terça-feira, 25 de setembro de 2012

O caso é uma ficção, Juan David Nasio

Todavia, mesmo que um caso tenha uma função didática, como exemplo que corrobora uma tese, uma função metafórica, como metáfora de um conceito, ou uma função heurística, como centelha que está na origem de um novo saber, ainda assim o relato de um encontro clínico nunca é o reflexo fiel de um fato concreto, mas sua reconstituição fictícia. O exemplo nunca é um acontecimento puro, mas sempre uma história reformulada. O caso se define, portanto, como o relato criado por um clínico quando ele reconstrói a lembrança de uma experiência terapêutica marcante. Tal reconstrução só pode ser uma ficção, uma vez que o encontro com o analisando é rememorado através do filtro da vivência do analista, readaptado segundo a teoria que ele precisa validar e, não nos esqueçamos, redigido de acordo com as leis restritivas da escrita. A experiência, o analista participa dela com seu desejo, reencontra-a em sua lembrança, pensa nela por meio de sua teoria e a escreve na língua de todos. Podemos ver como todos esses planos sucessivos deturpam o fato real, que acaba por se transformar em outro. Por isso é que o caso clínico resulta sempre de uma distância inevitável entre o real de que provém e o relato em que se materializa. De uma experiência verdadeira, extraímos uma ficção, e, através dessa ficção, induzimos efeitos reais no leitor. A partir do real, criamos a ficção, e com a ficção, recriamos o real. (p. 17 e 18). NASIO, Juan David. Os grandes casos de psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

As três funções de um caso: didática, metafórica e heurística, Juan David Nasio

Função didática: é justamente esse caráter cênico e figurado que confere ao estudo de casos um poder incontestável de sugestão e de ensino. Por quê? O que distingue o relato de um caso de outros textos didáticos? Sua particularidade prende-se a isto: ele transmite a teoria, dirigindo-se à imaginação e à emoção do leitor. Imperceptivelmente, o jovem clínico aprende a psicanálise de maneira ativa e concreta. Como leitor atento, imagina-se ocupando alternadamente o lugar do terapeuta e o do paciente, e sente aquilo que sentem os protagonistas do encontro clínico. O caso se apresenta, portanto, como uma fantasia em que voejamos livremente de um personagem para outro, no seio de um mundo virtual, estando dispensados de qualquer confronto direto com a realidade. Assim, o exemplo clínico mostra os conceitos e, ao mostrá-los, transforma o leitor num ator que, pela encenação improvisada de um papel, inicia-se na prática e assimila a teoria. É essa a função didática do caso: transmitir a psicanálise por intermédio da imagem, ou, mais exatamente, por intermédio da disposição em imagens de uma situação clínica, o que favorece a empatia do leitor e o introduz sutilmente no universo abstrato dos conceitos. Note-se que a importância evocadora dessa colocação em imagens que é o caso aproxima-se da ideia aristotélica de catarse. Em sua Poética, Aristóteles explica a atração que a tragédia grega exerce sobre o espectador através do fenômeno da “purificação (catharsis) das paixões”. O espectador livra-se da tensão de suas paixões ao ver encenar-se diante dele o espetáculo de seu drama íntimo. Vê desenrolar-se do lado de fora o conflito que está em seu interior. Eis, numa fórmula, o princípio do fenômeno catártico: o semelhante se trata através do semelhante. As paixões que agitam em silêncio o inconsciente do espectador aplacam-se, quando ele vê essas mesmas paixões desencadeadas no palco; assim, a violência das pulsões recalcadas é exorcizada pela violência das paixões teatralizadas. Graças a identificações imaginárias com os personagens da tragédia, o espectador participa ativamente da trama; de espectador, transforma-se em ator. Ora, é exatamente esse mesmo princípio que confere à leitura do caso clínico seu poder sugestivo. Para nosso leitor transformado em ator, o semelhante é aprendido pelo semelhante; ao ler o relato das sessões, ele se imagina sofrendo o que o paciente sofre e intervindo como intervém o terapeuta. Mas surge uma questão. De que maneira a escrita figurada facilita o acesso ao pensamento abstrato? Como pode o leitor, a partir de uma observação clínica, deduzir a teoria? Deixando de lado o prazer narcísico de ler um caso – verdadeiro espelho que remete o leitor a si mesmo –, como esxplicar, por exemplo, por que o relato da Pequena Piggle nos permite compreender de maneira tão sutil o conceito winnicottiano de “mãe suficientemente boa”? Dissemos que o caso – visto pelo lado daquele que o redige – é uma colocação do conceito em imagens, uma passagem do abstrato ao concreto, mas agora queremos conhecer o movimento inverso. Queremos saber como se produz, no espírito do leitor, o trajeto que vai do texto ilustrado ao conceito pensado, da cena à ideia, do concreto ao abstrato. Nossa resposta pode resumir-se no seguinte encadeamento. Num primeiro tempo, e para respaldar uma proposição teórica, o clínico redige o relato do desenrolar de uma análise, descrevendo a vida e os sintomas de seu paciente. Em seguida, o leitor aborda esse texto e se identifica com os personagens principais da história do sujeito, e depois generaliza o caso, comparando-o com outras situações análogas, para enfim discernir o conceito que até então continuava não formulado. É nesse momento que Le deixa a cena clínica e, guiado pelo conceito emergente, vasculha seu espaço mental, povoado por outros conceitos conhecidos e outras experiências vividas. Em suma, depois que nosso leitor vira a primeira página do célebre diário de uma análise que é A pequena Piggle, ele compreende que um dos eixos do livro é a ideia de “mãe suficientemente boa”. Compreende que a “mãe suficientemente boa” é a mãe simbólica, isto é, a duplicação psíquica da pessoa real da mãe, uma estatueta mental que a criança pode maltratar e agredir, sem destruí-la e sem destruir a si* mesma. A partir daí, só resta ao leitor das um último passo – um passo que ele dá sem dificuldade: estender a ideia de “mãe suficientemente boa” ao campo mais geral da relação transferencial entre paciente e analista. Pensando nessa noção e observando como se conclui a análise de Piggle, nosso leitor passa então a saber que, de acordo com os princípios winnicottinos, a meta última da ação do psicanalista é criar no analisando, ao final de seu tratamento, a certeza de que ele pôde amar e agredir seu terapeuta de maneira simbólica, isto é, sem tê-lo realmente possuído nem destruído. A partir da experiência concreta da Pequena Piggle, nós, leitores, acedemos ao conceito de “mãe suficientemente boa” e, partindo desse trampolim, saltamos para um novo conceito mais amplo, que denominarei, parafraseando Winnicott, de “analista suficientemente simbolizável”. Suficientemente simbolizável para sobreviver, como representação psíquica, às projeções pulsionais do analisando; um analista que trabalhou, na realidade da análise, de maneira suficientemente pertinente para imprimir no psiquismo do paciente a imagem simbólica de um terapeuta inalterável, condição essencial para que o analisando termine sua análise sem culpa em relação àquele que se prestou à dominação da transferência. Em suma, o valor didático de um caso reside no poder irresistível da história clínica para captar o ser imaginário do leitor e conduzi-lo sutilmente, quase sem que ele se aperceba, a descobrir um conceito e a elaborar outros. *** Dramatizar o conceito. Entretanto, devo esclarecer aqui – ainda no tema da função didática do caso – que existe uma outra maneira de pôr um conceito em cena, mas sem recorrer ao testemunho de um caso clínico. Como? Já não se trata de uma ilustração na qual o conceito empregado numa cena humana, mas de ver o próprio conceito tornar-se humano e vivo, de antropomorfizá-lo, de fazê-lo falar e agir como falaria e agiria um ser que quisesse fazer-se entender. Assim, movido por meu pensamento visual, ocorreu-me imitar as ideias mais abstratas e formais. Quando tenho que lecionar num contexto restrito como o de meu Seminário fechado, às vezes sou levado a exprimir a significação de uma ideia através de gestos, mímicas ou entonações. Mas, fora dessas situações particulares, quando tenho que expor por escrito uma entidade formal, esforço-me por apresentar suas articulações, sinuosas* e amiúde complicadas, à maneira de um diretor cênico que fizesse do conceito teórico o personagem central de uma trama, que tem um começo, atinge um clímax e tem um desfecho; um diretor que procurasse criar em seu espectador uma tensão tão cativante quanto o suspense de um drama. Tomemos o exemplo do conceito de complexo de Édipo no menino. Quando tive que expô-lo, recentemente, quis que o estilo de minha exposição se coadunasse o mais perto possível com o movimento psíquico que ele designa. Como o Édipo é, antes de mais nada, a travessia de um prova, a passagem brusca de um estado a outro, era preciso que minha formulação refletisse a mesma tensão que antecipa o salto, a mesma emoção da transposição e o mesmo relaxamento que se segue à crise. Assim, como enunciar o conceito, permanecendo fiel a um processo tão móvel e fluido? Ocorreu-me a ideia de forjar um artifício de exposição que desse voz ao inconsciente do menino edipiano. Falando na primeira pessoa, o inconsciente dele nos contaria as peripécias de sua crise edipiana. Eis o que ele nos confiaria: “Eu, o inconsciente, falo: sinto excitações peniana > Tenho o falo e me acredito onipotente > Desejo, ao mesmo tempo, possuir e ser possuído por meus pais, além de eliminar meu pai > Sinto prazer em fantasiar > Meu pai ameaça me castigar, castrando-me > Vejo a ausência do pênis-falo numa menina e em minha mãe > Angustio-me > Paro de desejar meus pais e salvo me pênis > Assim, supero a angústia > Esqueço tudo: desejo, fantasias e angústia > Separo-me sexualmente de meus pais e faço minha a moral deles > Começo a compreender que meu pai é um homem e minha mãe é uma mulher, e, aos poucos, começo a me aperceber de que também pertenço à linhagem dos homens (...).” São essas as emoções sucessivas que pontuam o movimento dramático da fantasia edipiana masculina. Cada frase enunciada na primeira pessoa encerra uma vasta rede de conceitos, que o leitor não necessariamente discerne, mas que ainda assim assimila. Ele lê apenas os “eu sinto”, “eu desejo”, “eu me angustio” ou “eu esqueço” com os quais se identifica, e, ao fazê-lo, integra espontaneamente entidades abstratas. Numa palavra, dramatizar um conceito significa personalizá-lo e pô-lo em jogo numa unidade de lugar, tempo e ação, a fim de captar o leitor e levá-lo ao cerne da teoria. *** Função Metafórica. Voltemos agora ao caso clínico e a seu valor metafórico. É frequente – e estou pensando sobretudo nos casos célebres da psicanálise 0 a observação clínica e o conceito que ela ilustra estarem tão intimamente imbricados, que a observação substitui o conceito e se torna uma metáfora dele. O recurso repetido dos psicanalistas a alguns grandes casos, sempre os mesmos, para exemplificar um dado conceito, acarretou, ao longo dos anos, um deslizamento de significação. O sentido inicial de uma ideia tornou-se, pouco a pouco, o próprio sentido de seu exemplo, a tal ponto que basta a simples menção do nome próprio do caso (Joey, irmãs Papin, Dominique etc.) para fazer com que o jorre instantaneamente a significação conceitual. Por exemplo, em vês de estudar a psicose em termos abstratos, sucede-nos evocar espontaneamente um dado episódio da história do delirante presidente Schreber, e, ao fazê-lo, teorizamos sem saber que estamos teorizando. Penso aqui no momento exato em que eclode o delírio paranoico do célebre presidente. Eis a cena: ainda mal despertado de uma noite de sono, Schreber imagina que seria belíssimo ser uma mulher vivenciando um coito. Já essa simples evocação presentifica a hipótese freudiana que faz da paranoia masculina a expressão mórbida de uma fantasia infantil e inconsciente, de conteúdo homossexual: a de ser sexualmente possuído pelo pai e gozar com isso. Em seu devaneio erótico, Schreber é uma mulher inebriada com a volúpia da penetração, mas, em sua fantasia subjacente é, na verdade, um garotinho que goza ao se entregar ao desejo sexual do pai. Por isso, o fato de um psicanalista evocar esse chavão, esse episódio marcante da doença de nosso presidente neuropata, equivale a afirmar uma das principais proposições que explicam a origem da paranoia: o amor inconsciente pelo pai é projetado para fora, na pessoa de um homem perseguidor a quem se odeia e de quem se tem medo. A causa da paranoia é a reativação aguda de uma fantasia homossexual edipiana. Como vemos claramente, o conceito de projeção paranoica apaga-se diante do exemplo que se tornou seu substituto. É até possível que o caso-metáfora seja estudado, comentando e incansavelmente retomado, na comunidade dos praticantes, a ponto de adquirir um valor emblemático, ou mesmo de fetiche. Que são Schreber, Dora, e Hans, senão histórias consagradas pela tradição psicanalítica como os arquétipos da psicose, da histeria e da fobia? Será preciso acrescentarmos que as numerosas observações clínicas que povoam a teoria analítica lembram a impossibilidade de o pensamento conceitual dizer a verdade da experiência, unicamente por meio do raciocínio formal? *** Função heurística. Sucede, além disso, o caso ultrapassar seu papel de ilustração e de metáfora emblemática, tornando-se, em si mesmo, gerador de conceitos. É a isso que chamo “função heurística de um caso”. Às vezes, a fecundidade demonstrativa de um exemplo clínico é tão frutífera, que vemos proliferarem novas hipóteses que enriquecem e adensam a trama da teoria. Retomando a figura do presidente Schreber, foi justamente graças às espantosas Memórias de um doente de nervos, comentadas por Freud, que Lacan pôde conceber pela primeira vez a ideia de significante do Nome-do-Pai e a ideia correlata de foraclusão, noções que desde então renovaram a compreensão do fenômeno psicótico. Para completar, não nos esqueçamos do papel desempenhado pelo célebre caso do Homems dos Lobos (episódio da alucinação do dedo cortado) no nascimento do conceito lacaniano de foraclusão (da página 12 à 17). NASIO, Juan David. Os grandes casos de psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O trabalho de Paul Gray, Doutor em Medicina (A tradução é de minha autoria).

Comentários referentes à reunião do dia 16 de janeiro de 2002. Apresentador – Baer Ackerman, Medicae Doctor Transcrito por Marc L. Rathburn, PhD O problema da sugestão tem inquietado os analistas desde o início. Há os que afirmam que é justamente esse elemento que impede a psicanálise de ser científica. Em contrapartida, existem os que consideram difícil de imaginar a condução do tratamento sem a presença da sugestão. Atualmente, reconhece-se a ideia de que a sugestão não pode ser eliminada da situação clínica. E isso levou alguns a pensar que toda a esperança de desvendar a(s) verdade(s) das pessoas se perdeu. De acordo com o Doutor Ackerman, o foco se deslocou para os chamados fatores de “ambiência” na análise. E essa mudança afrontou a resignação “boba” dos construcionistas pós-modernos e transformou em blefe o que Owen Renik – apenas para nomear um dos expoentes do intersubjetivismo – trouxe sobre a cooperação do igualitarismo no processo terapêutico. Gray acredita, assim como os outros, que a sugestão não pode ser evitada. No entanto, ele aposta em sua minimização. Além disso, como o Doutor Ackerman percebeu, Gray considera que exista em nós algo como uma verdade objetiva que pode ser descoberta em análise. Ele explica que os resultados podem ser alcançados de forma efetiva a partir da análise das defesas que englobam, mais do que desviam, certas funções do ego. Ao longo dos últimos trinta anos, Gray produziu uma série de artigos memoráveis pela consistência e pela lucidez; neles, mostrou que muitas das técnicas interpretativas, consideradas infalíveis, não conseguiram acompanhar os avanços da teoria estrutural de Sigmund Freud e nem as cruciais contribuições sobre os mecanismos de defesa feitos por Anna Freud. Como consequência, as origens e as repercussões referentes à aplicação terapêutica da hipnose em psicanálise persistem obscuras e controversas. Mas o que Gray considera como sendo um fator sugestionável nos preceitos fundamentais da técnica? Eis o que Lawrence Friedman (1996) expôs: “... o grau e a intensidade empregados em uma intervenção analítica podem definir (ou escamotear) um ponto na discussão... No momento em que o assunto é identificado ou caracterizado, há a tendência de que a percepção seja modelada conforme o prestígio exercido pelo analista, que pode ou não assumir ares pragmáticos em sua postura ad hoc – o que, enfim, atrai a atenção do observador poderá influenciá-lo... Ao provocar alguém a realizar uma descrição fiel de si mesmo, enfatizando especialmente o que é refugado no discurso da maioria das pessoas, o analista, de forma tácita, cria uma situação em que há um investimento massivo de poder e de confiança em sua imagem e, como Gary complementou, é aí que surge o convite para que o paciente faça uso das representações que podem advir dessa relação...” (p. 326-327). O leitor pode considerar a assertiva um tanto desgastada, semelhante ao clichê de tornar consciente o que jazia inconsciente, não é mesmo? Mas a intenção de Gray também se concentra nisso: muito do que é feito depende da fé, ou melhor, das “transferências de autoridade”. O Doutor Ackerman, que é um membro renomado do Instituto Psicanalítico de Dallas, assevera que o método analítico de Gray é bastante rigoroso e eficaz e requer, por conseguinte, a habilidade de manter o foco e de renunciar à tentação de direcionar e de conduzir o conteúdo e a dinâmica da sessão. Os assuntos que compõem o cotidiano trazem desvios e, ao mesmo tempo, possibilidades de gratificação; no entanto, ambos – analista e paciente – devem priorizá-los tardiamente no tratamento. Vale lembrar que um dos participantes do grupo de Gray recomenda que as intervenções sejam contundentes e quase “amorfas” (Davis et al., 1991). Então, para o que devemos atentar ao longo do processo, de acordo com as acepções de Gray? Para o que se desenvolve na sessão. Gray entende que tudo o que é manifestado durante a consulta diz respeito ao funcionamento da mente do paciente, ou seja, tudo o que acontece em ato nesse instante alude à qualidade do vínculo e dos objetos que povoam o seu mundo interno. Gray não dá importância se a sucessão do relato da experiência é lógica ou coerente (ele releva as limitações e as distorções inerentes a isso) e, também, não busca o significado absoluto do que é expresso. O que se privilegia são as ambiguidades, visto que algumas conceituações podem ser arbitrárias e improdutivas aos objetivos da análise: “Quando o analista examina o discurso do paciente e percebe que os assuntos giram em torno do que aconteceu fora do consultório, no plano do que chamamos de realidades, e a narração dos eventos fica restrita à esfera cotidiana, surge o risco de que se contemple apenas o comportamento e não a gama de pensamentos evidenciados nos contextos em questão, e é necessário que se desbrave o máximo possível das camadas da mente e não tanto o oposto... A vantagem de prestar atenção aos pensamentos ao invés de estudar a conduta do paciente é a de que as associações se tornam ilimitadas (Gray, 1994, pp. 17-18)”. O que Gray observa a seguir é um movimento, uma dinâmica singular. Algo que sugere o acionamento involuntário das atividades defensivas, que são potencialmente identificadas, quando pronunciadas, pelo paciente. (Aos leitores que quiserem aprofundar a abordagem técnica de Gray, encorajamos o contato com os seus artigos (Gray, 1994) e, também, com o “Festshrift ”, editado por Marianne Goldberger (1996)). O interesse de Gray por eventos observáveis estimula no paciente a floração da consciência e da “razão”: a cooperação incita o desenvolvimento de uma espécie de sequência. Ademais, em função das típicas intervenções de Gray, que podem ser sintetizadas pelo enunciado “malhar em ferro frio”, o paciente se sente incentivado a voltar à tal sequência mencionada e “se apropriar” do desconforto produzido pelo desencadeamento inicial das reações defensivas. Gray enfatiza o fato de que é necessário encontrar vias plausíveis e compensatórias de comprometer o ego com a análise, sem que o processo subtraia os encantos da vida e nem “estupidifique” o paciente a ponto de converter a experiência do tratamento em uma obsessão. No entanto, o Doutor Ackerman “discorda” em realizar o que foi mencionado acima de uma forma mais ou menos estereotipada. É por isso que o cabedal de técnicas de Gray é considerado, por ele mesmo, como sendo inapropriado ou ineficaz para certos pacientes cujos “horizontes são por demais limitados”, ao menos isso se configura sem que se tenha uma rede de apoio que sustente e complemente a terapia. (Para satisfazer a curiosidade sobre o manejo desse tipo de paciente a partir das ideias de Gray, consulte Hutchinson, 1996). Vale notar que Gray não censura tais medidas e nem se opõe à sugestão per se. Ao contrário: acredita que esses procedimentos têm um lugar importante no campo de conhecimento da psicoterapia e da análise e que podem, dependendo da necessidade, sofrer ajustes ou alterações em vista de prover benefícios terapêuticos aos pacientes. Mas, em meio a isso, afirma de modo categórico que o essencial deve ser preservado, pois os resultados dependem do fenômeno da transferência de cura – atributo "substancial" à psicanálise. (O "essencial" se configura como um método que exige do paciente o reconhecimento de uma camada existencial – a chamada separação definitiva –, e a percepção dela é rara ou intolerável dentre os pacientes dotados de uma mentalidade estreita frente à vida. A respeito disso, lembro-me de ter sentido arrepios ao ler, pela primeira vez, o segundo artigo de Gray sobre o "superego"). É claro que há controvérsias em relação ao que, hoje, conhecemos como pacientes regressivos. Para todos os efeitos, o Doutor Ackerman, durante a apresentação de um dos seus casos, questionou a visão de Gray e acrescentou que certas medidas suplementares ou parâmetros não corrompem os resultados da análise com pacientes regressivos, desde que se investigue e se compreenda o significado e a importância da presença do analista. (Não tenho certeza se Gray discordaria ou não do Doutor Ackerman). Este foi um intrigante exemplo apresentado a partir da teoria de Gray e despertou na plateia intensas reações. Pelo que consta, o Doutor Ackerman apresentou um paciente que não "passou" pela avaliação de Gray e nem foi atendido em uma "modalidade" que conservasse afinidades com o ponto de vista do mesmo autor, ao menos foi o que se evidenciou no início do tratamento. "Ainda assim, ao contrário das expectativas, o caso trouxe à tona pontos centrais das "hipóteses" de Gray: 1) a análise da defesa é a melhor forma de se chegar ao núcleo do conflito que está em jogo; 2) ajudar as pessoas a expandir a consciência em relação aos conteúdos inconscientes proporciona que o seu modo de viver seja menos neurótico; 3) é necessário analisar qualquer espécie de modificação feita pelo paciente em se tratando do processo terapêutico". Em função de o material clínico ter sido extremamente detalhado e coeso (e, de fato, o foi), os ouvintes conseguiram ter uma experiência reflexiva e interessante, mesmo que tenham ou não concordado com os apontamentos do Doutor Ackerman. Alguns se identificaram com a proposta; outros, não. Será que o excerto escolhido pelo Doutor Ackerman documentou fielmente a relação que se estabeleceu com o paciente e será que houve mesmo uma intolerância à abordagem feita por Gray no curso da análise? O fragmento em questão mostrou com clareza o tipo de defesas que costumam se manifestar diante das intervenções terapêuticas eleitas ou foram meios de provar os efeitos salutares que advém a partir de uma transferência de autoridade? Mesmo que o Doutor Ackerman não tenha se espelhado no método de análise das defesas recomendado por Gray, será que ele não obteve êxito em contemplar as defesas que se evidenciaram? Ou não foi um modo de a sugestão se mascarar na análise das defesas? Um cordial agradecimento ao Doutor Ackerman pela riquíssima e cuidadosa apresentação clínica.

O Ego e a análise da defesa (1995) (A tradução é de minha autoria).

Por Paul Gray. Northvale, NJ: Jason Aronson. 1994. Pp. 254 + xxvi. International Journal of Psycho-Analysis 76: 646-648. Resenha feita por Steven Levy Na obra de intitulada O Ego e a análise das defesas, temos uma compilação dos pilares teóricos e das contribuições técnicas de Paul Gray à literatura psicanalítica. O principal objetivo da abordagem clínica de Gray é a de ampliar a capacidade de auto-observação do analisando, especialmente quando se trata da eclosão das defesas frente aos conflitos intrapsíquicos. O trabalho do autor tem exercido uma influência cabal na consolidação do manejo técnico dos mecanismos de defesa. De acordo com a ótica de Gray, a atividade terapêutica realizada pelos profissionais merece um cuidadoso escrutínio a partir do que até agora vem sendo debatido sobre o tema. Os analistas diminuíram o afã de colocar em prática os preceitos técnicos do modelo estrutural, presentes nas seguintes obras de Freud: O Ego e o Id e Inibições, sintomas e angústias. Em uma série de manuscritos, realizados ao longo das duas últimas décadas, Gray, inspirado pelas ideias da aplicação da teoria estrutural de Freud, buscou adaptar e reelaborar as hipóteses e os conceitos referentes ao que chama de “atraso no desenvolvimento”. Simultaneamente, o autor demonstrou, de forma sucinta, como a técnica centrada na análise das defesas pode ser mais eficaz e vantajosa do que a contemplação do ponto de vista estrutural na dinâmica do funcionamento mental. O analista se empenha para que o paciente monitore a sua própria atividade intrapsíquica, ficando atento à defesa precipitada pelos conflitos internos. Gray traz à baila a maneira pela qual os analistas podem proporcionar aos pacientes a identificação, no momento em que emergem no processo de associação livre, das atividades defensivas. Ele nos mostra como reconhecer a defesa e as motivações ocultas em sua manifestação e, também, aponta o elo existente entre a inibição e a tentativa, por parte do paciente, de, aos poucos, revelar os conteúdos do mundo interno. No capítulo reservado ao “atraso no desenvolvimento”, Gray detalha as tendências, em voga entre os analistas, para explicar o porquê de o modelo estrutural de Freud e da segunda teoria da angústia não terem sido de todo operacionalizados na prática clínica. Ele alude à fascinação que o Id atrai para si e delata a preferência dos analistas e dos analisandos de seguirem um esquema baseado na compreensão dos instintos e de seus derivados e não o de procurar os mecanismos defensivos que inibem a expressão plena dos mesmos. Em seguida, Gray retoma a predileção dos analistas por uma postura analítica autoritária, papel particularmente benigno para a conservação do enquadre e para a investigação das experiências e defesas do analisando. Em capítulos subsequentes, Gray relatará como funciona essa tal postura benigna perante uma variedade de projeções do superego que, caso não sejam examinadas, põem em marcha a resistência e uma série de defesas obscuras que são contraproducentes às capacidades do ego de suportar e de elaborar os intensos efeitos derivados das pulsões. O autor explora o papel da realidade externa usada como um meio defensivo e enfatiza, durante o trabalho analítico, a existência de uma “referência interna”. Isso faz com que o foco se polarize no discurso e nas atividades mentais emergentes do paciente, que se esforça em transmitir ao analista a imagem acurada de si mesmo. Em uma abordagem do aqui-e-agora, o analista se torna mais propenso aos impulsos e à transferência das fantasias agressivas do paciente. Toda essa pressão dirigida ao analista nos leva ao quarto princípio, talvez o mais importante dentre os fundamentos descritos por Gray e que se refere ao atraso no desenvolvimento, a chamada resistência às intensas mobilizações provocadas pelas demandas imediatas da transferência. São elas que, geralmente, por via de interpretações genéticas, fazem com que o analista e o analisando divirjam dos propósitos do tratamento e se liguem aos elementos que conservam proximidade com a vida fora do consultório, por exemplo. É importante ressaltar que o objetivo principal de Gray é o de enfocar a emergência in loco do processo defensivo no paciente. É necessário ficar atento ao que se produz e ao que é omitido no diálogo circunstancial do aqui-e-agora e, também, é preciso observar, especialmente, os danos subjacentes à ativação dos mecanismos defensivos do ego, que cerceiam a autonomia do paciente a ponto de impedi-lo de lidar de uma forma adulta e realista frente à vida. Ao examinar o superego, Gray pega de empréstimo o método e a perspectiva que Anna Freud (1936) usou para lidar com a transferência de defesa. De acordo com o autor, o paciente percebe o analista como uma figura autoritária, acolhedora e tolerante a um só tempo, ou como uma força reguladora das precipitações instintuais. Visto assim, o superego, que é o herdeiro do complexo de Édipo, se equipara a um mecanismo de defesa. Ao se contemplar o fenômeno do superego na transferência como sendo uma atividade defensiva do ego, a ênfase técnica visa a ajudar o analisando a reconhecer, em face às angustias geradas no decurso da sessão, a sua procura ativa por refúgio nas experiências de transferência superegoicas. É aí que reside a marca singular do trabalho de Gray, na agressão e nas inibições do superego. O último capítulo do livro é dedicado ao ensino e à supervisão. Ele menciona o papel crucial da sugestão como artifício de manutenção da imagem autoritária, acolhedora e tolerante do analista e, também, aponta as intersecções e existentes entre a psicoterapia de orientação psicanalítica e a psicanálise. Foram feitas, nessa parte, importantes distinções entre os dois campos de saber. O autor compartilha o seu jeito de auxiliar os supervisores a observarem e a entenderem, nos relatos dos casos clínicos, os gatilhos de ansiedade que acionam as manobras defensivas nos pacientes. O que foi priorizado no diálogo que revela a vivência intrapsíquica do paciente é o modo tático de abordar a manifestação das defesas e os perigos inerentes a elas. Gray vê a confirmação dos materiais genéticos como secundária e encoraja o processo de auto-observação para que a necessidade de erigir defesas diminua no decurso da análise. O Ego e a análise das defesas apresenta o minucioso trabalho de operacionalização dos conceitos de Freud em relação ao modelo estrutural do funcionamento da mente. A persistência na interpretação das defesas e na investigação dos elementos sugestivos são as principais contribuições de Gray. Ele deu mais organicidade e clareza à unidade teórica e técnica da psicanálise e da psicoterapia, e isso é algo digno de nota. E é por esse motivo que, por si só, o livro em questão deve embasar a prática de muitos analistas e de psicoterapeutas de orientação psicanalítica. Trata-se de uma oportunidade de prestigiar uma das obras mais criativas feitas por um psicanalista. Referências Freud, S. (1923). The Ego and the Id. S.E. 19.[à]SE.019.0001A Freud, S. (1926). Inhibitions, Symptoms and Anxiety. S.E.20[à]SE.020.0075A Freud, A. (1946). The Ego and the Mechanisms of Defense. New York: Int. Univ. Press

As inovações técnicas de Paul Gray na psicanálise (A tradução é de minha autoria).

Psychoanalytic Quarterly 76: (1) 257-273 (2007) Ensaio crítico do livro Lawrence N. Levenson, M.D. Será que estamos a lidar com uma renovação da psicologia do ego? Nos últimos anos, os analistas têm explorado os paradigmas condizentes às nuances da relação bipessoal, fato que fez com que a psicologia do ego saísse um pouco de moda, ao menos foi o que ocorreu em alguns cantos do mundo psicanalítico. A revitalização do interesse pela psicologia do ego certamente encontrará inspiração nos trechos selecionados a partir do livro O Ego e a análise das defesas , 2ª edição, 2005, de Paul Gray. Dirigidos ao público contemporâneo, os escritos de Gray são lastreados por um estilo rigoroso e preciso e enunciam, de forma clara, às suas visões sobre a teoria e a aplicação da técnica psicanalítica. Poucos são os analistas que tiveram o apuro que ele teve ao tratar do percurso da teoria à técnica; em menor número estão os que conseguiram descrever e explicar a metodologia de sua abordagem de modo tão detalhado quanto Gray o fez. O autor tomou como ponto de partida a unidade da teoria estrutural e instintual e a elegeu como o melhor modelo para explicar a dinâmica psicanalítica da mente. Para se embasar, ele se valeu dos conceitos tradicionais, tais como: a neutralidade, a objetividade do analista, a relativa observação da autonomia do ego pelo paciente e a aliança racional que se forma entre o analista e o paciente. Seu aporte teórico e clínico se concentrou na “análise dos problemas emergentes advindos do encontro dos derivados instintuais com o conflito que força o ego a se voltar às gratificações inconscientes ao invés de tê-las pela via consciente” (p.90). O curioso é que tudo isso o colocaria, aos olhos de certos leitores contemporâneos, entre os que pertencem ao grupo dos anacrônicos, autoritários e obsoletos no panteão da escola psicanalítica. Na verdade, ao adotar o arcabouço teórico do modelo estrutural, Gray incitou a revisão das técnicas analíticas dominantes e afrontou os clichês mais empregados no campo da psicanálise. Em função da verve crítica direcionada às técnicas tradicionais, é uma surpresa que o seu polêmico e controverso trabalho, que veio à tona em um cenário de trinta anos atrás, ainda esteja em vigor e gere discussões. Ao longo da carreira acadêmica, Gray se referiu com frequência a uma defasagem na técnica analítica. E isto foi o que deu origem ao seu mais afamado ensaio, “O atraso no desenvolvimento na evolução da técnica psicanalítica do conflito neurótico” (1982) – que, ao ser publicado, fez com Gray fosse mesmerizado por todos no mundo analítico. Nele, o autor apontou, dentre outros, dois marcos da revolução: a primeira se deu quando Freud substituiu, em partes, a teoria topográfica pelo modelo estrutural, o que fez com que a técnica psicanalítica adquirisse novas perspectivas; a segunda, quando a interpretação do conteúdo inconsciente se voltou à análise dos mecanismos de defesa do ego contra as pulsões. Enquanto alguns analistas, inspirados na clássica monografia de Anna Freud sobre as defesas (1936), falavam levianamente da importância da análise das defesas e referiam-se aos preceitos técnicos da “análise da defesa a partir da pulsão”, Gray assinalou que nenhuma metodologia sólida havia sido elaborada para tornar a análise da defesa prioritária no trabalho analítico. O que ele demonstrou de modo convincente em seu artigo sobre o atraso no desenvolvimento, apesar de todo o falatório a respeito do padrão da análise das defesas, foi que, ao invés de analisar sistematicamente as defesas, se pudesse confiar na transferência baseada na autoridade do analista que influencia ou desvia o acesso ao material inconsciente do Id. A despeito de se ter aderido à teoria estrutural justamente pelo poder exortativo nela contido, a técnica analítica continua atada ao modelo topográfico cujo objetivo é o de contornar as defesas do paciente para tornar o inconsciente consciente. O esforço empreendido por Gray foi o de reformular a técnica analítica e convertê-la em um método eficaz para a investigação das defesas e suas respectivas manifestações. A psicologia do ego, um desdobramento do modelo estrutural, tem como tarefa essencial do tratamento se ater às respostas defensivas da parte inconsciente do ego frente aos conflitos que se opõem aos desejos neuróticos. Um dos focos principais de Gray ao escrever era o de corrigir as distorções inerentes ao método operacional que, ao invés de analisar de forma consistente, reforçava ainda mais as defesas dos pacientes. As ideias do autor evocaram em torno de si interesse e rechaço, porque propuseram novas balizes à abordagem até então existente: analisar as defesas o máximo possível. Em um de seus primeiros trabalhos publicados “A técnica psicanalítica e a capacidade do Ego de observar a atividade intrapsíquica” (1973), a intenção de Gray de reelaborar determinadas técnicas ficou evidente. A partir do que considerou como uma mudança fundamental na natureza da escuta do analista, “O Ego e análise da defesa” começou a ganhar forma. Os analistas foram encorajados a usar uma espécie de “terceiro ouvido” para captar as sutilezas do material inconsciente. O autor mencionou que, para que se percebam as defesas, seria preciso apelar para um tipo peculiar de escuta: sintonizada em uma frequência propícia à interpretação das legendas elípticas transmitidas pelo ego. Em vez de comparar a escuta à arte e elevá-la à categoria da intuição e da criatividade, Gray preferiu pensar o ofício do analista como algo mais artesanal – uma inclinação para ouvir de perto e com redobrada atenção (e não de modo flutuante) as ondas do conflito e da defesa. Aqui, ao propor uma modalidade diferente de escuta, o autor quase se converteu em um herege ao confrontar um dos princípios sagrados do relicário da técnica analítica. E, neste primeiro artigo, Gray foi ainda mais longe ao plasmar o que, depois, viria a ser a sua assinatura no cabedal da psicanálise, o estreitamento da perspectiva de escuta dos eventos psíquicos que vêm à tona durante a hora analítica. Tal ação incita o ego a se apropriar de um arsenal defensivo que impede que os conteúdos inconscientes sejam pilhados pela consciência. O foco interior permite ao analista acompanhar as pulsões e as defesas que surgem de imediato no tratamento e demonstra, com nitidez, os recursos de escapismo utilizados pela mente tumultuada do paciente. No instante em que os derivados da pulsão vêm à tona, o perigo, caudatário do conflito, se instala no ego e tende a acionar medidas defensivas automáticas para remover da superfície da consciência o que se deflagrou. É aí que a intervenção favorece o monitoramento dos conteúdos psíquicos do paciente e, também, a percepção do poder inerente à sugestão e à transferência no processo analítico. Ademais, a escuta no atendimento clínico serve para corroborar o foco analítico, colocando-o onde realmente deve estar, ou seja, no funcionamento mental do paciente e não tanto em seu jeito de viver fora do consultório. Gray notou de forma tenaz que, quando o tratamento se orienta ou migra para fora da situação analítica e tende a especular a vida do paciente (como regularmente acontece ao se empregar a técnica tradicional), a atenção dele se desloca para o seu modo de ser no cotidiano – e o resultado disso se traduz em defesas, principalmente nas que têm afinidade com o superego, por conservarem um elo com o comportamento, com a conduta e com as decisões que devem ou não ser feitas ao longo do dia, por exemplo, e é nessa diluição do foco que o analista perde a oportunidade de ter acesso às camadas mais profundas da mente. A projeção da vida fora do enquadre analítico representa uma divergência de temporalidades, que arranca do paciente a possibilidade de lidar com as angústias suscitadas pelo conflito imanente. Muitas questões técnicas que interessaram profundamente Gray e que estimularam as publicações no decorrer dos trinta anos seguintes, foram apresentados em seu primeiro artigo, tais como: a escuta das defesas em ação, o foco na mente e não tanto na vida, a análise da atividade do superego, o entendimento da agressão a partir do conflito e, por fim, a aposta e não a subestimação do comprometimento das funções maduras do ego do paciente em relação ao tratamento. Ele define a neurose com base nos padrões “habituais, inconscientes e antiquados” (p.65) delatados pelas defesas do ego e, também, considera que a qualidade da aliança estabelecida com o ego é vital para o êxito da analise. O atraso ou defasagem, referido na técnica de Gray, tem a ver com o uso da autoridade e da influência do analista para que as resistências sejam suprimidas a ponto de o material inconsciente eclodir na transferência. Mais do que forçar a mudança, Gray recomenda que o analista forme um vínculo racional com a parte saudável do ego em vista de estimular a investigação da dinâmica das defesas inconscientes e de favorecer a autonomia e a maturidade do paciente. No artigo “Em como ajudar os pacientes a observarem a sua própria atividade intrapsíquica”, Gray discutiu as técnicas específicas que levam os pacientes a treinar as habilidades de observação em vista de perceberem as resistências. Embasado na clássica contribuição de Sterba (1934) sobre a dissociação do ego no processo analítico, Gray se deu conta de que poderia se aliar a uma parte racional e vigilante do ego com a intenção de aprender e de investigar o modo pelo qual o paciente reage aos conflitos inconscientes. A grande vantagem de interceptar o conflito na superfície da consciência era a de dar provas imediatas à parte lógica do ego do paciente a respeito de seu funcionamento mental e de seu modo de resolver ou não o drama em questão. Deste modo, as capacidades cognitivas se tornariam participantes ativas no percurso analítico. Antes da difusão das ideias de Gray, a técnica tradicional, em contrapartida, dava primazia à interpretação do que ainda não era consciente ao paciente; isso colocava em xeque a transferência baseada na autoridade e menosprezava, mais do que promovia, a participação relativamente autônoma do analisando e as suas capacidades racionais de monitoramento do que ocorre no tratamento. A crença de que o paciente (mesmo o que esteja situado no ápice do espectro dos transtornos mentais, o de “horizontes estreitos”, para usar uma terminologia de Gray) possui maturidade e algum grau de autonomia em uma das partes do ego, é a pedra basilar de todos os postulados teóricos e técnicos de Gray. A partir desse pressuposto, ele desenvolveu uma metodologia que ajudava o paciente a exercitar as funções autônomas do ego com o objetivo de aprender e de observar a regressão e as mudanças psíquicas em resposta aos sentimentos irracionais de perigo oriundos da infância. Para englobar os aspectos intelectuais e maduros do ego do paciente, Gray recomenda que o analista faça intervenções claras e tente imprimir na voz um tom apropriado às palavras para que, assim, a curiosidade seja estimulada. O autor sentia que, idealmente, a análise seria um processo de aprendizado e que, por incluir a inteligência do paciente, não deveria ser confundida com meras tergiversações ou como uma ode ao intelecto, tanto que não abdicou de sua posição (apesar das severas críticas dirigidas à possibilidade de tornar o tratamento frio e racional demais). Gray enxerga no paciente o potencial racional e objetivo de suas funções autônomas do ego. São elas que permitem que a análise ocorra e se configure como um espaço de aprendizagem, que se dá mais pela via do ego do que pela do superego. Gray enfatizou a facilidade com que o superego tende a comandar o senso crítico e as capacidades de auto-observação do ego, e isso, com frequência, inibe os propósitos terapêuticos. Para minimizar a intrusão do superego na instância observadora do ego, ele alertou que o analista deve evitar o uso de palavras e de intervenções que possam evocá-lo e, para tanto, precisa manter viva a atitude julgadora e objetiva presente no ego. Por essa mesma razão é que Gray preferia que os analistas aderissem a uma modalidade da “regra fundamental” mais centrada na tarefa da psicanálise, diferente de uma associação livre que prima pela hegemonia do superego no tratamento. A figura do superego é proeminente no pensamento de Gray. No primeiro de seus dois grandes artigos que tratam dessa instância, “Sobre a técnica de análise do Superego – uma introdução” (1987), o autor apontou que os pacientes, comumente, projetam no analista as imagens, internalizadas na infância, que aludem à tentativa de eliminar os impulsos dolorosos e que vieram a constituir o superego. Tais imagens regressivas inspiram cautela e são precipitadas justamente para impedir que o analista realize o seu trabalho. A neutralidade, nesses casos, concede liberdade ao paciente para que manifeste os seus medos e se sinta encorajado a revelar-se, mesmo que para isso projete no analista as imagens do superego e se valha de defesas e distorções ao fazê-lo. As transferências superegoicas pertencem à alçada de Anna Freud (1936) e entram em uma categoria secundária, a da transferência defensiva. Nela, os objetos são investidos de libido em vista de instaurarem “a lei e a ordem” diante das pressões instintuais. Gray foi incisivo ao afirmar que a atenção deve ser canalizada nas transferências de defesa e não tanto nas do Id. Ele explicou que as transferências defensivas do superego carregam em si fantasias onipresentes que colocam o analista em um papel autoritário e judicante. São elas, portanto, que servem de base para que as atividades defensivas do ego se manifestem durante a sessão. Em outras palavras, uma vez que o analista é interpretado como um personagem autoritário e censor, o ambiente analítico se torna a um só tempo seguro e ameaçador para a autorrevelação do paciente. Uma das lacunas mais significativas presentes na técnica tradicional, segundo Gray, era o fato de que as transferências defensivas do superego foram relegadas ao esquecimento e encaradas, vez que outra, como efeitos circunstanciais do poder que o analista exercia sobre o paciente. Gray viu nas transferências do superego uma problemática a ser desenvolvida, algo que poderia colocar em xeque a análise, pois elas apresentavam à ação terapêutica uma espécie de avenida ou estrada, que, na visão do autor, era de difícil acesso, mas que poderia levar à exploração e à maturação das capacidades lógicas e objetivas do ego. A começar por Freud, a metodologia empregada pela maioria dos analistas consistia no uso da força autoritária, derivada das transferências do superego, para sobrepujar, ao invés de analisar, as resistências que barravam o acesso aos conteúdos reprimidos do Id. Os psicólogos do ego falavam que a análise das defesas era a essência do tratamento, mas não desenvolveram nenhum método para efetuá-la, e acabavam apenas se resguardando nas premissas da transferência baseada na autoridade. Aqui, fica nítida a dependência dos analistas em relação à autoridade derivada da transferência do superego. Mesmo com os avanços teóricos do modelo estrutural, a influência que a sugestão e a hipnose trazem à técnica psicanalítica continua grande e, ainda assim, a psicologia do ego carece de um aporte técnico que enfatize o ego e não tanto o superego. Gray compreendeu que a transferência derivada da autoridade poderia despistar as defesas e, efetivamente, trazer à consciência o conteúdo reprimido, e isso representava a ação terapêutica na psicanálise. De fato, ele asseverou que essa abordagem – que remonta as clássicas discussões de Strachey sobre a apropriação da imagem do analista como uma alternativa benigna de substituir ou amainar o sadismo do superego – foi bastante satisfatória para a maioria dos pacientes. Mas ele sentiu que, para alguns, os que conseguiam ter uma participação plena no processo analítico, essa modalidade de tratamento deixava a desejar. Com tais pacientes era preferível apostar no insight tanto cognitivo quanto experimental (empírico), pois eles possuíam uma maturidade do ego que favorecia o gerenciamento da vida instintiva e, logo, não se beneficiariam com a incorporação da autoridade vinda do analista – que, no caso, incrementaria ainda mais o poder do superego a ponto de limitar a possibilidade de o paciente se sentir mais autônomo. Gray percebeu que os pacientes, mesmo aqueles dotados de um ego fortalecido, sofriam a influência sugestiva do superego, e isso poderia ser usado em prol do conhecimento de sua realidade intrapsíquica. Assim, Gray recomendou que os analistas não explorassem as transferências do superego, por mais tentadoras que fossem, pois investigá-las seria um meio por si só de acioná-las no paciente. Para tanto, o analista deveria assumir uma postura o mais neutra possível em vista de ser alvo das projeções das transferências do superego. Em seu segundo artigo que trata do superego, “Sobre a transferência permissiva ou aprovadora das funções do superego: a análise das atividades do Superego no Ego, parte II” (1991), Gray chamou a atenção para o fato de que, além das conhecidas faculdades censoras e críticas, o superego também concentra em si registros afetivos, permissivos e recursos de proteção. Pela data da publicação, o artigo parece ter sido escrito em resposta à onda de entusiasmo nascida nos anos 80 em relação às metodologias emergentes, particularmente a da Psicologia do Self, de Kohut. Gray notou que a essência da psicanálise – a investigação da resistência – não se concentrava somente no que ele escreveu, acerca de uma década, sobre o “atraso do desenvolvimento”, mas também se estendia às metodologias psicanalíticas em geral. Gray compreendeu que essa mudança de paradigma converteria o analista em um objeto relativamente frágil que, na transferência materna, cederia às fantasias de amor e de aceitação incondicionais do paciente. Mais uma vez, a neutralidade do analista é distorcida, só que agora de uma forma mais elusiva e positiva, como se estivesse a serviço dos fins de autopreservação que motivam a projeção de imagens críticas do superego no analista. Quando o analista se alia a essas benevolentes distorções da transferência com o objetivo de despistar as defesas e convencer o paciente a aceitar previamente os derivados instintuais, isso se torna uma manobra estratégica – em essência, uma tentativa de chegar ao conflito através da pulsão que está em jogo. Consequentemente, os derivados instintuais são aceitos à consciência devido à “aprovação” inspirada pela autoridade do superego, e não porque o paciente adquiriu – ao longo da análise – uma compreensão madura e racional dos fatores que geraram as atividades defensivas em seu íntimo. A mudança se dá pela reincorporação de imagos de autoridade, que se tornaram mais benignas em função do tratamento, e não tanto pelo ganho de autonomia do ego frente às atividades inconscientes do superego. Para Gray, o objetivo da análise era o de “maximizar as soluções conscientes do ego frente aos conflitos com o mínimo de internalizações possíveis” (p.124). Para atingir esse fim, ele pressentiu que o analista deveria assumir uma postura moral neutra, como se fosse uma pessoa que quer elaborar uma ideia intelectualmente coesa e acertada sem se valer de “juízos ou conceitos pré-estabelecidos”. Assim, o analista não é o que sabe, mas sim o que indaga para saber. Antecipando-se às blasfêmias que o acusariam de incentivar os analistas a aderirem a uma atitude alheia e austera frente aos pacientes, Gray enfatizou como o analista haveria de ser a um só tempo tático e acolhedor, sem que isso comprometesse a neutralidade. “A narrativa de um sonho e a memória como resistência” (1992) causou um rebuliço na clínica, pois tornou evidente a necessidade da análise das defesas. Nesse artigo, Gray virou do avesso as noções mais apreciadas que tínhamos sobre o papel da memória e dos sonhos no tratamento. Por exemplo, o ato de recobrar as memórias e de contar os sonhos seria uma espécie de desvio espaço-temporal e tangenciaria as metas do tratamento. Conforme o autor, o foco nas memórias e nas associações poderia se caracterizar como um deslocamento defensivo, pois levaria o paciente para fora do espaço e do tempo da sessão. Ele explicou que seria mais vantajoso ajudar os pacientes a terem acesso às atividades inconscientes do ego no momento e na hora em que os derivados da pulsão começam a emergir da consciência. Ao se tratar, o paciente pode reavivar mentalmente as etapas complicadas de sua vida, e é esperado que, nessa situação, as defesas e os artifícios de escapismo sejam ativados para desvirtuá-lo do confronto para com as dificuldades. Gray propõe que os analistas auxiliem os pacientes a expandirem a percepção e a experiência das lembranças para conjugá-las no presente e revivê-las como se fossem eventos imediatos e não apenas fragmentos remotos. No clímax da situação analítica, especialmente quando a atmosfera está propícia para o resgate das memórias, o ego dispõe de todos os recursos mentais para que as defesas ofusquem a consciência do presente. Ele notou que a tendência dos analistas é a de arranjar um passaporte para o passado e não tanto a de concentrar a atenção para o que ainda permanece vivo no contexto atual do paciente. De forma similar, quando o paciente relata um sonho na sessão, ele eclipsa a realidade e se transporta para outras temporalidades. Há aí uma oscilação entre o passado e o presente. Se, por exemplo, o analista pudesse prever que a intenção do paciente em narrar o sonho seria a de “criar um parêntesis” no contexto analítico – quase como se delimitasse, por meio das defesas, uma zona de segurança que o poupasse de pensar –, outras perspectivas surgiriam e dariam uma nova conotação ao sonho e à sua função. O fato de o paciente voltar o olhar para o passado não fazia com que Gray encarasse essa ação somente como uma evasão do cenário intrapsíquico. Pelo contrário, a restituição das memórias, fora de uma estratégia defensiva, demonstra o progresso da análise, pois alude à aquisição da capacidade de reviver, de modo consciente e em outro papel, os derivados da pulsão (por exemplo, a conquista de uma maior tolerância aos impulsos agressivos possibilita que o paciente lembre que sentiu ódio e atacou aos pais da infância). A recuperação das memórias resulta do trabalho analítico, mas não pode ser entendida como uma resolução terapêutica em si. Na visão de Gray, o conteúdo genético é relevante para a ação terapêutica, porque apresenta o histórico das medidas defensivas que o paciente usou para lidar com certos derivados da pulsão. Como e por que o paciente se valeu de tais defesas para se sentir seguro, é o que está questão. Gray colocaria nos seguintes termos o seu interesse pelo conteúdo genético: ao invés de indagar “Como e por que você desejou destruir alguém quando criança?”, ele faria – “O que foi que fez com que você precisasse parar de saber que poderia odiar algumas pessoas a ponto de querer destruí-las, e como você lidou com isso quando era criança?” [p.125]. Para muitos analistas contemporâneos, o pensamento de Gray pode parecer anacrônico em relação aos aspectos da contratransferência na técnica analítica. Gray grifou a importância da razão, da observação e da “armazenagem de informações” nas funções do ego – não só para os pacientes, mas também para os analistas. Em vista de estimular essas funções maduras do ego, o analista deve ter em mente o que pontuar e o que transmitir ao paciente, sem que enfatize tanto o que sente durante a intervenção. Conforme Gray, para perscrutar o inconsciente, o analista deve aprimorar a escuta como se fosse dotado de um terceiro ouvido, capaz de apreender os derivados do Id e de buscar fontes de conhecimento que tivessem ressonância com o conflito, com as defesas e com a estética da visão de mundo do paciente. Gray considerou importante que o analista prestasse atenção em seus próprios conflitos e nas defesas contra as pulsões. Assim como o autor deu prioridade às transferências de defesa em relação às do Id, ele também manteve o foco na transferência de resistência e não tanto nas dos instintos. A contratransferência, nesse caso, seria uma espécie de contrarresistência. Na verdade, Gray atribuiu grande parte do atraso na técnica psicanalítica que estuda a transferência à contrarresistência. A partir daí, ele começou a pressionar os analistas a se darem conta das resistências que eram provocadas pelos pacientes ao longo do tratamento. Gray concedeu especial atenção ao impulso agressivo. O seu interesse pela agressão o acompanhou desde sempre, e fica claro que a análise dos conflitos relacionados à agressão tem muito a contribuir à teoria e à técnica. Tanto que foi esse o assunto do último artigo publicado no livro que levou o título “Sobre a sujeição: a análise dos conflitos derivados da pulsão agressiva” (2000). Por enfatizar a agressão, Gray se tornou alvo de muitas críticas e foi acusado de supervalorizar a agressividade e de ignorar, com isso, questões importantes a respeito da dinâmica do paciente. Alguns, até o tacharam de prosélito da teoria de Melanie Klein. Mas, a despeito de ter sido visto como o deturpador das perspectivas de escuta por priorizar a agressão, Gray sempre apostou que o tratamento psicanalítico deveria ajudar os pacientes a terem contato com as pulsões primárias, pois a assunção da consciência cognitiva e experimental das propensões agressivas poderia ser usada de forma sublimatória em suas vidas. O motivo dado por Gray para que a metodologia tradicional não avançasse nos estudos da agressividade culminava no fato de que os analistas não toleravam ser o alvo das pulsões sádico-destrutivas vindas de seus pacientes. A análise do superego se tornou proeminente no pensamento de Gray, porque aí se descortinou para o autor o significado da influência do superego sobre a origem das defesas que o ego usa contra as pulsões agressivas. Em seus escritos, ele constantemente tentou chamar a atenção para os aspectos fundamentais da técnica que aliviavam ou reforçavam as defesas contra a agressão; defesas que, ao serem analisadas, poderiam fazer com que o paciente se apoderasse plenamente de seus impulsos agressivos para usá-los de forma salutar e produtiva. Por exemplo, ele comentou que os analistas tinham a propensão de reduzir a intensidade do impulso agressivo com interpretações precoces, de teor genético, e, assim, desarmavam e desviavam de si toda a carga sádico-destrutiva da agressão. Era como se os analistas se esquivassem dos próprios impulsos agressivos ou não quisessem se sujeitar à transferência negativa, que poderia ou não contrastar com o potencial destrutivo que cada um carrega dentro de si. Enfim, havia, em ambas as partes, uma forte tendência a buscar e a fornecer ajuda através de meios que não envolvessem a agressão ou que a esterilizassem. Gray não se surpreendeu com a procura dos analistas e dos pacientes por técnicas interpessoais que empregavam métodos que, invariavelmente, anulavam ou ignoravam a efervescência das atividades instintuais agressivas. Para aqueles que o consideravam um aficionado por conflitos motivados pelas pulsões agressivas, Gray replicou que, a atenção voltada aos conflitos agressivos se deu porque foram eles que pavimentaram o caminho para que se acessassem as pulsões sexuais. O recrudescimento da capacidade de lidar com a agressão fazia com que os pacientes não se sentissem tão intimidados e frustrados ao se depararem com a falta de correspondência de suas paixões ou investidas românticas em relação aos objetos. O leitor não pode deixar de notar, entretanto, que a concepção de Gray sobre a análise do conflito intrapsíquico deixa em um plano privilegiado o ego. Ele não estava sendo pretensioso quando propôs alterar um dos grandes ditos de Freud sobre as metas da psicanálise que é a de “tornar consciente o inconsciente” (p.101). Não é que as pulsões não fossem importantes; desde que ativassem e evidenciassem as defesas inconscientes do ego, é claro que eram. Para Gray, a problemática não culminava nas pulsões, mas sim na parte irracional do ego que não avaliava a noção de perigo e ameaça vindas das pulsões, o que fazia com que as defesas inconscientes surgissem – defesas ultrapassadas e desnecessárias, caso a parte madura do ego do paciente conseguisse, de fato, administrar ou gerenciar conscientemente os impulsos instintuais. As pulsões tinham uma tendência natural ao “empuxo”, pois poderiam vir à superfície da consciência, à medida que os mecanismos inibitórios do ego fossem progressivamente analisados. Não seria adequado que o analista exercitasse a sua autoridade em vista de fazer interpretações do conteúdo inconsciente; em vez disso, ele poderia trabalhar nas fronteiras da superfície, confiante de que, com a análise constante das defesas, as pulsões encontrariam menos obstáculos para adentrarem nos umbrais da consciência. Trabalhar nas bordas da superfície, onde os impulsos conflituosos estavam em efervescência perante o ego ameaçado, não significava, na verdade, que o esforço era supérfluo ou que evitasse os mais intensos e repremidos afetos e pulsões. Ao contrário, Gray afirmou que os conflitos relacionados às pulsões se tornam mais vívidos quando colocados em xeque na experiência imediata e consciente do analisando no “agora”. O insight ou o discernimento, para o autor, representava ter posse de algo nascido no “agora”. Como as pulsões migraram para a consciência, o paciente teve a chance de por à prova as suas capacidades de ego para assimilar, de forma cognitiva e experimental, as pulsões. O leitor talvez tenha notado o tom categórico assumido por Gray nesse trecho, e isso resultou de sua crença de que as capacidades de ego de muitos pacientes foram subestimadas ao longo do tempo, tanto as que têm afinidade com a colaboração com o analista quanto as que se relacionam com o gerenciamento das pulsões e das defesas. Três anos depois da morte de Gray, foi publicada a segunda edição do livro O Ego e a Análise da Defesa, que compila as suas obras e inclui quatro artigos escritos após a primeira parte do livro. A maioria de seus artigos seminais destinados à técnica compõem os capítulos da primeira parte do livro; já na segunda parte, o leitor se depara com uma produção mais concisa, informal e de fácil leitura sobre o ensino e as diretrizes de supervisão. Os trabalhos sobre o ensino e a supervisão demonstram o maravilhoso sucesso de Gray em comunicar os pensamentos aos seus alunos, que era o mesmo modo que ele usava para se exprimir com os pacientes. É aí que percebemos a clareza e a inteligência que ele considerava essenciais para o vínculo entre analistas e pacientes. Embora todos os seus principais artigos tenham sido previamente publicados em jornais ou em revistas, esse compêndio de trabalhos oferece ao leitor uma indispensável oportunidade de apreciar e de fazer uma varredura completa na teoria e técnica de Gray. Ele foi um verdadeiro inovador que fez instigantes acréscimos à literatura e à técnica psicanalítica, mas, como parece ser o destino de muitos de nossos pensadores originais, o seu legado parece ter sido reduzido a fórmulas simplórias. No caso dele, o sumário de suas contribuições se daria na ênfase aos processos de atenção e às defensas erigidas durante a sessão analítica. Os leitores que o associarem primeiramente a essa metodologia poderão se surpreender, ao lerem o livro, com a descoberta de que o aspecto mencionado anteriormente é apenas uma fração do que ele avançou e reformulou na técnica psicanalítica do ego. Os que se empenham na leitura e estudaram minuciosamente O Ego e Análise da Defesa acharam irônico o conjunto de frequentes críticas referidas à obra de Gray. Ainda que tenha sido acusado de criar uma metodologia estreita e rígida, o que vemos é um analista dotado de grandes ambições voltadas à psicanálise – talvez ele almejasse um tratamento que, através da análise das resistências, se reduzisse a influência da sugestão e se elevasse à máxima potência a liberdade psíquica do paciente. Entre nós, tivemos alguém que deu a maior importância à análise do analista, sem que usasse para isso a autoridade, mas que foi tachado por muitos como um adepto à prática autoritária. E aqui se foi um analista que acreditou que, como Samuel Ritvo citou em seu excelente prefácio ao volume em questão, “quando as resistências são analisadas... intensos afetos podem ser plenamente experimentados e tolerados” (p. xvii) – mas, que apesar disso, recebeu críticas mordazes de que a sua técnica era intelectualizada, obsessiva e superficial. Independente do que o futuro reserve à psicologia do ego entre as psicologias da psicanálise, o trabalho de Paul Gray vicejará enquanto a psicanálise existir. As indagações respondidas pelos analistas, o léxico que empregam para explicar os fenômenos que ganham forma, as teorias que usam para corroborá-los, tudo isso continuará a mudar ao longo do tempo. No entanto, é difícil de imaginar uma teoria no campo da psicanálise que não enfoque o conceito de defesa ou que lute contra o espinhoso problema da influência da sugestão; e é por isso que é difícil de conceber uma psicanálise que não encontre um lugar de destaque para o trabalho pioneiro de Gray. O modelo conceitual e propedêutico de Gray é considerado por alguns leitores contemporâneos como pertencentes a outro tempo da história da psicanálise, mas eles ficariam surpresos e frustrados com o fato de que a maioria das convicções trazidas por esse autor tem sido explorada pelos analistas na atualidade. Por exemplo, a ênfase dada por Gray na agressão contrasta com os achados dos kleinianos contemporâneos, a atenção ao aqui-e-agora do processo analítico e ao papel da autoridade do analista encontram certa ressonância com as teorizações a respeito do vínculo e da relação terapêutica, e, por fim, o seu incentivo em promover a observação das funções do ego por parte do paciente claramente antecipou o interesse atual dado às capacidades mentais dos pacientes. As críticas direcionadas a Gray (como as que qualquer pensador inovador atrai para si – especialmente os que apontaram a necessidade de se revisar os padrões estabelecidos) têm levantado questões desafiadoras sobre o seu trabalho. Mas até mesmo os críticos ferrenhos, os que rejeitaram a visão que ele tinha sobre o processo psicanalítico, concordariam que seus escritos representam uma grande representação à literatura e á técnica psicanalíticas (Phillips, 2006). Embora Paul Gray tenha morrido em 2002, o livro imponente que ele nos deixou, O Ego e Análise das Defesas, há de perfurar os séculos. Referências Freud, A. (1936). The Ego and the Mechanisms of Defense. New York: Int. Univ. Press, 1983. Gray, P. (1973). Psychoanalytic technique and the ego's capacity for viewing intrapsychic activity. J. Amer. Psychoanal. Assn., 21: 474-494.[à]APA.021.0474A Gray, P. (1982). “Developmental lag” in the evolution of technique for psychoanalysis of neurotic conflict. J. Amer. Psychoanal. Assn., 30: 621-655.[à]APA.030.0621A Gray, P. (1986). On helping analysands observe intrapsychic activity. In Psychoanalysis: The Science of Mental Conflict: Essays in Honor of Charles Brenner, ed. A. D. Richards & M. S. Willick. Hillsdale, NJ: Analytic Press, pp. 245-262. Gray, P. (1987). On the technique of analysis of the superego—an introduction. Psychoanal. Q., 56: 130-154.[à]PAQ.056.0130A Gray, P. (1991). On transferred permissive or approving superego functions: the analysis of the ego's superego activities, part II. Psychoanal. Q., 60: 1-21.[à]PAQ.060.0001A - 272 - Gray, P. (1992). Memory as resistance, and the telling of a dream. J. Amer. Psychoanal. Assn., 40: 307-326.[à]APA.040.0307A Gray, P. (2000). On the receiving end: facilitating the analysis of conflicted drive derivatives of aggression. J. Amer. Psychoanal. Assn., 48: 219-236.[à]APA.048.0219A Phillips, S. H. (2006). Paul Gray's narrowing scope: a “developmental lag” in his theory and technique. J. Amer. Psychoanal. Assn., 54: 137-170.[à]APA.054.0137A Sterba, R. (1934). The fate of the ego in analytic therapy. Int. J. Psycho-Anal., 15: 117-126.[à]IJP.015.0117A

Problemas da técnica psicanalítica, Otto Fenichel (A tradução do artigo é de minha autoria).

Introdução É esperado e até comum que todos os assuntos referentes à literatura psicanalítica abordem o modo como é realizado o trabalho do analista durante o tratamento psicanalítico. No entanto, tal premissa não se confirma em realidade. As questões técnicas são desenvolvidas apenas em uma pequena proporção de escritos. E esse fato ocorre por vários motivos. Um deles, em primeiro lugar, se dá em função de a ciência psicanalítica ainda ser jovem e ter como objeto de estudo o fenômeno da mente humana, o que gera muitas polêmicas e coopera para que a técnica terapêutica nesse campo de saber se torne mais um problema em meio a tantos outros. Em segundo, os analistas cultivam, indubitavelmente, uma particular aversão ao detalhamento dessas dificuldades, tanto pelas incertezas que orbitam em torno do tópico em si quanto pelas limitações que tendem a se impor pela falta de objetividade. Mas temos uma terceira razão que se sobressai: a de que a multiplicidade de situações, inerentes ao processo analítico, não permite que se formulem regras ou diretrizes que possam ser aplicadas em todos os contextos, pois cada caso aninha em seu íntimo a singularidade. Não é à toa que Freud comparou, há tempo, o trabalho analítico ao jogo de xadrez, pois apenas os movimentos típicos de abertura e os de fechamento podem ser ensinados: o desenrolar da partida fica infusa em mistério. É provável que a apresentação a seguir também não dissipe as dificuldades que brotam aos montes. A transcrição do ciclo de palestras ocorridas em 1936, no Instituto Psicanalítico de Viena, transmitiu aos ouvintes a compreensão elementar da técnica analítica, assim como esboços gerais das teorias da neurose. Não havia a pretensão de que se criasse um manual técnico de intervenções que desentranhasse todas as demandas vigentes de uma época, mas se buscava algo que contemplasse as particularidades da técnica. Corro o risco de ser tachado de “teórico” ao selecionar justamente os problemas relacionados à técnica para discutir aqui. Mas eu sei, por experiência própria, uma das circunstâncias que leva a maioria dos analistas menos experimentados a sentir dificuldades: eles demonstram possuir um bom domínio dos conceitos teóricos e costumam agir de forma livre e elástica em seu ofício; entretanto, a prática e a teoria parecem ficar apartadas uma da outra, o que os impede de associar o que vivem com o paciente na hora analítica com a teoria assimilada. Essa falha na articulação prejudica a qualidade do conteúdo a ser exposto na consulta. No meu ponto de vista, tal problema, especialmente por se tratar da psicanálise, tem como ser sanado. O nexo entre a teoria e a prática dá origem a um importante fluxo de ações recíprocas. A presença delas é amplamente reconhecida e pouco estudada, o que é paradoxal, até mesmo porque Freud, ao longo de dezesseis anos, acirrou uma espécie de competição que premiaria quem definisse o exato sentido das ações recíprocas. Com o advento de uma inovação técnica (a hipnose cedeu o seu lugar à livre associação), a história da teoria psicanalítica ganhou mais consistência e, a partir da compreensão das interações econômicas dos mecanismos psíquicos, a evolução da técnica se tornou possível. Hoje, com o auxílio da ciência psicanalítica, estamos em uma fase em que não só entendemos a origem das neuroses e dos traços de personalidade, como também temos plena capacidade de avaliar teoricamente o que se sustenta ou não no processo terapêutico da análise. Eis aí a tarefa de toda a teoria no campo da ciência: imprimir melhorias na prática. Logo, tentaremos nos valer dela para cumprir tal propósito e aplicá-la em nosso cotidiano de trabalho. Antes de esquadrinhamos o plano para a empreitada, duas objeções repetidamente erigidas contra a formulação da teoria e da técnica devem ser apresentadas. A primeira engloba todos os tipos de hipóteses e dita que ‘técnica’ significa ‘prática’ e, por conseguinte, a ‘teoria da técnica’ seria equiparada à ‘teoria da prática’, o que é uma contradição em termos. A lógica é meramente formal. A nossa teoria intenta somar às leis gerais do psiquismo humano fatos que foram reunidos e aventados pelo método psicanalítico. Os fenômenos e as experiências que vêm à tona no processo analítico podem ser descritos e esmiuçados com a ajuda dessas teses. A segunda objeção, trazida especialmente por Reik , enuncia o suposto perigo inerente à ‘teoria da prática’. Reik acredita que a designação teórica do que ocorre na prática analítica é por si só possível, mas não pode ser imitada como um papel que se assume no teatro, por exemplo, apenas transmitida parcialmente a poucos, que, com muito treino, podem conquistar um estilo próprio. Ele acredita que a teoria empalidece o verdor da árvore da vida. Na maioria das ciências naturais, o excesso de teoria leva os investigadores a se perderem em especulações infrutíferas, fato que aconteceria com a psicologia, por ainda ser uma área de saber relativamente emergente. Através de sua tendência a reduzir tudo a quantificações, a compreensão científica esmaece o colorido qualitativo das experiências. A técnica psicanalítica não pode ignorar a intuição e nem descartar o manancial de sentimentos irracionais que promovem a empatia para com os pacientes: a realidade psíquica não pode ser substituída por uma imagem conceitual ou burlesca de si própria. É surpreendente (não pela nossa ótica) que o novo livro de Reik, que enfatiza tanto a sua atitude, nos dê a melhor teoria que até agora tivemos a respeito da intuição e da empatia. Quando falamos sobre teoria, não reivindicamos especulações que modelem um mundo à parte e conceitual, fora de nossa realidade, assim como o médico, ao elaborar hipóteses, não se abstrai do contexto que investiga. Temos discernimento, como nos mostra a dinâmica da neurose obsessiva, da oscilação que há entre o mundo vívido dos instintos e o reino brumoso das palavras – uma forma de defesa que tenta repelir as pulsões que frequentemente pedem passagem à consciência e que, por exemplo, transformam conflitos instintuais em dúvidas. Estamos habituados também ao oposto: à fuga do desprazer que, ao deixar em suspenso o intelecto, atrai para si propriedades mágicas. Em um método terapêutico baseado na ciência não há espaço para tais absurdos. Devido ao perigo de se filiar a um partido teórico, como se fosse um sintoma da compulsão neurótica, é que nos debruçaremos mais sobre tal tópico. Hoje, com a difusão do conhecimento psicanalítico, os pacientes nos chegam com a crença de que é necessário se reportar à infância e interpretar os sonhos. Sozinhos, eles tentam realizar o nosso trabalho de modo intelectual, sem que, contudo, haja nenhuma mudança psíquica relevante. Adiante, explorarei esse tipo de resistência e como poderemos superá-la. Alguns analistas inexperientes ficam sujeitos a cometer mais deslizes. Quando se entregam à ‘teoria da técnica’, esperam obter regras definitivas de como proceder e do que transmitir aos pacientes. Não há garantias de acertos. À maneira dos pacientes neuróticos compulsivos, certos analistas incorrem no erro de trocar ideias teóricas por realidades psíquicas, o que provavelmente denota o medo de lidar com objetos reais, justamente por despertarem emoções e sentimentos que podem aludir aos próprios conflitos pessoais. Quando enfatizamos que o analista deve constantemente fazer uso do conhecimento que tem sobre os preceitos dinâmicos e econômicos inerentes à vida psíquica, queremos alertá-lo para que não seja conivente com a resistência apresentada pelo paciente que, muitas vezes, prefere discutir e trocar experiências ao invés de analisá-las. É puro mito que qualquer esforço empreendido para tornar a técnica analítica mais sistemática se equipare a uma tentativa de substituí-la por sofismas; a mesma controvérsia vigora em torno da ideia de que a compreensão técnica, que parte de um ponto de vista dinâmico e econômico, pudesse travar a ‘atenção livre e flutuante’, porque se inclinaria a refletir sobre ‘a coisa certa a ser feita’. Não há dúvidas de que muitos analistas desejariam deixar de lado o conhecimento para priorizar a experiência, o que acarretaria na falta de dissolução das repressões. Nesses casos, os analistas seriam peritos em propor charadas aos pacientes. Em igual medida, há analistas que cometem outros erros tão sérios quanto os que citamos. Eles distorcem a ideia de que o inconsciente seja um instrumento de trabalho e, sentados em suas poltronas, aproveitam para 'boiar' pelas associações do paciente sem que o conteúdo seja aprofundado. É como se apenas colhessem fragmentos vindos do inconsciente e os comunicassem à maneira de um catálogo indistinto de percepções. Ademais, a falta de oscilação entre intuição, compreensão e conhecimento cooperam para que se instaure uma atmosfera dissociada, em que o inconsciente do analista parece estar alheio ao processo. Mesmo que a natureza psíquica do paciente seja provisória, o que nos traz uma imagem fidedigna da estrutura do indivíduo é o fato de podermos usar o nosso próprio inconsciente para identificar o que permanece constante em suas alterações. Logo, as novas experiências analíticas sugerem que mudemos as nossas interpretações. O que chamamos comumente de ‘tato’, ou seja, a delicadeza ao tocar em determinados assuntos com o paciente, não parece, ao menos para mim, ter raízes ou pertencer ao ramo da biologia, como professou Reik. Eu considero que seja uma característica que pode, em algum grau, ser ensinada e interpretada a partir das manifestações ou dos sinais apresentados pelo paciente ao analista na sessão. Eis aí o que eu desejo tentar demonstrar. É incorreto afirmar que o papel do inconsciente como um instrumento de trabalho mude em seu princípio ou varie em outras ciências naturais que não a psicanálise. Tal diferença se reduz a termos quantitativos (uma diferença significante, é claro), mas se alguém lembrar como foi feita a descoberta do anel de benzeno na química, poderá entender o quanto o inconsciente contribuiu para a realização do feito. Uma das principais tarefas do analista é a de encontrar um canal de comunicação que passe por Cila ao invés de Caríbdis . Ao evitar a desornada torrente do ‘acting out’ (Caríbdis), a ‘associação livre’ (Cila) pode guardar o dado escondido no ato. Adiante, antes de realizar as considerações sobre a técnica, tecerei mais comentários a respeito de Cila e Caríbdis. Darei primazia aos perigos de conversar em vez de experienciar. As palavras, em geral, são o melhor meio de transmitir experiências. No entanto, sabemos que elas podem nos desvirtuar desse propósito, quando o paciente opta por ‘conversar indiretamente sobre isto’, por exemplo. ‘Trabalhar no reino da realidade psíquica’ significa prevenir o mal-entendido. Devemos enfatizar que a prevenção não se dá através de gritos ou de atitudes moralizantes, mas sim por intermédio da busca pela origem da necessidade que o paciente tem de tergiversar ou de evitar alguns temas. Eu escolhi um exemplo extremista. Um paciente que nos foi encaminhado se queixa de uma inibição ao dirigir carros. Por ter um medo de se acidentar, ele costuma virar um pouco o volante e dirigir como se estivesse fazendo curvas em uma linha reta. Ele diz: ‘eu sei o porquê de agir assim: inconscientemente o meu sadismo desejaria passar por cima de todo o mundo’. Essa interpretação não nos parece acertada; a causa de seu conflito reside na excitação em dirigir. Virar o volante representaria uma vontade de se jogar do carro e ficar estatelado na estrada. A imprecisão aí é imaterial, abstrata; a interpretação pode ou não estar correta. Diante disso, não consideramos que ele tenha tido um insight. Devemos perguntar: ‘como você sabe disso?’ Assim, poderemos mostrar facilmente que o seu sadismo não está ocorrendo em realidade, apenas em fantasia. No caso das interpretações dadas pelos pacientes neuróticos compulsivos sobre si mesmos, o que nos interessará é a tendência do inconsciente de antecipar, em pensamentos e em palavras, experiências que possam ameaçá-lo; com isso, devemos induzir o paciente a ter consciência do que ainda é ignorante, ou seja, do medo que tem de surpresas e do que foge ao seu suposto controle. No caso do motorista de carro, os problemas se desenrolaram da seguinte forma: em um primeiro momento, a aparente prontidão analítica do paciente, ao invés de ajudar, se converteu em uma variante sintomática de resistência que visava, às avessas, protegê-lo contra os temores que o afligiam. Então, ele encontrou esta fórmula para se justificar: ‘mas é exatamente disso que padeço, de não admitir o fato de que tais sentimentos existem. Você deve me curar e, para tanto, você exige de mim o requisito de que, para melhorar, eu precisarei contatar os meus sentimentos durante a análise’. Tive de esclarecer para ele que não se tratava de uma ‘demanda’ ou de uma ‘exigência’ pessoal e pontuei que a falta de sentimentos da qual se queixava nada mais era do que um desejo voluntário de não ter sentimentos ou, em outras palavras, um boicote. Esse tipo de clarificação tem mais eficácia quando o analista alfineta os pontos fracos do sistema defensivo do paciente – esses pontos são formas distorcidas e deslocadas de perceber o mundo e a si mesmo, o que chamamos de preconceitos. Pela iniciativa do analista, o paciente tende a voltar-se para esses pontos, e isso favorece a exploração dos sentimentos cristalizados ali. Foi realmente um grande triunfo quando o paciente, depois de uma sessão particularmente trivial, insincera e artificial conseguiu dizer: ‘Durante toda a sessão, eu senti uma leve pressão no meu abdômen’. O mais importante aí é mostrar ao paciente que a sensação na região abdominal se configurou como uma modalidade ‘associativa’ do que ele não conseguiu articular em palavras – temos, com o episódio em questão, uma verdadeira prévia do que é uma derivação do inconsciente. - ‘Não era medo’, ele comenta, ‘apenas uma leve pressão’. - ‘Como se fosse uma dor de estômago?’ - ‘Acho que não. Foi algo mental, mas nada equivalente à ansiedade. Era como um pesadelo em que se supõe que alguma coisa se alojou sobre o seu peito’. Aqui nos foi dado um bom exemplo do mecanismo de defesa conhecido por negação; pois o pesadelo nada mais é do que a experiência virtual de sentir medo. Chegamos a um ponto da análise em que se espera progredir e, para tanto, o paciente deve perceber que, ao falar de si, parece assumir a postura de um médico ao descrever um caso clínico sobre um enfermo e não como alguém que está a se queixar do sintoma. A vinheta é crua, porém emblemática, pois nos joga à cara o significado do tema central de ‘Cila, que era o de falar ao invés de experimentar’. O estudo da teoria da técnica nos convida a especular, junto ao paciente neurótico compulsivo, as divagações surgidas na sessão e, às vezes, a não analisá-lo. O critério para trabalhar com a ‘realidade psíquica’ não é nada mais do que ‘atiçar’, a partir das declarações do paciente e das interpretações acertadas do analista, a capacidade genuína de sentir. O que entendemos por ‘genuíno’ na vida psíquica exigiria investigações à parte. Por ora, é suficiente afirmar o seguinte a respeito disso: ‘Passar do impulso à ação sem que haja o protesto da defesa do ego’. De acordo com Reik, a análise bem-sucedida – a abolição da defesa, em um ponto de vista dinâmico – só é alcançada com certa surpresa e opera como se reordenasse automaticamente o arranjo dos conteúdos trazidos à consulta, produzindo insights. Em meio à combinação dos diferentes assuntos, surgiriam pontes que estreitariam semelhanças onde só existiam diferenças; e o que parecia desconexo e destituído de sentido acabaria adquirindo, com a síntese, coesão e relevância. Mas tal dedução não foi sempre entendida ou esmiuçada assim. A ‘surpresa’ não pressupõe, em minha opinião, que nada tenha sido elaborado ou pensado anteriormente. A surpresa se torna mais convincente quando descortina o que já habitava o imaginário do paciente e, ao fazê-lo, agregou aos pensamentos e às palavras novos significados. É sempre gratificante quando um paciente ou um aluno, candidato à análise, nos diz, depois de uma hora bem aproveitada de reflexão, o que sabia há tempo sobre a teoria do Complexo de Édipo, da castração ou da resistência: ‘Finalmente, consigo perceber que tais conceitos são coerentes com o que esboçam ou com as experiências que tive, em se tratando do Complexo de Édipo (da castração ou da resistência)’. Citarei um exemplo corriqueiro a respeito disso. Quando uma mulher manifesta abertamente o conflito que sente entre o desejo de se exibir e a vergonha de tentar, o que aparece aí – conforme as prerrogativas da experiência analítica sobre a inveja do pênis – é o medo de que a sua inferioridade se deflagre ao espectador e, assim, com a nudez, a castração se torne explícita. Mas há um hiato entre o conceito e o que é experimentado por trás disso na realidade psíquica. Seguindo o exemplo, uma paciente deste tipo sofreria, principalmente, com a possibilidade de estar enlouquecendo. Gradualmente, ela reclamaria de ter tido episódios alucinatórios; em outras palavras, uma dúvida compulsiva se instalaria em sua própria percepção a ponto de fazê-la acreditar que o que apreendeu pelos órgãos sensoriais poderia ter sido apenas imaginado. Então, entenderíamos, mais adiante, que ela havia desejado que tudo se sucedesse desse jeito. Ela gostaria que o que realmente tivesse acontecido fosse apenas fruto da imaginação. Por conseguinte, o significado presente no medo de enlouquecer acaba por mudar. Agora, ser louca equivaleria a perder a autonomia e o controle dos movimentos ou, de repente, perceber que ela já fez algo que, na verdade, não queria ter feito. Reconhecemos que a motivação do medo poderia ser algo assim : ‘Impulsionada pela loucura, fiz o que deveria ter permanecido preso à minha imaginação. Desde então, tenho tido cuidado para não me exceder em nada. Estou mais contida’. Que tipo de ação foi essa? Aos poucos, a resposta vem à tona. Por ter medo de perder o controle de si mesma, supõe que poderia se jogar na frente de um carro ou através de uma janela. O ato adquire uma conotação violenta, trágica. Em seguida, a ansiedade aumenta exponencialmente e incrementa o medo das desgraças: agora, se transformou em uma grave aversão social. A paciente passa a se sentir marginalizada, a não ‘pertencer’ a coisa alguma, e, por usar roupas comuns em comparação às das outras pessoas, começa a se menosprezar. A ansiedade se pronuncia com menos intensidade quando ela tem dinheiro no bolso. Se não vestir roupas bonitas ou se lhe faltar dinheiro, teme o desprezo; imersa nesse panorama, está prestes a infligir a si mesma uma pena. Deste ponto em diante, a nossa compreensão se assemelhou a um carrossel: girou em torno do próprio eixo e não saiu do lugar. Um distúrbio obsessivo relacionado à leitura se evidenciou quando ela quis decifrar se o autor havia escrito o livro com uma máquina de escrever, uma caneta-tinteiro ou com um lápis. Desenvolveu uma aguda curiosidade pelo método aplicado pelos homens bem-sucedidos em seus trabalhos, e tentou em vão se identificar com eles. Empenhou-se nisso e descobriu que a observação de homens produtivos tinha uma finalidade. O fascínio pelo tema fez com que formulasse a hipótese de que deveria fazer algo com eles: quando tivesse dinheiro, não precisaria se esforçar para nada; quando não tivesse dinheiro nenhum, o tiraria de homens produtivos, pois eles são ricos. A ação terrível que cometeu, sem ao menos ter desejado, foi a da masturbação infantil, fato que foi delido de sua consciência por obra da negação e do intolerável discernimento de que jamais poderia se satisfazer como um homem; daí surgiu as fantasia de roubar um pênis. Pela primeira vez, a paciente reconheceu, com ‘surpresa’, o que, teoricamente, já sabia: sim, invejava o pênis. Era essa a sua realidade psíquica. Agora, tecerei as considerações sobre Caríbdis. A realidade psíquica deve ser trabalhada com zelo. O medo de Cila, na discussão teórica, foi de uma extremidade à outra: da supervalorização das erupções emocionais à falha na detecção de ‘abreações’ que se camuflam como resistências. São elas que preparam a cortina de fumaça para que os derivados do inconsciente venham à baila e mantenham os reais conflitos intocáveis. Além de criarem ‘erupções emocionais espúrias’ (destituídas de afeto), também impedem que, com a quebra das defesas, surjam as emoções ‘genuínas’. Vale lembrarmo-nos do poder que o pensamento mágico exerce sobre a humanidade. Existe uma aura mística e dramática em torno de certos eventos e cerimoniais que provam ser, no fim das contas, ineficazes; devemos ter viva a ideia de que artifícios mágicos, de qualquer natureza, são contraproducentes à análise. E por quê? Porque a ‘surpresa leva à cura’. Essa fórmula é ineficaz ou mal aplicada por muitos pacientes resistentes que depositam as esperanças em soluções feéricas. E o pior de tudo, é que um fator perigoso na psique do analista coopera na fomentação dessa crença insólita: a tentação de brincar de profeta ou de xamã. O conceito de ‘pensamento autista’, elaborado por Bleuler, tem tomado grandes proporções no campo da medicina e consiste em pegar, aleatoriamente, um artigo científico de uma revista clínica e compará-lo com outro vindo de um periódico da área da química ou da física; então, alguém, em nome da medicina, deve se prostrar primeiro diante de um químico ou de um físico. Essa é uma tradição da medicina que teve início com os primeiros curandeiros, os padres. A psiquiatria e psicopatologia são domínios do reino da medicina relativamente jovens para combaterem os sortilégios. Há pouco tempo, os anatomistas não tinham sequer autorização para dissecar cadáveres humanos. Grande parte da evolução se deu por rebeldia: os humanos não queriam integrar-se à natureza. Depois que o homem se aventurou nas instâncias corporais, a psicanálise não se encarregou de livrar o psiquismo das garras da magia para alojá-lo na esfera da investigação científica. No entanto, os apelos feitos com o advento da psicanálise eram por si só pseudomaterialistas: ‘A psique nada mais é do que uma secreção do cérebro’ ; em contrapartida, havia rumores, na época, de que a ‘psicologia experimental’ isolava, em seus estudos, a função dos comportamentos a ponto de adquirir resultados extremamente distantes da maneira em que vivíamos. Quase um achado alienígena. Frequentemente, o oposto era colocado em xeque: em contraste ao racionalismo de Virchow, Freud foi o primeiro a ser reconhecido pelo irracionalismo, ou seja, pela psicogênese. E é verdade; mas em que grau? Será que ele conquistou um novo reino da ciência natural ou será que ele rejeitou, de forma injustificada, a presunção de uma ciência natural? Ambas as questões estão corretas. A era Virchow talvez não tenha sido tão científica quanto se pressupôs. Fechar os olhos à existência do psiquismo não pode ser considerado ciência. A psique, naquela época, ainda pertencia ao universo da magia e da religião; e nenhum cientista se incomodava com isso. Omitir a psique era um requisito que impedia os investigadores de serem cientistas. Eles eram pesquisadores cônscios e, ao mesmo tempo, ínscios do que significava a psicologia. Freud atraiu novamente a atenção para a psique e fez com que ela adentrasse na esfera da ciência de um modo muito mais criativo e honesto do que as ‘secreções dos materialistas’. Se isso tudo é verdade, a psicologia e a psicoterapia têm um grau de parentesco com a magia, e não é à toa que ainda hoje perdure um quê de sobrenatural em sua técnica. A tentação de ser um bruxo se equipara à de ser curado por um mago. A técnica psicanalítica é um terreno espinhoso. Sua principal ferramenta é o inconsciente que se inclina a compreender o inconsciente do paciente. O objetivo é o de dissipar qualquer resquício de intuição para, assim, receber os louros da ciência. A terapia analítica exige do analista ‘o fluxo de associações e de fantasias, assim como a indulgência para com o seu próprio inconsciente; e por outro lado, ele deve submeter a um escrutínio lógico e rigoroso as suas intervenções e as comunicações do paciente para, então, guiar-se exclusivamente pelos resultados vindos de seu esforço mental’. A atividade crítica antes citada é dispensável quando ocorre o que se chama de ‘perda do sistema’; ‘a falta de qualquer plano estipulado’ é algo recomendado, e é em razão disso que esse instrumento é ‘completamente inadequado para investigar os processos mentais inconscientes’. Tais formulações vão contra os propósitos da psicanálise, pois se reduzem a artimanhas do intelecto. O assunto principal, e não o método, da psicanálise é por si só irracional. A comparação entre a psicanálise e a técnica cirúrgica é recorrente. Mesmo que alguém domine completamente a ‘anatomia’ topográfica não será capaz de realizar uma cirurgia. Nem o cirurgião terá como operar no psiquismo sem ter um conhecimento prévio do que seja o seu instrumento. O talento não é algo que se ensine ou se transfira, mas o conhecimento sobre topografia sim. Em um curso sobre técnica psicanalítica, a ‘anatomia’ topográfica da psique pode e deve ser ensinada. Temos um ponto de vista dinâmico e outro econômico sobre a vida psíquica. Então, a técnica que se esforça para provocar mudanças dinâmicas e econômicas no paciente e precisa, consequentemente, portar em seu cabedal princípios dinâmicos e econômicos. No tocante a isso, o pensamento psicanalítico se articula por meio de critérios racionais e não tanto pela intuição. Encontramos na literatura psicanalítica várias discussões a respeito da técnica e percebemos que a maioria delas diverge radicalmente uma da outra, assim como as opiniões sobre os fatores que predispõe ou não a eficácia terapêutica difere muito entre si – como nos revelaram as contribuições vindas do Congresso de Marienbad. Isso, sob a minha perspectiva, não ocorre apenas pelo fato de muitos analistas se expressarem de formas distintas na prática, mas também, independente das diferenças de personalidade dos analistas, porque há incertezas em torno dos princípios que regem o método que chamamos de analítico, se assim ainda podemos considerá-lo. A situação destacada alude à questão de que a técnica psicanalítica não foi, em certo grau, suficientemente desenvolvida e, para remodelá-la, seria necessária uma teoria que fosse estritamente racional. Nesse artigo, tentamos facilitar esse desenvolvimento, tanto que levantamos tópicos que, constantemente, se referiam à prática. Notamos, por conseguinte, que a experiência é o que nos possibilita aplicar correções à técnica. Para se adquirir insights que levem aos nossos objetivos, será necessária uma visão sistemática do que estamos inclinados a examinar. Mesmo que, historicamente, a prática analítica não tenha sido originada de forma dedutiva da teoria analítica, hoje, com o progresso da metodologia, os alunos podem realizar deduções por conta própria. Franz Alexander comentou acertadamente que a maioria das propostas feitas para que se reformasse a técnica veio dos autores que se dedicaram à função heurística e polissêmica dos meios de salvação e dos mecanismos envolvidos no processo analítico. Quem sabe, em algum momento, poderemos discriminar o que é essencial do que simplesmente consideramos acidental; o meu palpite é que deveríamos começar com uma pesquisa que investigasse a natureza da terapia analítica. Então, seríamos capazes de analisar as formas com que se chega ao inconsciente e como os tornamos acessível, especialmente com interpretações do ponto de vista dinâmico e do econômico. As descobertas a respeito disso constituiriam as bases para a nossa exploração em relação à transferência e, também, apontariam respostas para as perguntas ainda nebulosas sobre a análise do ego e do id. A partir daí, discutiríamos o modo como o ‘trabalho se conduz’, tendo como referência a ‘atividade do analista’, ou seja, quais são as questões específicas que criam elos entre a realidade atual e a infância e que critérios são averiguados para se estabelecer prognósticos etc. E tudo poderia convergir em um trabalho que englobasse o tema da técnica psicanalítica e, finalmente, poderíamos apresentar, de forma versátil e crítica, o que aprendemos.