segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O estabelecimento do setting psicanalítico, Jean-Michel Quinodoz


Para criar as condições ótimas para o desenvolvimento desse processo, há algumas exigências particulares. Eis as que Freud propõe aos seus pacientes: "Dedico a cada um de meus doentes uma hora de minha jornada de trabalho; essa hora lhe pertence e é debitada em sua conta mesmo que não faça uso dela" (1913c, p. 84). Freud pede ao paciente que deite no divã, e se senta atrás dele. Dedica uma sessão diária a cada paciente, ou seja, seis sessões por semana e, embora admita fazer exceções, isso não costuma ocorrer: "Para os casos leves ou para aqueles cujo tratamento já está bem avançado, três horas por semana são suficientes. De resto, não é interesse nem do médico nem do doente que o número de horas seja reduzido, e essa redução deve inclusive ser proscrita no início do tratamento" (1913c, p. 85).
Quanto à duração da cura, Freud estima que é quase impossível determiná-la por antecipação. Naturalmente. O paciente tem total liberdade de interromper sua cura a qualquer momento, afirma, mas ele corre o risco de um agravamento. Freud menciona várias vezes as pressões que vêm de todos os lados visando a abreviar a duração da psicanálise sob os pretextos mais variados: "Como conseqüência da incompreensão dos doentes, à qual se alia a insinceridade do médico, requer-se da análise que ela satisfaça às exigências mais desmesuradas no prazo mais curto" (1913c, p. 86).
A questão do encurtamento da duração da análise é recorrente, lembra Freud, que responde com humor a esse tipo de objeção: "Evidentemente, ninguém imaginaria que é possível erguer uma mesa pesada só com dois dedos, como se fosse um banquinho, ou construir uma casa enorme no mesmo lapso de tempo que uma pequena cabana de madeira. No entanto, quando se trata da neurose (...), mesmo as pessoas mais inteligentes esquecem que existe necessariamente uma proporção entre o tempo, o trabalho e o resultado" (1913c, p. 96). Freud aborda igualmente a questão do pagamento de honorários e salienta a significação sexual inconsciente que o dinheiro costuma ter nas trocas entre paciente e analista; ele recomenda ao analista que exija o pagamento regularmente e que não deixe que se acumulem as somas devidas. Ele menciona a questão dos tratamentos gratuitos que praticou por muito tempo, assinalando que eles aumentam bastante as resistências, e discute a questão do acesso à análise para as pessoas pobres e para as de classe média (p. 128 e 129).

QUINODOZ, Jean-Michel. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Trad. Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2007.

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