica e, também, quando realça a questão de que um membro da díade procura ajuda, enquanto o outro tem expectativas de conceder ajuda. Não é preciso lembrar que o enunciado anterior poderia provocar mal-entendidos, pois outorgaria, dependendo da interpretação, autoridade imerecida ao analista. Só não me engajo ao otimismo de Spillius ao inferir que o problema está latente e que nós o trazemos à tona. Por exemplo, no debate que fiz em companhia de Marcia Cavell para o jornal citado por Spillius, Cavell ofereceu uma vinheta clínica que ilustrava claramente o fato de que uma apreciação insuficiente dos aspectos intersubjetivos envolvidos no encontro analítico pode fazer com que o profissional, consciente de si e do tratamento, pressuponha que tenha o poder de acessar – melhor do que o próprio paciente – os conteúdos inconscientes (Renik, 1998).
Spillius ficou intrigada com a minha discussão sobre a evolução do pensamento psicanalítico em se tratando da intersubjetividade, pois parti de uma concepção rudimentar e limitada e migrei para outra, mais abrangente e contemporânea. Ao nos apresentar as contribuições de Heimann, Money-Kyrle e outros tantos, Elizabeth afirmou que esses analistas britânicos apreciavam há muito o fenômeno intersubjetivo presente nos encontros analíticos, e com isso ela especulou que possivelmente eu estivesse preocupado com a falta de cuidado e de atenção demonstrada pela geração passada de psicólogos do ego americanos. No entanto, o testemunho da autora tem contradições. Spillius assevera com explícita convicção que, em certos momentos, ao longo da sessão analítica, ela consegue sair da interação intersubjetiva – ocorrida entre paciente e analista – e tende a assumir uma postura de auto-observação. Spillius não explica e nem fundamenta como efetua essa operação de fuga da subjetividade. Entrementes, o fato de que ela acredita que pode realizar tal façanha acaba por provar que no Reino Unido, como em qualquer outro lugar, a compreensão da intersubjetividade varia muito entre os analistas. Alguns, como Spillius, conservam uma visão de mundo muito próxima à que prevalecia na época de Freud, o que não é o meu caso.

Referências
Blass R (2003). On ethical issues at the foundation of the debate over the goals of psychoanalysis. Int J Psychoanal 84:929-43.
Renik O (1999). Renik replies to Cavell. Int J Psychoanal 80:384-5.


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