quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O "narrador" e o medo, Antonino Ferro


O fracasso da narração

Podemos, portanto, pensar as fobias como um fracasso "circunscrito" das capacidades da mente para operar narrações transformadoras sobre os próprios protofantasmas. Existem, no entanto, situações ainda mais graves, aquelas em que o fracasso da possibilidade de mentalizar os fantasmas é ainda maior. Um conto de Bradbury, O Veldt, parece-me fornecer um bom exemplo disso.

O Veldt

Numa casa do futuro há um quarto particular, a nursery, com paredes e teto bidimensionais, mas que podem tridimensionalizar-se e adquirir profundidade de acordo com os conteúdos mentais das crianças. Surgirão assim a história e os personagens de Aladim, de Alice, ou de qualquer outra realidade emocional.
um dia, porém, os pais das duas crianças protagonistas da história começam a se preocupar pela insistência de imagens de leões ferozes sobre as paredes do quarto, a ponto de decidir fechá-la, justamente pelo temor que essas imagens tão vivas suscitam neleas. As crianças ficam cramente tristes... obtêm por uma última vez a permissão de brincar no quarto... atraem os pais para lá e... "George Hadley olhou para sua mulher... as feras se aproximam devagar... atocaiadas no mato... Agora os leões tinham terminado a refeição... os urubus desciam um por um do céu ofuscante".
Esta me pareceu uma extraordinária descrição do virtual que se concretiza, ou do que acontece quando é o campo que entra em colapso e as comuniações do paciente perdem o seu estatuto de virtualidade e são "tomadas" como se fizessem parte da realidade externa e não da realidade funcional do campo.
Deve-se notar que o episíodio narrado no conto se passa numa casa completamente automatizada, na qual somente as paredes da nursery constituem um espaço do "primitivo"; deve-se acrescentar, também, que os pais, apavorados pelos fantasmas da realidade virtual, apesar de terem prometido às crianças que estavam "livres para brincar" como quisessem na nursery, tinham ido ao quadro de comando e tinham abaixado a alavanca que matava a nursery.
Ou seja, quando o automatismo da relação e das intrepretações ou das teorias na sessão acende imagens muito primitivas ou evacuações de telas B, aquele é o momento perigoso em que piode haver o colapso do campo, enquanto o analista perde a capacidade de virtualizar a comunicação do paciente e é capturado num jogo real; perdem-se assim as carcterísticas que constituem o jogo analítico, onde tudo é permitido em termos de jogo, sob pena de perder a nursery e a própria situação analítica.
Mas deslocando-nos para a clínica, o que acontece quando a função da mente de pictografar narrativamente as proto-emoções fracassa? Hic sunt leones, utilizando as palavras de Bradbury.
Mas esses leões, esses acúmulos de impensabilidade, que destino têm? A evacuação, que poderá ser maior ou menor e deslocar-se ao longo de um gradiente que irá desde as evacuações mais maciças e destrutivas, as alucinações, até doenças psicossomáticas e os comportamentos sem espessura de pensamento, com os das atuações caracteropáticas, deliqüenciais ou toxicômanas.
Todas essas são situações nas quais a possibilidade de terapia passa através de uma tecedura narrativa de tudo o que não tinha sido possível "digerir"; não importa em qual dos dialetos da dupla analítica se dará tal transformaç~eos, se no dialeto histórico-reconstrutivo, se no fantasmático do mundo interno ou... mas estes são somente possíveis "tipos cozinha".
Bion sustenta que em cada indivíduo existe uma "função psicanalítica da personalidade" (1962) e que o analista, quando interpreta, faz o mesmo que o pai e a mãe quando através da rêverie compreendem o seu filho. Aliás, também Kennedy (1978) afirma que os pais influenciam a capacidade de auto-observação e de insight pela maneira como lhe ensinam a se comportar com os próprios impulsos e os próprios sentimentos.
Fonagy e Moran (1991), referindo-se à "teoria da mente" na acepção que lhe dão Premack e Woodruff (1978), os quais indicam os processos psíquicos subjacentes ao emergir progressivo de teorias sobre "o estado da própria mente assim como o estado das mentes dos outros", afirmam que em circunstâncias que induzem a antecipação de uma intolerável dor mental, alguns pacientes borderline limitam fortemente a própria capacidade de formar uma opinião sobre o seu estado mental ou o de outros. Esta observação me leva a considerar o tema do insight, na formulação que faz Bion a propósito do mesmo em Atenção e Interpretação, cujo subtítulo, convém lembrar, é justamente "A scientific Approach to Insight in Psycho-Analysis and Groups". Bion afirma que para alguns pacientes "o contato com a realidade apresenta maiores dificuldades quando essa realidade é justamente o próprio estado mental". Existem também pessoas que não têm nenhuma tolerância quanto à dor e à frustração e "sentem a dor sem serem capazes de sofrê-la". Afirma também que o processo rumo ao amadurecimento mental é doloroso e, após o famoso exemplo da "fábula dos mentirosos", afirma que "os pensamentos, se pensados, conduzem à saúde mental, se não pensados dão origem ao distúrbio".
Bion afirma também que "o analista deve resistir a qualquer tentativa de agarrar-se ao que sabe, a fim de realizar um estado mental análogo ao da posição esquizoparanóide"; tal estado mental é o que remete às "capacidades negativas", à paciência, à tolerância pela frustração de não saber, embora consciente de que "o animal homem nunca parou de ser perseguido pela própria mente e pelos pensamentos geralmente ligaods a ela, qualquer que seja a sua origem" (p. 177, 178, 179).



FERRO, Antonino. Na Sala de análise: emoções, relatos, transformações. Trad. Mércia Justum. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998.

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