segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Capítulo IV: a sexualidade infantil, Luiz Alfredo Garcia-Roza


É no segundo dos Três ensaios que Freud vai desenvolver sua teoria da sexualidade infantil que provocou tanta reação e que se tornou fundamento essencial da teoria psicanalítica. Já vimos, no capítulo I, como a sexualidade infantil, longe de ser negada no século XIX, se revelava através das formas de controle e vigilância exercidas sobre a criança. Se a sexualidade infantil não era ainda colocada em discurso, ela já se fazia notar de forma evidente através de um conjunto de práticas exercidas pelo social no sentido de conjurar a ameaça que ela representava. Essa ameaça se fazia sentir, segundo Freud, de duas maneiras principais: a primeira, pela negação pura e simples da da existência de uma sexualidade na infância; a segunda, pela amnésia que incide sobre os primeiros anos de nossa infância. Ao recusarmos o reconhecimento de uma sexualidade infantil, o que estamos fazendo é negar o reconhecimento dos nossos próprios impulsos sexuais infantis, isto é, estamos mantendo o interdito que sobre eles lançamos na nossa infância. Assim, o "esquecimento" por parte do saber da sexualidade infantil é uma das formas pelas quais se manifesta a recusa de nossa própria infância perversa. Nos três ensaios, Freud se propõe exatamente a reconstuir essa pré-história da sexualidade e as vicissitudes a que ela foi submetida (p. 98).

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 17 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

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