segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Capítulo IX: o sujeito e o eu, Luiz Alfredo Garcia-Roza


Após o longo percurso empreendido, eis-nos de volta à questão do cogito. Começamos com o cogito cartesiano e chegamos ao cogito freudiano. O primeiro, na sua formulação orifginal, afirmava: "Penso, logo sou." O segundo, numa das formulações que lhe empresta Lacan, afirma: "Penso onde não sou, portanto sou onde não me penso."
Se o cogito cartesiano apresentava o Eu como o lugar da verdade, o cogito freudiano nos revela que ele é sobretudo o lugar do ocultamento. São duas concepções de subjetividade completamente diferentes. Não se trata, em Freud, de apontar uma nova dimensão da consciência, algo que pudesse ser entendido como a sua face oculta, mas de apontar um novo objeto - o inconsciente. Com isso, a questão do sujeito sofre um deslocamento radical.
Assim, enquanto Descartes pensava o eu como uma entidade original, Freud o pensa como engendrado; enquanto descartes nos falava do sujeito da ciência, Freud nos fala do sujeito do desejo. Antes de Freud o sujeito se identificava com a consciência; a partir de Freud temos de nos perguntar por esse sujeito do inconsciente e por sua articulação com o sujeito consciente.
Não podemos mais identificar a história do Eu com a história do Sujeito; sujeito e eu não são termos que se recobrem. Tampouco se recobrem o Eu, objeto da psicologia e identificado com a totalidade da pessoa, e o Ego, conceito psicanalítico. Se recuarmos até o Projeto de 1895, verificaremos que nele o ego sequer é um sujeito.
Mas, se a distinção entre o ego cartesiano e o ego freudiano não apresenta grandes dificuldades, o mesmo não ocorre quando nos voltamos para os vários empregos que Freud faz do termo Ich dentro de sua obra. Assim sendo, começarei por tentar delimitar, nos textos freudianos, os vários registros da noção de ego, deixando para mais tarde a questão do sujeito (p. 196 a 197).

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 17 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

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