segunda-feira, 3 de setembro de 2012

As inovações técnicas de Paul Gray na psicanálise (A tradução é de minha autoria).

Psychoanalytic Quarterly 76: (1) 257-273 (2007) Ensaio crítico do livro Lawrence N. Levenson, M.D. Será que estamos a lidar com uma renovação da psicologia do ego? Nos últimos anos, os analistas têm explorado os paradigmas condizentes às nuances da relação bipessoal, fato que fez com que a psicologia do ego saísse um pouco de moda, ao menos foi o que ocorreu em alguns cantos do mundo psicanalítico. A revitalização do interesse pela psicologia do ego certamente encontrará inspiração nos trechos selecionados a partir do livro O Ego e a análise das defesas , 2ª edição, 2005, de Paul Gray. Dirigidos ao público contemporâneo, os escritos de Gray são lastreados por um estilo rigoroso e preciso e enunciam, de forma clara, às suas visões sobre a teoria e a aplicação da técnica psicanalítica. Poucos são os analistas que tiveram o apuro que ele teve ao tratar do percurso da teoria à técnica; em menor número estão os que conseguiram descrever e explicar a metodologia de sua abordagem de modo tão detalhado quanto Gray o fez. O autor tomou como ponto de partida a unidade da teoria estrutural e instintual e a elegeu como o melhor modelo para explicar a dinâmica psicanalítica da mente. Para se embasar, ele se valeu dos conceitos tradicionais, tais como: a neutralidade, a objetividade do analista, a relativa observação da autonomia do ego pelo paciente e a aliança racional que se forma entre o analista e o paciente. Seu aporte teórico e clínico se concentrou na “análise dos problemas emergentes advindos do encontro dos derivados instintuais com o conflito que força o ego a se voltar às gratificações inconscientes ao invés de tê-las pela via consciente” (p.90). O curioso é que tudo isso o colocaria, aos olhos de certos leitores contemporâneos, entre os que pertencem ao grupo dos anacrônicos, autoritários e obsoletos no panteão da escola psicanalítica. Na verdade, ao adotar o arcabouço teórico do modelo estrutural, Gray incitou a revisão das técnicas analíticas dominantes e afrontou os clichês mais empregados no campo da psicanálise. Em função da verve crítica direcionada às técnicas tradicionais, é uma surpresa que o seu polêmico e controverso trabalho, que veio à tona em um cenário de trinta anos atrás, ainda esteja em vigor e gere discussões. Ao longo da carreira acadêmica, Gray se referiu com frequência a uma defasagem na técnica analítica. E isto foi o que deu origem ao seu mais afamado ensaio, “O atraso no desenvolvimento na evolução da técnica psicanalítica do conflito neurótico” (1982) – que, ao ser publicado, fez com Gray fosse mesmerizado por todos no mundo analítico. Nele, o autor apontou, dentre outros, dois marcos da revolução: a primeira se deu quando Freud substituiu, em partes, a teoria topográfica pelo modelo estrutural, o que fez com que a técnica psicanalítica adquirisse novas perspectivas; a segunda, quando a interpretação do conteúdo inconsciente se voltou à análise dos mecanismos de defesa do ego contra as pulsões. Enquanto alguns analistas, inspirados na clássica monografia de Anna Freud sobre as defesas (1936), falavam levianamente da importância da análise das defesas e referiam-se aos preceitos técnicos da “análise da defesa a partir da pulsão”, Gray assinalou que nenhuma metodologia sólida havia sido elaborada para tornar a análise da defesa prioritária no trabalho analítico. O que ele demonstrou de modo convincente em seu artigo sobre o atraso no desenvolvimento, apesar de todo o falatório a respeito do padrão da análise das defesas, foi que, ao invés de analisar sistematicamente as defesas, se pudesse confiar na transferência baseada na autoridade do analista que influencia ou desvia o acesso ao material inconsciente do Id. A despeito de se ter aderido à teoria estrutural justamente pelo poder exortativo nela contido, a técnica analítica continua atada ao modelo topográfico cujo objetivo é o de contornar as defesas do paciente para tornar o inconsciente consciente. O esforço empreendido por Gray foi o de reformular a técnica analítica e convertê-la em um método eficaz para a investigação das defesas e suas respectivas manifestações. A psicologia do ego, um desdobramento do modelo estrutural, tem como tarefa essencial do tratamento se ater às respostas defensivas da parte inconsciente do ego frente aos conflitos que se opõem aos desejos neuróticos. Um dos focos principais de Gray ao escrever era o de corrigir as distorções inerentes ao método operacional que, ao invés de analisar de forma consistente, reforçava ainda mais as defesas dos pacientes. As ideias do autor evocaram em torno de si interesse e rechaço, porque propuseram novas balizes à abordagem até então existente: analisar as defesas o máximo possível. Em um de seus primeiros trabalhos publicados “A técnica psicanalítica e a capacidade do Ego de observar a atividade intrapsíquica” (1973), a intenção de Gray de reelaborar determinadas técnicas ficou evidente. A partir do que considerou como uma mudança fundamental na natureza da escuta do analista, “O Ego e análise da defesa” começou a ganhar forma. Os analistas foram encorajados a usar uma espécie de “terceiro ouvido” para captar as sutilezas do material inconsciente. O autor mencionou que, para que se percebam as defesas, seria preciso apelar para um tipo peculiar de escuta: sintonizada em uma frequência propícia à interpretação das legendas elípticas transmitidas pelo ego. Em vez de comparar a escuta à arte e elevá-la à categoria da intuição e da criatividade, Gray preferiu pensar o ofício do analista como algo mais artesanal – uma inclinação para ouvir de perto e com redobrada atenção (e não de modo flutuante) as ondas do conflito e da defesa. Aqui, ao propor uma modalidade diferente de escuta, o autor quase se converteu em um herege ao confrontar um dos princípios sagrados do relicário da técnica analítica. E, neste primeiro artigo, Gray foi ainda mais longe ao plasmar o que, depois, viria a ser a sua assinatura no cabedal da psicanálise, o estreitamento da perspectiva de escuta dos eventos psíquicos que vêm à tona durante a hora analítica. Tal ação incita o ego a se apropriar de um arsenal defensivo que impede que os conteúdos inconscientes sejam pilhados pela consciência. O foco interior permite ao analista acompanhar as pulsões e as defesas que surgem de imediato no tratamento e demonstra, com nitidez, os recursos de escapismo utilizados pela mente tumultuada do paciente. No instante em que os derivados da pulsão vêm à tona, o perigo, caudatário do conflito, se instala no ego e tende a acionar medidas defensivas automáticas para remover da superfície da consciência o que se deflagrou. É aí que a intervenção favorece o monitoramento dos conteúdos psíquicos do paciente e, também, a percepção do poder inerente à sugestão e à transferência no processo analítico. Ademais, a escuta no atendimento clínico serve para corroborar o foco analítico, colocando-o onde realmente deve estar, ou seja, no funcionamento mental do paciente e não tanto em seu jeito de viver fora do consultório. Gray notou de forma tenaz que, quando o tratamento se orienta ou migra para fora da situação analítica e tende a especular a vida do paciente (como regularmente acontece ao se empregar a técnica tradicional), a atenção dele se desloca para o seu modo de ser no cotidiano – e o resultado disso se traduz em defesas, principalmente nas que têm afinidade com o superego, por conservarem um elo com o comportamento, com a conduta e com as decisões que devem ou não ser feitas ao longo do dia, por exemplo, e é nessa diluição do foco que o analista perde a oportunidade de ter acesso às camadas mais profundas da mente. A projeção da vida fora do enquadre analítico representa uma divergência de temporalidades, que arranca do paciente a possibilidade de lidar com as angústias suscitadas pelo conflito imanente. Muitas questões técnicas que interessaram profundamente Gray e que estimularam as publicações no decorrer dos trinta anos seguintes, foram apresentados em seu primeiro artigo, tais como: a escuta das defesas em ação, o foco na mente e não tanto na vida, a análise da atividade do superego, o entendimento da agressão a partir do conflito e, por fim, a aposta e não a subestimação do comprometimento das funções maduras do ego do paciente em relação ao tratamento. Ele define a neurose com base nos padrões “habituais, inconscientes e antiquados” (p.65) delatados pelas defesas do ego e, também, considera que a qualidade da aliança estabelecida com o ego é vital para o êxito da analise. O atraso ou defasagem, referido na técnica de Gray, tem a ver com o uso da autoridade e da influência do analista para que as resistências sejam suprimidas a ponto de o material inconsciente eclodir na transferência. Mais do que forçar a mudança, Gray recomenda que o analista forme um vínculo racional com a parte saudável do ego em vista de estimular a investigação da dinâmica das defesas inconscientes e de favorecer a autonomia e a maturidade do paciente. No artigo “Em como ajudar os pacientes a observarem a sua própria atividade intrapsíquica”, Gray discutiu as técnicas específicas que levam os pacientes a treinar as habilidades de observação em vista de perceberem as resistências. Embasado na clássica contribuição de Sterba (1934) sobre a dissociação do ego no processo analítico, Gray se deu conta de que poderia se aliar a uma parte racional e vigilante do ego com a intenção de aprender e de investigar o modo pelo qual o paciente reage aos conflitos inconscientes. A grande vantagem de interceptar o conflito na superfície da consciência era a de dar provas imediatas à parte lógica do ego do paciente a respeito de seu funcionamento mental e de seu modo de resolver ou não o drama em questão. Deste modo, as capacidades cognitivas se tornariam participantes ativas no percurso analítico. Antes da difusão das ideias de Gray, a técnica tradicional, em contrapartida, dava primazia à interpretação do que ainda não era consciente ao paciente; isso colocava em xeque a transferência baseada na autoridade e menosprezava, mais do que promovia, a participação relativamente autônoma do analisando e as suas capacidades racionais de monitoramento do que ocorre no tratamento. A crença de que o paciente (mesmo o que esteja situado no ápice do espectro dos transtornos mentais, o de “horizontes estreitos”, para usar uma terminologia de Gray) possui maturidade e algum grau de autonomia em uma das partes do ego, é a pedra basilar de todos os postulados teóricos e técnicos de Gray. A partir desse pressuposto, ele desenvolveu uma metodologia que ajudava o paciente a exercitar as funções autônomas do ego com o objetivo de aprender e de observar a regressão e as mudanças psíquicas em resposta aos sentimentos irracionais de perigo oriundos da infância. Para englobar os aspectos intelectuais e maduros do ego do paciente, Gray recomenda que o analista faça intervenções claras e tente imprimir na voz um tom apropriado às palavras para que, assim, a curiosidade seja estimulada. O autor sentia que, idealmente, a análise seria um processo de aprendizado e que, por incluir a inteligência do paciente, não deveria ser confundida com meras tergiversações ou como uma ode ao intelecto, tanto que não abdicou de sua posição (apesar das severas críticas dirigidas à possibilidade de tornar o tratamento frio e racional demais). Gray enxerga no paciente o potencial racional e objetivo de suas funções autônomas do ego. São elas que permitem que a análise ocorra e se configure como um espaço de aprendizagem, que se dá mais pela via do ego do que pela do superego. Gray enfatizou a facilidade com que o superego tende a comandar o senso crítico e as capacidades de auto-observação do ego, e isso, com frequência, inibe os propósitos terapêuticos. Para minimizar a intrusão do superego na instância observadora do ego, ele alertou que o analista deve evitar o uso de palavras e de intervenções que possam evocá-lo e, para tanto, precisa manter viva a atitude julgadora e objetiva presente no ego. Por essa mesma razão é que Gray preferia que os analistas aderissem a uma modalidade da “regra fundamental” mais centrada na tarefa da psicanálise, diferente de uma associação livre que prima pela hegemonia do superego no tratamento. A figura do superego é proeminente no pensamento de Gray. No primeiro de seus dois grandes artigos que tratam dessa instância, “Sobre a técnica de análise do Superego – uma introdução” (1987), o autor apontou que os pacientes, comumente, projetam no analista as imagens, internalizadas na infância, que aludem à tentativa de eliminar os impulsos dolorosos e que vieram a constituir o superego. Tais imagens regressivas inspiram cautela e são precipitadas justamente para impedir que o analista realize o seu trabalho. A neutralidade, nesses casos, concede liberdade ao paciente para que manifeste os seus medos e se sinta encorajado a revelar-se, mesmo que para isso projete no analista as imagens do superego e se valha de defesas e distorções ao fazê-lo. As transferências superegoicas pertencem à alçada de Anna Freud (1936) e entram em uma categoria secundária, a da transferência defensiva. Nela, os objetos são investidos de libido em vista de instaurarem “a lei e a ordem” diante das pressões instintuais. Gray foi incisivo ao afirmar que a atenção deve ser canalizada nas transferências de defesa e não tanto nas do Id. Ele explicou que as transferências defensivas do superego carregam em si fantasias onipresentes que colocam o analista em um papel autoritário e judicante. São elas, portanto, que servem de base para que as atividades defensivas do ego se manifestem durante a sessão. Em outras palavras, uma vez que o analista é interpretado como um personagem autoritário e censor, o ambiente analítico se torna a um só tempo seguro e ameaçador para a autorrevelação do paciente. Uma das lacunas mais significativas presentes na técnica tradicional, segundo Gray, era o fato de que as transferências defensivas do superego foram relegadas ao esquecimento e encaradas, vez que outra, como efeitos circunstanciais do poder que o analista exercia sobre o paciente. Gray viu nas transferências do superego uma problemática a ser desenvolvida, algo que poderia colocar em xeque a análise, pois elas apresentavam à ação terapêutica uma espécie de avenida ou estrada, que, na visão do autor, era de difícil acesso, mas que poderia levar à exploração e à maturação das capacidades lógicas e objetivas do ego. A começar por Freud, a metodologia empregada pela maioria dos analistas consistia no uso da força autoritária, derivada das transferências do superego, para sobrepujar, ao invés de analisar, as resistências que barravam o acesso aos conteúdos reprimidos do Id. Os psicólogos do ego falavam que a análise das defesas era a essência do tratamento, mas não desenvolveram nenhum método para efetuá-la, e acabavam apenas se resguardando nas premissas da transferência baseada na autoridade. Aqui, fica nítida a dependência dos analistas em relação à autoridade derivada da transferência do superego. Mesmo com os avanços teóricos do modelo estrutural, a influência que a sugestão e a hipnose trazem à técnica psicanalítica continua grande e, ainda assim, a psicologia do ego carece de um aporte técnico que enfatize o ego e não tanto o superego. Gray compreendeu que a transferência derivada da autoridade poderia despistar as defesas e, efetivamente, trazer à consciência o conteúdo reprimido, e isso representava a ação terapêutica na psicanálise. De fato, ele asseverou que essa abordagem – que remonta as clássicas discussões de Strachey sobre a apropriação da imagem do analista como uma alternativa benigna de substituir ou amainar o sadismo do superego – foi bastante satisfatória para a maioria dos pacientes. Mas ele sentiu que, para alguns, os que conseguiam ter uma participação plena no processo analítico, essa modalidade de tratamento deixava a desejar. Com tais pacientes era preferível apostar no insight tanto cognitivo quanto experimental (empírico), pois eles possuíam uma maturidade do ego que favorecia o gerenciamento da vida instintiva e, logo, não se beneficiariam com a incorporação da autoridade vinda do analista – que, no caso, incrementaria ainda mais o poder do superego a ponto de limitar a possibilidade de o paciente se sentir mais autônomo. Gray percebeu que os pacientes, mesmo aqueles dotados de um ego fortalecido, sofriam a influência sugestiva do superego, e isso poderia ser usado em prol do conhecimento de sua realidade intrapsíquica. Assim, Gray recomendou que os analistas não explorassem as transferências do superego, por mais tentadoras que fossem, pois investigá-las seria um meio por si só de acioná-las no paciente. Para tanto, o analista deveria assumir uma postura o mais neutra possível em vista de ser alvo das projeções das transferências do superego. Em seu segundo artigo que trata do superego, “Sobre a transferência permissiva ou aprovadora das funções do superego: a análise das atividades do Superego no Ego, parte II” (1991), Gray chamou a atenção para o fato de que, além das conhecidas faculdades censoras e críticas, o superego também concentra em si registros afetivos, permissivos e recursos de proteção. Pela data da publicação, o artigo parece ter sido escrito em resposta à onda de entusiasmo nascida nos anos 80 em relação às metodologias emergentes, particularmente a da Psicologia do Self, de Kohut. Gray notou que a essência da psicanálise – a investigação da resistência – não se concentrava somente no que ele escreveu, acerca de uma década, sobre o “atraso do desenvolvimento”, mas também se estendia às metodologias psicanalíticas em geral. Gray compreendeu que essa mudança de paradigma converteria o analista em um objeto relativamente frágil que, na transferência materna, cederia às fantasias de amor e de aceitação incondicionais do paciente. Mais uma vez, a neutralidade do analista é distorcida, só que agora de uma forma mais elusiva e positiva, como se estivesse a serviço dos fins de autopreservação que motivam a projeção de imagens críticas do superego no analista. Quando o analista se alia a essas benevolentes distorções da transferência com o objetivo de despistar as defesas e convencer o paciente a aceitar previamente os derivados instintuais, isso se torna uma manobra estratégica – em essência, uma tentativa de chegar ao conflito através da pulsão que está em jogo. Consequentemente, os derivados instintuais são aceitos à consciência devido à “aprovação” inspirada pela autoridade do superego, e não porque o paciente adquiriu – ao longo da análise – uma compreensão madura e racional dos fatores que geraram as atividades defensivas em seu íntimo. A mudança se dá pela reincorporação de imagos de autoridade, que se tornaram mais benignas em função do tratamento, e não tanto pelo ganho de autonomia do ego frente às atividades inconscientes do superego. Para Gray, o objetivo da análise era o de “maximizar as soluções conscientes do ego frente aos conflitos com o mínimo de internalizações possíveis” (p.124). Para atingir esse fim, ele pressentiu que o analista deveria assumir uma postura moral neutra, como se fosse uma pessoa que quer elaborar uma ideia intelectualmente coesa e acertada sem se valer de “juízos ou conceitos pré-estabelecidos”. Assim, o analista não é o que sabe, mas sim o que indaga para saber. Antecipando-se às blasfêmias que o acusariam de incentivar os analistas a aderirem a uma atitude alheia e austera frente aos pacientes, Gray enfatizou como o analista haveria de ser a um só tempo tático e acolhedor, sem que isso comprometesse a neutralidade. “A narrativa de um sonho e a memória como resistência” (1992) causou um rebuliço na clínica, pois tornou evidente a necessidade da análise das defesas. Nesse artigo, Gray virou do avesso as noções mais apreciadas que tínhamos sobre o papel da memória e dos sonhos no tratamento. Por exemplo, o ato de recobrar as memórias e de contar os sonhos seria uma espécie de desvio espaço-temporal e tangenciaria as metas do tratamento. Conforme o autor, o foco nas memórias e nas associações poderia se caracterizar como um deslocamento defensivo, pois levaria o paciente para fora do espaço e do tempo da sessão. Ele explicou que seria mais vantajoso ajudar os pacientes a terem acesso às atividades inconscientes do ego no momento e na hora em que os derivados da pulsão começam a emergir da consciência. Ao se tratar, o paciente pode reavivar mentalmente as etapas complicadas de sua vida, e é esperado que, nessa situação, as defesas e os artifícios de escapismo sejam ativados para desvirtuá-lo do confronto para com as dificuldades. Gray propõe que os analistas auxiliem os pacientes a expandirem a percepção e a experiência das lembranças para conjugá-las no presente e revivê-las como se fossem eventos imediatos e não apenas fragmentos remotos. No clímax da situação analítica, especialmente quando a atmosfera está propícia para o resgate das memórias, o ego dispõe de todos os recursos mentais para que as defesas ofusquem a consciência do presente. Ele notou que a tendência dos analistas é a de arranjar um passaporte para o passado e não tanto a de concentrar a atenção para o que ainda permanece vivo no contexto atual do paciente. De forma similar, quando o paciente relata um sonho na sessão, ele eclipsa a realidade e se transporta para outras temporalidades. Há aí uma oscilação entre o passado e o presente. Se, por exemplo, o analista pudesse prever que a intenção do paciente em narrar o sonho seria a de “criar um parêntesis” no contexto analítico – quase como se delimitasse, por meio das defesas, uma zona de segurança que o poupasse de pensar –, outras perspectivas surgiriam e dariam uma nova conotação ao sonho e à sua função. O fato de o paciente voltar o olhar para o passado não fazia com que Gray encarasse essa ação somente como uma evasão do cenário intrapsíquico. Pelo contrário, a restituição das memórias, fora de uma estratégia defensiva, demonstra o progresso da análise, pois alude à aquisição da capacidade de reviver, de modo consciente e em outro papel, os derivados da pulsão (por exemplo, a conquista de uma maior tolerância aos impulsos agressivos possibilita que o paciente lembre que sentiu ódio e atacou aos pais da infância). A recuperação das memórias resulta do trabalho analítico, mas não pode ser entendida como uma resolução terapêutica em si. Na visão de Gray, o conteúdo genético é relevante para a ação terapêutica, porque apresenta o histórico das medidas defensivas que o paciente usou para lidar com certos derivados da pulsão. Como e por que o paciente se valeu de tais defesas para se sentir seguro, é o que está questão. Gray colocaria nos seguintes termos o seu interesse pelo conteúdo genético: ao invés de indagar “Como e por que você desejou destruir alguém quando criança?”, ele faria – “O que foi que fez com que você precisasse parar de saber que poderia odiar algumas pessoas a ponto de querer destruí-las, e como você lidou com isso quando era criança?” [p.125]. Para muitos analistas contemporâneos, o pensamento de Gray pode parecer anacrônico em relação aos aspectos da contratransferência na técnica analítica. Gray grifou a importância da razão, da observação e da “armazenagem de informações” nas funções do ego – não só para os pacientes, mas também para os analistas. Em vista de estimular essas funções maduras do ego, o analista deve ter em mente o que pontuar e o que transmitir ao paciente, sem que enfatize tanto o que sente durante a intervenção. Conforme Gray, para perscrutar o inconsciente, o analista deve aprimorar a escuta como se fosse dotado de um terceiro ouvido, capaz de apreender os derivados do Id e de buscar fontes de conhecimento que tivessem ressonância com o conflito, com as defesas e com a estética da visão de mundo do paciente. Gray considerou importante que o analista prestasse atenção em seus próprios conflitos e nas defesas contra as pulsões. Assim como o autor deu prioridade às transferências de defesa em relação às do Id, ele também manteve o foco na transferência de resistência e não tanto nas dos instintos. A contratransferência, nesse caso, seria uma espécie de contrarresistência. Na verdade, Gray atribuiu grande parte do atraso na técnica psicanalítica que estuda a transferência à contrarresistência. A partir daí, ele começou a pressionar os analistas a se darem conta das resistências que eram provocadas pelos pacientes ao longo do tratamento. Gray concedeu especial atenção ao impulso agressivo. O seu interesse pela agressão o acompanhou desde sempre, e fica claro que a análise dos conflitos relacionados à agressão tem muito a contribuir à teoria e à técnica. Tanto que foi esse o assunto do último artigo publicado no livro que levou o título “Sobre a sujeição: a análise dos conflitos derivados da pulsão agressiva” (2000). Por enfatizar a agressão, Gray se tornou alvo de muitas críticas e foi acusado de supervalorizar a agressividade e de ignorar, com isso, questões importantes a respeito da dinâmica do paciente. Alguns, até o tacharam de prosélito da teoria de Melanie Klein. Mas, a despeito de ter sido visto como o deturpador das perspectivas de escuta por priorizar a agressão, Gray sempre apostou que o tratamento psicanalítico deveria ajudar os pacientes a terem contato com as pulsões primárias, pois a assunção da consciência cognitiva e experimental das propensões agressivas poderia ser usada de forma sublimatória em suas vidas. O motivo dado por Gray para que a metodologia tradicional não avançasse nos estudos da agressividade culminava no fato de que os analistas não toleravam ser o alvo das pulsões sádico-destrutivas vindas de seus pacientes. A análise do superego se tornou proeminente no pensamento de Gray, porque aí se descortinou para o autor o significado da influência do superego sobre a origem das defesas que o ego usa contra as pulsões agressivas. Em seus escritos, ele constantemente tentou chamar a atenção para os aspectos fundamentais da técnica que aliviavam ou reforçavam as defesas contra a agressão; defesas que, ao serem analisadas, poderiam fazer com que o paciente se apoderasse plenamente de seus impulsos agressivos para usá-los de forma salutar e produtiva. Por exemplo, ele comentou que os analistas tinham a propensão de reduzir a intensidade do impulso agressivo com interpretações precoces, de teor genético, e, assim, desarmavam e desviavam de si toda a carga sádico-destrutiva da agressão. Era como se os analistas se esquivassem dos próprios impulsos agressivos ou não quisessem se sujeitar à transferência negativa, que poderia ou não contrastar com o potencial destrutivo que cada um carrega dentro de si. Enfim, havia, em ambas as partes, uma forte tendência a buscar e a fornecer ajuda através de meios que não envolvessem a agressão ou que a esterilizassem. Gray não se surpreendeu com a procura dos analistas e dos pacientes por técnicas interpessoais que empregavam métodos que, invariavelmente, anulavam ou ignoravam a efervescência das atividades instintuais agressivas. Para aqueles que o consideravam um aficionado por conflitos motivados pelas pulsões agressivas, Gray replicou que, a atenção voltada aos conflitos agressivos se deu porque foram eles que pavimentaram o caminho para que se acessassem as pulsões sexuais. O recrudescimento da capacidade de lidar com a agressão fazia com que os pacientes não se sentissem tão intimidados e frustrados ao se depararem com a falta de correspondência de suas paixões ou investidas românticas em relação aos objetos. O leitor não pode deixar de notar, entretanto, que a concepção de Gray sobre a análise do conflito intrapsíquico deixa em um plano privilegiado o ego. Ele não estava sendo pretensioso quando propôs alterar um dos grandes ditos de Freud sobre as metas da psicanálise que é a de “tornar consciente o inconsciente” (p.101). Não é que as pulsões não fossem importantes; desde que ativassem e evidenciassem as defesas inconscientes do ego, é claro que eram. Para Gray, a problemática não culminava nas pulsões, mas sim na parte irracional do ego que não avaliava a noção de perigo e ameaça vindas das pulsões, o que fazia com que as defesas inconscientes surgissem – defesas ultrapassadas e desnecessárias, caso a parte madura do ego do paciente conseguisse, de fato, administrar ou gerenciar conscientemente os impulsos instintuais. As pulsões tinham uma tendência natural ao “empuxo”, pois poderiam vir à superfície da consciência, à medida que os mecanismos inibitórios do ego fossem progressivamente analisados. Não seria adequado que o analista exercitasse a sua autoridade em vista de fazer interpretações do conteúdo inconsciente; em vez disso, ele poderia trabalhar nas fronteiras da superfície, confiante de que, com a análise constante das defesas, as pulsões encontrariam menos obstáculos para adentrarem nos umbrais da consciência. Trabalhar nas bordas da superfície, onde os impulsos conflituosos estavam em efervescência perante o ego ameaçado, não significava, na verdade, que o esforço era supérfluo ou que evitasse os mais intensos e repremidos afetos e pulsões. Ao contrário, Gray afirmou que os conflitos relacionados às pulsões se tornam mais vívidos quando colocados em xeque na experiência imediata e consciente do analisando no “agora”. O insight ou o discernimento, para o autor, representava ter posse de algo nascido no “agora”. Como as pulsões migraram para a consciência, o paciente teve a chance de por à prova as suas capacidades de ego para assimilar, de forma cognitiva e experimental, as pulsões. O leitor talvez tenha notado o tom categórico assumido por Gray nesse trecho, e isso resultou de sua crença de que as capacidades de ego de muitos pacientes foram subestimadas ao longo do tempo, tanto as que têm afinidade com a colaboração com o analista quanto as que se relacionam com o gerenciamento das pulsões e das defesas. Três anos depois da morte de Gray, foi publicada a segunda edição do livro O Ego e a Análise da Defesa, que compila as suas obras e inclui quatro artigos escritos após a primeira parte do livro. A maioria de seus artigos seminais destinados à técnica compõem os capítulos da primeira parte do livro; já na segunda parte, o leitor se depara com uma produção mais concisa, informal e de fácil leitura sobre o ensino e as diretrizes de supervisão. Os trabalhos sobre o ensino e a supervisão demonstram o maravilhoso sucesso de Gray em comunicar os pensamentos aos seus alunos, que era o mesmo modo que ele usava para se exprimir com os pacientes. É aí que percebemos a clareza e a inteligência que ele considerava essenciais para o vínculo entre analistas e pacientes. Embora todos os seus principais artigos tenham sido previamente publicados em jornais ou em revistas, esse compêndio de trabalhos oferece ao leitor uma indispensável oportunidade de apreciar e de fazer uma varredura completa na teoria e técnica de Gray. Ele foi um verdadeiro inovador que fez instigantes acréscimos à literatura e à técnica psicanalítica, mas, como parece ser o destino de muitos de nossos pensadores originais, o seu legado parece ter sido reduzido a fórmulas simplórias. No caso dele, o sumário de suas contribuições se daria na ênfase aos processos de atenção e às defensas erigidas durante a sessão analítica. Os leitores que o associarem primeiramente a essa metodologia poderão se surpreender, ao lerem o livro, com a descoberta de que o aspecto mencionado anteriormente é apenas uma fração do que ele avançou e reformulou na técnica psicanalítica do ego. Os que se empenham na leitura e estudaram minuciosamente O Ego e Análise da Defesa acharam irônico o conjunto de frequentes críticas referidas à obra de Gray. Ainda que tenha sido acusado de criar uma metodologia estreita e rígida, o que vemos é um analista dotado de grandes ambições voltadas à psicanálise – talvez ele almejasse um tratamento que, através da análise das resistências, se reduzisse a influência da sugestão e se elevasse à máxima potência a liberdade psíquica do paciente. Entre nós, tivemos alguém que deu a maior importância à análise do analista, sem que usasse para isso a autoridade, mas que foi tachado por muitos como um adepto à prática autoritária. E aqui se foi um analista que acreditou que, como Samuel Ritvo citou em seu excelente prefácio ao volume em questão, “quando as resistências são analisadas... intensos afetos podem ser plenamente experimentados e tolerados” (p. xvii) – mas, que apesar disso, recebeu críticas mordazes de que a sua técnica era intelectualizada, obsessiva e superficial. Independente do que o futuro reserve à psicologia do ego entre as psicologias da psicanálise, o trabalho de Paul Gray vicejará enquanto a psicanálise existir. As indagações respondidas pelos analistas, o léxico que empregam para explicar os fenômenos que ganham forma, as teorias que usam para corroborá-los, tudo isso continuará a mudar ao longo do tempo. No entanto, é difícil de imaginar uma teoria no campo da psicanálise que não enfoque o conceito de defesa ou que lute contra o espinhoso problema da influência da sugestão; e é por isso que é difícil de conceber uma psicanálise que não encontre um lugar de destaque para o trabalho pioneiro de Gray. O modelo conceitual e propedêutico de Gray é considerado por alguns leitores contemporâneos como pertencentes a outro tempo da história da psicanálise, mas eles ficariam surpresos e frustrados com o fato de que a maioria das convicções trazidas por esse autor tem sido explorada pelos analistas na atualidade. Por exemplo, a ênfase dada por Gray na agressão contrasta com os achados dos kleinianos contemporâneos, a atenção ao aqui-e-agora do processo analítico e ao papel da autoridade do analista encontram certa ressonância com as teorizações a respeito do vínculo e da relação terapêutica, e, por fim, o seu incentivo em promover a observação das funções do ego por parte do paciente claramente antecipou o interesse atual dado às capacidades mentais dos pacientes. As críticas direcionadas a Gray (como as que qualquer pensador inovador atrai para si – especialmente os que apontaram a necessidade de se revisar os padrões estabelecidos) têm levantado questões desafiadoras sobre o seu trabalho. Mas até mesmo os críticos ferrenhos, os que rejeitaram a visão que ele tinha sobre o processo psicanalítico, concordariam que seus escritos representam uma grande representação à literatura e á técnica psicanalíticas (Phillips, 2006). Embora Paul Gray tenha morrido em 2002, o livro imponente que ele nos deixou, O Ego e Análise das Defesas, há de perfurar os séculos. Referências Freud, A. (1936). The Ego and the Mechanisms of Defense. New York: Int. Univ. Press, 1983. Gray, P. (1973). Psychoanalytic technique and the ego's capacity for viewing intrapsychic activity. J. Amer. Psychoanal. Assn., 21: 474-494.[à]APA.021.0474A Gray, P. (1982). “Developmental lag” in the evolution of technique for psychoanalysis of neurotic conflict. J. Amer. Psychoanal. Assn., 30: 621-655.[à]APA.030.0621A Gray, P. (1986). On helping analysands observe intrapsychic activity. In Psychoanalysis: The Science of Mental Conflict: Essays in Honor of Charles Brenner, ed. A. D. Richards & M. S. Willick. Hillsdale, NJ: Analytic Press, pp. 245-262. Gray, P. (1987). On the technique of analysis of the superego—an introduction. Psychoanal. Q., 56: 130-154.[à]PAQ.056.0130A Gray, P. (1991). On transferred permissive or approving superego functions: the analysis of the ego's superego activities, part II. Psychoanal. Q., 60: 1-21.[à]PAQ.060.0001A - 272 - Gray, P. (1992). Memory as resistance, and the telling of a dream. J. Amer. Psychoanal. Assn., 40: 307-326.[à]APA.040.0307A Gray, P. (2000). On the receiving end: facilitating the analysis of conflicted drive derivatives of aggression. J. Amer. Psychoanal. Assn., 48: 219-236.[à]APA.048.0219A Phillips, S. H. (2006). Paul Gray's narrowing scope: a “developmental lag” in his theory and technique. J. Amer. Psychoanal. Assn., 54: 137-170.[à]APA.054.0137A Sterba, R. (1934). The fate of the ego in analytic therapy. Int. J. Psycho-Anal., 15: 117-126.[à]IJP.015.0117A

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